País
Portugal

Coluna

Nome completo
Mário Esteves Coluna
Número
6
Naturalidade
Lourenço Marques, Moçambique
Data de nascimento
1935-08-06
Data de morte
2014-02-25
Periodo no Benfica

1954 - 1970

No arco-íris do futebol nacional, naquela primeira metade da década de 50, o verde era a tonalidade dominante. Vivia-se o tempo hegemónico dos Cinco Violinos (Jesus Correia, Travaços, Peyroteo, Vasques e Albano), que garantiram para o Sporting o primeiro tetracampeonato da história. No Benfica, com saudade, recordava-se o titulo de 49/50 e a vitória na Taça Latina, o primeiro grande feito do futebol lusitano.

Nessa altura, em Lourenço Marque, no bairro do Alto Mahé, onde também cresceram Matateu, Vicente e Hilário, um adolescente começava a emergir nas lides de cariz desportivo. Mário Esteves Coluna, assim crismado foi. Filho de um português da Beira Baixa, aventureiro por terras africanas, que com uma negra de nome Lúcia casaria na capital da antiga África Oriental Portuguesa. O jovem Mário era um predestinado para a cultura física. Decerto, a destreza provinha-lhe da experiência acumulada a subir árvores, ainda petiz, na procura saborosa de mangas ou de caju. “Um dia cais, partes uma perna e vais parar ao hospital”, asseverava José Maria Esteves Coluna, o progenitor, que havia fundado e defendido as redes do Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica.

Certo é que umas luvas de lutador, pertença de um amigo, fizeram as delicias do jovem Mário. Ainda na puberdade, experimentou o boxe, em combates pouco ortodoxos, sem regras coerentes, circunstância que bem poderá ter concorrido para o espírito combativo, matriz de toda uma vida. Por influência da trapeira, esse encanto dos pobres imberbes, foi Coluna jogar para a equipa João Albasini, albergue de muitos futebolistas de origem laurentina. Basquetebol praticou também, ainda que não tivesse passado da equipa de reservas do Desportivo. Mas foi no atletismo que Mário Coluna obteve, por essa altura, um notável registo. Para assombro de todos, estabeleceu recorde moçambicano de salto em altura, nuns muito estimáveis 1,825 metros, meio centímetro acima, pasme-se!, da marca com que Espírito Santo, outra grande figura do universo benfiquista, tinha destronado Pascoal de Almeida, na lista dos recordistas nacionais.

Ainda que a sua obsessão fosse profissionalizar-se como mecânico do automóveis, atentamente ouviu o conselhos de Severiano Correia, que nele encontrou talento suficiente para bonita carreira fazer no futebol.  É nessa altura que troca o Ferroviário pelo Desportivo, num apelo benfiquista que cedo, bem cedo, lhe havia provocado o imaginário.

Aos 17 anos, começou a jogar na equipa de honra da filial do Benfica. Todos os meses embolsava 500 escudos que, às escondidas dos pai, gastava em prazeres diversos. Nessa altura, o FC Porto ofereceu-lhe 90 contos, por um contrato de três temporadas. Reagiu o Sporting, sabedor da recusa de ingressar no grémio das Antas, adiantando a proposta de uma centena de contos, por contrato de três temporadas. A mesma oferta fez o Benfica. Respondeu com o coração, aquiesceu, de águia ao peito ficaria. Pouco tempo antes, já pontificava no Desportivo, coqueluche era, não jogou na África do Sul, que a tanto apartheid obrigava, mas vingou a derrota da sua equipa (2-1), em Lourenço Marques, num arrebatador 7-0, dia em que todos os golos marcou, como quem serve fria e até cruel vingança. Mandela, se é que soube, terá estrugido palmas. “Aterrei em Lisboa, após uma viagem que durou 34 horas. Dei a volta ao Mundo!”. Mas valeu a pena o esforço. De Moçambique, com destino ao Benfica, haviam já chegado, mas de barco, dias antes, Costa Pereira e Naldo. Era um tridente das paragens coloniais, resolutamente apostado, naquela época de 54/55, em devolver o Benfica à ribalta do futebol nacional.



