22362 - Tópico: (actualizado) Memorial Benfica, Glórias  (Lida 156311 vezes)

ednilson

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  • 24 de Fevereiro de 2008, 16:03
Humberto M. de Jesus Coelho. Porto. 20 de Abril de 1950. Defesa.
Épocas no Benfica: 14 (68/75 e 77/84). Jogos: 496. Golos: 76. Títulos: 8 (Campeonato Nacional), 5 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros Clubes: Ramaldense, Paris Saint-Germain e Las Vegas Quicksilver. Internacionalizações: 64.




Plantel 1970/1971

Quem joga ao lado de Humberto Coelho? Esta bem poderá ter sido uma das questões mais vezes colocadas pelos adeptos do Benfica nas tertúlias da bola. Titular absoluto deste os 18 anos de idade, no eixo da defensiva, ao longo de tantas épocas, contracenou, sucessivamente, com Raul, Zeca, Humberto Fernandes, Coluna, Messias, Rui Rodrigues, Barros, António Bastos Lopes, Eurico, Laranjeira, Alhinho, Alberto Bastos Lopes e Frederico. E outros mais na Selecção Nacional. Humberto constituiu-se uma espécie de imperador. Com direitos adquiridos, pois de forma tão preexcelente cumpria os seus deveres. Humberto era a chave da fortaleza quase sempre inexpugnável. Tipo guarda-mor do templo vermelho. O chefe da tribo. O que gritava revolta ou à serenidade apelava.

Nasceu em Cedofeita, no Porto, provavelmente com genes de líder. O pai era operário metalúrgico, daquela classe que tem como divisa “nada nem ninguém nos vergará”. Um lema que terá inculcado, desde a tenra idade, no filho Humberto, apesar da apetência deste por outras artes.

Só que o jovem tripeiro viveu uma infância pouco pacifica com a causa da bola. Era numa espécie de clandestinidade que exercitava o seu dom favorito. Os pais, o irmão mais velho até, amiúde o repreendiam, que futebol não era futuro, antes os livros, não fosse Humberto passar privações que a família bem conhecia. Da Escola de São João passou à Industrial, com aproveitamento satisfatório, mas sempre de ideia fixa no jogo da bola. Rapagão, José Águas era a sua referência primacial. Sonhava imitá-lo e aos golos de cabeça, numa altura em que o seu porte atlético não era nada desdenhável. Pela Mocidade Portuguesa, ainda praticou, na escola, basquetebol e voleibol, mas o apetite era outro. Tão voraz que, vencendo barreiras, daquelas quase intransponíveis, acabou por se fixar no Arsenal do Bessa, derivando de avançado para defesa-central.



Exibiu Humberto credenciais e, com apenas 13 anos, já o Leixões suspirava por aquele miúdo alto, mais alto que os demais, irrepreensível no jogo aéreo. Debalde, pois a voz firme da mãe com sério olhar à mistura, puseram-no em sentido, na prossecução do campeonato dos livros.

Algum tempo depois, já com endereço numa artéria da freguesia de Ramalde, finalmente o pai deu anuência e lá entrou a ficha de inscrição como juvenil do Ramaldense. Descoberto pelo FC Porto, nas Antas treinou, deixou a melhor das impressões, mas os dirigentes portistas acharam uma exorbitância a verba pedida pela transferência.

Agradeceu o Benfica, naquele ano mágico de 1966. Por apenas 40 contos, mais 25 para Humberto, com o compromisso de honra, selado à maneira, de melhorar a oferta no caso dele se impor no grémio da Luz. Mais parecia premonição. Coube a Ângelo Martins, treinador dos juniores, durante duas temporadas, a polidura executar. Com tanto sucesso que Humberto Coelho, pupilo modelo, pegou de estaca, embrionário estava o grande jogador, para um Benfica órfão de Félix ou Germano, que o mesmo é escrever de um central fora-de-série.

Na pré-época de 68, Otto Glória não hesitou e o facto mais relevante da digressão ao Brasil foi a entrada do capitão dos juniores na convocatória. Lá chegaram mais 30 contos a Ramalde, que no Benfica as escrituras eram para cumprir, cabendo cinco notas de mil mensalmente ao assalariado e ex-sonhador de utopias. Humberto Manuel de Jesus Coelho, de seu nome completo.



No primeiro jogo em Belém de Pará não actuou, mas no segundo marcou presença. E que presença! Frente ao Santos, com Pelé e tudo. Incumbido de marcar o génio foi. Aos 18 anos, logo haveria de caber a mais invejada das empreitadas. Saiu-se a contento, ainda que a vencer por 3-1, o Benfica viesse a consentir a igualdade. O medo estava exorcizado. Irreversivelmente…

Não mais perdeu Humberto a titularidade. Na abertura da temporada 68/69, era vê-lo a ganhar no palmómetro da Luz, num triunfo incontestável, de 4-1, frente ao Belenenses. Seguiram-se mais jogos, muitos jogos, adiada estava apenas a veia goleadora do defesa mais concretizador de toda a história do futebol luso. Foi com Hagan ao leme, no começo dos anos 70, que Humberto começou a comunicar no idioma do golo. O britânico era mesmo fleumático, não desmerecia a origem, avesso se mostrava ás substituições, por mais que a exigente plateia da Luz, de quando em vez, lhe propinasse umas ruidosas assobiadelas. E quando corria para o torto, a ordem era Humberto jogar na área, pelo lado direito das coisas, pelo golo, algumas vezes decisivo.

