53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 103759 vezes)

Ned Kelly

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  • 07 de Abril de 2019, 00:01
Grande texto. A Águia a segurar o nosso lema e não pousada na roda.

Lindo demais. Viva o Benfica!

Semper Fidelis

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  • Bruno Lage, o milagreiro!
  • 08 de Abril de 2019, 15:02
Spoiler (clique para mostrar e esconder)
muito interessante!

corrige só a parte "A Grande Guerra terminaria poucos dias depois, no dia 11.10.1918"

foi 11.11.1918

abraço

RedVC

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  • 08 de Abril de 2019, 16:38
Spoiler (clique para mostrar e esconder)
muito interessante!

corrige só a parte "A Grande Guerra terminaria poucos dias depois, no dia 11.10.1918"

foi 11.11.1918

abraço


Olho de Águia! 
Corrigido! Obrigado  O0

RedVC

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  • 12 de Abril de 2019, 21:49
-235-
Manos à Benfica! (parte I) a primeira década

Porque o decifrando não deve ser só dum passado mais recuado…

 



No ano passado o Sport Lisboa e Benfica assinou um contrato de formação com o jovem Hugo Félix, irmão mais novo do nosso mais recente craque João Félix. Para lá das expectativas que felizmente se estão a cumprir – e de que maneira - com o mano João e para lá das esperanças que se venham ou não a cumprir com o mano Hugo, há o pormenor sempre curioso e simpático que é ver dois ou mais manos a vestir o manto sagrado. Os manos Félix são o mais recente caso.

Hoje tornou-se uma situação mais rara mas, como veremos, ao longo da nossa História há muitos outros casos de manos que deixaram marca com a Águia ao peito.
 
Vamos fazer uma viagem curiosa, falando de forma sintética de um número generoso de manos que jogaram com o manto sagrado. Como veremos os exemplos mais numerosos reportam mesmo aos primeiros dias do nosso Clube mas os casos que serão expostos são todos interessantes

Por esquecimento, ou por falta de informação não esgotaremos todos os casos mas será interessante recordar esses Manos à Benfica! Manos Gloriosos!



A primeira década


Os primeiros casos de manos que envergaram o manto sagrado são encontrados na lista dos 24 fundadores do Sport Lisboa. Desses, destacam-se logo os 3 manos Rosa Rodrigues: José, Cândido e António. A este junta-se Jorge, um quarto mano que em 1904 era demasiado novo para poder ser fundador.





Entre os 24 fundadores temos também os manos Manoel e Carlos d' Oliveira França. E se Carlos teve uma carreira longa e destacada nas diversas categoria onde jogou, já Manoel é um mistério que persiste, pois dele nem sequer temos uma fotografia, desconhecemos a data de morte e apenas conhecemos a data de nascimento. Existiu ainda um terceiro mano, Francisco d' Oliveira França que chegou à 1ª categoria em 1911.





Temos também Eduardo Gomes Corga que tinha um irmão mais novo chamado Álvaro. Ambos foram membros com alguma relevância futebolística ate 1910.


 



Depois, temos o fundador Abílio Meireles, o mais velho de 4 irmãos, todos sócios do Clube. Que se saiba Abílio jogou apenas uma vez na 1ª categoria mas seria António o mano que mais se destacaria no futebol.


 



Fora da lista dos 24 fundadores muitos outros homens constituíram um conjunto alargado do qual emergiu qualidade que fez das nossas primeiras equipas casos precoces de sucesso e popularidade.




As famosas equipas da 1ª categoria e da 2ª categoria de 1905 (“espertos”). Ali podemos identificar diversos manos e fundadores do Sport Lisboa.






O primeiro dérbi da Quinta da Feiteira terminou com vitória do Sport Lisboa por 2-0, golos de David Fonseca e Cosme Damião. Lá estiveram diverso membros dos Meireles, Corga, França e Pereira.



E assim, nesses dias pós-fundação detectam-se outros manos nas listas de sócios-jogadores como os manos Lopes e os manos Duarte, dos quais temos pouca informação.

Há também os manos Monteiros e os manos Vivaldo. No caso dos manos Monteiro, Mário foi guarda-redes nas épocas de 1910-1911 e depois 1914-1915, já Carlos, apareceu fugazmente na equipa de honra de 1906-1907 mas era presença regular nas categorias inferiores.