Para além dos seus dois companheiros, Mário Coluna passou a trabalhar, no dia-a-dia, com Jacinto, Artur Santos, José Águas, Fernando Caiado, Francisco Calado, Ângelo, Palmeiro e Arsénio, entre outros. Ficou no Lar do Jogador, criação recente da direcção encarnada. “Mal cheguei, logo me quis ir embora. Vinha como craque, mas Otto Glória não contava comigo, não era titular. Para além disso, quiseram enganar-me no contrato. Meu pai sugeriu-me que voltasse, fiz as malas e só não regressei porque o mordomo do lar tinha ordem para me barrar a saída”.

Só que a bonança não tardou. E que bem ficou no Benfica! O brasileiro Otto apercebendo-se da incoexistência de Águas e Coluna, dois avançados-centro, transformou o moçambicano em centrocampista. Aposta ganha. De Otto, visionário. De Coluna, diletante. Do Benfica, revigorado.

Em Lisboa, o futuro Monstro Sagrado estreou-se frente ao FC Porto, na festa de Rogério e Feliciano. Mas foi com o Vitória de Setúbal, no pontapé de saída do Nacional de 54/55, que Mário Coluna, no palco do Jamor, marcou dois golos, no seu primeiro jogo oficial, para um robusto triunfo com chapa 5. “Deixou impressão lisonjeira. Habilidade, bons toques de bola, remate forte e fácil, e espírito de sacrifício. Um senão, somente: sua inevitável ingenuidade, leva-o a denunciar o passe provocando a intercepção ou o desarme”. Assim radiografou Vítor Santos o inaugural de 525 jogos com traje vermelho. “Nunca mais me esquecerei dessa época. Foi a minha primeira temporada pelo Benfica e ganhei tudo o que disputei (Campeonato e Taça de Portugal), sem esquecer que tive a honra de ser um dos jogadores que estrearam o Estádio da Luz”. E para a posteridade ficaria o registo de 17 golos apontados, o melhor em 16 anos quase sempre preenchidos por delicias garridas.

Mário Coluna deixou uma marca indelével no Benfica. Não fosse Eusébio, a quem carinhosamente trata por “afilhado”, por carinho e de facto, e talvez estivéssemos na presença do mais carismático jogador da centenária história encarnada. Capitão foi, naturalmente, de 63 a 70. Naquele jeito inconfundível de líder. Com voz baixa, mas ar severo. Granjeou respeito. Fez unanimidade.

Cinco finais europeias disputou. Nas duas primeiras, o Didi de Portugal, como era conhecido por terras de Vera Cruz, venceu e marcou golos, repositório afinal do seu dom de finalizador. E aquela terceira final, de má memória, frente ao Inter, tocado de forma vil por Trapattoni? Amputada ficou a equipa do seu maestro, interditas eram à época as substituições. Nesse dia, com estoicismo, aguentou até ao derradeiro e pesaroso silvo do árbitro, pouco mais fazendo que figura de corpo presente. Assim são os bravos, os campeões.



No Mundial de Inglaterra, capitaneou a turma das quinas. Eusébio esteve galvanizante, José Augusto, Torres e Simões deslumbraram. Ao lado de Jaime Graça, futuro reforço benfiquista, Mário Coluna pautou a intermediária, organizou o jogo. Com imponência. A ele se ficou a dever grossa fatia do sucesso das cores nacionais.

Dez vezes lhe foi colocada a faixa de campeão nacional, sempre ao serviço do seu Benfica. E mais sete Taças de Portugal ergueu. E internacional foi, ininterruptamente, durante 35 partidas, entre Dezembro de 1957 e Junho de 1965m fixando um recorde, só recentemente superado por Pauleta. E mais, muitas mais honrarias, com destaque para a presença na selecção dos Resto do Mundo, em Espanha, no Chamartin, ao lado de Rivera, Hamrin, Mazzola, Corso e Burgnich, na homenagem ao grande Ricardo Zamora. Helenio Herrera, o treinador, deu-lhe a braçadeira de capitão. Durante hora e meia capitaneou o mundo do futebol. Sempre humilde, imagem de marca jamais contestada.