Haverá algum benfiquista dos 40 para cima, que não recorde o dramático jogo da Luz, em Novembro, dia de Verão de São Martinho, frente ao FC Porto, corria a época de 72/73, quando para espanto geral, a 15 minutos do fim da contenda, 0-2 era o resultado? Num quarto de hora apenas, explodiu o vulcão. Primeiro Vítor Baptista. Depois, Jaime Graça. No último minuto, Humberto, em postura de ponta-de-lança, haveria de sentenciar, obtendo o 3-2, num assomo inusitado de garra. De resto, em 16 temporadas, duas das quais ao serviço do Paris S. Germain, marcou 68 golos, o que lhe confere o 25º lugar entre os defesas mais concretizadores da história do futebol mundial.



Ganhador compulsivo, Humberto foi cimentando prestigio por todo lado onde o futebol falava mais alto. Sem surpresa foi convocado para a Selecção da Europa, em 19 de Agosto de 1981, na comemoração do 80º aniversário da Federação Checoslovaca de Futebol. Orientado pelo germânico Jupp Derwall, actuou ao lado de executantes do jaez de Blokhin, Krankl, Kaltz ou Pezzey. Um ano mais tarde, a consagração foi gigantesca. No Giants Stadium de Nova Iorque, perante 120 mil espectadores, Humberto actuou no meio de uma constelação de estrelas, em gala a favor das crianças da UNICEF. Para que conste, a Europa alinhou assim: Zoff (Itália); Krol (Holanda); Humberto Coelho (Portugal), Pezzey (Áustria) e Stojkovic (Jugoslávia); Beckenbauer (Alemanha), Antognoni (Itália) e Tardelli (Itália); Boniek (Polónia), Rossi (Itália) e Blokhin (União Soviética). Estávamos nos rescaldo do Mundial de Espanha e o antagonista foi o resto do Mundo, com N’Komo, Romeno, Júnior, Zico, Sócrates e Hugo Sanchez, entre outros. À chamada não faltaram também Schumacher (Alemanha), Keegan (Inglaterra), Neeskens (Holanda) e Platini (França). A Europa venceu por 3-2. Obrigado foi Humberto, taça nas mãos, a dar uma volta de honra ao estádio, colocando em clímax largas centenas, talvez milhares, de emigrantes portugueses.

A ele faltou, todavia, um titulo europeu. Esteve perto, bem perto, naquela final da Taça UEFA, com o Anderlecht, no final do ano de 83. Com menos resignação ainda se aceita o facto de jamais ter participado na fase final de um Europeu ou Mundial. Ele que fez parte de uma geração de futebolistas, como Eusébio, Simões, Jaime Graça, Nené, Vítor Baptista, Artur Jorge, Jordão, Vítor Martins, Toni, Alves, Rui Rodrigues, Artur, Carlos Manuel, Shéu, Bento, Pietra, Veloso, Álvaro, Diamantino ou Chalana, para nos socorrermos apenas, porventura com algum sectarismo, dos arquivos benfiquistas.



A ânsia de Humberto, já trintão, selar a ouro uma carreira magnifica, talvez tenha precipitado o adeus definitivo. Havia-se lesionado num treino da Selecção, antes de uma partida com a Finlândia, em Setembro de 83. Desesperado, tentou a recuperação, sempre com o Europeu de França na linha do horizonte, forçou em demasia, porque o tempo lhe parecia fugir. E fugiu mesmo.

À ribalta regressou, anos mais tarde, como seleccionador nacional. Então sim, pisou o palco que a vida de jogador, de forma impiedosa, lhe havia negado. A melhor das compensações não se fez esperar. Porque Deus é bom, dirão os crentes. Garbosamente, comemorou o terceiro lugar no Euro 2000. Justiça se fez.
« Última modificação: 24 de Fevereiro de 2008, 16:10 por ednilson »

VitorPaneira7

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  • 25 de Fevereiro de 2008, 18:24
Quando falei no meu pai se viu o 7-1 ao Sporting ele disse que não viu o jogo porque estava a trabalhar como fiscal para a ssociação de futebol de Lisboa num jogo distrital, só quando chegou é que soube. Depois virou-se para mim e disse  "mas quem venceu o campeoanto e a taça fomos nós canta-se de Galo é no fim " e disse-me ainda  o Benfica antigamente ia buscar Matines,Barros, Oliveiras, Nunes, Reinaldos e outras pedras com dois olhos mas corriam e davam tudo por aquela camisola e davam o espaço para os craques fazerem o que deviam, jogar com classe pois sabiam o que era o Benfica e havia lá dentro quem lhes ensinava e acrecentou que o Porto a partir do momento que deixou de pensar em vedetas de tipo cubillas e interessou-se pelos Romeus, Octávios, Rodolfos (um caceteiro que faria corar o Paulinho Santos), Andrés  e outras pedras que corriam e esfolavam -se  todos(esfolavam outros no processo) para jogadores como Madjer e Futre ou António Oliveira ou Gomes brilharem tornou-se campeão. ele diz-me que o porto roubou muito especialmente nas duas épocas de Mortimore (85-86 e 77-78) mas começou a ganhar com a politica do Benfica de  manter os jogadores e  misturar pedreiros com artesãos e ganhou também  campeonatos com justiça. E concordo porque antigamente havia jogadores que sabiam os seus lugares que uns deviam ser os pedreiros e outros artesãos e hoje em dia nem há pedreiros temos um artesão e temos vários ajudantes de pedreiro que só sabem levar baldes de cimento e já tem a mania que são artesões e querem lá saber de serem pedreiros.

Uma estrutura forte e com ex- jogadores que conheçam esta politica são necessários.

