Sport Lisboa e Benfica > Geral

Morreu Bento antiga Glória do Benfica, que Descanse em Paz

<< < (64/87) > >>

expada:
O sentimentos a famalia foi um dos melhores de sempre

Amsterdam:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bento

Amsterdam:
ERA ELE QUE TRANSPORTAVA OS COMPANHEIROS
Foi o pai do famoso «grupo do Barreiro»
Ainda hoje, de lés a lés, neste imenso Portugal, os benfiquistas falam do «grupo do Barreiro». E falam com saudade. É que o «grupo do Barreiro» foi, durante muito anos, a força da alma benfiquista, a força de uma equipa que ganhava títulos e fazia do futebol uma demonstração de arte de bem jogar. Manuel Galrinho Bento assumia-se, naturalmente, como o pai carismático do grupo. E era mesmo como um pai que Diamantino, Chalana, José Luís, Jorge Silva e Cª o viam. Por isso Bento agarrava no volante da sua Ford Transit e ia buscar um a um, calcorreando o Barreiro e arredores, para depois chegarem ao Estádio da Luz a horas do treino. No regresso era a mesma coisa. E foi assim, anos a fio, com o «grupo do Barreiro» a conhecer mudanças e a crescer. Que o digam, já na década de 80, Oliveira, Carlos Manuel, Araújo, Frederico, Nunes, Jorge Martins... Esse grupo fez história e resistiu, inclusive, a muita má-língua. Bento, até nisso, era o espelho de uma mística ímpar. Basta, apenas, recordar como defendia as balizas do Benfica e como sempre mostrou ser um dos melhores guarda-redes portugueses de todos os tempos.

Diamantino, ainda menino e moço, foi um dos que alinhou nas viagens Barreiro-Lisboa, com Bento ao volante. «Ainda ontem à noite (4.ª-feira) brinquei com ele, o Toni e o Rui Águas. E falava de um guarda-redes que passou pelo Benfica. Meio a sério, meio a brincar, mas mais a sério do que a brincar dizia-lhes que valia mais uma mão do Bento que o corpo todo do Preud'homme. Estava a falar do Bento como desportista, porque do Bento, homem, quero guardar as recordações daqueles anos em que viajávamos na carrinha, com as caixas de peixe lá atrás, da aventura constante que era ir para o Estádio da Luz. Tinha o Bento à volta de 28 anos de idade e eu, o Chalana, o José Luís e o Jorge Silva, para aí 17/18 anos. Foi assim até por volta de 1990. São imensas as recordações de um grande grupo. O Bento era o responsável por tudo, até pelo mau feitio. E quando ele parava a carrinha sobre a Ponte 25 de Abril e ameaçava que punha todos na rua! Era um brincalhão. Ontem foi uma noite de recordações e no dia seguinte esta notícia! Como quer que me sinta?!» Palavras de Diamantino, quase em lágrimas. Outro menino do grupo, o genial Chalana, não escondia o que lhe ia na alma: «Ainda estou em estado de choque. Nem sei o que dizer. Foi o meu primeiro grande amigo no mundo do futebol. Ele fez muita força para eu ir para o Benfica. O Sporting também estava interessado, mas ele foi um dia a minha casa, acompanhado do senhor Aguiar, um homem que investiu muito dinheiro no Benfica, mais o chefe do departamento de futebol juvenil da altura, o senhor Ilídio Fulgêncio, e convenceram os meus pais a deixar-me ir para o Benfica. Nessa altura era ele que me dava boleia todos os dias desde o Lavradio até ao Estádio da Luz. É uma perda tremenda para o futebol português, foi um grande campeão... fizemos muitos jogos juntos, comemorámos muitos títulos... Ainda na quarta-feira tivemos um dia tão alegre, no aniversário do Benfica, e ontem a tristeza tomou conta de nós com a notícia da morte dele...»

O «grupo do Barreiro» só existe, cada vez mais, no pensamento. Agora, com a morte de Bento, perdeu o seu pai, o seu grande mentor, aquele que respeitosamente sempre foi comandante de uma mão cheia de grandes jogadores da bola. Que hoje choram por um grande amigo. CARLOS RIAS

Amsterdam:
BENTO MORREU ONTEM, AO PRINCÍPIO DA TARDE, QUANDO NA VÉSPERA, À NOITE, MUITO TINHA SORRIDO NA FESTA DO SEU BENFICA
Foste lá despedir-te dos amigos, Manel?
Por JOÃO BONZINHO

Ninguém quer acreditar. Como é possível que a morte o tenha levado, assim de repente, umas horas depois de uma noite de encontros e reencontros, abraços e piadas, histórias recordadas e contadas? Como é possível que às duas da manhã o tenhamos visto tão bem disposto, tão animado, tão entusiasmado com a vida e com os amigos e poucas horas depois tenhamos levado com tão violento soco no estômago. Morreu o Bento. Morreu quem? O Manel? O Galrinho? Não é possível. Ainda há bocado o vimos a rir...

