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Kurt Cobain 10

Querem o treinador ou a ideia?


O Benfica está a avançar para Roger Schmidt. Ao fazê-lo, quer o treinador ou a ideia de futebol que ele defende? É que esta pode levar a uma revolução e convém o clube estar preparado para isso.

Roger Schmidt está na calha para ser treinador do Benfica em 2022/23 e por estes dias já toda a gente viu, ouviu ou leu referências ao futebol vertiginoso e pressionante do técnico alemão, apresentado como panaceia para todos os problemas do clube. Vejo em Schmidt uma coisa que nunca vi nos antecessores estrangeiros escolhidos por Rui Costa, ainda nos seus tempos de diretor desportivo de Luís Filipe Vieira – uma ideia. Mas é preciso que na Luz percebam que essa ideia traz a conta agrafada e que, para terem sucesso, têm de pôr tudo em causa, sem tabus. Porque essa teoria segundo a qual um bom treinador tem de ser capaz de pegar em qualquer grupo de jogadores já foi chão que deu uvas. É evidente que qualquer treinador pode pegar em qualquer plantel, mas acima de um determinado nível todos eles são mais facilmente potenciáveis se puderem constituir o seu próprio grupo, um grupo que sirva como uma luva às suas ideias. Acreditar no contrário é negar a importância de um treinador numa equipa de futebol.

Já ontem, brevemente, no Futebol de Verdade (que pode ver aqui), manifestei as minhas mais sérias dúvidas acerca do timing "escolhido" para a fuga de informação. Sei que estas coisas nem sempre são controláveis e até que a revelação de que Nélson Veríssimo não seguirá pode ter na equipa efeitos muito diversos. Depende de cada grupo – tanto pode levar os jogadores a desmobilizar em vésperas de um jogo fundamental, em Braga, na luta pelo segundo lugar, como pode levá-los a um extra de empenho e concentração para permitirem ao treinador sair em altas... –, mas o mais habitual mesmo é que os efeitos sejam nocivos. Mas admitamos que não houve escolha e que o facto de o nome de Schmidt ter saltado para o topo da atualidade se deveu a fatores incontroláveis pelo Benfica. Seria inteligente mudar de rumo só porque, do lado de lá, alguém deu com a língua nos dentes? Já vi acontecer, mas creio que não. Se o que o Benfica procura é uma ideia e acha que ela está personificada naquele treinador, então tem de o assumir, deixando de parte esses pequenos percalços. E tem de o assumir daqui para a frente, mesmo se o treinador olhar para o plantel e chegar à conclusão de que precisa de o reformular de forma radical.

Já lá vai o tempo em que, em Portugal, se contratavam treinadores estrangeiros só porque vinham de uma determinada escola, porque tinham algum currículo ou, mais recentemente – e mais frivolamente também – porque tinham prestígio ou a chamada "granda pinta". Nos primeiros tempos do nosso futebol, contratavam-se húngaros, porque a escola húngara dava cartas. A informação não circulava como agora e quando se contratava nem se sabia muito bem quem se estava a contratar. Só que era húngaro. Como depois se fez com os ingleses ou os brasileiros. Foram campeões em Portugal treinadores ingleses com zero trabalho feito no seu país – como Jimmy Hagan ou John Mortimore –, da mesma forma que por cá fracassaram técnicos brasileiros de elevado prestígio, como Aymoré Moreira, campeão do Mundo na Copa de 1962.

A abertura da porta à contratação de treinadores estrangeiros que se impunham por terem uma ideia começou em 1982, com a chegada de Sven-Goran Eriksson ao Benfica, mas a prova de que a coisa foi feita às cegas – e por acaso calhou bem – encontrámo-la no momento em que o clube foi buscar o dinamarquês Ebbe Skovdahl para lhe calçar os sapatos, em 1987. Também era nórdico e louro e as semelhanças acabavam aí.