Dos manos Álvaro e Alfredo Vivaldo já por aqui se falou extensamente (ver -229- Aguias na guerra (parte VI): os manos Vivaldo, pág. 57)






Dos 3 manos Freitas e Costa, todos sócios do nosso Clube, apenas Marcial foi jogador destacado na primeira equipa. Marcial foi extremo-direito e por privilegiar os estudos passou depois a jogar nas categorias inferiores. Engenheiro destacado, emigrou para Moçambique onde ajudou a fundar o Clube Ferroviário de Lourenço Marques (ver -90- Construtor de Catedrais, p. 25)

 



No próximo texto falaremos de mais manos à Benfica que usaram o manto sagrado nas décadas seguintes.




« Última modificação: 14 de Abril de 2019, 09:22 por RedVC »

Alexandre1976

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  • 13 de Abril de 2019, 13:59
Grande trabalho RedVC. :drunk:

RedVC

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  • 14 de Abril de 2019, 00:04
-236-
Manos à Benfica! (parte II) as décadas seguintes


Começamos com a fotografia da equipa do SLB que conquistou o título de campeão regional de Lisboa de 1913-1914. Foi o primeiro tricampeonato conquistado pelo SLB, feito que até então só os Ingleses do Carcavelos Club tinham conseguido.




A 1ª categoria do SLB em 12 de Outubro de1913 antes de um jogo contra o SCP (vitória 4-0). Estiveram presentes os manos Pereira e Alberto Rio.




Esta era uma equipa de grande categoria, que, sob o comando de Cosme Damião, contava com jogadores de talento como por exemplo o infeliz Álvaro Gaspar, o extremo Alberto Rio e os manos Pereira, entre outros.

Nascidos em Belém, os manos Artur José Pereira e Francisco Pereira tiveram uma história de vida curiosa embora só ainda tenhamos falado por aqui do primeiro (ver -108- Olhos de fogo, coração de Belém p.30).

Artur José Pereira foi, na opinião de Mestre Cândido Oliveira, o melhor e mais carismático jogador dos primeiros 50 anos do futebol em Portugal. A sua deserção do SLB para o SCP foi talvez uma das mais turbulentas transferências de sempre e aumentou enormemente a rivalidade entre os dois Clubes.





Em Belém nasceram os buliçosos manos Alberto e Joaquim Rio. O primeiro foi um excelente extremo esquerdo que ao fim de 11 anos de Águia ao peito decidiu também desertar para o SCP. Por lá teve carreira breve e discreta saindo ao fim de 1 ano para ser tornar um membro fulcral dos primórdios do CFB. Fez ainda parte da primeira selecção nacional em 1921.




Igualmente de Belém e estudantes casapianos, tivemos os manos Gralha. Ambos saíram do SLB quando, em 1920, Cândido de Oliveira teve ideia de fundar o Casa Pia Atlético Clube. Cerca de uma vintena de jogadores acompanhou Cândido nessa dolorosa cisão, fazendo com que o viveiro casapiano se extinguisse para o SLB. Foi no CPAC que os manos Gralha tiveram maior destaque, chegando ambos à selecção portuguesa.




Nascidos em Benfica, tivemos os manos Artur e Alberto Augusto de quem já por aqui falamos (ver -155- e -156- De Benfica para o Mundo: os fabulosos irmãos Augusto, p. 44). Tiveram um trajecto distinto, invulgar para o futebol desse tempo mas ainda assim ambos fizeram a maior parte da sua carreira de Águia ao peito. Alberto foi também o marcador do primeiro golo da história da selecção nacional, em Madrid no ano de 1921.




Os manos Peres, com origem Goesa, foram um caso interessante que espero falar um dia destes. Rogério era um avançado que começou a jogar ainda no SLB tempo da Quinta da Feiteira. Foi um bom avançado que teve vários momentos marcantes como os dois golos que marcou ao SCP num dérbi de 1915. Já Fausto era um médio que cumpriu 6 épocas de Águia ao peito.