Manuel Galrinho Bento, 58 anos, já não está entre nós. É uma notícia dura como todas as notícias tristes e duras, mas esta é ainda mais dura de dar ou receber para todos os que ainda na noite de quarta-feira lhe deram um abraço. Mais gordo mas com o seu sorriso de sempre, muito se divertiu o Manuel Bento na festa de aniversário do Benfica, desfiando memórias e recordando alegres instantes da vida. Encontrou gente que não via há anos e reencontrou amigos de muitos anos, deu umas valentes palmadas nas costas de uns e uns sentidos abraços a outros. Sorriu e riu e até confessou que nunca antes tinha estado com tantos amigos do Benfica ao mesmo tempo. Apareceu e pareceu feliz e tão depressa afinal desapareceu. Como se tivesse ido lá despedir-se dos amigos.

Toda a gente o viu bem-disposto

Manuel Galrinho Bento estava com 58 anos. Conservava o bigode que o acompanhou nos maiores momentos da sua vida, conservava o olhar meio desconfiado e o sorriso sempre semiaberto. Estava naturalmente mais gordo, mas na noite de festa do Benfica também estava elegante no seu fato escuro de riscas, camisa branca e gravata de um rosa suave, discreto e fino. No Casino Estoril, brincou com os jogadores do seu tempo e motivou os jogadores deste tempo. Crítico mas brincalhão. Sempre brincalhão.

Tinha sofrido um AVC aqui há uns largos meses mas parecia tê-lo vencido definitivamente. «Estou melhor que nunca», foi respondendo. Parecia ter vencido também o vício do tabaco. Pelo menos na noite de quarta-feira ninguém o viu fumar ou beber na festa do Benfica. Mas toda a gente o viu bem-disposto. E a rir. Muito.

Maldito coração

Manuel Galrinho Bento morreu ontem. Contam familiares que começou a sentir-se mal a meio da manhã e que não quis ir ao médico. Quando às duas e meia da tarde deu, por fim, entrada no Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, já ia sem vida. Paragem cardíaca, explicou o director-geral do serviço de urgência, dr. Janeiro Neves. O coração de Bento foi ao Casino Estoril despedir-se dos amigos e resolveu parar de bater, ontem. Maldito coração que lhe tirou o sorriso e o entusiasmo e nos chocou, a todos, com tão dura realidade. Morreu o Bento. Morreu quem? O Manel Bento? Não é possível...

Uma vida no Benfica

Manuel Galrinho Bento nasceu na Golegã a 25 de Junho de 1948. Foi jogador de futebol uma vida, sénior mais de vinte anos, e ao fim de mais de vinte anos considerado um dos maiores jogadores do futebol português, um dos maiores guarda-redes de todos os tempos, uma figura do futebol mundial. Viveu um momento de particular significado quando foi homenageado na Golegã, sua terra natal, em Novembro de 1989, seis meses antes de se despedir definitivamente, no Benfica, de uma longa e gloriosa carreira. Esteve 18 temporadas na Luz mas nas últimas quatro quase não jogou, marcado pela perna partida em 86, em pleno Mundial do México. Fez 464 jogos oficiais pelos encarnados (329 no campeonato, 64 na Taça de Portugal, 12 na Supertaça e 59 nas competições europeias), foi campeão nacional oito vezes, ganhou cinco Taças, duas Supertaças, foi finalista da Taça UEFA (82/83), 63 vezes internacional, 23 das quais capitão de equipa e fez ainda pela Selecção Nacional 28 jogos consecutivos. Ainda hoje é o segundo guarda-redes mais internacional, atrás de Vítor Baía (80) e à frente de Ricardo (62), o actual titular.

No Benfica, Bento tornou-se ainda no guarda-redes mais utilizado de sempre em provas europeias: 59 jogos contra 44 de José Henrique.

Marcou também o futebol português com o sensacional recorde de 1299 minutos sem sofrer golos em todas as provas. O fim do recorde chegou no jogo com o Malmoe (derrota por 0-1) na 1.ª mão da 2.ª eliminatória da Taça das Taças, a 22 de Outubro de 1980. «Bento é humano, como todos os jogadores», disse na altura Magnus Andersson, o autor do golo que quebrou a inviolabilidade de Bento. Mas ainda hoje mantém o segundo melhor registo de imbatibilidade no campeonato português: 1080 minutos em 1980, atrás dos 1192 minutos de Vítor Baía, conseguidos em 2004.