A meio da época de 69/70, temporada fatídica para o Benfica, Otto Glória foi substituído por José Augusto no comando técnico da equipa principal. Para o antigo extremo, a hora era de renovação, de nada valendo que o magistral técnico Stefan Kovacs, nesse mesmo ano, tivesse dito que “o Benfica sem Coluna não é igual”. Ferido, despediu-se, não sem antes deixar um remoque a José Augusto, assim se traduz esse “acabei no Benfica quando era o melhor da defesa; sempre fui um jogador invejado”. O tempo passou e a ferida cicatrizou, o Benfica ganhou.

A 8 de Dezembro de 1970, o Monstro Sagrado recebeu os favores da plateia vermelha na festa do adeus. Com Cruijff, Djazic, Luís Suarez, Bobby Moore, Seeler, Hurst. Justo tributo ao grande capitão. À malvas mandou convites do FC Porto e do Belenenses, que em Portugal a paixão era rubra. Rumaria a França para jogar no Lyon. Terminou a carreira, um ano mais tarde, no modesto Estrela de Portalegre, na qualidade de jogador-treinador.

Cidadão exemplar, atento ao mundo, não resistiu ao apelo de Moçambique. Deputado foi da FRELIMO. Presidente da Federação de Futebol é ainda…



Épocas no Benfica: 15 (54/70)

Jogos: 525
Golos: 126

Títulos: 10CN, 7 TP, 2 TCE

Texto: Memorial Benfica, 100 Glórias
Copiado de Ednilson

 

Estatísticas

Jogos Minutos Cartões Amarelos Cartões vermelhos Golos
Total 231 20606 0 1 54
Seniores > 1954/1955 > SL Benfica 5 450 0 0 2
 
Campeonato Nacional 4 361 0 0 2
Taça de Portugal 1 91 0 0 0
Seniores > 1955/1956 > SL Benfica 11 990 0 0 6
 
Taça Latina 2 181 0 0 1
Campeonato Nacional 9 811 0 0 5
Seniores > 1956/1957 > SL Benfica 16 1440 0 0 6
 
Taça Latina 2 181 0 0 0
Campeonato Nacional 9 811 0 0 4
Taça de Portugal 5 451 0 0 2
Seniores > 1957/1958 > SL Benfica 16 1440 0 0 4
 
Campeonato Nacional 9 811 0 0 2
Taça de Portugal 6 541 0 0 2
Taça dos Campeões Europeus 1 91 0 0 0
Seniores > 1958/1959 > SL Benfica 15 1350 0 0 5
 
Campeonato Nacional 7 631 0 0 2
Taça de Portugal 8 721 0 0 3
Seniores > 1959/1960 > SL Benfica 33 2966 0 1 16
 
Campeonato Nacional 23 2067 0 1 10
Taça de Portugal 10 901 0 0 6
Seniores > 1960/1961 > SL Benfica 35 3150 0 0 8
 
Campeonato Nacional 24 2161 0 0 4
Taça de Portugal 2 181 0 0 2
Taça dos Campeões Europeus 9 811 0 0 2
Seniores > 1961/1962 > SL Benfica 13 1170 0 0 1
 
Campeonato Nacional 8 721 0 0 0
Taça de Portugal 2 181 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 3 271 0 0 1
Seniores > 1962/1963 > SL Benfica 13 1170 0 0 2
 
Campeonato Nacional 5 451 0 0 0
Taça de Portugal 3 271 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 5 451 0 0 2
Seniores > 1963/1964 > SL Benfica 10 900 0 0 1
 
Campeonato Nacional 6 541 0 0 0
Taça de Portugal 2 181 0 0 1
Taça dos Campeões Europeus 2 181 0 0 0
Seniores > 1964/1965 > SL Benfica 5 450 0 0 1
 
Taça de Portugal 2 181 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 3 271 0 0 1
Seniores > 1965/1966 > SL Benfica 5 450 0 0 0
 
Campeonato Nacional 1 91 0 0 0
Taça de Portugal 2 181 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 2 181 0 0 0
Seniores > 1966/1967 > SL Benfica 3 270 0 0 0
 
Taça das Cidades com Feira 1 91 0 0 0
Campeonato Nacional 1 91 0 0 0
Taça de Portugal 1 91 0 0 0
Seniores > 1967/1968 > SL Benfica 6 540 0 0 0
 