Ps ja pus isto no topico do camacho mas acho melhor estar aqui.

ednilson

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  • 25 de Fevereiro de 2008, 21:42
Jacinto do Carmo Marques. Cova da Piedade. 1 de Novembro de 1921. Defesa.
Épocas no Benfica: 13 (43/53 e 54/57). Jogos: 251. Títulos: 1 (Taça Latina), 4 (Campeonato Nacional) e 6 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Piedense, Aldegalense e Carcavelinhos.




Equipa 1945/1946

Prenúncio do defesa moderno, na melhor expressão de elegância. Jacinto Marques pontuou o sector recuado do Benfica durante 14 temporadas. De Félix contemporâneo, razão única para não ter atingido maior serventia. Em cada intervenção, parecia proclamar suavidade. No seu modo limpo, agradável, delicado. Viu a luz do dia na Cova da Piedade, engrossando o magote de jogadores oriundos da margem esquerda do Tejo, que no Benfica engenho doutrinaram. Antes de percorrer o alto edifício, ao rés-do-chão se fez, também à cave, ele que deambulou pelo futebol regional.

Em 43/44, finalmente, o consórcio. Golfadas de talento e aberto estava o livro vermelho na primeira lauda. A do rol de artistas. Da dimensão de Francisco Ferreira, Albino, Joaquim Teixeira, Julinho, Arsénio, Espírito Santo ou Valadas. Prolongada foi a adaptação, com exigências várias e sacrifícios múltiplos. Dois anos durou, escassas aparições teve, mas sem resquícios de incompetência.

Na temporada de 45/46, Jacinto afirmava-se. Por coincidência, e só por isso, no único ano em que o Belenenses deu à costa com o precioso atestado do titulo nacional. Eram os tempos das célebres Torres de Belém, também dos inefáveis e mais célebres ainda Violinos do Sporting. Tudo combinado, o Benfica travessia competitiva no deserto fazia. Até que chegou o ano das surpresas. No dealbar da década de 50. Campeonato deu, mais Taça Latina. Com Ted Smith no comando das tropas. Jacinto esteve no topo da lista dos jogadores mais utilizados. “Foi o ponto cimeiro da minha carreira”, deixou escapar, mais tarde, à guisa de testamento.

Regressou cruelmente o Sporting à hegemonia da bola lusitana. Foi o tetra do descontentamento benfiquista. Sempre a porfiar, a morder os calcanhares, mas incapaz de pôr em silêncio aquele sinfonia verde. Com Jacinto na penumbra.

“Por que é que ele não joga? Qual despedida qual quê!”, valeu-lhe a sabedoria, a intuição de Otto Glória.

Logo na época de 54/55, com Jacinto outra vez líder de participações, ano foi de dobradinha, com Campeonato e Taça em tons rubros. Era a primeira vez de Mário Coluna: Monstro Sagrado não era ainda, mas a dupla vitória trazia subjacente o agradável odor de grandes façanhas internacionais.

Jacinto não teve tempo para as vitórias na Europa. Renunciou em 1957. No limite de idade. Com um mostruário que exibe quatro Campeonatos, seis Taças de Portugal e uma Taça Latina. E de certo o inicio do trilho para o melhor Benfica de sempre.
« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2008, 21:48 por ednilson »

Redady

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  • 26 de Fevereiro de 2008, 00:27
Gramo mesmo de ti Ednilson, és exemplar! :amigo:

ednilson

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  • 26 de Fevereiro de 2008, 21:56
Rui Manuel Trindade Jordão. Benguela, Angola. 9 de Agosto de 1952. Avançado.
Épocas no Benfica: 5 (71/76). Jogos: 128. Golos: 79. Títulos: 4 (Campeonato Nacional) e 1 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Saragoça, Sporting e Vitória de Setúbal. Internacionalizações: 43.




Equipa 1975/1976

O apodo de Gazela Negra até ficava bem a Jordão. Ágil e felino, foi mais uma pérola descoberta na inesgotável África, pelo Benfica, nos prodigiosos anos 60. Espírito Santo, José Águas, Costa Pereira e Santana eram já saudade; Coluna e Eusébio aproximavam-se do final da carreira; Nené, Shéu e Jordão seriam os herdeiros do aroma africano.

Rui Manuel Trindade Jordão começou, aos 16 anos, no Sporting de Benguela, actuando indiferentemente em qualquer posição do meio-campo para a frente. Quando uma embaixada de Alvalade se deslocou a Angola, lançaram-lhe o canto da sereia, mas de forma incipiente. Algum tempo mais tarde, o Benfica garantiu a transferência, a troco de uma ninharia, 30 contos apenas. A vantagem de uma operação inopinada.

No Verão de 1970, iniciou-se na Luz, no escalão júnior, sob o comando técnico de Ângelo Martins, antigo bicampeão europeu. Chegou rotulado de médio ofensivo, mas logo passou a extremo ou a avançado-centro. Assim seria também na equipa nacional da mesma categoria etária. Já como sénior, fez o tirocínio nas reservas, numa altura em que o Benfica dispunha de muitos jogadores para a frente de ataque, casos de Eusébio, Artur Jorge, Nené, Torres, Raul Águas, Simões, Praia e Diamantino.

Depois de ter apontado sete (!) golos num jogo da segunda categoria, estreou-se na formação de honra, a 5 de Setembro de 1971, frente ao Sporting, numa vitória, por 2-1, com um golo marcado, em despique a contar para a Taça de Honra de Lisboa. Ainda com Jimmy Hagan, Jordão cativou-se no lote principal. A ele se ficaram a dever alguns dos momentos mais sedutores dos concertos da banda vermelha. Também por isso, nele se apostou como sucessor do grande Eusébio.

