Fonte - ABOLA: "100 figuras do futebol português"
Arsénio Duarte
Natural do Barreiro — 16 de Outubro de 1925 a 11 de Fevereiro de 1986Junto à muralha, no Barreiro, estendia-se longo areal. Rapazio,
em euforia, dava pábulo aos seus sonhos. Atrás de uma bola.
Quase sempre de trapos. Que o cauchu era luxo proibido para
aqueles filhos de operários a quem tantas vezes faltava até a
côdea de pão. E uma sardinha se comia retalhada, a dois, a três,
a quatro. Um deles distinguia-se dos demais. Não por jogar
sempre com a melena no ar, ondulando ao sabor breve da brisa
que soprava do rio, mas pelo jeito com que mexia na trapeira.
Chamava-se Arsénio, mas todos o conheciam por... Pinga. Que
era o seu ídolo. Gostava mais de cinema que de bola, mas, sem
dinheiro, divertia-se jogando. Faziam-se torneios entre equipas sempre certas e os
prémios eram cromos dos ídolos de então: Espírito Santo, Peyroteo, Pinga...
O seu talento não podia continuar a desperdiçar-se naqueles campos improvisados de
areia suja, com pedrinhas servindo de balizas. Foi testar qualidades ao Barreirense.
Deslumbrou. Pouco tempo depois, na festa de despedida de Francisco Câmara, lançaramno
na equipa de honra, em desafio contra o Sporting. «Ainda não tinha 16 anos e quem
me marcou foi o Aníbal Paciência. Ao princípio estava um pouco enervado, mas, depois,
serenei e perdi o respeito ao valoroso jogador do Sporting.» Desse time não saiu mais.
Teve ainda tempo para sagrar-se campeão nacional da II Divisão. O Barreirense bateu a
Sanjoanense, por 6-1, nas Amoreiras. Os técnicos do Benfica ficaram de olho nele. Por
essa altura, Arsénio e Moreira, esse mesmo, o... Pai Natal, decidiram mostrar as suas
capacidades no Vitória de Setúbal. Por sua conta e risco. Só lá foram uma vez, porque
emissários benfiquistas foram ao Barreiro oferecer-lhes o sonho que tantas vezes lhes
aqueceu as ilusões.
Bastou um treino para que Janos Biri ficasse entusiasmado com Arsénio. De tal modo que
lhe pediram logo que assinasse a ficha, recebendo por isso seis contos, ficando,
igualmente, a ganhar 750 escudos por mês. Que era o ordenado dos craques...
Por essa altura era já aprendiz de serralheiro, na CUF. A oficial chegaria pouco depois. A
paixão do futebol, mais que o dinheiro que, então, ganhava, suavizava-lhe os sacrifícios.
Para poder apanhar o barco das 5.45 horas, Arsénio levantava-se três vezes por semana
madrugada alta. No cacilheiro encontrava-se com os demais futebolistas da terra que
vinham para Lisboa. Para se treinarem, com ele, no Benfica, Moreira, Corona, Félix,
Rogério Contreiras, Rogério Fontes e José Luís; a caminho do Campo Grande, Azevedo,
Armando Ferreira e Soeiro; para as Salésias, Quaresma e Salvador. Arsénio treinava-se e
regressava, rápido, ao Barreiro para trabalhar na serralharia da CUF. Foi assim anos a fio.
Mas nem isso lhe entenebreceu o ânimo ou ofuscou o brilho.
Bola-de-prata para se vingar de Otto...Miúdo de corpo, era um temível homem de área. No campo era o que era na vida: um ser
solidário, sempre mais preocupado com os outros que consigo mesmo. Por isso, no
Benfica todos o consideravam o mais apaixonante jogador de equipa que por lá havia.
Pode mesmo dizer-se que, marcando muitos golos — de uma vez, em vitória do Benfica
sobre o Estoril, por 7-0, apontou... seis e mais cinco marcou contra o F. C. Porto, na
estrondosa vitória por 8-2, no jogo de inauguração do Estádio da Antas —, muitos mais
lhe ficou a dever José Águas, de tal forma que nas suas Bolas de Prata havia muito de
Arsénio, que, sendo jogador fantástico, sempre cheio de vivacidade, ágil, com fôlego de
sete gatos, só não foi grande homem de Selecção por ter o lugar tapado por esse
geniozinho, que fazia nos campos quadros com o mesmo encanto que os de Malhoa na
tela, chamado Manuel Vasques. Mas foi ainda mais fantástico homem de... Taças.
Disputou seis finais da Taça de Portugal, todas ganhando: duas ao Sporting (dois golos),
uma ao Estoril (um golo), uma ao Atlético, uma à Académica (um golo) e uma ao F. C.
Porto (um golo). E foi graças a um golo seu que o Benfica abriu o caminho para a
conquista da Taça Latina.
Quando, em 1954, Otto Glória chegou ao Benfica, pediu-lhe para se dedicar em exclusivo
ao futebol. Disse-lhe que não. Na época seguinte foi despedido. Por querer continuar a ser
jogador-trabalhador ingressou na Cuf, com tempo ainda para ganhar uma Bola de Prata.
Travaços e Vasques, que, nessa temporada de 1957/58, se sagraram, pela última vez,
campeões nacionais de futebol, logo após a festa leonina correram à estação de correios
dos Restauradores para enviarem para o Barreiro um telegrama carregado de
sentimentalismo, que dizia mais ou menos assim: «Parabéns dos velhinhos como tu, que
ainda são capazes de fazer coisas tão bonitas...»
A magia de um golo...
Para os benfiquistas, a Taça Latina disputada em 1950, no Estádio
Nacional, era sonho quente. O ataque de anginas que varreu a
equipa da Lázio facilitou a chegada à final. Contra o Bordéus. No
primeiro jogo, empate a três. Na finalíssima os franceses depressa
chegaram à vantagem. Estavam já quase vazias as bancadas
quando Arsénio, com um golo espectacular, a 15 segundos do
final, empatou.Renasceu a magia da esperança. Os gritos
«Benfica! Benfica! Benfica!» ecoaram fundo, num espectáculo
impressionante. Mais meia hora e golos nada. Outro
prolongamento logo de seguida. Havia jogadores que já se
arrastavam, desfigurados pelo esforço, aos torcilhões, alimentados apenas por uma réstia
de esperança. Francisco Moreira, o Pai Natal, que nesse jogo assumira estatuto de capitão
por Francisco Ferreira, doente, não querer jogar para não prejudicar a equipa, reiterava
palavras de encorajamento sempre que sentia algum colega a desfalecer: «Regressei à
força dos 25 anos para ganhar a Taça Latina. Lutemos até cairmos para o lado, mortos
pelo cansaço»...
De súbito, quase ao cair do pano, Moreira rematou, confusão na baliza dos franceses, não
se sabe ainda hoje se Julinho terá ou não tocado na bola, o que se sabe é que aquele golo
valeu a Taça Latina. Estalou a euforia. Quando o árbitro apitou, Corona desmaiou no
campo. Foi levado para os balneários de charola. Os colegas despiram-no, descalçaramno,
puseram-no no duche e nada: a insensibilidade manteve-se, oferecendo uma imagem
bizarra, debaixo do chuveiro, com a água tépida a salpicar-lhe o corpo ainda desfalecido.
Quando deu cobro de si só foi capaz de dizer que soubera, finalmente, o que era o
Paraíso. Os outros benfiquistas também. Tudo por causa daquele golo de Arsénio a 15
segundos do fim.