Campeonato Nacional 3 271 0 0 0
Taça de Portugal 2 181 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 1 91 0 0 0
Seniores > 1968/1969 > SL Benfica 27 2250 0 0 1
 
Campeonato Nacional 16 1288 0 0 1
Taça de Portugal 8 694 0 0 0
Taça dos Campeões Europeus 3 271 0 0 0
Seniores > 1969/1970 > SL Benfica 18 1620 0 0 1
 
Campeonato Nacional 14 1261 0 0 1
Taça dos Campeões Europeus 4 361 0 0 0

Primeiro jogo

SL Benfica 5 x 0 Vitória FC

Domingo, Setembro 12, 1954 - 00:00

Estádio da Luz ,

SL Benfica: Costa Pereira, Ângelo Martins, Artur Santos, Naldo, Jacinto, Francisco Calado, Fernando Caiado, Coluna, José Águas, Arsénio, Salvador Martins
Treinador: Otto Glória
Golos: Coluna (50), Coluna (65), José Águas (46), Arsénio (5), Salvador Martins (25)

Último jogo

SL Benfica 0 x 1 CUF

Domingo, Fevereiro 8, 1970 - 00:00

Estádio da Luz ,

SL Benfica: José Henrique, Adolfo, Jacinto, Humberto Coelho, Coluna, Jaime Graça, Toni (Jorge Calado [60m]), Simões, Eusébio, Abel Miglietti (Praia [36m]), Artur Jorge
Treinador: Otto Glória

297 - Tópico: Coluna, o Monstro Sagrado  (Lida 110478 vezes)

MANOCAS37

  • Eusébio
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  • 02 de Outubro de 2005, 21:26

 
Nome Completo: Mário Esteves COLUNA
Posição: Médio Centro
Nacionalidade: Português (Internacional A)
Data de Nascimento: 06-08-1935
Data de Falecimento: 25-02-2014
Número da Camisola: 10 e 6
Pé Preferido: Direito



Épocas ao serviço do Benfica: 16
Total de Jogos pelo Benfica: 525
Total de Golos pelo Benfica: 127
Títulos pelo Benfica:
2 Taças dos Campeões Europeus (1960/61, 1961/62)
10 Campeonatos Nacionais (1954/55, 1956/57, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68, 1968/69)
7 Taças de Portugal (1954/55, 1956/57, 1958/59, 1961/62, 1963/64, 1968/69, 1969/70)


1954/1955
Jogos: 32
Golos: 17 (14 na Liga)

1955/1956
Jogos: 29
Golos: 12 (11 na Liga)

1956/1957
Jogos: 29
Golos: 7 (5 na Liga)

1957/1958
Jogos: 35
Golos: 9 (6 na Liga)

1958/1959
Jogos: 34
Golos: 13 (8 na Liga)

1959/1960
Jogos: 33
Golos: 16 (10 na Liga)

1960/1961
Jogos: 35
Golos: 8 (4 na Liga)

1961/1962
Jogos: 40
Golos: 9 (6 na Liga)

1962/1963
Jogos: 40
Golos: 5 (2 na Liga)

1963/1964
Jogos: 34
Golos: 5 (3 na Liga)

1964/1965
Jogos: 42
Golos: 12 (8 na Liga)

1965/1966
Jogos: 31
Golos: 4 (3 na Liga)

1966/1967
Jogos: 23
Golos: 2 (2 na Liga)

1967/1968
Jogos: 33
Golos: 3 (3 na Liga)

1968/1969
Jogos: 36
Golos: 4 (3 na Liga)

1969/1970
Jogos: 19
Golos: 1 (1 na Liga)
« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2014, 17:49 por Shoky »

lloyd

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  • 02 de Outubro de 2005, 22:37
« Última modificação: 07 de Novembro de 2013, 22:06 por Shoky »

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  • 03 de Outubro de 2005, 15:29
Mário Esteves Coluna. Lourenço Marques. Moçambique. 6 de Agosto de 1935. Médio e avançado.
Épocas no Benfica: 16 (54/70). Jogos: 525. Golos: 126. Títulos: 10 (Campeonato Nacional), 7 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: João Abisini, Desportivo de Lourenço Marques, Olympique de Lyon e Estrela de Portalegre. Internacionalizações: 57.