Nas cinco temporadas ao serviço do Benfica, conquistou quatro Nacionais, uma Taça e três Taças Honra. Participou em 182 jogos, facturando 113 golos, 63 dos quais para o Campeonato. De resto, a expressão do seu engodo pela baliza, melhor marcador seria na época 75/76, já na era pós-Eusébio. Uma dúzia de vezes vestiu as cores nacionais, enquanto militante da causa benfiquista.

Apesar de ter as finanças fragilizadas, o clube rejeitou propostas do Bayern, do Paris Saint-Germain, do Estrasburgo, do Bétis ou do Racing White. Nessa altura, a Europa chamava por Jordão. Acabou por ser o Saragoça a garantir o concurso do jogador, despendendo para o efeito nove mil contos.

Não se adaptou no país de Gento e Amâncio, a liga espanhola foi para ele uma frustração. Procurou regressar ao Benfica e tudo parecia conjugar-se nesse sentido. Acabou no rival Sporting, deixando o benfiquistas vermelhos… de vergonha. A negligência custaria preço elevado. Jordão continuou a deslumbrar. Só que com a camisola errada.
« Última modificação: 27 de Fevereiro de 2008, 22:18 por ednilson »

Amsterdam

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Ednilson


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VitorPaneira7

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  • 27 de Fevereiro de 2008, 16:44
Há para aí uns fideis e uns ches   ;D de fazer inveja aos originais.

ednilson

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  • 27 de Fevereiro de 2008, 22:14
Jaime da Silva Graça. Setúbal. 10 de Janeiro de 1942. Médio.
Épocas no Benfica: 9 (66/75). Jogos: 229. Golos: 29. Títulos: 7 (Campeonato Nacional) e 3 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Vitória de Setúbal. Internacionalizações: 36.




Equipa 1973/1974

Ao mundo veio Jaime Graça, quando a humanidade assistia, com uma estranha sensação de impotência, à mais hedionda das guerras. Quinze dias depois, por feliz coincidência, a luz do dia haveria também de conhecer Eusébio, futuro companheiro de belas façanhas. Um e outro nasceriam no ano vermelho de 1942, já que o Benfica, de Martins, Albino, Gaspar, Valadas e Francisco Ferreira, baldas não deu nesse Campeonato. Órfão de pai, era palmo e meio ainda, a vocação para o mundo da bola cedo nele despontaria. Mais rapazola, participou em incontáveis torneios, representando colectividades populares da cidade de Setúbal, como o Estrela do Sado, o Independente, o Beira Mar e o Nacional. Nessa altura, projectava seguir as pisadas do irmão mais velho, Emídio Graça, que a internacional chegou e para Sevilha se transferiu, a troco de mil contos, no ano de 1958, quando Humberto Delgado fez tremer os alicerces do regime ditatorial.

Convidado a ingressar no Vitória, era já o Catalunha, nas rodas de amigos, que nele viam uns tantos atavios, imitações muito próximas dos melhores nacos de bola produzidos pelos então jogadores do Barcelona. Agradou no primeiro treino que fez no Vitória de Setúbal, mas logo sentiu o ascendente do irmão Emídio, sabedor da poda. Porque não fazia sentido tão cedo ficar preso a um clube, Jaime Graça acabou por se fixar no Palmelense, de pronto vencendo o Distrital de juniores.

De férias em Sevilha, encantou os espanhóis, mas de novo Emídio se impôs. Alguém teria de fazer companhia à mãe, modista era. Foi o que fez Jaime Graça, electricista de profissão, na Tropical. De emprego mudaria, porque o mestre não o dispensava mais cedo, a tempo de ir aos treinos. Foi para Junta Autónoma dos Portos de Setúbal, finalmente a troco de um contrato com o Vitória de Setúbal. Pelos sadinos, aos 20 anos, jogou a final da Taça, frente ao Benfica, com derrota por 3-0. Mas no ano mágico de 66, os mesmos contendores desforraram-se, desta feita com triunfo verde e branco, por 3-1, mais o golo de Jaime Graça.

Convocado para os Magriços, em terras de Sua Majestade, a majestática noticia: era jogador do Benfica! Centrocampista com pés do mais fino quilate, tinha o dom de fazer gingar todo o colectivo. Ademais, excedia-se, dava constantes safanões ao jogo e, por contradição, naquele ar de quem parecia pedir desculpa por ter sido artista eleito para a mais apetecida arena.



Três épocas, três títulos. Tudo parecia fácil na defesa da águia. Vingava o modelo do Inglaterra 66, de tão avermelhado do meio-campo para a frente. Com Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões, Jaime Graça terá composto o mais fecundo sexteto que a memória regista. Perdido o Nacional de 69/70 (era aquela maldição que atormentava o Benfica em ano de Mundial), nova série de três triunfos consecutivos. Outro ainda, em 74/75, para um total de sete em nove épocas apenas. Mais três Taças de Portugal e 24 internacionalizações, enquanto nos quadros da Luz.

Sobrou-lhe sempre o desgosto de não ter sido campeão da Europa. Esteve perto. Quase acreditou na maldição de Guttmann, segundo a qual, depois de 61/62, “nem nos próximos cem anos, o Benfica conquista o titulo europeu”. Ou na outra maldição, a do sempre inóspito Wembley, onde o clube sucumbiu na final frente ao Manchester United e a Selecção com a congénere inglesa. Naquele jogo, já na segunda parte, Jaime Graça apontou o golo probatório do inconformismo benfiquista. Mas no prolongamento, deu-se a derrocada. Ganhou o Manchester United, por 4-1. Sonho findo.



