53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 104562 vezes)

RedVC

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  • 02 de Fevereiro de 2019, 20:46
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Lar do jogador, ninho de Campeões (parte I)


Abril de 1962, Quinta da Nossa Srª do Cabo ao cimo da Calçada do Tojal, Benfica.





Empoleirados num antigo portão de ferro forjado, a miudagem grita para os seus ídolos, que olham divertidos na escadaria da entrada de uma casa.

Essa casa era o “Lar do jogador”, a casa onde foram recebidos e viveram muitos jovens que se viriam a tornar campeões de futebol no Sport Lisboa e Benfica.

Ali em frente, sorridentes perante aquela “invasão” da miudagem, identificam-se os rostos de uma dezena de jogadores entre os mais notáveis campeões da nossa História.



Os campeões observam, sorridentes, na escadaria.




É do Lar do Jogador, desse local mítico da História do Sport Lisboa e Benfica, que vamos hoje falar.

 

A fachada traseira (esquerda) e a fachada principal (direita) do Lar do jogador. Nota-se o vigoroso portão de ferro forjado.


Inaugurado em 1 de Abril de 1954, o Lar do Jogador estava localizado nos terrenos da antiga Quinta da Nossa Senhora do Cabo, perto da antiga Quinta das Pedralvas, ao cimo da Calçada do Tojal e não muito longe do Cemitério de Benfica. Era nessa altura uma zona ainda com traços campestres mas que já estava em acelerado processo de urbanização.




A zona envolvente ao Lar do jogador; a antiga Quinta das Pedralvas cada vez menos campestre. Fonte: AML



O Lar do jogador do Sport Lisboa e Benfica foi uma componente essencial da restruturação profunda imprimida ao futebol Benfiquista no início da década de 50. Por lá passaram diversas gerações de génios do nosso futebol. Foi um verdadeiro lar, um ninho de campeões.


O contexto


No final da temporada de 1953-1954 o SCP prestava-se para conquistar um tetra-campeonato, um feito até aí inédito no futebol Português. Depois da inolvidável conquista da Taça Latina em 1950, o SL Benfica registava a quarta temporada sem conquistar o Campeonato Nacional. Para além do futebol, o nosso Clube vivia também um clima algo conturbado por via das divergências relacionadas com a edificação do novo parque desportivo.

No futebol, o Inglês Ted Smith tinha saído do comando técnico do SLB em 1951-1952, sendo substituído até ao final da época pelo seu adjunto Cândido Tavares. Depois tivemos duas temporadas com situações precárias.

Em 1952-1953, foi contratado o argentino Alberto Zozaya mas que não se adaptou e a quem sucedeu um Conselho técnico formado por Ribeiro dos Reis e José Simões como teóricos e Alfredo Valadas como treinador de campo. Esta solução, que fez uso do saber de antigos craques Benfiquistas, manteve-se até ao fim da temporada.

Na época seguinte, de 1953-1954, o Conselho técnico manteve-se em funções mas em Dezembro foi contratado o argentino José Alberto Valdivielso, de quem falaremos mais à frente. Infelizmente e contrário das três temporadas anteriores, nesta temporada o SLB nem sequer conseguiu conquistar a Taça de Portugal. Havia a consciência de que era necessária lucidez e coragem para se mudar profundamente o estado das coisas.



Joaquim Ferreira Bogalho, o homem da mudança


Felizmente, ao leme do Sport Lisboa e Benfica estava Joaquim Ferreira Bogalho, um homem de excepção que teve inteligência de compreender o desafio e a coragem e o engenho de introduzir mudanças profundas e eficazes. Foi este o cenário em que se começou a construir a base das vitórias que rechearam as duas décadas seguintes da História do nosso Clube.



Joaquim Ferreira Bogalho presidente do Sport Lisboa e Benfica de 15.03.1952 até 30.03.1957




Desde 1938, altura em que contava 39 anos de idade, Joaquim Ferreira Bogalho ostentava a Águia de ouro, a honra máxima do Sport Lisboa e Benfica. Recebeu-a em reconhecimento dos muitos e distintos serviços que prestou ao Clube nos mais diversos cargos enquanto membro de várias Direcções.

Sócio desde 1918, foi guarda-redes de categorias inferiores em 1926-1927 mas dois anos depois já integrava uma das Direcções do Clube. Ocupou diversos cargos tais como director, vice-presidente, secretário, membro de comissões festivas, delegado, mas foi a sua inestimável colaboração como tesoureiro que se tornou decisiva para a atribuição do galardão. Isto quando faltava mais de uma década para vir a ser Presidente do Clube.

Quando foi eleito para Presidente, Ferreira Bogalho conhecia de forma profunda o SL Benfica, as suas gentes, as suas aspirações, as necessidades e as finanças do Clube. Sabia do que a massa associativa era capaz.


 

Joaquim Ferreira Bogalho, Águia de ouro em 1938.



Em 1952, com 53 anos de idade, Ferreira Bogalho tinha ainda pela frente os anos mais Gloriosos da sua vida Benfiquista. Os cinco anos de mandato que exerceria na presidência do Clube elevaram-no acima de todos os outros presidentes da nossa História. Joaquim Ferreira Bogalho foi e continua a ser o melhor presidente da História do SL Benfica. CINCO anos de presidência bastaram. Depois entendeu que era altura de dar lugar a outro, colocando o SL Benfica sempre acima de si próprio. Um Benfiquista excelso, um Homem superior.



Joaquim Ferreira Bogalho foi o Homem do Estádio, mas não só…


Joaquim Ferreira Bogalho assumiu a presidência do nosso Clube em 15.03.1952 e exerceria o cargo até 30.03.1957, tendo sido substituído pelo Engº Maurício Vieira de Brito, que viria a revelar-se outro notável presidente. Durante aqueles 5 anos e falando de forma simplista, Ferreira Bogalho assumiria dois grandes desafios:



1) Construção do novo Estádio, deixando o Clube livre de quaisquer encargos de dívida para o seu futuro;


2) Restruturação completa do futebol do Clube, tornando-o novamente ganhador.




Assumir esses dois desafios em paralelo era uma tarefa gigantesca mas Ferreira Bogalho mostrou-se à altura das circunstâncias.

No futebol, Joaquim Ferreira Bogalho introduziu mudanças profundas, inteligentes e eficazes para alterar o estado das coisas. E, sem medo, fez com que chegasse o tempo do profissionalismo ao Futebol Benfiquista. Vejamos quais foram as medidas mais importantes:


● Contratação de Otto Glória

Foi uma escolha polémica tendo em conta a proveniência e o currículo do novo treinador. Otto Glória, que era carioca e neto de Portugueses, foi o primeiro treinador Brasileiro da história do Clube. Nesse tempo o futebol Sul-Americano era prestigiado e Brasil era considerado ser um país com um futebol mais avançado e competitivo do que o nosso.

A verba investida na contratação foi outra fonte de polémica: 12 contos mensais, uma pequena fortuna para a época. Ferreira Bogalho era tido como forreta mas este e outros exemplos mostraram que gastava com critério mas também gastava generosamente quando isso se justificava.

 

Otto Glória, o homem que introduziu o profissionalismo no Futebol Benfiquista.


Otto Glória chegou a Portugal com uma ainda curta experiência enquanto treinador principal. Vinha do cargo de treinador do America Football Club, clube histórico do Rio de Janeiro mas de dimensão inferior aos 4 grandes daquela cidade. Esse tinha aliás sido o primeiro cargo que assumiu como treinador principal, depois de alguns anos em que foi adjunto do prestigiado Flávio Costa, no CR Vasco da Gama.

Ao que parece, terá sido uma excelente exibição que a equipa de futebol do America-RJ fez num jogo particular que disputou em Belém, contra o CFB, que terá convencido Ferreira Bogalho a avançar para a contratação de Otto.


 

Jogo-treino entre o SLBenfica e o America-RJ. Em Julho de 1955 o Benfica disputou alguns jogos no Brasil. Otto Glória aproveitou para rever os seus antigo pupilos do America-RJ. Fonte: Helena Águas.