Os manos José e António Bentes Pimenta tiveram alguma preponderância, particularmente o primeiro, nas nossas equipas da etapa final de Cosme Damião enquanto treinador. José Bentes Pimenta foi também piloto aviador e dele já por aqui falamos (ver -71 a 53- O Cruzeiro Aéreo às Colónias (partes I a III) p.21),


 



Dos dois manos Travaços, foi Artur aquele que mais se destacou, cumprindo 9 épocas como um médio valoroso. Já Aniceto era avançado e jogou na equipa de honra apenas por duas vezes.


 



Os manos Jorge e Vítor Hugo Gonçalves Tavares tiveram longas e dedicadas carreiras ao serviço do SLB. Jorge era avançado-centro, goleador e chegou a internacional A. Vítor Hugo foi internacional pela selecção militar e pela selecção de Lisboa em jogos contra selecções espanholas. Vítor Hugo foi médio trabalhador bastante regular e com um remate forte. Deles já por aqui falamos (ver -110- Acidente no Cartaxo (parte I), p.31).


 


Os manos Oliveira tiveram algum destaque nas equipas que conquistaram os dois primeiros títulos nacionais da nossa história. Eram alcunhados de “bananeiras”, ao que parece porque tinham uma banca de fruta numa das praças da cidade de Lisboa.


 



Depois temos os manos Silva. Terão sido dois ou três? Garantidamente Vítor Silva era irmão de Pedro Silva mas está ainda por confirmar que Júlio Silva fosse irmão deles.

 


Vítor Silva é uma figura de primeira grandeza na História do SLB. Para além de ter sido um excepcional futebolista foi uma contratação excepcionalmente dispendiosa para a época uma vez que o nosso Clube pagou cerca de 15 contos, verba considerável para a época, paga ao Hóquei Clube de Portugal. Isto num Clube que apenas recentemente tinha alterado a sua orientação de não contratar jogadores.

Vítor Silva tinha apenas 18 anos mas felizmente, valeu cada tostão pago na transferência, revelando-se um grande jogador e um caso sério de popularidade. Infelizmente, aos 27 anos foi forçado a abandonar o futebol por via de uma lesão que hoje seria facilmente resolúvel. Dele já por aqui se falou (ver -53- Dois entre doze, p.14).

Assim, sujeito a confirmação – é possível que esta fotografia nos mostre os três manos na mesma equipa.


 

Os manos Silva e um dos Oliveira, numa equipa dos anos 30




Temos ainda os manos Espírito Santo. Um deles era o Gloriosíssimo Guilherme Espírito Santo, um atleta notável quer na aptidão para o futebol ou para o salto m altura, especialidade em que foi recordista de Portugal por várias décadas, quer também pela sua inexcedível correcção e desportivismo.

O outro era Renato Espírito Santo, também ele praticante de atletismo mas que ainda fez um jogo na 1ª categoria de futebol na época de 1940-1941. De resto foi sempre jogador de categorias inferiores. De Guilherme Espírito Santo já por aqui falamos (ver -162- De Guilherme para Guilherme, p. 45)





Nas décadas seguintes o número de casos de manos à Benfica foi bastante inferior, muito provavelmente porque a base de recrutamento do Clube se tornou cada vez maior.

Ainda assim todos nós podemos identificar dois casos notáveis na década de 80 como foram os manos José Luís e Jorge Silva e os manos António e Alberto Bastos Lopes, cuja categoria revelada em campo deixou saudade.





Finalizando, como se disse no início do texto anterior, este levantamento não pretendeu ser exaustivo até porque a informação disponível tem grandes carências particularmente no que toca à informação sobre as categorias inferiores.

Ainda assim, esta foi uma boa oportunidade para lembrar, ainda que de forma sintética, alguns jogadores hoje pouco presentes na nossa memória colectiva mas que no seu tempo tiveram enorme contribuição e popularidade no nosso Clube.

Assim é a poeira do tempo. Hoje relevantes, amanhã esquecidos. Como serão lembrados tantos e tantos jogadores que hoje pensamos serem muito importantes? Creio que só os nossos filhos ou mais provavelmente os nossos netos é que poderão dar a resposta.

Tenhamos consciência que todos nós somos pequenos grãos dessa vasta poeira do tempo. Todos nós devemos estar conscientes de que o mais importante é o Clube. O Benfica renova-se, engrandece-se, assente nas contribuições generosas e apaixonadas daqueles que amam o Clube. Pelo Benfica, sempre!