Muito antes do tempo...

Manuel Galrinho Bento manteve-se nos últimos anos ligado ao Benfica e era actualmente o responsável pela formação de guarda-redes das escolinhas da Luz. A baliza sempre foi, afinal, a sua paixão. Bento morreu, subitamente ontem, traído pelo coração. Custa sempre aceitar a morte, mas custa ainda mais quando ela nos leva alguém sem pré-aviso, sem nada combinado e muito antes do tempo.

Casado com Gertrudes Maria, deixa dois filhos, Rogério, de 34 anos, e Miguel, de 26, a quem A BOLA endereça (como à restante família) as mais sentidas condolências.

O corpo de Manuel Galrinho Bento estará a partir da manhã de hoje, em câmara ardente, na Igreja Nossa Senhora do Rosário, perto de sua casa, no Barreiro, seguindo amanhã, pelas 19 horas, para o Cemitério dos Olivais, onde será cremado, cumprindo-se assim a sua última vontade.

Morreu o Bento e é dura essa realidade para todos nós, para o Benfica e para o futebol português. Morreu o Bento e ninguém quer acreditar.

Amsterdam:
UM GUARDA-REDES FEITO DE DEZ POR CENTO DE INSPIRAÇÃO E NOVENTA DE TRANSPIRAÇÃO
A lenda de Manuel Bentochin
Por José Manuel Delgado

Ontem, Manuel Galrinho Bento, 58 anos, juntou-se na eternidade a João Azevedo, Carlos Gomes, Costa Pereira, Vítor Damas. A baliza do Céu recebeu um reforço de peso e nós cá na Terra ficámos mais pobres... Nesta hora de pesar, vamos mergulhar na carreira de Bento, recordando alguns traços da sua personalidade e, claro está, vários momentos inolvidáveis...

Sejamos claros e assumamos, desde já, que esta não vai ser uma peça jornalística normal, feita com distância e desprendimento. Privei com Manuel Bento durante seis anos no Benfica, vi-o jogar centenas de vezes e testemunhei, nos treinos, alguns bons milhares de defesas à Bento; além disso, fomos inúmeras vezes companheiros de quarto. Mesmo assim, na hora de tristeza pela partida precoce de alguém que era, simultaneamente, amigo e ídolo, creio ter condições para partilhar com os leitores de A BOLA algumas impressões sobre a carreira de Manuel Galrinho Bento, recordando os momentos mais marcantes de um percurso feito sobretudo de muito trabalho. E traçar o perfil psicológico/profissional de Bento é um bom ponto de partida.

A natureza não foi pródiga quando apetrechou Manuel Bento para a defesa das balizas. Hoje, certamente, se um pequenote como Bento se candidatasse ao posto de guarda-redes seria imediatamente corrido pelos experts do treino. Mas quando o homem da Golegã surgiu a dar os primeiros passos numa carreira que seria brilhante, ainda estavam vivas as memórias de João Azevedo, um gigante de palmo e meio, e Bento teve possibilidade de mostrar o que valia. Costumávamos brincar com a questão da altura, dizendo que o mais importante não era ser alto mas sim chegar lá acima. E Bento quando via um guarda-redes calmeirão e desajeitado tinha uma expressão assassina sempre pronta na ponta da língua: «É grande mas não é grande coisa...»

Um caso de amor

Manuel Bento e o Benfica foram um caso de amor. Primeiro, os adeptos encarnados apaixonaram-se pelo pequeno guarda-redes do Barreirense que vergou o Sporting em Alvalade, fazendo o título pender para os lados da Luz, em 1970/71. Mais tarde, um acaso acabou por tornar inevitável o ingresso de Bento na casa encarnada. Vivia-se, no início da década de 70, a era das grandes festas de homenagem, e Mário Coluna, o Monstro Sagrado, trouxe a Lisboa, na hora da despedida, as maiores figuras do futebol mundial: Bobby Moore, Cruyff, Luisito Suarez, Geoff Hurst e Uwe Seeler prestaram vassalagem, na Luz, ao capitão dos Magriços. Porém, uma estrela foi impedida de viajar, Lev Yaschin, a Aranha Negra soviética, melhor guarda-redes do Mundo. E quem foi, nesse dia feriado de 8 de Dezembro de 1970, o substituto de Yaschin? Manuel Bento, 22 anos, guarda-redes do Barreirense, que agarrou a oportunidade com as duas mãos e saiu da Luz alcunhado de Bentochin...