A aposta de risco revelar-se-ia certeira pois Otto trouxe ideias clarificadoras ao futebol Benfiquista e revelou-se um ganhador. Revelou-se também um disciplinador ao mesmo tempo que conquistava a estima dos jogadores. Era um homem culto, um carioca bom de papo e de trato mas que sabia ser duro quando achava ser altura disso. Nessa primeira passagem pelo nosso Clube, Otto dar-nos-ia 2 títulos de campeão nacional (1954-1955 e 1956-1957) e 3 Taças de Portugal (1954-1955, 1956-1957 e 1958-1959), tendo disputando arduamente os restantes títulos.

Otto trouxe ao nosso futebol, novos conceitos tácticos e movimentações no campo. Ficou célebre a diagonal, movimento em campo, pouco convencional até então, que Otto determinava para alguns dos jogadores, confundindo as defesas adversárias. O modelo de jogo do Benfica passou a ser mais defensivo e assente numa circulação de bola mais rendilhada, precisa e dinâmica. Previa um posicionamento mais disciplinado dos jogadores em campo e tirou proveito da capacidade técnica superior de muitos dos nossos jogadores tinham.

Logo no primeiro ano o SL Benfica faria a dobradinha e Otto foi levado em ombros depois de uma decisão dramática em compita com CF Belenenses e o Sporting CP. Muito do sucesso desse e dos anos seguintes explicou-se mais pelo que foi feito fora de campo pois Otto trouxe também metodologias bem estruturadas e rigorosas nas vertentes do treino, dos cuidados médicos preventivos e curativos, assim como regras bem definidas que condicionavam a vida particular e a alimentação dos atletas. Foi uma revolução.

 

Otto Glória, o introdutor do profissionalismo no Futebol Benfiquista.


Nos anos seguintes, reconhecendo-lhe o mérito, a Direcção do Clube daria carta-branca a Otto, chegando este ao ponto de conseguir que a Direcção contratasse o extraordinário massagista brasileiro Mão de Pilão, que com ele já tinha trabalhado nos cariocas do Vasco da Gama, e de quem já aqui falamos (ver os dois textos O “caramujo” do futebol, pág 34).



● Profissionalização do futebol

O Sport Lisboa e Benfica foi o primeiro Clube Português a aderir ao profissionalismo no futebol. Foi um passo fundamental, estruturante, para o sucesso futuro do Clube. Foi também uma medida-choque face à tradição e às consequências menos agradáveis que acarretou num primeiro tempo.

Até aí a maioria dos jogadores acumulava as (modestas) remunerações do futebol com as auferidas em outras actividades profissionais que mantinham em paralelo. Otto Glória não transigiu e passou a exigir total dedicação dos atletas ao futebol.

A maioria dos atletas aceitou o desafio, mas outros houve que optaram por manter as suas carreiras fora do futebol, onde auferiam rendimentos mais elevados. O caso mais conhecido foi o de Rogério Pipi, na altura o jogador mais prestigiado do nosso futebol pois, embora em final de carreira, mantinha-se ainda como um jogador cheio de classe. Pipi, que conhecia Otto desde 1947, altura em que pertenceu aos quadros do Botafogo FR, optou por prosseguir a sua carreira no futebol ao serviço do Oriental, opção que lhe permitia continuar a exercer a sua rentável profissão de vendedor de automóveis.

 

Rogério Pipi já com as cores do Oriental, saudando os seus antigos companheiros, Bastos e Jacinto.



● Prospecção

O nosso Clube alargou a base de prospecção e a precisão e acutilância na contratação de novos valores na metrópole mas também nas colónias. Foram descobertos e contratados jogadores determinantes para os sucessos dos anos vindouros.

A prospecção foi particularmente cuidada nas colónias, onde se passou a dar mais atenção ao extraordinário viveiro de novos valores que por ali aparecia, fruto do talento natural e do trabalho dos Clubes locais, muitos deles filiais dos grandes Clubes da metrópole. Essa medida que daria frutos imediatos pois logo nesse ano de 1954 seriam contratados Coluna, Costa Pereira e Naldo.

 

As aquisições do SLB na temporada 1954-1955, a primeira de Otto Glória. Destaque para Costa Pereira e Coluna. O treinador que aparece na fotografia era o argentino Valdivielso…


A opção de contar com jogadores naturais das colónias não era nova no SL Benfica. Já antes o Clube tinha contado com a colaboração de, entre outros, homens como Fortunato Levy, Marcolino Bragança, Guilherme Espírito Santo, Melão e José Águas, mas nunca como a partir de 1954, os jogadores das colónias passaram a ter um peso tão acentuado no sucesso do futebol Benfiquista.


● Categorias jovens

Aumentou-se a aposta nas categorias jovens. Para a tarefa foi dado um papel relevante ao treinador Argentino Jose Alberto Valdivielso, antigo jogador (defesa) do Atlético de Madrid. Como atrás se disse, Valdivielso pertencia aos quadros do Clube desde Dezembro de 1953, tendo nessa altura sido contratado para o cargo de treinador principal.

Essa contratação era consequência directa do prestígio do futebol argentino, depois das exibições bem conseguidas de alguns clubes argentinos como o San Lorenzo de Almagro, o Boca Juniors e o Independiente que por cá andaram em digressão nessa altura.

Apesar do pouco tempo e pouco sucesso que teve a orientar os seniores, as capacidades de Valdivielso foram reconhecidas e aproveitadas. O argentino assumiu, ao longo dos anos seguintes, um papel relevante na formação dos atletas jovens do Clube. Curiosamente, aquando da transição de Otto Glória para Béla Guttmann, em Maio de 1959, Valdivielso seria novamente chamado para orientar a nossa equipa sénior que conquistou a Taça de Portugal.




José Alberto Valdivielso, o treinador argentino que, a partir de 1954-1955, foi peça chave numa nova etapa de aposta nas camadas jovens do SLB. Fonte: Benfica Ilustrado.




A equipa do SL Benfica vencedora da Taça de Portugal de 1958-1959. Já sem Otto Glória mas com a orientação do argentino Valdivielso.



● Regras de comportamento dentro e fora de campo

Otto Instituiu regras restritas de treino, de horários, de atitude nos treinos e na vida privada dos jogadores. Para ele era fundamental conseguir a total disponibilidade dos jogadores para atingirem uma excelente forma individual tanto física como mental. Pretendia também reforçar os laços colectivos de amizade entre os jogadores.

O Lar do jogador foi uma peça fundamental para se assegurar o foco e a coesão colectiva da equipa. Antes, os jogadores estavam dispersos por casas de amigos ou pensões. Antes, cada um fazia os seus horários, não havia contacto diário fora do campo, não havia camaradagem estreita, estavam todos dispersos e entregues a si próprios. O Lar foi decisivo para estabilizar e agregar os jogadores em torno da equipa.

Igualmente fulcral foi a posição de força que Otto tomou junto da Direcção para blindar o balneário à influência externa. Até então, no futebol Benfiquista, era norma que os dirigentes do Clube tivessem acesso ao balneário, tanto em dia de jogo como nos treinos. Com Otto tudo isso terminou e a proibição de acesso valia para todos, presidente incluído. Otto não permitiu qualquer interferência no seu trabalho. Assumia os riscos mas também determinava as regras.

De tudo isto se percebe que Ferreira Bogalho e Otto Glória eram dois homens inteligentes e de personalidade resoluta. O Brasileiro exercia a autoridade dada pelo Presidente. Otto percebendo bem o Futebol Português e fez as alterações e organizou o nosso futebol em moldes que edificaram as bases para os sucessos das décadas seguintes. Ferreira Bogalho e Otto Glória são dois nomes inesquecíveis do Futebol Benfiquista.




Dois homens de excepção do Futebol Benfiquista.




Na segunda parte deste trabalho falaremos mais em detalhe sobre o Lar do Jogador. Teremos imagens e alguns testemunhos engraçados que atestam como o Lar foi uma peça fundamental na construção da espantosa máquina de futebol que o Sport Lisboa e Benfica criou nas décadas de 50 e 60.




« Última modificação: 04 de Fevereiro de 2019, 16:05 por RedVC »

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  • 03 de Fevereiro de 2019, 15:32
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Lar do jogador, ninho de Campeões (parte II)

 

O Lar do Jogador



Neste texto falaremos com algum detalhe do Lar do jogador pois não é fácil encontrar material. Teremos também oportunidade de falar de algumas histórias curiosas ilustrativas do ambiente que por lá se viveu.

