53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 103354 vezes)

RedVC

  • Eusébio
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  • 06 de Março de 2019, 13:27
Este tópico é assombroso!

Deveria estar nos Inamoviveis, junto com o da evolução dos nossos Equipamentos!

Obrigado por tudo, RedVC! :)


Obrigado Benfiquista_  O0

No SB há actualmente uma política - aliás extensível aos antigos jogadores do SLBenfica - de não fixar tópicos. Acredito que visa evitar conflitos vindo de pontos de vista diferentes e coerente coma tradição do nosso Clube em colocar o Clube acima de qualquer homem. A não colocação do Decifrando ou o tópico dos Mantos Sagrados como inamovível é uma decisão perfeitamente aceitável.

Se eu procurasse apenas protagonismo pessoal teria optado por outra plataforma de divulgação desta minha actividade -leia-se paixão - dos tempos livres. Não procuro. Aliás não ganho rigorosam€nt€ nada com o que coloco aqui no SB. Ou melhor ganho apenas a satisfação de partilhar a paixão, algo que é sublime na vida de qualquer pessoa. É por isso que cada mensagem de outros companheiros do fórum é importante. É uma partilha e isso vale muito. É a essência do Benfiquismo.

O foco aqui sempre foi criar um tópico que seja um ponto de partilha de questões e de respostas. Um local que engrandeça o clube e os Benfiquistas. Que fale da paixão pelo Clube usando como veículo uma imagem que nos lembre acontecimentos e pessoas inesquecíveis da História do Clube. De alguma forma tem-se tornado um tópico mais movido por mim quando eu esperava que fosse mais parecido com o das fotografias. Acho que o Rodolfo com o seu tópico dos Mantos Sagrados deve ter a mesma sensação.

Estamos quase a atingir os 100.000 leituras, número interessante, ainda assim mais baixo do que eu esperava após estes anos. Sinto que podia ser mais mas isso é talvez um reflexo destes textos serem muito longos e serem sobre História, duas características que não são muito apreciadas nos tempos que correm.

Obrigado a ti e a todos os que aqui usam algum do vosso tempo livre.

Pelo Benfica, sempre.

Benfiquista_

  • Eusébio
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  • 06 de Março de 2019, 14:59
Entendo, mas és a Memória Viva aqui do nosso cantinho :)

E tempo aqui a ver a nossa História, nunca é tempo perdido.

É tempo ganho a todos os níveis!

Continua o teu inolvidável trabalho!

Abraço! :)

RedVC

  • Eusébio
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  • 08 de Março de 2019, 20:28
-229-
Águias na guerra (parte VI): os manos Vivaldo

 



Uma fotografia por legendar:

 

Fonte: AML



Vê-se um campo que muito provavelmente era o campo da Quinta da Feiteira, em Benfica.

Contam-se 21 homens, organizados em duas equipas de futebol. Pelos equipamentos a fotografia reporta-se à primeira década do século XX.

Nota-se a presença de um homem vestido de branco com um apito ao peito, certamente o árbitro.

Uma das equipas aparece-nos com equipamento liso de tonalidade clara. Alguns dos seus elementos envergavam uma curiosa gravata.

A outra equipa aparece-nos com uma camisola branca com listas de uma cor que não conseguimos definir. A maioria das camisolas tem gola, provavelmente também dessa cor indefinida, mas dois dos membros da equipa envergam um segundo formato, sem gola.
Não era incomum essa mistura de formatos nos primórdios do nosso futebol.

Concentrando atenções na equipa de camisolas listadas, é possível identificar alguns jogadores. É também possível identificar o árbitro da partida e um outro elemento que provavelmente era membro da equipa com camisola lisa. Essas identificações dão-nos pistas.






O árbitro era Daniel Augusto Queiroz dos Santos (1879-1948), ex-casapiano, antigo jogador do Sport Lisboa (1904-1907) e jogador do Sporting CP, clube para onde se transferiu em Maio de 1907. No Sporting CP mostrou-se um sportinguista de convicções e palavras fortes, belicoso e intratável nos media, tendo chegado ao cargo de presidente da Direcção (1914-1918). Dele havia bastante a dizer mas ficará para outro dia.

Por falar em SCP, identifica-se também Augusto Freitas, que antes de terminar a sua carreira de guarda-redes no clube leonino, passou ainda pelo FC Cruz Negra. Era um desportista bem conhecido do meio lisboeta tendo também praticado Pedestrianismo e Ciclismo. O seu abandono do Futebol deu brado quando, em Abril de 1911, no decurso de um Sporting CP – SL Benfica, decidiu agredir dois jogadores Benfiquistas apenas porque lhe tinham… marcado golos. Uma saída de estrondo…

Bem mais interessantes são as identificações feitas na equipa listada. Identificam-se três glórias Benfiquistas: Cosme Damião, Luís Vieira e Marcolino Bragança! A presença deste último, baliza-nos temporalmente a fotografia para o biénio 1907-1908, período após o qual o são-tomense regressou definitivamente a África, radicando-se em Angola.