Equipa 1961/1962

No arco-íris do futebol nacional, naquela primeira metade da década de 50, o verde era a tonalidade dominante. Vivia-se o tempo hegemónico dos Cinco Violinos (Jesus Correia, Travaços, Peyroteo, Vasques e Albano), que garantiram para o Sporting o primeiro tetracampeonato da história. No Benfica, com saudade, recordava-se o titulo de 49/50 e a vitória na Taça Latina, o primeiro grande feito do futebol lusitano.

Nessa altura, em Lourenço Marque, no bairro do Alto Mahé, onde também cresceram Matateu, Vicente e Hilário, um adolescente começava a emergir nas lides de cariz desportivo. Mário Esteves Coluna, assim crismado foi. Filho de um português da Beira Baixa, aventureiro por terras africanas, que com uma negra de nome Lúcia casaria na capital da antiga África Oriental Portuguesa. O jovem Mário era um predestinado para a cultura física. Decerto, a destreza provinha-lhe da experiência acumulada a subir árvores, ainda petiz, na procura saborosa de mangas ou de caju. “Um dia cais, partes uma perna e vais parar ao hospital”, asseverava José Maria Esteves Coluna, o progenitor, que havia fundado e defendido as redes do Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica.

Certo é que umas luvas de lutador, pertença de um amigo, fizeram as delicias do jovem Mário. Ainda na puberdade, experimentou o boxe, em combates pouco ortodoxos, sem regras coerentes, circunstância que bem poderá ter concorrido para o espírito combativo, matriz de toda uma vida. Por influência da trapeira, esse encanto dos pobres imberbes, foi Coluna jogar para a equipa João Albasini, albergue de muitos futebolistas de origem laurentina. Basquetebol praticou também, ainda que não tivesse passado da equipa de reservas do Desportivo. Mas foi no atletismo que Mário Coluna obteve, por essa altura, um notável registo. Para assombro de todos, estabeleceu recorde moçambicano de salto em altura, nuns muito estimáveis 1,825 metros, meio centímetro acima, pasme-se!, da marca com que Espírito Santo, outra grande figura do universo benfiquista, tinha destronado Pascoal de Almeida, na lista dos recordistas nacionais.

Ainda que a sua obsessão fosse profissionalizar-se como mecânico do automóveis, atentamente ouviu o conselhos de Severiano Correia, que nele encontrou talento suficiente para bonita carreira fazer no futebol.  É nessa altura que troca o Ferroviário pelo Desportivo, num apelo benfiquista que cedo, bem cedo, lhe havia provocado o imaginário.

Aos 17 anos, começou a jogar na equipa de honra da filial do Benfica. Todos os meses embolsava 500 escudos que, às escondidas dos pai, gastava em prazeres diversos. Nessa altura, o FC Porto ofereceu-lhe 90 contos, por um contrato de três temporadas. Reagiu o Sporting, sabedor da recusa de ingressar no grémio das Antas, adiantando a proposta de uma centena de contos, por contrato de três temporadas. A mesma oferta fez o Benfica. Respondeu com o coração, aquiesceu, de águia ao peito ficaria. Pouco tempo antes, já pontificava no Desportivo, coqueluche era, não jogou na África do Sul, que a tanto apartheid obrigava, mas vingou a derrota da sua equipa (2-1), em Lourenço Marques, num arrebatador 7-0, dia em que todos os golos marcou, como quem serve fria e até cruel vingança. Mandela, se é que soube, terá estrugido palmas. “Aterrei em Lisboa, após uma viagem que durou 34 horas. Dei a volta ao Mundo!”. Mas valeu a pena o esforço. De Moçambique, com destino ao Benfica, haviam já chegado, mas de barco, dias antes, Costa Pereira e Naldo. Era um tridente das paragens coloniais, resolutamente apostado, naquela época de 54/55, em devolver o Benfica à ribalta do futebol nacional.