Inaugurado em 01.04.1954, o Lar do Jogador estava localizado nos terrenos da antiga Quinta da Nossa Senhora do Cabo, perto da antiga zona da Quinta das Pedralvas, ao cimo da Calçada do Tojal e não muito longe do Cemitério de Benfica.

Para os jogadores solteiros o Lar não era uma opção pois eram obrigados a viver ali em permanência a troco de uma mensalidade de cerca de 500 escudos. Esta verba, segundo Ângelo Martins, era uma verdadeira pechincha, atendendo a todos os serviços e à alimentação de que beneficiavam na época.

Já para os casados havia permissão de permanecerem em casa de 2ª feira pelas 8h00 até à manhã de 5ª feira, dando entrada no Lar depois do treino matinal desse dia. Os restantes dias eram passados no Lar, como se fossem solteiros.

A casa foi adquirida pelo Clube e recuperada para se tornar simultaneamente um lar a tempo inteiro para os jogadores solteiros e um centro de estágio para toda a equipa nos dias próximos aos jogos disputados em Lisboa. Era uma casa antiga de dois pisos e vários anexos. Nas suas traseiras, a casa tinha também uma varanda ampla bastante apreciada nos dias luminosos e quentes.



Um alegre convívio já nos anos 60.




Era uma casa bastante ensolarada e que dispunha de 9 quartos. Segundo o magnífico livro de Helena Águas “José Águas, o meu Pai herói”, quando abriu portas o Lar tinha 23 residentes, sendo esta a sua distribuição pelos quartos:




A distribuição de pessoas pelos 9 quartos quando o Lar do jogador foi inaugurado em 1.04.1954.



E daí em diante foram entrando e saindo jogadores à medida que os planteis iam sendo alterados mas o Lar manteve-se como um local fundamental para o nosso Futebol.


 

A zona do descanso. À esquerda, Santana num Eusébio momento de descanso. Como se vê, este último fazia questão em ter um prático calendário.



Para além do portão de ferro forjado, a casa era rodeada de muros altos, tinha um pequeno lago no pátio de entrada e nas traseiras existia uma criação de galinhas. Por ali vivia também um cão chamado “Benfica” e um gato preto simpaticamente chamado de “Matateu”, certamente em honra do grande e felino avançado do CF “os Belenenses”. A admiração (bem merecida) por parte dos seus Gloriosos adversários…


 

O “Matateu” fazia companhia ao cão da casa, o “Benfica”, do qual infelizmente não encontrei uma fotografia.



Para o funcionamento do Lar, o Clube instituiu um conjunto de regras ou “mandamentos”, que – atendendo à juventude da rapaziada – eram muitas vezes verdadeiras imposições.

No Lar geralmente trabalhavam a tempo inteiro 7 funcionários por equipamentos, 4 lavadeiras e 4 cozinheiros. As ementas eram definidas pelo Departamento de futebol e cuidadosamente preparadas e servidas em horário fixo.


 

Cozinha e barbearia, dois dos serviços disponíveis no Lar do Jogador. À esquerda vemos 2 craques a tirar uns minutos para inspeccionarem a cozinha … Já Coluna parecia atento a uma revista enquanto lhe cuidavam do visual.



Na sala de jantar, havia uma televisão (desde 1957) e – como se pode observar - estavam dispostos retratos de antigos craques do nosso futebol.




A sala de jantar onde estavam expostos numerosos retratos de antigos grandes jogadores do Clube.




As ementas apesar de assegurarem comida e bebida saudável em quantidades julgadas adequadas pelos responsáveis nem sempre eram consensuais entre os jogadores, tanto mais que o menu não incluía bebidas mais agradáveis ao palato.

Assim se compreende que, quando a gula apertava e as oportunidades se reuniam, por vezes se dessem também alguns movimentos de mercadorias não registadas para dentro de portas. E, felizmente para os infractores que eram mais empreendedores, bem ali ao lado existiam algumas casas de comércio que com eles iam colaborando, numa estreita cumplicidade.

A esse propósito, há poucos anos, num dos episódios V&P, tivemos um delicioso testemunho do Sr. João Cordeiro que, ainda muito novo, era funcionário de uma mercearia e era também conhecido por alguns residentes do Lar como “o padeiro”… Era através dele que a rapaziada lá se ia abastecendo de umas cervejinhas e de alguns pitéus proibidos com que iam amenizavam as provações da dieta oficial.



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Contava o grande José Águas que numa noite esteve entre alguns convivas de uma patuscada que meteu uns borrachos (pombos) cozinhados e consumidos à socapa no Lar. O repasto foi convenientemente regado com umas garrafitas de tinto que no final da noite ficaram vazias. Infelizmente para os convivas, Ângelo Martins, o companheiro por eles encarregue de fazer “desaparecer” as garrafas, esqueceu-se da tarefa e assim acabaram por ser apanhados por Béla Guttman. O feiticeiro húngaro ficou piurço com a situação e pior ainda ficou quando soube que um dos envolvidos era Fernando Cruz, um dos seus atletas predilectos… De pouco valeu que José Águas e restantes tenham assumido a situação pois não se livraram de uma valente multa. Enfim, mesmo com castigos, histórias destas devem ter sido às dezenas.


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O regulamento do Lar instituía também os dias e as horas em que era permitida a ausência, estando obviamente expressamente proibida a ausência em período nocturno. Mas, inevitavelmente, com tanta juventude e irreverência havia também constante vontade em se procurar diversão fora de portas, com escapadelas feitas pela calada da noite, saltando os muros, procurando assegurar um igualmente discreto regresso antes da alvorada do dia seguinte…

A sala de jantar era também usada para convívios nos quais os jogos de cartas tinham papel de relevo.




Sala de jantar, palco também de jogos de cartas, um dos passatempos predilectos.




António Simões contou recentemente uma história do princípio da sua carreira sénior, bem demonstrativa de como o estatuto funcionava também nestes momentos.


Já os conhecia do lar, mas a distância era grande, tanto que eles sentavam-se a jogar às cartas, Costa Pereira em parceria com o Águas e o Coluna com o Cávem, eu pedia para assistir e eles respondiam: "Podes sentar-te aqui, mas não falas". Fonte: Tribuna Expresso



Estatuto… Uma forma eficaz de fazer compreender e passar a Mística aos mais novos. O estatuto derivava da antiguidade e da notoriedade que se ganhava dentro de campo.

Os espaços campestres envolventes eram palco para convívios e existia também uma biblioteca onde era possível ler não apenas os jornais do dia como também livros clássicos.

De entre todos talvez Germano Figueiredo tenha sido o mais interessado dos que a frequentavam dada a sua conhecida avidez por livros fossem eles clássicos da literatura ou livros de filosofia, que aliás eram da sua particular predilecção. Em cada estágio o mais comum era ver Germano isolado, introvertido, tranquilo, absorto à volta de um livro, cultivando o seu mundo.




Germano de Figueiredo, o Glorioso Alcantarense foi sempre um ávido leitor nos estágios. Homem culto, autodidacta.




Mas o mais frequente para ocupar os tempos livres era acontecer interacções, jogos e partidas entre todos aqueles jovens. E assim pelo Lar se construíram cumplicidades e amizades para a vida. Entre os momentos de concentração, tensão, rigor mas também de convívio e camaradagem, por lá se moldaram os maiores campeões da nossa História.




Dois momentos de descontracção e amizade entre Cavém e Sebastião.




Dois momentos de descontracção e amizade entre Azevedo e Mário Coluna.



Momentos de descontracção no Lar do jogador. Leitura de livros, jornais e José Águas à caça de pardais.





E voltando à espantosa imagem com que começamos estes dois textos,

 



Como não lembrar um testemunho que li há algum tempo.