« Última modificação: 15 de Abril de 2019, 08:59 por RedVC »

Petrov_Carmovich

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  • 14 de Abril de 2019, 14:21
Mais um grande artigo, Red. Só uma correção: a primeira seleção nacional reuniu-se em 1921 e não em 1919.

E uma curiosidade: Alberto Basto Lopes foi treinador do GD Peniche em 2007/08 ajudando a trazer para a minha cidade natal o Campeonato Distrital de Leiria (e consequente subida à antiga 3ª Divisão Nacional) e também a Taça Distrital. Apreciava o estilo dele como treinador. Acho que está parado neste momento. Tudo de bom para ele.

RedVC

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  • 14 de Abril de 2019, 15:38
Mais um grande artigo, Red. Só uma correção: a primeira seleção nacional reuniu-se em 1921 e não em 1919.

E uma curiosidade: Alberto Basto Lopes foi treinador do GD Peniche em 2007/08 ajudando a trazer para a minha cidade natal o Campeonato Distrital de Leiria (e consequente subida à antiga 3ª Divisão Nacional) e também a Taça Distrital. Apreciava o estilo dele como treinador. Acho que está parado neste momento. Tudo de bom para ele.

Sim, Petrov_Carmovich, obrigado pela correcção O0
Já não é a primeira vez que troco 1919 por 1921. A minha cabeça decidiu e deve estar à espera que a história se re-escreva... Enquanto espera há que ir editando para repor a verdade histórica.  :coolsmiley:

RedVC

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  • 14 de Abril de 2019, 23:22

Manos à Benfica!


Créditos para Messi87

RedVC

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  • 19 de Abril de 2019, 21:09
-237-
Sexta-feira, avião 13 (parte I): o acidente


Barcarena, dia 27 de Março de 1925. Pelas 10h20 da manhã, o avião Breguet Br XIV-A2 com a matrícula nº 13, entrava em perda irremediável de altitude e despedaçava-se contra o solo, num terreno perto do cemitério de Barcarena.

No dia seguinte os jornais davam ampla cobertura a mais uma tragédia dos primeiros dias da aviação militar em Portugal.


 

A manchete da edição de 28-03-1925 do jornal “O Século”.



Os relatos indicavam que a bordo da aeronave se encontravam três homens, dois militares e um civil.

O piloto era o Tenente-aviador José Carlos Pissarra, de 26 anos de idade e natural de Setúbal.

Como convidado de última hora e sentado no lugar do observador, estava Mário Nunes da Graça, jornalista de “O Século”. Tinha 27 anos de idade e era natural de Ílhavo.

O terceiro homem era o Tenente Luís Manuel Baptista Caldas. Com 25 anos de idade e natural de Lisboa, este militar era tão-somente Luís Caldas, guarda-redes do Sport Lisboa e Benfica até ao ano anterior.


 

Os três ocupantes do Breguet 13



No texto de hoje falaremos dos locais e das circunstâncias deste acidente aéreo. Falaremos ainda dos dois primeiros homens e aproveitaremos também para lembrar alguns dos notáveis pioneiros da aviação Portuguesa.

No próximo texto falaremos com maior detalhe de Luís Caldas, o terceiro vitimado deste acidente o nosso antigo jogador.



O campo da Amadora


O Breguet Br XIV-A2 era um avião de fabrico Francês que foi escolhido para equipar o Grupo de Esquadrilhas de Aviação República (GEAR), criado em 5 de Fevereiro de 1918. Este modelo fazia pois parte das primeiras esquadrilhas militares Portuguesas

O GEAR estava sediado no campo da Amadora nos terrenos onde agora funciona a Academia Militar. Foi naquele aeródromo que se viveu a era de ouro do início da aviação Portuguesa. Só em 1938 o campo seria encerrado tendo todas as suas valências e material sido transferidas para Tancos.

Imagens em movimento espantosas reportando um certame de aviação em 1928 podem ser visualizadas na Cinemateca Digital, aqui: http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=4910&type=Video



O GEAR e o campo da Amadora, local de onde descolou o Breguet 13 e onde operava o GEAR. Fonte: AML e TT



Para equipar o GEAR, foram numa primeira fase adquiridos em França 22 aviões biplanos SPAD s.VII-C1 e 16 aviões biplanos Breguet Br XIV A2 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Breguet_14).