Os treinadores estrangeiros que passaram pelo Benfica desde Eriksson não foram exemplo de sucesso. Só Giovanni Trapattoni foi campeão (em 2004/05), ainda que tenha sido o pior campeão dos últimos 50 anos, com apenas 63 por cento dos pontos conquistados. Mas esse fracasso quase geral teve a ver com as circunstâncias em que foram contratados: de todos, só um chegou em nome de uma ideia, sendo que quando os dirigentes de tal se aperceberam viram que a ideia não lhes agradava e despacharam-no ainda mais rapidamente do que o tinham contratado. Aconteceu com Tomislav Ivic, em 1992, com o episódio da redução da largura do relvado ordenada pelo croata como exemplo paradigmático desta contradição entre um treinador que pensa e dirigentes que acreditam que pensam melhor do que ele – o que, no limite, levará qualquer um de nós a perguntar por que razão contratam treinadores, então.

O que o caso-Ivic provocou – e a contratação de Artur Jorge, que fracassou na reformatação do plantel que quis fazer, agravou – foi a abdicação de contratar em nome de ideias. Greame Souness, Jupp Heynckes e José António Camacho foram todos contratados em nome de um passado e de um currículo que se esperava pudesse ajudar o Benfica a frequentar os fóruns certos no plano internacional – que ideias ainda hoje não se lhes conhecem muitas. Ronald Koeman veio como representante de uma escola holandesa de que, contudo, nunca foi dos mais lídimos representantes. E Quique Flores chegou em nome da tal "granda pinta", de um futebol champagne que estava em voga em Espanha por aqueles dias e que por cá se olhava como sinal de modernidade – Quique era moderno em tudo aquilo que Camacho era antigo. A inversão de paradigma, o Benfica fê-la com Jorge Jesus. E por isso voltou a ganhar, a partir de 2009 – tinha sido uma vez campeão de 1995 a 2009, ganhou seis vezes a Liga nos doze anos que se seguiram.

Sei que nestas alturas se abrem as portas a muitos abusos. A partir do momento em que entra num clube e quer impor as suas ideias, um treinador é quase visto como um inimigo, fazendo dos dirigentes os guardiões da pureza do emblema, os travões que lá estão para o impedir de abrir a porta a um séquito de empresários amigos, interessados em encher os bolsos à conta das reformas necessárias. E é isso que o Benfica tem de ter muito claro antes de avançar para a contratação de Schmidt. O futebol que o treinador alemão professa pede muita gente na frente, pressão alta e intensa, abuso do passe vertical, um par de médios de grande rigor posicional, linha defensiva a jogar alto e a controlar a profundidade, capacidade de sair a jogar por trás, com intervenção do guarda-redes. É garantia de sucesso? Não. É um passo, mas só por si não garante nada, como está a ver-se com Ralf Rangnick no Manchester United, de resto. Em qualquer clube, a aplicação destas ideias pode levar a que tenha de se fazer uma razia no plantel. No caso do Benfica, mesmo tendo em conta o elevado potencial de alguns jovens da equipa B, implicará provavelmente que seja necessário contratar muito, também. Antes de avançarem, os dirigentes do Benfica têm de respirar fundo e perguntar a si mesmos: "Estamos preparados para isto ou, na verdade, vamos contratar um treinador mas achamos que sabemos mais do que ele?"

by tadeia

concordo em alguns pontos.

josel

#85367
Gosto muito do perfil do Schmidt.

Tem um estilo de futebol que me agrada particularmente. Joga sempre com um duplo pivot e com 2 centrais atrás. Quando a bola está de um lado, projeto o ala desse lado, e o do outro lado recua um pouco para dar estabilidade, algo que tem falhado imenso no Benfica nos últimos tempos (como já disse no tópico do Weigl) em que invariavelmente acaba sempre a defender contra ataques com 3.

Também não anda com floreados e não se importa de jogar mais direto em jogos que passa mais dificuldades (o Yaremchuk iria benificiar imenso com o Schmidt, arrisco-me a dizer).

Acima de tudo, se o Benfica contratar este tipo, que seja um plano a 3/4 anos, pois este plantel não se vai refazer em 1 ano. Reaproveitar o Tino, contratar um médio 8 melhor e possível (Mady Camara, p.ex.), um GR e um DE deverão ser prioridades. Contratar bem e com critério, e vejo o Roger Schmidt a ser um sucesso por cá. Agora se o forem buscar só para dizer que tentaram algo mas depois não lhe darem o que precisa...seria ridículo.