Assim é provável – embora sem certezas – que estejamos perante uma raridade ou seja que se trate de uma fotografia que inclui uma equipa de futebol do Grupo Sport Benfica. A fotografia deve reportar ao período de indefinição que aconteceu entre a grande deserção de Maio de 1907 e o início da época seguinte, altura em que Silvestre da Silva, mandatado pelo Sport Lisboa, inscreveu o Clube para o Campeonato regional da época seguinte. O Sport Lisboa estava salvo.


Mas para lá desta hipótese e para a parte central deste texto, vamos concentrar atenções no elemento à paisana que nos aparece à esquerda, abraçado por Cosme Damião e envergando uma farda compatível com a de estudante no Colégio Militar. Trata-se de Álvaro Vivaldo, uma figura pouco conhecida dos primeiros anos do nosso Clube. Pouco conhecida mas bastante interessante.





Propósito


Daqui em frente falaremos do que sabemos sobre a família Vivaldo, que teve dois dos seus membros entre os primeiros sócios e jogadores do Sport Lisboa e Benfica. Ora, um dos propósitos do “Decifrando…” é resgatar para a memória colectiva algumas antigas figuras do SLBenfica que tenham dado uma contribuição efectiva para o Benfiquismo, principalmente nos primeiros anos da vida do Clube. E, como se verá, a família Vivaldo tem muitos motivos de interesse.



A família


Álvaro Eugénio de Araújo Vivaldo nasceu em Belém no dia 16.03.1891. Em Belém nasceram também os seus dois irmãos, Alberto de Araújo Vivaldo (04.09.1888), que poderá ter morrido em criança, e Alfredo César de Araújo Vivaldo Júnior (14.10.1889). Álvaro e Alfredo Jr foram os Vivaldos que vieram a ser sócios e jogadores do Glorioso.

Eram todos filhos naturais de Alfredo César de Araújo Vivaldo (1859-1927), alferes (mais tarde Coronel) da administração militar, natural de Viana do Castelo e de Virgínia Amélia Martins de Azevedo, natural da freguesia da Pena, Lisboa.

Eram também netos paternos do General de Brigada Francisco José Maria de Vivaldo e Mendonça (1827-?), natural de Loulé. Ou seja os manos Vivaldo nasceram no seio de uma família de antigas e distintas tradições militares.

A itinerância militar é algo inerente à vida dos militares, em todos os tempos. Assim foi também com o General Vivaldo, que ao longo da sua carreira de militar passou pelas praças de Valença, Elvas e Monsanto até chegar à Praça de S. Julião da Barra, em Oeiras, vivendo na Rua da Junqueira, Belém; aí se fixando até à sua reforma, em 1885.

Já os pais dos manos Vivaldo, quando casaram, foram morar primeiro para a Rua de Pedrouços e depois para a Rua do Cais de Belém. Ou seja os manos Vivaldo cresceram na zona de Belém, num tempo e num espaço em que viveram as pessoas decisivas para a fundação do nosso Clube.



Antes do Glorioso


Os manos Vivaldo iniciaram-se no futebol no Restelo FC, uma pequena e pouco conhecida colectividade que então usava um terreno em Pedrouços, propriedade da Casa de Cadaval. Esse terreno era bem próximo do que foi usado para o primeiro treino do nosso Clube, uns anos antes, na manhã de 28.02.1904.

Paralelamente, Alfredo Jr. frequentava o Instituto Industrial de Lisboa, tendo participado num campeonato escolar de futebol no ano de 1908. Entre os seus colegas de equipa contavam-se alguns rapazes que seriam em breve figuras de primeira grandeza do futebol do SL Benfica. Carlos Homem de Figueiredo, Germano Vasconcelos e Leopoldo Mocho. Estavam ainda presentes mais dois homens que passaram pelas categorias inferiores tais como Gomes Cal e Júlio de Castro.




Fonte: Hemeroteca de Lisboa



O Instituto Industrial e Comercial de Lisboa foi uma instituição de ensino técnico criada em 1869 por fusão do Instituto Industrial de Lisboa com a Escola de Comércio, resultando no alargamento do ensino técnico à economia e administração (fonte: wikipedia). Em 1911 a instituição foi dividida no IST - Instituto Superior Técnico e no Instituto Superior de Comércio (actual ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão).



No Glorioso


Os manos Vivaldo chegaram ao nosso Clube durante a ressaca da grande deserção de Maio de 1907. Nesse período fez-se a reconstrução das equipas das diversas categorias do Clube, liderada por Cosme Damião e seus pares. Os manos Vivaldo foram recrutados para o Sport Lisboa juntamente com 3 outros atletas do Restelo FC.



Os 5 elementos que foram recrutados pelo Sport Lisboa ao Restelo FC.




E assim, os manos Vivaldo já constam da lista de sócios que o Sport Lisboa apresentou aquando da junção com o Grupo Sport Benfica em Setembro de 1908.