 



Os Breguet Br XIV A2 foram matriculados de 1 a 16 e usados para o cumprimento de missões de instrução e operacionais. Alguns deles ficaram ligados a viagens célebres como por exemplo o Breguet 2 (baptizado de “Cavaleiro Negro”) usado na tentativa de ligação Amadora-Madeira por Sarmento de Beires e Brito Pais e o Breguet 15 (baptizado de “Santa Filomena”) usado por Pinheiro Correia, Sérgio da Silva e Manuel António para fazer o raide Lisboa-Bolama (Guiné). Já o Breguet 13 ficou infelizmente célebre pelas piores razões.




O Breguet 15 usado na viagem aérea Lisboa-Bolama (Guiné), entre 27-03-1925 e 2-04-1925. Ou seja partiu no dia em que o Breguet 13 se despenhou. Fonte: https://ex-ogma.blogspot.com/2009/03/avioes-da-am-breguet-br14-a2.html



Desde 1914 que existia oficialmente uma aviação militar constituída em Portugal, nos ramos Exército e Marinha, com a criação da Escola de Aviação Militar e Aviação Naval. Em 1925 a aviação civil era ainda e apenas motivo de discussão, embora já tivessem aparecido alguns – poucos – aviadores civis.

Assim, entre os bravos pioneiros da aviação Portuguesa encontramos militares célebres, alguns dos quais foram glorificados para conveniência política do antigo regime. Outros foram quase apagados da memória colectiva e ainda hoje são menos conhecidos embora na altura tivessem igual notoriedade. São exemplos desses heróis esquecidos os casos de Sarmento de Beires (de quem já por aqui falamos ver -58- Um encontro Americano p.14) e Sarmento Pimentel. Pagaram duro o preço de terem sido activos opositores do antigo regime. Mais tarde teríamos também o caso de Humberto Delgado.

As décadas de 20 e 30 foram períodos apaixonantes para a aviação em Portugal. Foram anos de grande risco e coragem pessoal dos pilotos e mecânicos mas que – nos casos dos raides mais longos – foram também muito prestigiantes para o nosso país, na altura tão necessitado de heróis contemporâneos.

Essa temeridade trouxe aos pioneiros muita notoriedade mas muitas vezes foi também paga com sangue. Foram muitos os momentos fatídicos como o acidente com que começamos este texto.



Uma galeria de 24 dos muitos bravos pioneiros da aviação em Portugal. Alguns deles deram a vida pela Pátria.




Dois mortos


No dia do acidente fatal, no Campo da Amadora, o Tenente Pais Ramos fez uma primeira descolagem com o Breguet 13 para avaliar as condições atmosféricas. Pouco depois descolou o Breguet 15, pilotado por Pinheiro Correia que com os seus companheiros iniciava a travessia Lisboa- Guiné.

No voo fatal, o Tenente Pissarra pilotou o Breguet 13, levando-o a sobrevoar Lisboa a uma altitude de 800 metros. Chegaram a sobrevoar o Barreiro antes de iniciar as manobras de regresso à Amadora, numa manhã com visibilidade clara e excelentes condições atmosféricas. Sentado aos pés do jornalista Mário Graça, o Tenente Luís Caldas ia servindo de cicerone, identificando os locais que estavam a sobrevoar, para grande deleite do jornalista.

Cerca das 10h15, o avião sobrevoava Barcarena, quando iniciou as manobras para a aterragem no campo da Amadora, voando contra o vento, como então era norma. E foi nessas manobras de aproximação, que se deu a súbita perda de velocidade e o desenlace fatal.

No dia da tragédia foi inicialmente apontada como causa do acidente a possibilidade de ter ocorrido uma pane do motor do avião em pleno voo. De facto, a aeronave teve duas falhas de motor aquando da descolagem, incidentes que chegaram a colocar causa o voo. Apenas a insistência do Tenente Pissarra fez com que o voo fosse por diante.