Sete vidas tem o gato, diz-se. Jaime Graça, pelo menos três. Ele que se vangloriava, já lá vão 30 anos, de apenas 20 minutos gastar, da casa de Setúbal à Luz. No inicio do ano de 72, ao volante de BMW, acidente grave sofreu, a 170 km/h acelerava, nas vésperas de um Benfica-Sporting. Também a morte conseguiu driblar, fez uma operação plástica, um mês depois voltaria à competição.

Muito mais trágico ainda, o episódio da morte de Luciano. Foi quando se deu, em 66, um curto-circuito, numa segunda-feira, dia de recuperação, com banhos e massagens, regressava a equipa de São João da Madeira. Não foi a tempo de salvar Luciano, mas utilizando os seus conhecimentos de electricidade, conseguiu forças para saltar da piscina, onde estavam Eusébio e Malta da Silva, para, no momento certo, desligar o quadro eléctrico. Também por isso, o Benfica continuou a exibir, sedutoramente, Eusébio ao Mundo.

Amsterdam

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  • 28 de Fevereiro de 2008, 00:24
Há para aí uns fideis e uns ches   ;D de fazer inveja aos originais.

Eram os Homens do Benfica..... :slb2:

pcssousa

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  • 28 de Fevereiro de 2008, 08:55
Não sei porquê, mas incomoda-me um pouco ver alí o Jordão... isto claro, sem por causa a qualidade do atleta...

VitorPaneira7

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  • 28 de Fevereiro de 2008, 16:02
Não sei porquê, mas incomoda-me um pouco ver alí o Jordão... isto claro, sem por causa a qualidade do atleta...
sempre o vi como figura do Sporting até que aos 12 anos o meu pai disse-me que jogou na Benfica e foi um dos melhores avançados que viu jogar.

ednilson

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  • 28 de Fevereiro de 2008, 22:13
João António F. Resende Alves. Albergaria-a-Velha. 5 de Dezembro de 1952. Médio.
Épocas no Benfica: 4 (78/79 e 80/83). Jogos: 141. Golos: 33. Títulos: 2 (Campeonato Nacional), 2 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros clubes: Varzim, Montijo, Boavista, Salamanca e Paris Saint-Germain. Internacionalizações: 36.




Equipa 1980/1981

As luvas pretas eram a imagem de marca de João Alves. Por código genético, futebolista se fez. O avô, Carlos Alves, havia sido um dos melhores jogadores portugueses, depois da I Guerra Mundial, na defesa das cores do Carcavelinhos, após passagem também pelo FC Porto e pelo Académico da capital nortenha. Um dia, nas véspera de medir forças com o Benfica, os jogadores do Carcavelinhos decidiram concentrar-se, arcando as despesas, numa modesta pensão, de frequência no máximo pequeno-burguesa. Foi quando uma miúda, no atrevimento dos seus 12 anos, se abeirou de Carlos Alves e lhe pediu para, no dia seguinte, jogar com luvas, que amuleto seriam. Perante o insólito, o já reputado defesa disse-lhe que o jogo era a doer, não dava para calçar as luvas negras, mas sempre as levou consigo, de tão insistente a rapariga. Ao intervalo, o Benfica tinha já vantagem materializada. Na segunda parte, num alarde de superstição, enfiou as luvas e o Carcavelinhos… ganhou. Assim foi pela vida fora. Assim foi, também, o neto João. Sempre com luvas pretas.

Na Sanjoanense, despontou. Cedo o FC Porto avançaria com a cantada. Só que o Benfica, já alertado, mandou avançar Fernando Cabrita para  São João da Madeira, com o fito de proceder à assinatura do contrato. Nada mais fácil. Benfiquista obstinado, João Alves feérico virou. Partiu com o avô para Lisboa, onde os pais já se encontravam.



No escalão júnior, deu mostras de todo o seu repica-ponto. O jogo girava à sua volta. Pressentia, executava e até concluía. Era daqueles que acabavam de pensar quando os outros começavam a fazê-lo. Na passagem para sénior, João Alves foi cedido ao Varzim, tão gordo era o plantel da Luz. Na Póvoa, exibiu reportório. Jimmy Hagan integrou-o no elenco a abertura da temporada seguinte. Só que no preito a Santana, velha glória da saga europeia, em Freamunde, trica houve o prestigiado António Simões, deitando tudo a perder, ao que parece por causa das luvas pretas. Vingou a posição do Magriço e figura lídima da casa benfiquista. João Alves saiu para o Montijo, pela módica quantia de 600 contos, cifra que o Benfica tinha pago a fim de o jogador não ser mobilizado para a Guiné, ao serviço da Nação, como na altura mandavam dizer os cânones do regime.

Um ano mais tarde, o Boavista abriu os cordões à bolsa e garantiu o concurso de João Alves, provavelmente o mais genial jogador que alguma vez de xadrez vestiu. No final de 75, em Alvalade, conquistava a Taça de Portugal, perante o Benfica (2-1), apontando o golo vitorioso. “Provei aos dirigentes que não me quiseram que, afinal, sabia jogar futebol”.

Igual troféu ganharia no ano seguinte, qual papa-Taças, com Pedroto ao leme. O Salamanca, de Espanha, recepcionou-o. No país vizinho, foi mesmo considerado o melhor estrangeiro, batendo aos pontos jogadores da estirpe de Cruijff, Neeskens, Kempes, Ayala ou Luís Pereira. Regressou ao Benfica, passando a embolsar, dizia-se, o melhor ordenado de um jogador no futebol nacional. Perdeu o Campeonato por um ponto para o FC Porto, mas suscitou o interesse de vários clubes, acabando por ser transferido para o Paris Saint-Germain, no qual, pouco tempo antes, havia militado Humberto Coelho.