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Quanto ao Lar do Benfica, não me esqueço das grades que tinha para evitar que os jogadores dessem o "salto" durante a noite. Essas grades estavam deformadas, abertas à força, pois os jogadores piravam-se mesmo e, não raramente, vinham até cá abaixo à Estada de Benfica onde passavam algum tempo no Penalty, que eu julgo ter sido propriedade do Cavém. Mesmo assim, talvez por vezes menos bem dormidos, não deixavam de ser campeões... ;-)

De facto, os jogadores que eram casados só eram "encarcerados" nas vésperas dos jogos, como era o caso do Coluna e do Pérides, que moravam na minha rua. Eram os nossos ídolos, principalmente dos putos que eram benfiquistas - os quais estavam em nítida maioria. Sempre simpático com a pequenada, por vezes o Coluna até dava uns toques com a malta.
Comentador “João”. Fonte: http://retalhosdebemfica.blogspot.com/2010/01/estrada-dos-salgados.html


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Glorioso Benfica, de tantas histórias se faz a tua História!




« Última modificação: 03 de Fevereiro de 2019, 15:36 por RedVC »

Ned Kelly

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  • 04 de Fevereiro de 2019, 11:04
Escreve um livro, amigo. Este material é tão bom!

alfredo

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  • 04 de Fevereiro de 2019, 12:02
Victor... faz tao bem ler essas histórias. como de um que esteve assistir ao escrito...
obrigado!

RedVC

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  • 04 de Fevereiro de 2019, 16:02
Obrigado pelas vossa palavras, meus amigos Ned e alfredo  O0

Soube tão bem acabar o texto ontem de manhã e ao final da tarde assistir a toda aquela barrigada de futebol, Que dia, que dia!   :slb2:

Quanto ao livro, bem, eu até gostaria mas terão de estar reunidas condições que neste momento não existem.

Dentro de umas semanas haverá algo de giro para colocar aqui.

Alexandre1976

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  • 04 de Fevereiro de 2019, 17:10
Extraordinario.A nossa história é riquíssima.Muito obrigado ao Red VC por todos os excertos da nossa épica historia que tem postado aqui no fórum.

RedVC

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  • 12 de Fevereiro de 2019, 12:02
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Eusébio às riscas

Stoke-on-Trent, Inglaterra, 12 de Dezembro de 1973:


De facto assim foi. Jogo de despedida de Gordon Banks, o grande guarda-redes Inglês.

Jogo contra o Manchester United. Eusébio joga com a camisola do Stoke City. Derrota do Stoke City por 2-1. Quem marca o golo do Stoke? Isso.




Testemunho de Banks:
Eusébio era um grande, grande jogador. Fiquei extremamente triste ao saber da sua morte.
Quando enfrentamos Portugal na semi-final de 1966, Alf Ramsey fez questão em alertar-nos para a sua qualidade. Eusébio era um daqueles jogadores capaz de fazer coisas notáveis com aquela bola pesada, coisas só ao alcance de poucos.
Naquele dia ele marcou-me de penalti o primeiro golo que concedi no Mundial - enganou-me, enviou-me para o lado errado.



Era um cavalheiro. No final desse jogo apertámos as mãos e ele desejou-nos o melhor... Fiquei muito honrado em ele ter participado no meu jogo de despedida. Era uma grande pessoa.

E de facto assim foi. Mais uma oportunidade para conviverem e apertarem as mãos. E já não vinha longe também a despedida de Eusébio.







Fonte:http://www.stokesentinel.co.uk/Stoke-City-2-Leicester-City-1-Mark-Hughes-check/story-20404013-detail/story.html#ixzz3Recm6d4F


Gordon Banks foi um fantástico guarda-redes do Chesterfield, Leicester City, Stoke City e da selecção Inglesa. Finalizou a sua actividade depois de um acidente de automóvel que lhe afectou a visão do olho direito. Um caso muito triste à semelhança do craque Brasileiro Tostão, e do nosso excelente defesa Vicente.

A sua defesa no mundial de 1970 após um remate de cabeça de Pelé é ainda hoje considerada a melhor da história do futebol.


A qualidade não é boa mas três meses antes Gordon Banks esteve no jogo da festa de homenagem a Eusébio em  26 de Setembro de 1973. O dia em que Hagan bateu com a porta. Mas isso é outra história.




Dois gigantes que se respeitaram e que se habituaram a apertar as mãos. Mereceram ambos a homenagem recíproca. Os grandes atraem os grandes.


Faleceu hoje um dos grandes





Paz à sua alma.


alfredo

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  • 13 de Fevereiro de 2019, 09:55
tb me lembrei que os dois tiveram uma boa amizade e respeito um pelo outro...
agora têm mais tempo para passar juntos.

RedVC

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  • 28 de Fevereiro de 2019, 00:26
-227-
Neste ano 115

Celebramos a fundação do Sport Lisboa e Benfica.




Em evocação do momento primordial do nosso Clube foi hoje publicado no blogue de Alberto Miguéns “Em Defesa do Benfica” o texto





Neste texto publica-se informação inédita que constitui um avanço efectivo e substancial para o conhecimento de quem foram os 24 homens que fundaram o nosso Clube.

O texto é antes de tudo uma homenagem a esses 24 homens.

Assenta num trabalho de pesquisa feito num esforço pessoal intenso mas muito estimulante. Deu-me igualmente o prazer e privilégio de voltar colaborar com Alberto Miguéns, o Benfiquista que é o mais profundo conhecedor e divulgador da História do Sport Lisboa e Benfica.

O texto, cuja leitura naturalmente aconselho, merece-me ainda mais algumas notas, salientando:


1 - a intensidade e dimensão das pesquisas.

Este texto assenta em dados factuais recolhidos a partir de documentos que foram obtidos - sem exagero – ao longo de muitos meses com a consulta sistemática de centenas de livros e milhares de páginas armazenadas em arquivos militares, civis e paroquiais.

Em muitos casos, na ausência de índices ou motores de busca adequados para uma consulta rápida desses antigos livros de registos, a pesquisa exigiu paciência, persistência, organização e rigor. Valeu bem a pena.



2 - o prazer dos momentos pós-descoberta.

Nos momentos seguintes à revelação de um dado biográfico de um fundador há uma satisfação solitária e indiscritível. Há a noção que se fez um resgate da memória de alguém que estava perdido para a consciência colectiva e essa é a melhor justiça que podemos fazer a quem nos legou um Clube que influencia tão grandemente a nossa vida.



3 - o valor da interacção com Alberto Miguéns.

A partilha de informação e ideias é fundamental, a interacção é um prazer, acrescenta mais do que a simples soma. Faz sentido. É parte essencial do Benfiquismo.



4 - o valor deste conhecimento.

Os resultados destas pesquisas acrescentam muito ao conhecimento que temos dos factos e dos protagonistas da História inicial do nosso Clube. Mais conhecedores, mais Benfiquistas.

Fazendo o balanço dos dois últimos anos há que dizer que progredimos muito no conhecimento sobre os 24 fundadores do nosso Clube.

Para quase todos os 24 fundadores, sabemos agora qual o seu nome próprio completo e quais as datas do seu nascimento e óbito (dos 48 eventos faltam-nos saber 6). Com essa informação podemos traçar uma linha de vida completa para 20 dos 24 fundadores.

Sabemos agora que a maioria teve oportunidade de ver o espantoso crescimento e as numerosas conquistas desportivas e institucionais do Clube que fundaram. Que orgulho não terão tido no engrandecimento deste Clube colossal!

Analisar detalhes da vida de cada um dos fundadores e relacionar toda essa informação com outras já disponíveis permite-nos desfazer algumas ideias erradas acerca da História inicial do nosso Clube. Ideias que foram semeadas e propagadas nos últimos anos.


Os dados biográficos dos 24 fundadores, agora revelados, validam inteiramente o que nos foi contado por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva, quando em 1954 publicaram a obra de referência da História do nosso Clube. Conseguimos agora acrescentar detalhes valiosos para uma compreensão mais completa, mais contextualizada dessa etapa inicial da História do nosso Clube.

 

História do Sport Lisboa e Benfica, 1904-1954. Edição de Autor, publicada em fascículos em 1954.


A maioria daqueles 24 homens que estavam esquecidos na poeira do tempo, viveu ou trabalhou naquela Belém pacata e rural do princípio do século XX. Entre eles havia uma grande diversidade de proveniências regionais e profissões paternas. Havia miúdos de famílias com vidas particularmente desafogadas e outras com mais dificuldades. O nosso clube nasceu como é hoje, num espaço de respeito e diversidade, num espaço de convergência de vontades, paixões, generosidades, talentos e capacidades. O único ponto comum era a paixão pelo desporto e o Ideal generoso e de superação e esse foi o combustível fundamental para a construção do maior e melhor Clube Português e um dos maiores do mundo.