Para além dos seus dois companheiros, Mário Coluna passou a trabalhar, no dia-a-dia, com Jacinto, Artur Santos, José Águas, Fernando Caiado, Francisco Calado, Ângelo, Palmeiro e Arsénio, entre outros. Ficou no Lar do Jogador, criação recente da direcção encarnada. “Mal cheguei, logo me quis ir embora. Vinha como craque, mas Otto Glória não contava comigo, não era titular. Para além disso, quiseram enganar-me no contrato. Meu pai sugeriu-me que voltasse, fiz as malas e só não regressei porque o mordomo do lar tinha ordem para me barrar a saída”.

Só que a bonança não tardou. E que bem ficou no Benfica! O brasileiro Otto apercebendo-se da incoexistência de Águas e Coluna, dois avançados-centro, transformou o moçambicano em centrocampista. Aposta ganha. De Otto, visionário. De Coluna, diletante. Do Benfica, revigorado.

Em Lisboa, o futuro Monstro Sagrado estreou-se frente ao FC Porto, na festa de Rogério e Feliciano. Mas foi com o Vitória de Setúbal, no pontapé de saída do Nacional de 54/55, que Mário Coluna, no palco do Jamor, marcou dois golos, no seu primeiro jogo oficial, para um robusto triunfo com chapa 5. “Deixou impressão lisonjeira. Habilidade, bons toques de bola, remate forte e fácil, e espírito de sacrifício. Um senão, somente: sua inevitável ingenuidade, leva-o a denunciar o passe provocando a intercepção ou o desarme”. Assim radiografou Vítor Santos o inaugural de 525 jogos com traje vermelho. “Nunca mais me esquecerei dessa época. Foi a minha primeira temporada pelo Benfica e ganhei tudo o que disputei (Campeonato e Taça de Portugal), sem esquecer que tive a honra de ser um dos jogadores que estrearam o Estádio da Luz”. E para a posteridade ficaria o registo de 17 golos apontados, o melhor em 16 anos quase sempre preenchidos por delicias garridas.

Mário Coluna deixou uma marca indelével no Benfica. Não fosse Eusébio, a quem carinhosamente trata por “afilhado”, por carinho e de facto, e talvez estivéssemos na presença do mais carismático jogador da centenária história encarnada. Capitão foi, naturalmente, de 63 a 70. Naquele jeito inconfundível de líder. Com voz baixa, mas ar severo. Granjeou respeito. Fez unanimidade.

Cinco finais europeias disputou. Nas duas primeiras, o Didi de Portugal, como era conhecido por terras de Vera Cruz, venceu e marcou golos, repositório afinal do seu dom de finalizador. E aquela terceira final, de má memória, frente ao Inter, tocado de forma vil por Trapattoni? Amputada ficou a equipa do seu maestro, interditas eram à época as substituições. Nesse dia, com estoicismo, aguentou até ao derradeiro e pesaroso silvo do árbitro, pouco mais fazendo que figura de corpo presente. Assim são os bravos, os campeões.



No Mundial de Inglaterra, capitaneou a turma das quinas. Eusébio esteve galvanizante, José Augusto, Torres e Simões deslumbraram. Ao lado de Jaime Graça, futuro reforço benfiquista, Mário Coluna pautou a intermediária, organizou o jogo. Com imponência. A ele se ficou a dever grossa fatia do sucesso das cores nacionais.

Dez vezes lhe foi colocada a faixa de campeão nacional, sempre ao serviço do seu Benfica. E mais sete Taças de Portugal ergueu. E internacional foi, ininterruptamente, durante 35 partidas, entre Dezembro de 1957 e Junho de 1965m fixando um recorde, só recentemente superado por Pauleta. E mais, muitas mais honrarias, com destaque para a presença na selecção dos Resto do Mundo, em Espanha, no Chamartin, ao lado de Rivera, Hamrin, Mazzola, Corso e Burgnich, na homenagem ao grande Ricardo Zamora. Helenio Herrera, o treinador, deu-lhe a braçadeira de capitão. Durante hora e meia capitaneou o mundo do futebol. Sempre humilde, imagem de marca jamais contestada.