Uma lesão complexa vitimou-lhe a época e retornou à Luz. Fez três anos de águia. Ganhou dois Campeonatos, duas Taças e uma Supertaça. Falhou, porém, a final da Taça UEFA, em 1983. “Só Eriksson poderia dizer porque não me pôs na equipa, depois de uma época inteira a jogar e a fazer grandes exibições. Mas se foi só por ter chegado atrasado a um treino, pareceu-me injusto de mais…”.

Ferido no seu alicerce anímico, ao Boavista voltaria. No Bessa, substituiu Mário Wilson, inaugurando o ciclo de treinador. Já nessa condição, ao serviço do Estrela da Amadora, venceu a Taça de Portugal, a sua prova-fetiche.

Pelo combinado luso, fez 36 jogos, metade dos quais na condição de jogador do Benfica. Despediu-se frente à União Soviética, em Moscovo, num impiedoso 5-0. E já não foi a tempo de ser convocado para o Euro 84.

João Alves, com as suas luvas pretas, terá sido um dos mais sublimes futebolistas do Benfica. O que lhe sobrou em ambição faltou-lhe talvez no politicamente correcto. Quixotesco não foi. Só no campo. Palco das suas virtudes. Com alma e chama imensa.

isaias

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  • ''O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade" Umberto Eco
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  • 29 de Fevereiro de 2008, 12:31
João António F. Resende Alves. Albergaria-a-Velha. 5 de Dezembro de 1952. Médio.
Épocas no Benfica: 4 (78/79 e 80/83). Jogos: 141. Golos: 33. Títulos: 2 (Campeonato Nacional), 2 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros clubes: Varzim, Montijo, Boavista, Salamanca e Paris Saint-Germain. Internacionalizações: 36.




Equipa 1980/1981

As luvas pretas eram a imagem de marca de João Alves. Por código genético, futebolista se fez. O avô, Carlos Alves, havia sido um dos melhores jogadores portugueses, depois da I Guerra Mundial, na defesa das cores do Carcavelinhos, após passagem também pelo FC Porto e pelo Académico da capital nortenha. Um dia, nas véspera de medir forças com o Benfica, os jogadores do Carcavelinhos decidiram concentrar-se, arcando as despesas, numa modesta pensão, de frequência no máximo pequeno-burguesa. Foi quando uma miúda, no atrevimento dos seus 12 anos, se abeirou de Carlos Alves e lhe pediu para, no dia seguinte, jogar com luvas, que amuleto seriam. Perante o insólito, o já reputado defesa disse-lhe que o jogo era a doer, não dava para calçar as luvas negras, mas sempre as levou consigo, de tão insistente a rapariga. Ao intervalo, o Benfica tinha já vantagem materializada. Na segunda parte, num alarde de superstição, enfiou as luvas e o Carcavelinhos… ganhou. Assim foi pela vida fora. Assim foi, também, o neto João. Sempre com luvas pretas.

Na Sanjoanense, despontou. Cedo o FC Porto avançaria com a cantada. Só que o Benfica, já alertado, mandou avançar Fernando Cabrita para  São João da Madeira, com o fito de proceder à assinatura do contrato. Nada mais fácil. Benfiquista obstinado, João Alves feérico virou. Partiu com o avô para Lisboa, onde os pais já se encontravam.



No escalão júnior, deu mostras de todo o seu repica-ponto. O jogo girava à sua volta. Pressentia, executava e até concluía. Era daqueles que acabavam de pensar quando os outros começavam a fazê-lo. Na passagem para sénior, João Alves foi cedido ao Varzim, tão gordo era o plantel da Luz. Na Póvoa, exibiu reportório. Jimmy Hagan integrou-o no elenco a abertura da temporada seguinte. Só que no preito a Santana, velha glória da saga europeia, em Freamunde, trica houve o prestigiado António Simões, deitando tudo a perder, ao que parece por causa das luvas pretas. Vingou a posição do Magriço e figura lídima da casa benfiquista. João Alves saiu para o Montijo, pela módica quantia de 600 contos, cifra que o Benfica tinha pago a fim de o jogador não ser mobilizado para a Guiné, ao serviço da Nação, como na altura mandavam dizer os cânones do regime.

Um ano mais tarde, o Boavista abriu os cordões à bolsa e garantiu o concurso de João Alves, provavelmente o mais genial jogador que alguma vez de xadrez vestiu. No final de 75, em Alvalade, conquistava a Taça de Portugal, perante o Benfica (2-1), apontando o golo vitorioso. “Provei aos dirigentes que não me quiseram que, afinal, sabia jogar futebol”.

Igual troféu ganharia no ano seguinte, qual papa-Taças, com Pedroto ao leme. O Salamanca, de Espanha, recepcionou-o. No país vizinho, foi mesmo considerado o melhor estrangeiro, batendo aos pontos jogadores da estirpe de Cruijff, Neeskens, Kempes, Ayala ou Luís Pereira. Regressou ao Benfica, passando a embolsar, dizia-se, o melhor ordenado de um jogador no futebol nacional. Perdeu o Campeonato por um ponto para o FC Porto, mas suscitou o interesse de vários clubes, acabando por ser transferido para o Paris Saint-Germain, no qual, pouco tempo antes, havia militado Humberto Coelho.



Uma lesão complexa vitimou-lhe a época e retornou à Luz. Fez três anos de águia. Ganhou dois Campeonatos, duas Taças e uma Supertaça. Falhou, porém, a final da Taça UEFA, em 1983. “Só Eriksson poderia dizer porque não me pôs na equipa, depois de uma época inteira a jogar e a fazer grandes exibições. Mas se foi só por ter chegado atrasado a um treino, pareceu-me injusto de mais…”.