Por trás da lista dos 24 fundadores podemos discernir múltiplos laços familiares, de vizinhança, escolares ou profissionais. Sabemos agora mais sobre esses múltiplos laços e sobre a sua importância na fundação do nosso Clube.

A partir de agora não há mais desculpas para que se continuem a propagar as historietas do "clube dos pés descalços" ou do "Júlio Cosme Damião". Basta!


Muitos dos fundadores permaneceram por Belém durante toda a sua vida, outros seguiram a sua vida longe daquela terra que é u dos berços do Futebol em Portugal. Alguns repousam para sempre no cemitério da Ajuda, outros no cemitério dos Prazeres, outros ainda Alto de São João. Está lá tudo bem explicado no texto “115 Anos: O Percurso Biológico de 24 Idealistas”. Não deixem de ler.



https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2019/02/115-anos-o-percurso-de-vida-para-24.html



Obrigado



5 - trabalho ainda por fazer

Para quem quer que se proponha, ainda há trabalho a fazer. Dois dos fundadores, Eduardo Afra Jorge da Costa e Joaquim Ribeiro são ainda mistérios por desvendar.

Apesar dos 115 anos de distância temporal ainda assim é notável o que agora se conseguiu revelar.

Acredito também que há ainda muitos detalhes biográficos por revelar para muitos dos 24 fundadores. Seria excelente que descendentes de alguns desses 24 fundadores pudessem aparecer e dar novas informações.

No Sport Lisboa e Benfica todos são importantes mas os 24 fundadores têm, compreensivelmente, um lugar especial.



A História do Sport Lisboa e Benfica é fascinante.

Todos os Benfiquistas deviam conhecer mais e melhor essa maravilhosa aventura agora já com 115 anos de caminho percorrido.

Viva, viva, viva o Sport Lisboa e Benfica!



« Última modificação: 28 de Fevereiro de 2019, 00:59 por RedVC »

mMateus

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  • 01 de Março de 2019, 09:33
"Porto, Rua de Santo Ildefonso, Nº 71.
Aqui nasceu a 4 de Julho de 1874, Félix Bermudes, o Pai da Cultura Benfiquista.

A primeira casa do SLB surgiu na “antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto” em 1950. Ademais, há uma Rua de Benfica a 2 km do Estádio do Dragão."


@hugomcmiv






RedVC

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  • 03 de Março de 2019, 09:32
-228-
A Peste Branca

 

Pela sua influência cultural, seus efeitos sobre a obra humana,
suas implicações históricas, sociais, económicas e políticas,
constitui modelo científico peculiar.
Modernamente continua causando as maiores devastações.
Seu valor epistemológico é imenso.
Misteriosa e ameaçadora permanece o paradigma dos temores das paixões
e dos conhecimentos humanos.

La Tuberculose. Jacques Chretien.



A última fotografia do Chacha

 
A última fotografia de Álvaro Gaspar, o imortal Chacha.




Fonte: «A Paixão do Povo» de F. Pinheiro e JN Coelho



Já por aqui se falou desta fotografia comovente (ver “-8- A última alegria do Chacha”, pág.2). Foi captada no dia 13.01.1915, no campo de Sete Rios, aquando de um SL Benfica - Sporting CP.

Envolto nas suas roupas, protegendo-se daquele frio de Janeiro, Álvaro Gaspar, “o Chacha” estava gravemente doente. Esse seria o seu último ano de vida. Ainda assim esteve ao lado dos seus companheiros, mesmo que fora de campo, entre a assistência, impedido de poder jogar pela doença. Nesse dia o Chacha terá sido fotografado pela última vez num campo de futebol.

Menos de oito meses depois, no dia 3.09.1915, o Chacha estava morto.

Morreu na sua casa da Rua dos Jerónimos, 24, r/c, Belém. Tinha apenas 25 anos, morria na flor da idade, vítima de tuberculose pulmonar. Deixou mulher e dois filhos menores.

No seu leito de morte o Chacha pediu que abraçassem por ele o seu amigo e Capitão, Cosme Damião e que cobrissem o seu caixão com a bandeira do Sport Lisboa e Benfica. Assim se fez.

O seu funeral foi uma impressionante manifestação de pesar que juntou amigos, fossem eles companheiros ou adversários desportivos, num lamento colectivo pela perda. Entre os que puxaram a carreta fúnebre esteve o Dr. Alberto Lima, ilustre advogado e que na semana anterior tinha deixado a presidência do Sport Lisboa e Benfica.




Registo de óbito e túmulo de Álvaro José Gaspar




 

Três etapas da preservação e dignificação dos restos mortais de Álvaro Gaspar.




Os restos mortais do Chacha foram preservados e descansam hoje com toda a dignidade no cemitério da Ajuda. Foram preservados e dignificados graças à nobreza de carácter e Benfiquismo de António Ribeiro dos Reis e mais tarde da sua filha Margarida Ribeiro dos Reis e de Alberto Miguéns. Um Bem-haja a estes três grandes Benfiquistas.

A carinhosa recordação e o reconhecimento que Cosme Damião fazia ao génio futebolístico de Álvaro Gaspar ficariam também expressos na capa do único livro que publicou, intitulado “Apontamentos e Recortes sobre Football Association”.




Fotografia original colorizada e capa do livro de 131 páginas da autoria de Cosme Damião, publicado em 1925. Tipografia “O Sport de Lisboa”.




Muitos anos depois da sua morte, a memória do Chacha permanecia viva em todos os que o viram jogar. Recordavam a alegria, garra e virtuosismo com que ele enchia os campos por onde passou.


 

Em 1947, o nosso Clube prestou tocante homenagem a Álvaro Gaspar. Ribeiro da Reis liderou as cerimónias. Fonte: O Benfica Ilustrado e Stadium.




Objectivo


A evocação do Chacha levou-nos a abordar a terrível doença que o matou. No resto do texto centraremos atenções na tuberculose, falaremos sumariamente desta doença quer numa perspectiva histórica e social, mostrando como foi um terrível flagelo da sociedade Portuguesa. Terminaremos lembrando outras figuras destacadas do nosso Clube que também não resistiram à terrível Peste Branca.




A Peste Branca


Apelidada de “Peste branca” ou de “Tísica”, a tuberculose é uma doença terrível que flagelou a humanidade desde épocas imemoriais. Permanece como uma das três doenças mais mortíferas a nível mundial, ao lado da malária e da SIDA, sendo que com esta última tem uma relação muito estreita.

Não obstante os notáveis avanços sanitários e médicos, a tuberculose continua a proliferar, sendo a principal causadora da morte de cerca de 3 milhões de pessoas por ano. Estima-se que actualmente existam cerca de 2 biliões de pessoas infectadas, número que equivale a um quarto da população humana mundial. A facilidade e agressividade do contágio e a crescente mobilidade populacional fazem com que nenhum país se possa considerar seguro (fonte: https://jpn.up.pt/2004/04/27/a-historia-da-tuberculose/).

Embora existam descrições de tuberculose desde o tempo do antigo Egipto, afectando até alguns altos sacerdotes e faraós, a doença só foi verdadeiramente descrita há apenas um século, quando no dia 24 de Março de 1882, o alemão Robert Koch descobriu o agente Mycobacterium tuberculosis, responsável pela doença. Por esse motivo este microorganismo é também vulgarmente conhecido pelo nome de “bacilo de Koch”. Actualmente, o dia 24 de Março é assinalado como o Dia Mundial da Tuberculose.




Robert Koch, o bacilo por ele descoberto e um esquema da progressão da doença.




A vacina, passo fundamental para a prevenção da doença, viria apenas a ser desenvolvida no século XX, quando em 1913, os Franceses Albert Calmette e Camile Guerin identificaram o microorganismo BCG (abreviatura de Bacilo de Calmette e Guerin), um agente capaz de resistir e prevenir a tuberculose.

Já quanto ao combate à doença instalada, o mundo teria de esperar pela década de 40, altura em que foi descoberta a estreptomicina. A partir de então tornou-se possível utilizar agentes antibacilares que, quando associados àquele antibiótico, permitem tratar e curar quase todos os casos. Este é um enorme avanço civilizacional proporcionado pela Ciência Médica, que nem sempre é devidamente lembrado.