A meio da época de 69/70, temporada fatídica para o Benfica, Otto Glória foi substituído por José Augusto no comando técnico da equipa principal. Para o antigo extremo, a hora era de renovação, de nada valendo que o magistral técnico Stefan Kovacs, nesse mesmo ano, tivesse dito que “o Benfica sem Coluna não é igual”. Ferido, despediu-se, não sem antes deixar um remoque a José Augusto, assim se traduz esse “acabei no Benfica quando era o melhor da defesa; sempre fui um jogador invejado”. O tempo passou e a ferida cicatrizou, o Benfica ganhou.

A 8 de Dezembro de 1970, o Monstro Sagrado recebeu os favores da plateia vermelha na festa do adeus. Com Cruijff, Djazic, Luís Suarez, Bobby Moore, Seeler, Hurst. Justo tributo ao grande capitão. À malvas mandou convites do FC Porto e do Belenenses, que em Portugal a paixão era rubra. Rumaria a França para jogar no Lyon. Terminou a carreira, um ano mais tarde, no modesto Estrela de Portalegre, na qualidade de jogador-treinador.

Cidadão exemplar, atento ao mundo, não resistiu ao apelo de Moçambique. Deputado foi da FRELIMO. Presidente da Federação de Futebol é ainda…


Tópico: Memorial Benfica, Glórias
Autor: Ednilson
Link: http://serbenfiquista.com/forum/index.php?topic=22362.45
« Última modificação: 19 de Abril de 2013, 23:08 por Shoky »

heroisdomar

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  • 03 de Outubro de 2005, 16:36
Não foi melhor que Eusébio porque não eram comparáveis. Um era todo terreno o outro era um puro avançado. Dois jogadores fantásticos. Mas Eusébio não tinha comparação.

tu la deves saber o velho brazuko!!! :2funny: :2funny: :2funny: :2funny: :2funny:


uma vez tinha eu cerca de 14 anos vinha no barco de lisboa para o barreiro, era o coluna treinador da quimigal, sentei-me ao lado do homen e so a  :angel: dele impunha respeito!!! dos videos que vi dele e da maneira como os Kamones falam dele devia de ser realmente um fantastico jogador!!

Bola

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  • 04 de Outubro de 2005, 14:25
Coluna era isso mesmo...uma coluna...da equipa...o protótipo do jogador moderno...tão bom a defender como a atacar...e tinha uma personalidade fantástica...era capitão mesmo...nem era preciso votar....a cara dele era de lider...e todos o tratavam por senhor, até o Eusébio...um senhor mesmo.

franciscoafonso

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  • 04 de Outubro de 2005, 14:43
Citar

uma vez tinha eu cerca de 14 anos vinha no barco de lisboa para o barreiro, era o coluna treinador da quimigal, sentei-me ao lado do homen e so a  :angel: dele impunha respeito!!! dos videos que vi dele e da maneira como os Kamones falam dele devia de ser realmente um fantastico jogador!!

A proposito do coluna ser treinador da quimigal: Há aqui na rua um Sr. já de idade que sempre foi roupeiro da quimigal, então sabe muitas historias a cerca do balneario... Ele diz que as mais engraçadas sao as do coluna, neste momento so me lembro de duas, mas aqui vai:

Uma vez, A Quimigal estava a jogar com um clube em casa, ao intervalo tavam a levar 4-0, o coluna chega ao balneário e diz: "Tamos a jogar bem, é preciso é continuar assim!  :uglystupid2: (atenção: ele não estava a ser irónico.)

A 2ª foi uma vez que o coluna chegou ao intervalo ao balneario, e começou a dizer: "Sais tu, entras tu, tu tambem sais, entra aquele..." e assim. Chegou ao fim do seu "discurso" os jogadores ficaram a olhar uns para os outros, do genero afinal quem é que sai?! . Conclusão: Ficou tudo na mesma e entrou a mesma equipa  :2funny:

P.S.-> Com isto não quero denegrir a imagem de um, dizem, grande jogador...apenas a sua não vocação para treinador  ;)
« Última modificação: 04 de Outubro de 2005, 14:45 por franciscoafonso »

Bola

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  • 04 de Outubro de 2005, 14:48
É provável. Não foi o único. Curiosamente só dão para treinadores os defesas. Nunca percebi porquê.
Mas Coluna dentro do campo era melhor treinador que alguns no banco. Coisas da vida.