Mais tarde foi revelado que na altura do acidente, a aeronave voaria a uma velocidade demasiado baixa tendo por isso ficado exposta a um súbito golpe de vento na asa levantada para a volta, o que a terá levado a encapotar e a entrar em perda irremediável. O avião precipitou-se até embater violentamente no solo em posição invertida.






O Tenente-aviador José Carlos Pissarra teve morte imediata. O seu corpo ficou debaixo dos destroços, horrivelmente mutilado. O infeliz militar tinha tirado o seu brevet na Escola de Aeronáutica de Sintra e prestado serviço em Angola, sendo considerado um excelente piloto, muito ponderado e certeiro nas suas decisões. Foi sepultado no cemitério dos Prazeres. Deixou viúva e dois filhos menores.



Recortes de jornal noticiando o acidente e da morte do Tenente Pissarra




O jornalista Mário Nunes da Graça, de apenas 26 anos de idade, ficou ferido com gravidade, apresentando uma fractura da base do crânio e pernas e braços partidos. Foi transportado para o Hospital de S. José, onde prontamente recebeu uma transfusão sanguínea. As notícias dos jornais nos dias seguintes eram contraditórias, ora indicando que o acidentado apresentava algumas melhoras, ora que se encontrava moribundo. Resistiu ainda alguns dias mas às primeiras horas do dia 2-04-1925 acabaria por falecer.




Recortes de jornal noticiando a morte do jornalista Mário Graça



O pobre jornalista fez nesse dia o seu baptismo de voo por via do seu entusiasmo e da forma obstinada como disputou o lugar naquele voo fatal do Breguet 13 com pelo menos 3 outros colegas. Um desses colegas foi Sebastião Cardoso, jornalista do DN, que escreveria muitos anos mais tarde um belo texto relatando extensivamente em que circunstâncias foi Mário Graça e não ele a entrar no fatídico avião. Apropriadamente intitulou esse texto de “A morte disputada”…






Um ano depois, na Igreja de S. Domingos em Lisboa, celebrou-se uma missa por alma dos dois mortos.




Fonte: DL e TT




Mais tarde um grupo de jornalistas e militares fez uma romagem ao cemitério do Alto de S. João para homenagear o jornalista Mário Graça.


 


Fonte: DL e TT


Nos dois eventos esteve presente o Tenente Luís Caldas. E é nele que vamos agora concentrar atenções.



O sobrevivente

 

Mário Caldas em 1922



Entre os bravos pioneiros a aviação Portuguesa já conhecíamos um antigo futebolista do Sport Lisboa e Benfica, o Capitão-aviador José Bentes Pimenta, mas a esse podemos agora adicionar o Tenente Luís Caldas.

Por via do acidente, não sei se alguma vez Luís Caldas chegou a tirar o brevet mas o seu entusiasmo fez com que tivesse voado múltiplas vezes na companhia do Tenente-aviador Pissarra. Já anteriormente os dois homens tinham passado por situações de voo complicadas, entretanto resolvidas. Infelizmente, naquele dia 27 de Março de 1925 já não houve nada a fazer.

O Tenente Luís Caldas ficou gravemente ferido no acidente do Breguet 13. Quando deu entrada no Hospital de S. José, Caldas apresentava a perna direita partida e numerosas contusões no rosto e cabeça. Nas primeiras horas teve poucos momentos de inconsciência mas apresentou algumas melhoras.

É muitas vezes caprichoso o destino… Por pura sorte ou porque ocupava uma posição aparentemente mais resguardada, certo é que Luís Caldas foi o ocupante que menos sofreu com o impacto. O seu estado inspirou enormes cuidados e uma complicada operação à perna, mas a sua recuperação foi acontecendo.

Estava mentalmente muito afectado e nos primeiros dias desconhecia – embora desconfiasse – qual tinha sido o destino dos companheiros daquela sua fatídica viagem. A ligeira recuperação do seu estado clínico permitiu-lhe dar a sua primeira entrevista logo no dia 9 de Abril. Lembrava-se de tudo menos do acidente e dos momentos que se seguiram ao violento embate no solo.