TFFS

#85368
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso

Chairman

Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Imaginar os nossos mancos a treinar isto  :2funny:

The_Riggs

https://www.record.pt/futebol/detalhe/fifa-aprova-novas-regras-nos-emprestimos-saiba-o-que-muda-a-partir-do-verao?ref=HP_DestaquesPrincipais

Mais uma razão porque o novo treinador devia já estar a trabalhar na próxima época ( independentemente de ser apresentado ou não.

Mais uma medida da FIFA que acaba por nos favorecer , dado que faz uma coisa que já devia existir como regra no clube.

Stigmat

Citação de: Chairman em 31 de Março de 2022, 18:04
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Imaginar os nossos mancos a treinar isto  :2funny:

O João Mario ja deve andar a procura de clube.

Flirt4ever

Citação de: MMeira em 31 de Março de 2022, 17:40
Citação de: Carminati em 31 de Março de 2022, 17:38
Citação de: MMeira em 31 de Março de 2022, 17:36
Citação de: overmarte em 31 de Março de 2022, 17:10
Quem decretou a morte do 4-4-2? ou quem não tem Klopp caça com Schmidt, são títulos possíveis para o futuro tópico do Schmidt no geral.

Eu gosto do Schmidt, tem uma boa dose de louco vanguardista mesclado com a sobriedade germânica. E marca a rutura com o treinador português resultadista que joga em função do adversário ou que ainda tem um modelo influenciado pelo boom da cultura de posse da última década.

Poderá marcar-se uma nova era no futebol português e fazer a transição desses dois modelos para um modelo asfixiante com e sem bola, qb suicida e que traga de volta a eletricidade e o espírito hiper-ofensivo aos relvados!

Quer ver a equipa mal perca a bola a lançar a teia e cair que nem lobos em cima do adversário, e mal a recupera com um futebol vertical oleado a meter meia equipa na grande área adversária.

Confesso-me entusiasmado com a vinda dum treinador como há muito não estava.

Pelas reviews que fui lendo, uma das maiores críticas que lhe apontam no neerlandão é manter-se irredutível no seu duplo pivot de destruidores mesmo quando defronta equipas do fundo de tabela.
No Bayer04 lembro-me do amasso que nos deu na fase de grupos da Champions e lembro-me das abordagens de quase equipa partida em dois blocos 4-0-6, com a bola a passar pelo meio campo o menor nº de vezes possível.

Estou ansioso por ver este modelo de jogo de martelos pneumáticos e guitarras em full blast na Luz.

Estamos novamente na vanguarda do futebol em Portugal, meus amigos.
Temos artífice para isso. Finalmente.

Agora é arranjar uma direção.

E jogadores para tocar esta música.


Entao terá que operar uma autentica revolucao no plantel, porque nao é com weigl, jm, everton, etc. que vai "cair que nem lobos em cima do adversario"....

Pois é que para uma pressao alta e intensa precisamos de mudar os dois medios e os dois centrais.

Obvio... E tb n é com anoes como grimaldo que lá vamos. Têm que ser jogadores de fibra, agressivos, exposivos, rapidos. O que menos temos  :estrelas:
Já ninguém suporta o Grimaldo a levar um encosto de ombro de voar para fora do campo....

JustMe

Citação de: Kurt Cobain 10 em 31 de Março de 2022, 17:55
Spoiler
Querem o treinador ou a ideia?


O Benfica está a avançar para Roger Schmidt. Ao fazê-lo, quer o treinador ou a ideia de futebol que ele defende? É que esta pode levar a uma revolução e convém o clube estar preparado para isso.