A tuberculose flagela sociedades de forma transversal, afectando todas as classes sociais, não distinguindo entre ricos e pobres. Entre os milhões de pessoas que morreram vítimas da doença encontramos nomes célebres de reis, presidentes, músicos, filósofos, poetas, pintores, escritores, actores, etc. Talvez esse facto esteja ligado a que em tempos a doença foi conhecida como a “doença dos poetas” ou “doença do amor”.




Algumas figuras célebres que morreram vítimas de tuberculose.




A falta da descrição adequada em épocas mais antigas e situações específicas inerentes à doença, não permite esclarecer todas as dúvidas mas existem fortes suspeitas de que a tuberculose terá também influenciado a morte de homens como Goethe, Descartes, Kant, Mozart, Beethoven, Rousseau, Balzac, entre outros.

Curiosamente, na ignorância da natureza real da doença, a tuberculose ainda gozou durante algum tempo de uma certa aura chique, um carácter de doença de artistas e intelectuais. A dura realidade e as competentes descrições médicas vieram a mostrar que a doença constituía um flagelo humano matando ricos e pobres e que exigia a vigorosa e persistente acção de combate por parte das autoridades.




Fonte: Hemeroteca de Lisboa




Em Portugal


A quantificação, evolução e análise da incidência e mortalidade da tuberculose começou a ser feita em Portugal desde o final do século XIX. Nessa altura médicos ilustres como Sousa Martins e Ricardo Jorge estimavam que as mortes devidas a esta doença atingiam dezenas de milhares por ano.

Entre 1902 e 1933, o número de óbitos em Portugal causados pela tuberculose terá duplicado assinalando uma tendência contrária à verificada em muitos países europeus e EUA (Longo, 2015). A degradação das condições de vida, por via do difícil contexto socioeconómico, explicava muito dessa tendência que apenas começou a ser revertida de forma sustentada a partir da década de 50, com a generalização da BCG. Um novo surto apareceria nos anos 80 com o surgimento da SIDA.

Lisboa, capital do Império, com os seus bairros populares pobres e com intensos fluxos migratórios internos e externos, foi desde sempre fustigada por epidemias. O popular bairro de Belém era mais um exemplo dessa realidade e por isso não admira que a doença tivesse tido ali uma prevalência tão significativa e uma mortalidade tão dramática. Era uma ameaça social.

A luta contra a doença foi por isso uma preocupação das autoridades desde esses tempos recuados. Nos finais do século XIX foi ordenada a construção de hospitais na orla marítima, sanatórios e institutos que não apenas tratassem mas também estudassem a doença. Muito do esforço despendido foi direccionado para as crianças, grupo particularmente afectado.

Nesse aspecto deve ser salientado o papel da Rainha Dona Maria Amélia (esposa de Dom Carlos), da Assistência Nacional aos Tuberculosos criado em 1899, e mais tarde do Instituto de Assistência Nacional os Tuberculosos (IANT), criado em 1953.
Não vos vou maçar com mais detalhes, optando antes por ilustrar alguma dessa luta tenaz mas ainda assim frequentemente impotente para valer a centenas de milhares de Portugueses.


 

Fonte: blogue Restos de Colecção.




Fonte: Hemeroteca de Lisboa



Actualmente a estratégia da luta contra a tuberculose assenta em 4 pilares:

1) detecção,
2) cura;
3) vacinação
4) tratamento da tuberculose latente.

Nenhum destes pilares pode ser descurado dado que o nível endémico é ainda muito alto, implicando um risco considerável.

A educação, o combate à falta de condições higiénicas e hospitalares, o rastreio, a formação dos técnicos e a adopção de novas terapias terá que ser mantido nessa luta tenaz e constante. Que assim se faça em prol de uma sociedade melhor, nunca esquecendo os milhões de vítimas, as famílias desfeitas, as sociedades devastadas.



Entre os Gloriosos


Em 1915, Álvaro José Gaspar terá sido o primeiro Benfiquista a falecer vítima de tuberculose, pelo menos o primeiro do qual eu que tenho conhecimento.

Em 1916 faleceu Eduardo Gomes Corga, um dos 24 fundadores do nosso Clube. Eduardo filho de um humilde funcionário da Casa Pia. Foi um dos homens que permaneceu no Clube, ajudando-o a resistir à grande deserção de Maio de 1907. Jogava a avançado e poucos anos antes de morrer ainda marcava golos com a nossa camisola, tendo aliás sido o primeiro Glorioso a marcar um golo ao Sporting CP.

Em 1930 morreu Álvaro Gomes Corga, também avançado como o seu irmão Eduardo, também defendeu a camisola do Glorioso nas Salésias e na Quinta da Feiteira. Em 1904 era ainda muito novo e talvez por isso não terá sido fundador do Glorioso.

Também em 1930 faleceu Carlos Alberto d’ Oliveira França, outro dos 24 fundadores e um dos mais prestigiados jogadores da primeira década do nosso Clube. Fez parte das futeboladas de Belém logo desde o tempo do (Belém) Football Clube, liderado pelos irmãos Catataus. A família França morava perto da Farmácia Franco e incluía também Manuel França, o irmão mais velho que foi também um dos nossos 24 fundadores. E se Manuel França – por razões que ainda desconhecemos - cedo desapareceu da vida do nosso Clube, Carlos França foi um caso de rara dedicação ao nosso Clube, jogando não apenas na primeira categoria mas também - quando já veterano - nas categorias inferiores. Essa aparente humildade era na verdade a vontade de transmitir a Mística aos mais novos, mostrando que no SL Benfica se luta sempre pela vitória, em qualquer modalidade, em qualquer nível competitivo.

Em 1931 seria a vez de morrer António Bernardino Costa, o Tótinhas, outro jogador que vinha dos tempos das futeboladas nos terrenos das Salésias e mais tarde na Quinta da Feiteira. Extremo direito ou avançado em zonas mais interiores, foi ele que marcou o golo que nos deu um dos triunfos mais estrondosos da nossa primeira década, quando, em 19 de Fevereiro de 1911, derrotamos os Ingleses do Carcavellos Club na sua própria casa. De António Costa e do seu pai Bernardino Costa já por aqui falamos (ver -102- Os primeiros troféus (parte II) – os Costas de Belém. pág.29).

Em 1935 seria a vez de falecer Artur Augusto, talentoso e aguerrido extremo, natural de Benfica, terra onde também faleceu. De Artur Augusto e do seu mano Alberto, figuras de destaque da segunda década do nosso Futebol, já por aqui falamos (ver textos -155- e -156- De Benfica para o Mundo: os fabulosos irmãos Augusto parte I e II, pág. 44).

Por fim, em 1943, faleceu o grande Artur José Pereira, jogador tão carismático e virtuoso como conflituoso. Artur cobriu-se de glória no nosso Clube para depois protagonizar uma polémica transferência para o Sporting CP. Mais tarde seria o principal mentor e executor da fundação do CF “os Belenenses”. No dizer de mestre Cândido de Oliveira, AJ Pereira foi o melhor futebolista dos primeiros 50 anos do futebol em Portugal. Dele já por aqui falamos em diversas oportunidades mas destacam-se os textos -37- Três gigantes, três caminhos separados, pág.8 e -108- Olhos de fogo, coração de Belém, pág.30.




Que descansem em Paz



Considerando a elevada incidência e gravidade da doença, não será de admirar que no futuro esta funesta lista venha a ser mais extensa.


Fecho a evocação desta Gloriosa galeria, lembrando as palavras cortantes do poeta Brasileiro Castro Alves, outra das vítimas da “Peste Branca”:




Mãe morta e criança. Munch.



Eu sei que vou morrer… dentro do meu peito / um mal terrível me devora a vida. /
Triste Assaverus, que no fim da estrada / só tem por braços uma cruz erguida. /
Sou o cipreste qu’inda mesmo florido / Sombra da morte no ramal encerra! /
Vivo – que vaga entre o chão dos mortos, /
Morto – entre os vivos a vagar na Terra.




A tuberculose continua a ser um flagelo letal com disseminação global.
É um flagelo que parece nunca vir a poupar a nossa espécie.