Fragmento da primeira entrevista dada por Luís Caldas depois do acidente




Apesar do acidente, Luís Caldas, Tenente de Infantaria, continuava a manifestar o desejo ardente de tirar o brevet e se tornar piloto-aviador. Tão grande era essa vontade que o Coronel Cifka Duarte, chefe do GEAR teve que lhe assegurar que seria admitido logo que recuperasse. Meses antes, Luís Caldas tinha sido submetido a uma intervenção cirúrgica ao nariz de forma a poder manter esperanças em integrar os corpos do GEAR. Tenacidade e espírito de sacrifício eram apanágio deste jovem militar. As mesmas virtudes que demonstrou enquanto jogador do Sport Lisboa e Benfica.


No próximo texto falaremos de Luís Caldas, enquanto guarda-redes do Gloriosos e aproveitaremos também para abordar duas fascinantes digressões do SLB nas quais ele teve oportunidade de participar.





« Última modificação: 20 de Abril de 2019, 09:43 por RedVC »

RedVC

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  • 19 de Abril de 2019, 21:21
-238-
Sexta-feira, avião 13 (parte II): guardião para digressões




Luís Caldas de Águia ao peito em 1922




Luís Caldas foi um dedicado guarda-redes que, como então era norma no nosso Clube, foi subindo na hierarquia do futebol pelo caminho das categorias inferiores.

Estreou-se na 1.ª categoria em 3 de Fevereiro de 1918, integrando uma equipa orientada por Cosme Damião e recheada de grandes jogadores (ver https://serbenfiquista.com/jogo/futebol/seniores/19171918/campeonato-de-lisboa/1918-02-03/imperio-lisboa-clube-1-x-2-sl).

 

A equipa em que Luís Caldas se estreou na 1ª categoria do SLB



Luís Caldas disputou seu último jogo pela 1ª categoria do SLB em 21 de Setembro de 1924, uma partida particular de princípio de época em que defrontamos – facto ainda por confirmar –o Real Deportivo, clube espanhol que estava em digressão por Lisboa.

Nas épocas de 1918/19 e 1920/21, Luís Caldas baixou à 2.ª categoria, onde jogou em exclusivo. Na época 1923-1924, fez também jogos nessa categoria e em 1920-1921 nem sequer jogou, por motivos que desconheço, eventualmente por compromissos profissionais.

Assim, desde a sua estreia na 1ª categoria até ao último jogo, Caldas teve um trajecto irregular mas que se estendeu por 8 temporadas. Jogou pouco na 1ª categoria, cerca de uma vintena de jogos, dado que nesse tempo o Clube contava de outros guarda-redes de valor tais como Chiquinho, Clemente Guerra, Arsénio e Picoto.

Curiosamente, sendo pouco utilizado nas competições nacionais acabou por ser ele o guarda-redes de duas importantes digressões que o nosso futebol fez em 1922, à Madeira e a Espanha.



Madeira, Abril 1922


De 9 a 19 de Abril a equipa principal do Sport Lisboa e Benfica disputou 5 jogos particulares na ilha da Madeira. Foi uma jornada intensa, razoável do ponto de vista desportivo mas muito bem conseguida do ponto de vista social.




A comitiva do Sport Lisboa e Benfica que participou na digressão à Madeira em 1922

 


Essa digressão à Madeira está muito bem descrita por Alberto Miguéns, aqui https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2011/12/glorioso-na-madeira-esta-se-bem.html




Uma das equipas apresentadas pelo SLB aquando da sua digressão à ilha da Madeira no ano de 1922. Fonte: EDB, Alberto Miguéns




A comitiva do SLB fotografada com diversos anfitriões madeirenses. Fonte: EDB, Alberto Miguéns



Já em tempo de balanço, Vítor Gonçalves, o nosso excelente capitão de equipa, deu uma entrevista ao periódico ABC, onde descreveu as dificuldades de adaptação da equipa do SLB aos terrenos da Madeira. Salientava no entanto a grande competitividade e valor das equipas Madeirenses, em particular do Clube Sport Marítimo. Salientou igualmente a estima e fidalguia revelada pelos desportistas Madeirenses que os receberam.