Ferido no seu alicerce anímico, ao Boavista voltaria. No Bessa, substituiu Mário Wilson, inaugurando o ciclo de treinador. Já nessa condição, ao serviço do Estrela da Amadora, venceu a Taça de Portugal, a sua prova-fetiche.

Pelo combinado luso, fez 36 jogos, metade dos quais na condição de jogador do Benfica. Despediu-se frente à União Soviética, em Moscovo, num impiedoso 5-0. E já não foi a tempo de ser convocado para o Euro 84.

João Alves, com as suas luvas pretas, terá sido um dos mais sublimes futebolistas do Benfica. O que lhe sobrou em ambição faltou-lhe talvez no politicamente correcto. Quixotesco não foi. Só no campo. Palco das suas virtudes. Com alma e chama imensa.


Deste Benfica já me recordo. Alves era um dos meus preferidos  :bow2:

ednilson

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  • 29 de Fevereiro de 2008, 19:52
João Manuel Vieira Pinto. Porto. 19 de Agosto de 1971. Médio.
Épocas no Benfica: 8 (92/00). Jogos: 301. Golos: 90. Títulos: 1 (Campeonato Nacional) e 2 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Boavista, Atlético Madrileño, Sporting e Sporting de Braga. Internacionalizações: 81.




Equipa 1997/1998

A precocidade sempre caracterizou João Pinto. Fez-se cedo homem, cedo foi pai, também cedo campeão de futebol, cedo ainda ícone do Benfica. Tudo tão cedo, tão cedo, que cedo abandonou o Benfica, apesar das oito épocas ininterruptas que fez, cinco das quais como capitão. E talvez mais cedo do que possa vaticinar-se, porque nele tudo acontece cedo, venha a ser reabilitado no gigantesco universo benfiquista. Não será tarde, mas muito menos cedo ainda.

No Bairro do Falcão, na cidade do Porto, começou a subir-lhe a temperatura da bola, do jogo. “Só imaginava uma coisa na vida: ser jogador de futebol. Se não o fosse seria, certamente, um frustrado. Era um puto reguila, vivia num bairro de gente pobre, jogava futebol, fazia algumas patifarias. As maiores? Sei lá, roubar fruta nos pomares vizinhos, subindo árvores, desafiando o perigo. E, vivendo num bairro camarário, apesar de não ser de barracas ou de casas degradadas, percebi muito cedo como a pobreza dói. Mas, nunca me faltou uma bola de futebol e com uma bola de futebol eu sentia-me a criança mais feliz do Mundo”. Aos oito anos, apresentou-se nas Antas com a esperança de aprender, na escola de Oliveira e Gomes, o mesmo que Chalana ou mais tarde Futre, o quarteto nacional que sempre o deixou atónito. “Alguém olhou para mim com desconfiança, dizendo, quase em jeito de gozo, que voltasse mais tarde”. Jamais o fez.

Ainda que entuchado, prosseguiu viagem. Optou pelo Águias da Areosa e um belo dia fez, em Pedrouços, três golos ao FC Porto, que a sede de vingança, essa, torturava-o. Aproximou-se o Boavista, com passe social e dinheiro para os estudos. Respondeu afirmativamente. Dois dias depois, à investida portista, o não foi rotundo.

Na frutuosa oficina do Bessa, João Pinto amadureceu. Dele não prescindia a Selecção Nacional, qualquer que fosse o escalão etário. À fama chegou ao sagrar-se campeão do Mundo em Riade, na Arábia Saudita. Também cedo, como tudo o resto, tinha apenas 18 anos, partiu para Madrid, com a fixação de jogar ao lado de Paulo Futre, no clube do polémico Jesus Gil e Gil. Acabou por ir parar ao Atlético Madrileño, para pouco depois ser devolvido à procedência. No Boavista só ficou uma temporada, mas a tempo de ainda bater o FC Porto, em 91/92, na final da Taça de Portugal. E de bisar no Campeonato do Mundo de juniores, feito único no panorama do futebol internacional.

Por 500 mil contos, Jorge de Brito convenceu Valentim Loureiro a desfazer-se da jóia da coroa axadrezada. Já no Benfica, conquistou de pronto mais uma Taça, uma vez que o Nacional se escapou num dos derradeiros suspiros. Com o ídolo Paulo Futre ao seu lado. Mais Veloso, Mozer, Vítor Paneira. Mais dois jovens em franca ascensão, Paulo Sousa e Rui Costa.

No inicio do Verão de 93, uma onda de autoflagelo abateu-se sobre a Luz. Antes não passasse de uma rábula, mas a coisa foi mesmo séria. Sem ver a cor do papel, Pacheco e Sousa rescindiram os contratos e passaram-se para o eterno rival. João Pinto também denunciou o contrato e comprometeu-se com o Sporting. Em Torremolinos, ande se encontrava de férias, foi resgatado por um convincente Jorge de Brito. Regressou. Na Sala de Imprensa do parque de jogos benfiquista teve uma recepção apoteótica… como se novel recruta fosse. “Burlão”, chamar-lhe-ia Sousa Cintra.