Tenhamos no entanto esperança que os homens de Ciência persistam no seu labor e na sua criatividade para que cada vez mais a Humanidade possa ser protegida desta terrível Peste Branca.



Bibliografia
Longo C. 2015. Epidemias: Perspectiva de Portugal com principal enfoque em Lisboa e na peste branca (tuberculose)
Portuguese Studies Center. 2017. Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos




« Última modificação: 03 de Março de 2019, 09:43 por RedVC »

alfredo

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  • 03 de Março de 2019, 10:51
-227-
Neste ano 115

Celebramos a fundação do Sport Lisboa e Benfica.




Em evocação do momento primordial do nosso Clube foi hoje publicado no blogue de Alberto Miguéns “Em Defesa do Benfica” o texto





Neste texto publica-se informação inédita que constitui um avanço efectivo e substancial para o conhecimento de quem foram os 24 homens que fundaram o nosso Clube.

O texto é antes de tudo uma homenagem a esses 24 homens.

Assenta num trabalho de pesquisa feito num esforço pessoal intenso mas muito estimulante. Deu-me igualmente o prazer e privilégio de voltar colaborar com Alberto Miguéns, o Benfiquista que é o mais profundo conhecedor e divulgador da História do Sport Lisboa e Benfica.

O texto, cuja leitura naturalmente aconselho, merece-me ainda mais algumas notas, salientando:


1 - a intensidade e dimensão das pesquisas.

Este texto assenta em dados factuais recolhidos a partir de documentos que foram obtidos - sem exagero – ao longo de muitos meses com a consulta sistemática de centenas de livros e milhares de páginas armazenadas em arquivos militares, civis e paroquiais.

Em muitos casos, na ausência de índices ou motores de busca adequados para uma consulta rápida desses antigos livros de registos, a pesquisa exigiu paciência, persistência, organização e rigor. Valeu bem a pena.



2 - o prazer dos momentos pós-descoberta.

Nos momentos seguintes à revelação de um dado biográfico de um fundador há uma satisfação solitária e indiscritível. Há a noção que se fez um resgate da memória de alguém que estava perdido para a consciência colectiva e essa é a melhor justiça que podemos fazer a quem nos legou um Clube que influencia tão grandemente a nossa vida.



3 - o valor da interacção com Alberto Miguéns.

A partilha de informação e ideias é fundamental, a interacção é um prazer, acrescenta mais do que a simples soma. Faz sentido. É parte essencial do Benfiquismo.



4 - o valor deste conhecimento.

Os resultados destas pesquisas acrescentam muito ao conhecimento que temos dos factos e dos protagonistas da História inicial do nosso Clube. Mais conhecedores, mais Benfiquistas.

Fazendo o balanço dos dois últimos anos há que dizer que progredimos muito no conhecimento sobre os 24 fundadores do nosso Clube.

Para quase todos os 24 fundadores, sabemos agora qual o seu nome próprio completo e quais as datas do seu nascimento e óbito (dos 48 eventos faltam-nos saber 6). Com essa informação podemos traçar uma linha de vida completa para 20 dos 24 fundadores.

Sabemos agora que a maioria teve oportunidade de ver o espantoso crescimento e as numerosas conquistas desportivas e institucionais do Clube que fundaram. Que orgulho não terão tido no engrandecimento deste Clube colossal!

Analisar detalhes da vida de cada um dos fundadores e relacionar toda essa informação com outras já disponíveis permite-nos desfazer algumas ideias erradas acerca da História inicial do nosso Clube. Ideias que foram semeadas e propagadas nos últimos anos.


Os dados biográficos dos 24 fundadores, agora revelados, validam inteiramente o que nos foi contado por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva, quando em 1954 publicaram a obra de referência da História do nosso Clube. Conseguimos agora acrescentar detalhes valiosos para uma compreensão mais completa, mais contextualizada dessa etapa inicial da História do nosso Clube.

 

História do Sport Lisboa e Benfica, 1904-1954. Edição de Autor, publicada em fascículos em 1954.


A maioria daqueles 24 homens que estavam esquecidos na poeira do tempo, viveu ou trabalhou naquela Belém pacata e rural do princípio do século XX. Entre eles havia uma grande diversidade de proveniências regionais e profissões paternas. Havia miúdos de famílias com vidas particularmente desafogadas e outras com mais dificuldades. O nosso clube nasceu como é hoje, num espaço de respeito e diversidade, num espaço de convergência de vontades, paixões, generosidades, talentos e capacidades. O único ponto comum era a paixão pelo desporto e o Ideal generoso e de superação e esse foi o combustível fundamental para a construção do maior e melhor Clube Português e um dos maiores do mundo.

Por trás da lista dos 24 fundadores podemos discernir múltiplos laços familiares, de vizinhança, escolares ou profissionais. Sabemos agora mais sobre esses múltiplos laços e sobre a sua importância na fundação do nosso Clube.

A partir de agora não há mais desculpas para que se continuem a propagar as historietas do "clube dos pés descalços" ou do "Júlio Cosme Damião". Basta!


Muitos dos fundadores permaneceram por Belém durante toda a sua vida, outros seguiram a sua vida longe daquela terra que é u dos berços do Futebol em Portugal. Alguns repousam para sempre no cemitério da Ajuda, outros no cemitério dos Prazeres, outros ainda Alto de São João. Está lá tudo bem explicado no texto “115 Anos: O Percurso Biológico de 24 Idealistas”. Não deixem de ler.



https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2019/02/115-anos-o-percurso-de-vida-para-24.html



Obrigado



5 - trabalho ainda por fazer

Para quem quer que se proponha, ainda há trabalho a fazer. Dois dos fundadores, Eduardo Afra Jorge da Costa e Joaquim Ribeiro são ainda mistérios por desvendar.

Apesar dos 115 anos de distância temporal ainda assim é notável o que agora se conseguiu revelar.

Acredito também que há ainda muitos detalhes biográficos por revelar para muitos dos 24 fundadores. Seria excelente que descendentes de alguns desses 24 fundadores pudessem aparecer e dar novas informações.

No Sport Lisboa e Benfica todos são importantes mas os 24 fundadores têm, compreensivelmente, um lugar especial.



A História do Sport Lisboa e Benfica é fascinante.

Todos os Benfiquistas deviam conhecer mais e melhor essa maravilhosa aventura agora já com 115 anos de caminho percorrido.

Viva, viva, viva o Sport Lisboa e Benfica!





Victor... que grande trabalho... nem posso acreditar o trabalho que tiveste/s para juntar toda essa informacao. conseguistes juntar dados estatisticos, sobre os quais muitos têm uma ideia. gostei das gráficas em quais mostraste os acontecimentos que os fundadores assistiram juntos ao vivo. assim deu para entender melhor o contexto dos dados e acrescentaste um fio vermelho para cada um seguir melhor.
Alberto Miguens ja coneheciam muitos, e quem leu os teus posts neste tópico, tb sabia do teu talento e conhecimento sobre a história do benfica. mas agora temos dois grandes históriadores que levam tudo o que envolve o benfica a um novo patamar.
obrigado mais uma vez!
« Última modificação: 04 de Março de 2019, 07:35 por alfredo »

RedVC

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  • 03 de Março de 2019, 12:01
-227-
Neste ano 115

Celebramos a fundação do Sport Lisboa e Benfica.




Em evocação do momento primordial do nosso Clube foi hoje publicado no blogue de Alberto Miguéns “Em Defesa do Benfica” o texto





Neste texto publica-se informação inédita que constitui um avanço efectivo e substancial para o conhecimento de quem foram os 24 homens que fundaram o nosso Clube.

O texto é antes de tudo uma homenagem a esses 24 homens.

Assenta num trabalho de pesquisa feito num esforço pessoal intenso mas muito estimulante. Deu-me igualmente o prazer e privilégio de voltar colaborar com Alberto Miguéns, o Benfiquista que é o mais profundo conhecedor e divulgador da História do Sport Lisboa e Benfica.

O texto, cuja leitura naturalmente aconselho, merece-me ainda mais algumas notas, salientando:


1 - a intensidade e dimensão das pesquisas.

Este texto assenta em dados factuais recolhidos a partir de documentos que foram obtidos - sem exagero – ao longo de muitos meses com a consulta sistemática de centenas de livros e milhares de páginas armazenadas em arquivos militares, civis e paroquiais.