Roger Schmidt está na calha para ser treinador do Benfica em 2022/23 e por estes dias já toda a gente viu, ouviu ou leu referências ao futebol vertiginoso e pressionante do técnico alemão, apresentado como panaceia para todos os problemas do clube. Vejo em Schmidt uma coisa que nunca vi nos antecessores estrangeiros escolhidos por Rui Costa, ainda nos seus tempos de diretor desportivo de Luís Filipe Vieira – uma ideia. Mas é preciso que na Luz percebam que essa ideia traz a conta agrafada e que, para terem sucesso, têm de pôr tudo em causa, sem tabus. Porque essa teoria segundo a qual um bom treinador tem de ser capaz de pegar em qualquer grupo de jogadores já foi chão que deu uvas. É evidente que qualquer treinador pode pegar em qualquer plantel, mas acima de um determinado nível todos eles são mais facilmente potenciáveis se puderem constituir o seu próprio grupo, um grupo que sirva como uma luva às suas ideias. Acreditar no contrário é negar a importância de um treinador numa equipa de futebol.

Já ontem, brevemente, no Futebol de Verdade (que pode ver aqui), manifestei as minhas mais sérias dúvidas acerca do timing "escolhido" para a fuga de informação. Sei que estas coisas nem sempre são controláveis e até que a revelação de que Nélson Veríssimo não seguirá pode ter na equipa efeitos muito diversos. Depende de cada grupo – tanto pode levar os jogadores a desmobilizar em vésperas de um jogo fundamental, em Braga, na luta pelo segundo lugar, como pode levá-los a um extra de empenho e concentração para permitirem ao treinador sair em altas... –, mas o mais habitual mesmo é que os efeitos sejam nocivos. Mas admitamos que não houve escolha e que o facto de o nome de Schmidt ter saltado para o topo da atualidade se deveu a fatores incontroláveis pelo Benfica. Seria inteligente mudar de rumo só porque, do lado de lá, alguém deu com a língua nos dentes? Já vi acontecer, mas creio que não. Se o que o Benfica procura é uma ideia e acha que ela está personificada naquele treinador, então tem de o assumir, deixando de parte esses pequenos percalços. E tem de o assumir daqui para a frente, mesmo se o treinador olhar para o plantel e chegar à conclusão de que precisa de o reformular de forma radical.

Já lá vai o tempo em que, em Portugal, se contratavam treinadores estrangeiros só porque vinham de uma determinada escola, porque tinham algum currículo ou, mais recentemente – e mais frivolamente também – porque tinham prestígio ou a chamada "granda pinta". Nos primeiros tempos do nosso futebol, contratavam-se húngaros, porque a escola húngara dava cartas. A informação não circulava como agora e quando se contratava nem se sabia muito bem quem se estava a contratar. Só que era húngaro. Como depois se fez com os ingleses ou os brasileiros. Foram campeões em Portugal treinadores ingleses com zero trabalho feito no seu país – como Jimmy Hagan ou John Mortimore –, da mesma forma que por cá fracassaram técnicos brasileiros de elevado prestígio, como Aymoré Moreira, campeão do Mundo na Copa de 1962.

A abertura da porta à contratação de treinadores estrangeiros que se impunham por terem uma ideia começou em 1982, com a chegada de Sven-Goran Eriksson ao Benfica, mas a prova de que a coisa foi feita às cegas – e por acaso calhou bem – encontrámo-la no momento em que o clube foi buscar o dinamarquês Ebbe Skovdahl para lhe calçar os sapatos, em 1987. Também era nórdico e louro e as semelhanças acabavam aí.


Os treinadores estrangeiros que passaram pelo Benfica desde Eriksson não foram exemplo de sucesso. Só Giovanni Trapattoni foi campeão (em 2004/05), ainda que tenha sido o pior campeão dos últimos 50 anos, com apenas 63 por cento dos pontos conquistados. Mas esse fracasso quase geral teve a ver com as circunstâncias em que foram contratados: de todos, só um chegou em nome de uma ideia, sendo que quando os dirigentes de tal se aperceberam viram que a ideia não lhes agradava e despacharam-no ainda mais rapidamente do que o tinham contratado. Aconteceu com Tomislav Ivic, em 1992, com o episódio da redução da largura do relvado ordenada pelo croata como exemplo paradigmático desta contradição entre um treinador que pensa e dirigentes que acreditam que pensam melhor do que ele – o que, no limite, levará qualquer um de nós a perguntar por que razão contratam treinadores, então.