Porque não há duas sem três, ele que já antes de ingressar no Benfica tão próximo esteve do Sporting, desfeita maior haveria de fazer no Maio seguinte. Com Carlos Queiroz no comando, Alvalade ardia na esperança de pôr termo a longo jejum no Campeonato. Ao Benfica só a vitória interessava, sinónimo era da conquista do titulo. Começaram melhor os donos da casa, 1-0 e 2-1 (já golo do João) foram vantagens registadas. Sublime, arrancou para a mais fulgurante de quantas exibições fez. Antes do intervalo, já era de júbilo o ambiente nas hostes rubras. Mais dois golos marcou, invertendo os números do placar. Triságio fez. O Benfica bateu o Sporting, por 6-3. Era, finalmente, campeão nacional.

O génio de João Pinto, continuou a deslumbrar. Diziam os críticos, não poucas vezes, que às costas carregava a equipa. Até que um dia, num daqueles absurdos que a negro pintam a História, do Benfica receberia guia de marcha. O Menino de Ouro. Cedo, muito cedo, demasiado cedo.


Pessoal, Por Favor....Obrigado!!!
« Última modificação: 29 de Fevereiro de 2008, 19:54 por ednilson »

ednilson

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  • 01 de Março de 2008, 19:53
José Pinto Carvalho S. Águas. Luanda, Angola. 9 de Setembro de 1930-2000. Avançado.
Épocas no Benfica: 13 (50/63). Jogos: 379. Golos: 377. Títulos: 5 (Campeonato Nacional), 7 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: Lusitano do Lobito e Rapid Viena. Internacionalizações: 25.



             
Equipa 1951/1952

Nasceu em Luanda, mas cedo chegou ao Lobito. O pai, de nome Raul, por África diligenciava conforto para o clã Águas. Mais tarde, pouco mais, já viúva, a mãe, desfeita em preces, aos filhos pediu privações. Logo, José Águas, com apenas 15 anos, dactilógrafo se fez na Robert Hudson, empresa concessionário da Ford, que os tempos, esses, de suave nada tinham. Tornou-se jogador da equipa da firma. Instintos revelados, passou a representar o Lusitano do Lobito.

Nasceu benfiquista por influência paterna. Da então metrópole chegavam noticias de uma equipa que a Taça Latina havia ganho. Um poster, já amarelo de gasto, devotadamente colocado no quarto, inspirava o jovem, numa altura em que até nem se (re)via no meio daquelas estrelas, sobretudo Rogério e Julinho, para ele as mais cintilantes. Menos ainda cogitaria José Águas a hipótese de alguma vez defrontar semelhante naipe de campeões. Enganou-se.

Ainda o júbilo pela arrebatante vitória sobre o Bordéus animava as hostes do Benfica, já a equipa peregrinava por África. No Lobito, uma selecção local constituía um dos cartazes. Quando soube que havia sido seleccionado, José Águas sentiu um frémito e tardou a recompor-se. Custa até imaginar como ficou depois do jogo, que venceu por 3-1, com dois tentos da sua lavra, quando os dirigentes benfiquistas lhe pediram para passar no hotel, depois daquele feito perene, intrigante para Ted Smith, treinador inglês do Benfica.



O FC Porto, por telefone, depressa convidou José Águas para férias fazer na Invicta e… treinar-se na Constituição. “Amanhã respondo”, terá dito e desligado de seguida. Só que o amanhã chamou-se mesmo Benfica e vezes sem conta olhou, sempre de soslaio, por timidez até na intimidade, a moldura que lhe dava vida ao quarto, onde só mais uma noite passou a sonhar com delicias garridas. Contrato rubricado e com os novos companheiros partiu à conquista de outras paragens africanas.

Chegou a Lisboa no dia 18 de Setembro de 1950. Na Tapadinha se estreou. Nunca tinha visto um campo relvado, botas de pitões também não. Com apenas um treino realizado, o debute nada teve de auspicioso. Empate a duas bolas com o Atlético, sem que os créditos de goleador fossem exibidos. Mas antes que as criticas subissem de tom, na ronda imediata, com o Sporting de Braga, no Campo Grande, quatro golos marcou, num invejável 8-2.

Pelo Benfica, José Águas viveu muitos anos em que a fábula e a realidade pareceram caminhar de mãos dadas. Cansou-se de vencer, de marcar, de contagiar. Foi ele, é ainda, a papoila mais saltitante do hino de Piçarra ou o melhor intérprete do jogo aéreo que o Benfica alguma vez teve. E Portugal também. É o segundo melhor marcador da história encarnada, depois de Eusébio. Só Eusébio, de resto, poderia relativizar José Águas. Mais ninguém!



Atravessou toda a década de 50 em sistemática laboração pelo golo. Fixou-se no topo dos marcadores em cinco ocasiões. Levantou, triunfante, na qualidade de capitão, as duas Taças dos Campeões, sendo mesmo o artilheiro-mor da primeira. Nos Nacionais, apontou mais golos (290) do que jogos efectuou (282). Já não esteve presente na terceira final europeia, por opção do chileno Fernando Riera. “Algum tempo depois, pediu-me desculpas por não me ter colocado a jogar. Disse-lhe que até ficaria satisfeito com os golos de Torres. Era a verdade, era a voz do meu coração de benfiquista, mas Fernando Riera parece não ter ficado muito convencido”. Nem os adeptos com… Torres.

Pela equipa nacional, 11 golos marcou em 25 jogos. Apreciável registo, em tempos marcados ainda por um certo complexo de inferioridade, que não poucas vezes encolhia, amarfanhava mesmo, os nossos melhores atletas.

Ainda no apogeu, José Águas fez uma revelação surreal. Confessou que vestia o traje de futebolista com “o mesmo espírito com que o operário veste o fato-macaco”, porque era assim que ganhava a vida, já que até “não gostava de jogar à bola”. E se gostasse? Dele, sempre gostaram os benfiquistas, numa divida imorredoura de gratidão.