Em muitos casos, na ausência de índices ou motores de busca adequados para uma consulta rápida desses antigos livros de registos, a pesquisa exigiu paciência, persistência, organização e rigor. Valeu bem a pena.



2 - o prazer dos momentos pós-descoberta.

Nos momentos seguintes à revelação de um dado biográfico de um fundador há uma satisfação solitária e indiscritível. Há a noção que se fez um resgate da memória de alguém que estava perdido para a consciência colectiva e essa é a melhor justiça que podemos fazer a quem nos legou um Clube que influencia tão grandemente a nossa vida.



3 - o valor da interacção com Alberto Miguéns.

A partilha de informação e ideias é fundamental, a interacção é um prazer, acrescenta mais do que a simples soma. Faz sentido. É parte essencial do Benfiquismo.



4 - o valor deste conhecimento.

Os resultados destas pesquisas acrescentam muito ao conhecimento que temos dos factos e dos protagonistas da História inicial do nosso Clube. Mais conhecedores, mais Benfiquistas.

Fazendo o balanço dos dois últimos anos há que dizer que progredimos muito no conhecimento sobre os 24 fundadores do nosso Clube.

Para quase todos os 24 fundadores, sabemos agora qual o seu nome próprio completo e quais as datas do seu nascimento e óbito (dos 48 eventos faltam-nos saber 6). Com essa informação podemos traçar uma linha de vida completa para 20 dos 24 fundadores.

Sabemos agora que a maioria teve oportunidade de ver o espantoso crescimento e as numerosas conquistas desportivas e institucionais do Clube que fundaram. Que orgulho não terão tido no engrandecimento deste Clube colossal!

Analisar detalhes da vida de cada um dos fundadores e relacionar toda essa informação com outras já disponíveis permite-nos desfazer algumas ideias erradas acerca da História inicial do nosso Clube. Ideias que foram semeadas e propagadas nos últimos anos.


Os dados biográficos dos 24 fundadores, agora revelados, validam inteiramente o que nos foi contado por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva, quando em 1954 publicaram a obra de referência da História do nosso Clube. Conseguimos agora acrescentar detalhes valiosos para uma compreensão mais completa, mais contextualizada dessa etapa inicial da História do nosso Clube.

 

História do Sport Lisboa e Benfica, 1904-1954. Edição de Autor, publicada em fascículos em 1954.


A maioria daqueles 24 homens que estavam esquecidos na poeira do tempo, viveu ou trabalhou naquela Belém pacata e rural do princípio do século XX. Entre eles havia uma grande diversidade de proveniências regionais e profissões paternas. Havia miúdos de famílias com vidas particularmente desafogadas e outras com mais dificuldades. O nosso clube nasceu como é hoje, num espaço de respeito e diversidade, num espaço de convergência de vontades, paixões, generosidades, talentos e capacidades. O único ponto comum era a paixão pelo desporto e o Ideal generoso e de superação e esse foi o combustível fundamental para a construção do maior e melhor Clube Português e um dos maiores do mundo.

Por trás da lista dos 24 fundadores podemos discernir múltiplos laços familiares, de vizinhança, escolares ou profissionais. Sabemos agora mais sobre esses múltiplos laços e sobre a sua importância na fundação do nosso Clube.

A partir de agora não há mais desculpas para que se continuem a propagar as historietas do "clube dos pés descalços" ou do "Júlio Cosme Damião". Basta!


Muitos dos fundadores permaneceram por Belém durante toda a sua vida, outros seguiram a sua vida longe daquela terra que é u dos berços do Futebol em Portugal. Alguns repousam para sempre no cemitério da Ajuda, outros no cemitério dos Prazeres, outros ainda Alto de São João. Está lá tudo bem explicado no texto “115 Anos: O Percurso Biológico de 24 Idealistas”. Não deixem de ler.



https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2019/02/115-anos-o-percurso-de-vida-para-24.html



Obrigado



5 - trabalho ainda por fazer

Para quem quer que se proponha, ainda há trabalho a fazer. Dois dos fundadores, Eduardo Afra Jorge da Costa e Joaquim Ribeiro são ainda mistérios por desvendar.

Apesar dos 115 anos de distância temporal ainda assim é notável o que agora se conseguiu revelar.

Acredito também que há ainda muitos detalhes biográficos por revelar para muitos dos 24 fundadores. Seria excelente que descendentes de alguns desses 24 fundadores pudessem aparecer e dar novas informações.

No Sport Lisboa e Benfica todos são importantes mas os 24 fundadores têm, compreensivelmente, um lugar especial.



A História do Sport Lisboa e Benfica é fascinante.

Todos os Benfiquistas deviam conhecer mais e melhor essa maravilhosa aventura agora já com 115 anos de caminho percorrido.

Viva, viva, viva o Sport Lisboa e Benfica!





Victor... que grande trabalho... nem posso acreditar o trabalho que tiveste/s para juntar toda essa informacao. conseguistes juntar informacao estatisitca com dados sobre os quais muitos têm uma ideia. por isso gostei imenso das gráficas em quais mostraste os acontecimentos que os fundadores assistiram juntos ao vivo.
Alberto Miguens ja coneheciam muito, e quem leu os teus posts neste tópico, tb sabia do teu talento e conhecimento sobre a história do benfica. mas agora temos dois grandes históriadores que levam tuo o que envolve o benfica a um novo patamar.
obrigado mais uma vez!


Obrigado Alfredo. Obrigado mesmo. Como o Alberto diz, o reconhecimento dos nossos pares Benfiquistas é a maior das recompensas.

Eu não exagerei nada. Ao longo de muitos meses fui guardando pedaços do meu tempo para ir buscar informação. O Decifrando teve de ficar um pouco para trás pois o tempo era curto e havia a vontade de homenagear devidamente aqueles 24 Homens nos 115 anos.

Não interessa só buscar o que os outros dizem. É preciso ir às fontes. É preciso relacionar. É preciso mostrar a verdade mesmo que possa contradizer o que está escrito. No caso do Benfica, este trabalho credibiliza definitivamente a acta, a famosa acta que tanto os nossos adversários e alguns antigos funcionários do Clube, procuraram denegrir.

Há informação que pode e deve vir a ser procurada e usada no futuro. A partilha é um convite para que outros possam fazer. Eu continuarei com as limitações que tenho a dar a minha contribuição para o Clube, no Estádio, nas rodas de amigos, atrás do telemóvel ou do computador.

Vivemos dias agitados, de altos e baixos, tanto pelo mal que tem feito ao nosso Clube como pelas vitórias nos últimos anos. Todos temos consciência da grandeza do Benfica, assente não numa estrutura ou numa figura iluminada mas sim da extraordinária, incomparável massa associativa do Benfica. E por isso temos a responsabilidade de contribuir para o Clube a forma que melhor pudermos.

Nem todos temos talento para jogar futebol, basquetebol, hóquei ou andebol; nem todos temos talento para orientar equipas, para dirigir secções e infraestruturas, para gerir as contas do Benfica, mas todos temos algo a acrescentar ao Benfica.

Eu não ganho nada com o Benfica, ou melhor dizendo eu ganho tudo menos dinheiro com o Benfica. Vem de berço e é de coração. As memórias que tenho e aquelas - dos outros - que procuro pesquisar são a minha contribuição. Todos temos um talento. Tu, por exemplo, sei que tens um talento diferente que talvez possa partilhar mais com o pessoal daqui, por exemplo com a tua magnífica colecção, com as tuas memórias. É do património individual, reunido para acrescentar ao colectivo, de que se faz a GRANDEZA do Clube.

Grandes, incomparáveis, apaixonados, extraordinários, somos milhões e tudo isso e mais ainda, simplesmente porque somos BENFICA!

RedVC

  • Eusébio
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  • Todos por um!
  • 04 de Março de 2019, 17:28


Caros amigos, que tenham todos um



Carnaval 1927. Fonte AML

Benfiquista_

  • Eusébio
  • ******
  • Mensagens: 12994
  • 05 de Março de 2019, 19:34
Este tópico é assombroso!

Deveria estar nos Inamoviveis, junto com o da evolução dos nossos Equipamentos!

Obrigado por tudo, RedVC! :)