O que o caso-Ivic provocou – e a contratação de Artur Jorge, que fracassou na reformatação do plantel que quis fazer, agravou – foi a abdicação de contratar em nome de ideias. Greame Souness, Jupp Heynckes e José António Camacho foram todos contratados em nome de um passado e de um currículo que se esperava pudesse ajudar o Benfica a frequentar os fóruns certos no plano internacional – que ideias ainda hoje não se lhes conhecem muitas. Ronald Koeman veio como representante de uma escola holandesa de que, contudo, nunca foi dos mais lídimos representantes. E Quique Flores chegou em nome da tal "granda pinta", de um futebol champagne que estava em voga em Espanha por aqueles dias e que por cá se olhava como sinal de modernidade – Quique era moderno em tudo aquilo que Camacho era antigo. A inversão de paradigma, o Benfica fê-la com Jorge Jesus. E por isso voltou a ganhar, a partir de 2009 – tinha sido uma vez campeão de 1995 a 2009, ganhou seis vezes a Liga nos doze anos que se seguiram.

Sei que nestas alturas se abrem as portas a muitos abusos. A partir do momento em que entra num clube e quer impor as suas ideias, um treinador é quase visto como um inimigo, fazendo dos dirigentes os guardiões da pureza do emblema, os travões que lá estão para o impedir de abrir a porta a um séquito de empresários amigos, interessados em encher os bolsos à conta das reformas necessárias. E é isso que o Benfica tem de ter muito claro antes de avançar para a contratação de Schmidt. O futebol que o treinador alemão professa pede muita gente na frente, pressão alta e intensa, abuso do passe vertical, um par de médios de grande rigor posicional, linha defensiva a jogar alto e a controlar a profundidade, capacidade de sair a jogar por trás, com intervenção do guarda-redes. É garantia de sucesso? Não. É um passo, mas só por si não garante nada, como está a ver-se com Ralf Rangnick no Manchester United, de resto. Em qualquer clube, a aplicação destas ideias pode levar a que tenha de se fazer uma razia no plantel. No caso do Benfica, mesmo tendo em conta o elevado potencial de alguns jovens da equipa B, implicará provavelmente que seja necessário contratar muito, também. Antes de avançarem, os dirigentes do Benfica têm de respirar fundo e perguntar a si mesmos: "Estamos preparados para isto ou, na verdade, vamos contratar um treinador mas achamos que sabemos mais do que ele?"

by tadeia
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concordo em alguns pontos.


Deve ser a primeira vez na vida que concordo com praticamente tudo o que o Tadeia escreve. Devo estar com febre.

TFFS

Citação de: Kurt Cobain 10 em 31 de Março de 2022, 17:55
Querem o treinador ou a ideia?


O Benfica está a avançar para Roger Schmidt. Ao fazê-lo, quer o treinador ou a ideia de futebol que ele defende? É que esta pode levar a uma revolução e convém o clube estar preparado para isso.

Roger Schmidt está na calha para ser treinador do Benfica em 2022/23 e por estes dias já toda a gente viu, ouviu ou leu referências ao futebol vertiginoso e pressionante do técnico alemão, apresentado como panaceia para todos os problemas do clube. Vejo em Schmidt uma coisa que nunca vi nos antecessores estrangeiros escolhidos por Rui Costa, ainda nos seus tempos de diretor desportivo de Luís Filipe Vieira – uma ideia. Mas é preciso que na Luz percebam que essa ideia traz a conta agrafada e que, para terem sucesso, têm de pôr tudo em causa, sem tabus. Porque essa teoria segundo a qual um bom treinador tem de ser capaz de pegar em qualquer grupo de jogadores já foi chão que deu uvas. É evidente que qualquer treinador pode pegar em qualquer plantel, mas acima de um determinado nível todos eles são mais facilmente potenciáveis se puderem constituir o seu próprio grupo, um grupo que sirva como uma luva às suas ideias. Acreditar no contrário é negar a importância de um treinador numa equipa de futebol.