Em 1972/73, Manuel Bento ingressa no Benfica e não consegue imediatamente a titularidade. José Henriques, dono da baliza nacional manda nas redes encarnadas e recolhe a confiança de Jimmy Hagan e Bento tem de esperar. Trabalhando, trabalhando, trabalhando... A pouco e pouco a distância entre os dois guarda-redes foi diminuindo e em 1976/77 Manuel Bento ganha a titularidade. Que não mais perderia, até à lesão no México, em 1986, que praticamente colocou ponto final na sua carreira.

A explicação dos números

Manuel Galrinho Bento fez 464 jogos oficiais pelo Benfica, ajudando o clube da Luz a vencer 16 títulos — oito Campeonatos, cinco Taças de Portugal, duas Supertaças — assumindo-se como dono e senhor das redes durante dez anos a fio. Milagre? Não. Trabalho, muito trabalho. Todos os dias, com chuva ou com sol, mais ou menos rabugento, consoante as manhãs (os jogadores mais novos gostavam de brincar com ele e às vezes esticavam-se um pouco, mas Bento acabava por mostrar uma humildade cativante na forma como entrava no jogo...) o guarda-redes número um do Benfica fazia ponto de honra em que ninguém se aplicasse mais do que ele nos treinos. Todos os dias, com sol ou com chuva, Bento dava o litro e lutava pela titularidade como um principiante. E mesmo lesionado tinha por hábito não deixar de se treinar, mostrando um espírito de sacrifício e uma vontade em não perder o lugar absolutamente fora do vulgar. É esta e apenas esta a explicação para tão longo reinado nas redes do Benfica. Bento, que não era, como acontecia por exemplo com Damas, um predestinado para o lugar, ganhou o estatuto de intocável seguindo a fórmula dez por cento de inspiração e noventa de transpiração. Grande profissional. Insuperável profissional. E que saudades das lutas de Bento com Eusébio nos pontapés de fora da área, ou das birras monumentais que fazia quando os outros guarda-redes (eu, o Silvino ou o Neno) decidiam arreliá-lo optando por fazer apenas remates venenosos (os chamados cortes) de fora da área.

Os grandes dias e os outros

A maior exibição de Manuel Galrinho Bento aconteceu em Hampden Park, em Glasgow, a 15 de Outubro de 1980. Escócia e Portugal empataram a zero e o que Bento defendeu naquela noite fria não tem descrição, encontrando apenas paralelo na exibição de Vítor Damas em Wembley num Inglaterra, 0-Portugal, 0 a 20 de Novembro de 1974. Ainda na Selecção Nacional, outros três jogos de Bento merecem destaque: na meia-final do Europeu de 1984 (França, 3-Portugal, 2, após prolongamento) o keeper da Golegã foi um gigante. No ano seguinte, a 16 de Outubro, Bento teve mãos de ferro para garantir a vitória de Portugal em Estugarda que carimbou o passaporte da turma das quinas para o Mundial do México. Finalmente, no 63.º e último jogo pela equipa de todos nós, Bento foi figura de proa na vitória de Portugal sobre a Inglaterra (3 de Junho de 1986, Monterrey) no jogo de abertura do Mundial do México.

No Benfica, as grandes exibições de Bento foram mais que muitas. Lembrar o herói de Moscovo, a 29 de Setembro de 1977, quando defendeu uma grande penalidade e marcou outra no desempate com o Torpedo na Taça dos Campeões Europeus; o gigante da cidade eterna, na vitória sobre a Roma por 2-1 no Estádio Olímpico, a 3 de Março de 1983; ou o defende-penalties das Antas em 82/83, ao parar uma grande penalidade do bibota Fernando Gomes que pode ter valido o título aos encarnados; tudo isto é falar de Manuel Galrinho Bento, para muitos o melhor guarda-redes português de sempre.

Também polémico

Mas Bento também foi polémico. Quando foi expulso em Alvalade, em 1981/82, depois de se ter pegado com Manuel Fernandes, quando se queixava dos holofotes de Anfield Road, ou do óleo nas luvas em Craiova; ou quando teve aquela noite negra, a 21 de Março de 84, na derrota por 4-1 na Luz às mãos do Liverpool de Dalglish e Souness. Porém, quatro dias depois, quando entrou em campo para aquecer, na recepção ao Penafiel (8-0), o Terceiro Anel recebeu-o com uma ovação estrondosa. Porque Bento não era apenas um jogador. Era muito mais do que isso. Era um ícone e um ídolo. Um mito. E todos os mitos são, como se sabe, eternos.

Navegação

[0] Índice de mensagens

[#] Página seguinte

[*] Página anterior

Ir para versão completa
Sitemap