Ferreira29

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  • 18 de Outubro de 2005, 19:05
Só dão para treinadores os defesas porque são eles que vêm durante toda a carreira, os jogos a toda a dimensão... vêm tudo lá de atrás, o que se passa À frente, os avançados não têm essa capacidade!

Um defesa tem de ser muito inteligente, um avançado precisa de instinto!

Saudações Benfiquistas

19DIABO82

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  • 18 de Outubro de 2005, 20:39
COLUNA» "o eterno capitão do benfica"

Netsorcerer

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  • 20 de Outubro de 2005, 22:29
E para quem viu Coluna jogar (Bola, é contigo  :coolsmiley:), é possível comparar a já certeza Manuel Fernandes com o grande capitão?

AGUIA FURIOSA

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  • 20 de Outubro de 2005, 23:17
Acompanhei de miúdo a carreira de Coluna e vi-o jogar inúmeras vezes e sem saudosismos bacocos era demais a jogar à bola. Quando estava no Lavradio ia de barco para LX para ver os treinos e ao fim da tarde regressava para jantar só para os ver.Aqueles eram mesmo campeôes e em tudo. Mais tarde conheci Coluna um cavalheiro e um homem de grande serenidade como eu o via em campo. Agradeço à Luz Leite tê-lo conhecido. Fantástico.

Bola7

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  • 21 de Outubro de 2005, 14:20
E para quem viu Coluna jogar (Bola, é contigo  :coolsmiley:), é possível comparar a já certeza Manuel Fernandes com o grande capitão?
Para já não. O Mfernandes é um miúdo e eu vi o Coluna já homem feito...era a Coluna do Benfica e da Selecção...um senhor em todos os sentidos...um dos percursores do futebol moderno...defendia bem...tinha fisico e tecnica...atacava bem com excelente remate...jogador completo...a discrição do Águia Furiosa define-o perfeitamente...

nikas

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  • 22 de Outubro de 2005, 09:11
O eterno capitão!

GloriosoJMP

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  • 22 de Outubro de 2005, 18:15
para mim foi melhor k o eusebio....so k kem marcava era o eusebio.....

19DIABO82

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  • 22 de Outubro de 2005, 23:14
Coluna (06/08/1935) - Força, classe e liderança

Ingressou no Benfica em 1954, estreando-se, a 5 de Setembro desse ano, juntamente com Costa Pereira, num particular com o FC Porto, realizado no Estádio Nacional.

Iniciou-se na posição de avançado-centro, pela mão de Otto Glória, mas seria no centro do terreno que viria a revelar toda a sua classe, granjeando os elogios da imprensa estrangeira, que lhe reconheceu dotes futebolísticos só ao alcance dos predestinados.

O "Capitão", epíteto por que ainda hoje é carinhosamente tratado, cumpria com personalidade a sua missão de líder, assumindo-se como maestro da equipa.

Coordenava a acção em campo com a sua refinada leitura de jogo e o auxílio de um perfil técnico, táctico e físico exemplares.

Coluna destacava-se na organização do jogo, no controlo da bola, no remate poderoso e colocado e no "pulmão" robusto que lhe permitia intervir em todas as zonas do terreno.

Mestre no drible, no passe, no choque e na finalização, Mário Coluna transformou-se num "monstro sagrado" do desporto rei.

Venceu as duas Taças dos Campeões Europeus conquistadas pelo Benfica, apontando 1 golo em cada, e capitaneou a equipa nas finais europeias de 63, 65 e 68.

Em 1966, integrou a forte Selecção dos "Magriços".

Um ano mais tarde vestiu a braçadeira de capitão ao serviço da selecção do Resto do Mundo, por ocasião da festa de homenagem a Zamora. Pelo Benfica, fez 677 jogos e marcou 150 golos, entre 54/55 e 69/70.

Despediu-se em 08/12/70, num jogo realizado na Luz, que serviu para homenagear a sua carreira e que contou com a presença de jogadores de nomeada internacional (Cruiff, Hurst, Suarez, Bobby Moore, entre outros).

Pela Selecção Nacional somou 57 internacionalizações e marcou 8 golos.