Já ontem, brevemente, no Futebol de Verdade (que pode ver aqui), manifestei as minhas mais sérias dúvidas acerca do timing "escolhido" para a fuga de informação. Sei que estas coisas nem sempre são controláveis e até que a revelação de que Nélson Veríssimo não seguirá pode ter na equipa efeitos muito diversos. Depende de cada grupo – tanto pode levar os jogadores a desmobilizar em vésperas de um jogo fundamental, em Braga, na luta pelo segundo lugar, como pode levá-los a um extra de empenho e concentração para permitirem ao treinador sair em altas... –, mas o mais habitual mesmo é que os efeitos sejam nocivos. Mas admitamos que não houve escolha e que o facto de o nome de Schmidt ter saltado para o topo da atualidade se deveu a fatores incontroláveis pelo Benfica. Seria inteligente mudar de rumo só porque, do lado de lá, alguém deu com a língua nos dentes? Já vi acontecer, mas creio que não. Se o que o Benfica procura é uma ideia e acha que ela está personificada naquele treinador, então tem de o assumir, deixando de parte esses pequenos percalços. E tem de o assumir daqui para a frente, mesmo se o treinador olhar para o plantel e chegar à conclusão de que precisa de o reformular de forma radical.

Já lá vai o tempo em que, em Portugal, se contratavam treinadores estrangeiros só porque vinham de uma determinada escola, porque tinham algum currículo ou, mais recentemente – e mais frivolamente também – porque tinham prestígio ou a chamada "granda pinta". Nos primeiros tempos do nosso futebol, contratavam-se húngaros, porque a escola húngara dava cartas. A informação não circulava como agora e quando se contratava nem se sabia muito bem quem se estava a contratar. Só que era húngaro. Como depois se fez com os ingleses ou os brasileiros. Foram campeões em Portugal treinadores ingleses com zero trabalho feito no seu país – como Jimmy Hagan ou John Mortimore –, da mesma forma que por cá fracassaram técnicos brasileiros de elevado prestígio, como Aymoré Moreira, campeão do Mundo na Copa de 1962.

A abertura da porta à contratação de treinadores estrangeiros que se impunham por terem uma ideia começou em 1982, com a chegada de Sven-Goran Eriksson ao Benfica, mas a prova de que a coisa foi feita às cegas – e por acaso calhou bem – encontrámo-la no momento em que o clube foi buscar o dinamarquês Ebbe Skovdahl para lhe calçar os sapatos, em 1987. Também era nórdico e louro e as semelhanças acabavam aí.


Os treinadores estrangeiros que passaram pelo Benfica desde Eriksson não foram exemplo de sucesso. Só Giovanni Trapattoni foi campeão (em 2004/05), ainda que tenha sido o pior campeão dos últimos 50 anos, com apenas 63 por cento dos pontos conquistados. Mas esse fracasso quase geral teve a ver com as circunstâncias em que foram contratados: de todos, só um chegou em nome de uma ideia, sendo que quando os dirigentes de tal se aperceberam viram que a ideia não lhes agradava e despacharam-no ainda mais rapidamente do que o tinham contratado. Aconteceu com Tomislav Ivic, em 1992, com o episódio da redução da largura do relvado ordenada pelo croata como exemplo paradigmático desta contradição entre um treinador que pensa e dirigentes que acreditam que pensam melhor do que ele – o que, no limite, levará qualquer um de nós a perguntar por que razão contratam treinadores, então.

O que o caso-Ivic provocou – e a contratação de Artur Jorge, que fracassou na reformatação do plantel que quis fazer, agravou – foi a abdicação de contratar em nome de ideias. Greame Souness, Jupp Heynckes e José António Camacho foram todos contratados em nome de um passado e de um currículo que se esperava pudesse ajudar o Benfica a frequentar os fóruns certos no plano internacional – que ideias ainda hoje não se lhes conhecem muitas. Ronald Koeman veio como representante de uma escola holandesa de que, contudo, nunca foi dos mais lídimos representantes. E Quique Flores chegou em nome da tal "granda pinta", de um futebol champagne que estava em voga em Espanha por aqueles dias e que por cá se olhava como sinal de modernidade – Quique era moderno em tudo aquilo que Camacho era antigo. A inversão de paradigma, o Benfica fê-la com Jorge Jesus. E por isso voltou a ganhar, a partir de 2009 – tinha sido uma vez campeão de 1995 a 2009, ganhou seis vezes a Liga nos doze anos que se seguiram.