Montagem de recortes da entrevista de Vítor Gonçalves que fez o balanço da digressão à Madeira em 1922. Fonte: Hemeroteca de Lx




Madrid, Junho 1922


A digressão a Madrid de finais de Junho de 1922 não era a primeira que o SLB fazia à capital Espanhola. Já antes, em Maio de 1913, em Janeiro de 1915 e em Outubro de 1919, as camisolas vermelhas tinham deixado grande cartel em Espanha. Nos jogos anteriores contra os merengues, o Benfica tinha conseguido duas derrotas (1-2 em 1913 e 1-4 em 1919) e duas vitórias retumbantes (5-0 em 1915 e 5-1 em 1919).

Nesta digressão os periódicos madrilistas notaram menor competitividade dos Benfiquistas, um decréscimo que se iria notar até ao final dessa década.




Em cima, recorte do jornal Madrid-Sport. À Em baixo, o campo do Velódromo de la Ciudad Lineal onde se disputou o Real Madrid – SL Benfica de 25-06-1922. Fonte: Hemeroteca de Espana e soccermaniak.com




Mas na verdade a digressão foi planeada como foi possível tendo em conta via o amadorismo, o tempo disponível e as condicionantes dos transportes da época. O Benfica chegou de comboio no próprio dia do primeiro jogo e disputou o segundo jogo logo no dia seguinte…

Perdemos o primeiro jogo (0-1) contra um Athlétic de Madrid reforçado com 3 jogadores do Racing de Madrid. Os jornalistas espanhóis acharam o jogo monótono e convenceram-se até que os Benfiquistas estiveram a resguardar energias para o jogo seguinte, contra o Real de Madrid.



A equipa do Real de Madrid de 1922-1923. Sete destes jogadores integraram a equipa que disputou um desafio contra o SLB em 25-06-1922




De facto, os merengues tinham uma equipa bastante mais forte, integrando na posição de interior direito um jogador já veterano mas que se viria a tornar seu presidente e sua lenda: Santiago Bernabéu...

O jogo foi bastante mais animado do que o disputado no dia anterior e, apesar de o Benfica ter marcado primeiro, o Real Madrid mostrou-se superior, acabando por vencer por 4-1. Dito isto, Luís Caldas acabou por ter o infeliz registo de sofrer 5 golos em dois jogos.


 

Montagem de recortes relativos aos dois jogos disputados pelo SLB em Madrid nos dias 25 e 25 Junho. Fonte: Hemeroteca Espanola


Curiosamente, Luís Caldas acabou por ser integrado na digressão por via da indisponibilidade de Chiquinho que na altura era o titular das nossas balizas. Chiquinho esteve inicialmente escalado por Cosme Damião mas como não foi autorizado pelo seu patrão a deslocar-se a Madrid, acabou por dar o seu lugar a Luís Caldas.

E dessa forma lá o vemos ao lado de nomes grandes como Ribeiro dos Reis, Vítor Gonçalves, José Simões e José Bentes Pimenta (também ele aviador e de quem já por aqui falamos, ver -71 a 73- O Cruzeiro Aéreo às Colónias (I - III) p.21)




A equipa do SLB fotografada juntamente com a equipa do Athletic de Madrid durante a digressão a Madrid em Junho de 1922. Na foto falta o defesa (e também aviador) José Bentes Pimenta. Fonte: EDB, Alberto Miguéns



Infelizmente, não tenho mais informação sobre o trajecto pessoal de Luís Caldas nos anos que se seguiram ao acidente. Como se viu, Caldas foi o único sobrevivente, comparecendo um ano depois em actos celebrados em memória dos seus companheiros de infortúnio.

É possível que tenha ficado com acentuadas mazelas físicas e psicológicas daquele terrível acidente. Fica em aberto uma actualização deste texto se novos factos vieram ao meu conhecimento.


Paz e honra à memória do Glorioso Luís Caldas.






« Última modificação: 20 de Abril de 2019, 09:27 por RedVC »

Carminati

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Derby juvenil disputado onde?

(seja onde for mete medo...)


eagles_letchworth

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Derby juvenil disputado onde?

(seja onde for mete medo...)


São João de Brito

Carminati

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Derby juvenil disputado onde?

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São João de Brito

sério? Então é a mitica Musgueira City!

eagles_letchworth

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Derby juvenil disputado onde?

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São João de Brito

sério? Então é a mitica Musgueira City!
Cheguei lá pela empresa la bem atrás... Acácio Alves Peralta, ficava no Bairro S.Joao de Brito.