Sei que nestas alturas se abrem as portas a muitos abusos. A partir do momento em que entra num clube e quer impor as suas ideias, um treinador é quase visto como um inimigo, fazendo dos dirigentes os guardiões da pureza do emblema, os travões que lá estão para o impedir de abrir a porta a um séquito de empresários amigos, interessados em encher os bolsos à conta das reformas necessárias. E é isso que o Benfica tem de ter muito claro antes de avançar para a contratação de Schmidt. O futebol que o treinador alemão professa pede muita gente na frente, pressão alta e intensa, abuso do passe vertical, um par de médios de grande rigor posicional, linha defensiva a jogar alto e a controlar a profundidade, capacidade de sair a jogar por trás, com intervenção do guarda-redes. É garantia de sucesso? Não. É um passo, mas só por si não garante nada, como está a ver-se com Ralf Rangnick no Manchester United, de resto. Em qualquer clube, a aplicação destas ideias pode levar a que tenha de se fazer uma razia no plantel. No caso do Benfica, mesmo tendo em conta o elevado potencial de alguns jovens da equipa B, implicará provavelmente que seja necessário contratar muito, também. Antes de avançarem, os dirigentes do Benfica têm de respirar fundo e perguntar a si mesmos: "Estamos preparados para isto ou, na verdade, vamos contratar um treinador mas achamos que sabemos mais do que ele?"

by tadeia

concordo em alguns pontos.

Exatamente. Excelente texto

francisco

Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Também estou mesmo a ver o João Mário, Weigl e Seferovic a pressionarem assim nos últimos 25 metros...

TFFS

Citação de: francisco em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Também estou mesmo a ver o João Mário, Weigl e Seferovic a pressionarem assim nos últimos 25 metros...
Ah se não houver limpeza no plantel tem tudo para correr mal. O Weigl acho que vai dar-se bem com ele.

Carminati

Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: francisco em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Também estou mesmo a ver o João Mário, Weigl e Seferovic a pressionarem assim nos últimos 25 metros...
Ah se não houver limpeza no plantel tem tudo para correr mal. O Weigl acho que vai dar-se bem com ele.

Nao conheço o treinador.
Mas pelo que leio ele usa sempre uma equipa muito subida, intensa, com dois médios fortes e rapidos

Em que se enquadra nisso o weigl, ou j. Mario?

TFFS

Citação de: Carminati em 31 de Março de 2022, 18:32
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: francisco em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Também estou mesmo a ver o João Mário, Weigl e Seferovic a pressionarem assim nos últimos 25 metros...
Ah se não houver limpeza no plantel tem tudo para correr mal. O Weigl acho que vai dar-se bem com ele.

Nao conheço o treinador.
Mas pelo que leio ele usa sempre uma equipa muito subida, intensa, com dois médios fortes e rapidos

Em que se enquadra nisso o weigl, ou j. Mario?
O Weigl pelo facto de ser o melhor sistema para ele, com pouco espaço entre-linhas e a equipa junta a pressionar.

GGG

Citação de: francisco em 31 de Março de 2022, 18:25
Citação de: TFFS em 31 de Março de 2022, 17:59
https://www.youtube.com/watch?v=G5tPoYS8Q9I

Estou mesmo a ver o Tondellein a sair desta pressão cheio de sucesso
Também estou mesmo a ver o João Mário, Weigl e Seferovic a pressionarem assim nos últimos 25 metros...

O pino suiço pode ter muitos defeitos, mas não saber pressionar não é um deles. É dos melhores do plantel a fazer isso. No ano do Lage era fundamental a sua primeira pressão junto da defesa contrária e só depois "saltavam" Pizzi, Félix ou Rafa.