Álvaro e Alfredo Jr. destacaram-se enquanto jogadores das categorias inferiores do SLB.
Não sei ao certo em que posição jogava Alfredo Jr. mas Álvaro sabe-se que se distinguiu como médio ao centro. Ora, no modelo de pirâmide (2:3:5), então praticado, essa posição do terreno era fulcral pois o jogador que a fazia tinha a obrigação de municiar os 5 avançados mas também de apoiar uma defesa que contava apenas com 2 elementos. Nessa posição, aos bons dotes futebolísticos exigia-se também capacidade de liderança em campo.

Terá sido justamente por jogar nessa posição central, a mesma que Cosme Damião ocupava na 1ª categoria, que Álvaro apenas fez apenas 3 jogos pela equipa principal. Esses 3 jogos foram todos disputados na temporada de 1911-1912, época em que Álvaro ajudou à conquista do Campeonato Regional de Lisboa, a principal prova de então. A regularidade de Cosme Damião não deu muitas mais hipóteses a Álvaro.


 

Duas das equipas apresentadas pela 2ª categoria na época de 1911-1912. Seríamos campeões de Lisboa.



Assim, Álvaro destacou-se essencialmente nas equipas da 2ª categoria, que nesse tempo eram bastante fortes, conquistando muitos títulos. Nessas equipas estavam presentes elementos jovens com talento emergente, como Álvaro Gaspar e Alberto Rio, que em breve dariam cartas na categoria principal. Estavam também presentes veteranos prestigiados como David da Fonseca, António Bernardino Costa e Romualdo Bogalho, que aportavam não só uma enorme competitividade como, acima de tudo, transmitiam a mística do Clube aos mais novos.

Para Cosme e para o Clube, não havia distinção de maior ou menos importância entre as categorias. Todas eram importantes e em todas se exigia o máximo para obter a vitória. Um segundo lugar não era comemorado. Os manos Vivaldo foram parte importante dessa filosofia, dando a sua contribuição para cimentar o sucesso e a popularidade do nosso Clube.



Tragédia


No dia 01.12.1912, às 15h00, na sua casa da Rua de Pedrouços, faleceu Alfredo César de Araújo Vivaldo Júnior. Tinha apenas 31 anos de idade. Morreu na flor da idade, de causas que desconheço. Nesse tempo Alfredo Jr. era aluno da Escola do Exército, casado, ainda sem filhos. Foi sepultado no cemitério da Ajuda.



Cemitério da Ajuda. fonte: AML





Vida militar


Netos de um General e filhos de um Coronel do Exército Português, compreende-se que tanto Álvaro como Alfredo também tenham enveredado pela vida militar. Alfredo Jr. morreu muito cedo mas Álvaro acabou por participar na I Guerra Mundial, integrando o CEP, Corpo Expedicionário Português.




O quadro dos 16 Benfiquistas que participaram na I Guerra Mundial, na Europa e em África.




Como vemos, Álvaro Vivaldo foi mais um dos Benfiquistas que combateram na Grande Guerra. Felizmente, dos que eu conheço, todos regressaram.


 

Fonte: Exército Português



Facto relevante, três meses antes de embarcar para terras de França, Álvaro Vivaldo casou com Maria Olívia Basto Gavião, de apenas 16 anos de idade, natural de Lisboa, freguesia de Santa Justa. Notando uma grande diferença de idades, o casamento com uma menor foi celebrado poucas semanas antes de Álvaro Vivaldo embarcar para uma Guerra da qual não sabia se iria regressar. Basta lembrar que poucas semanas antes do casamento, milhares de soldados Portugueses tinham encontrado a morte nos campos de La Lys. Nesse contexto funesto, a possibilidade de Álvaro não regressar era muito real e terá condicionado muito as decisões do casal.

Álvaro participou no conflito como Alferes miliciano numa Bateria da Guarnição de Lisboa. Embarcou em Lisboa no dia 08.08.1918 tendo seguido por via marítima até Brest, França onde desembarcou no dia 13 do mesmo mês.



O processo individual do Alferes miliciano Álvaro Vivaldo.




Em 13 de Outubro já se encontrava na frente de batalha onde, a partir do dia 15 de Outubro, recebeu instrução militar suplementar. Concluiu o curso de sinaleiro no princípio do mês de Novembro.


 

A angústia da despedida.




Os nervos à chegada. Fonte: TT




A Grande Guerra terminaria poucos dias depois, no dia 11.11.1918, significando isto que Álvaro Vivaldo esteve cerca de 4 meses nos palcos activos do conflito.

Findas as hostilidades, ainda assim havia muito para fazer e Álvaro permaneceria por terras francesas até ao dia 28.03.1919, data em que finalmente embarcou de regresso a Portugal.

Nas décadas seguintes Álvaro Vivaldo tornou-se agente comercial embora desconheça de que sector de actividade.

No dia 19.06.1962, às 3h30 da manhã, na sua casa da Rua Miguel Contreiras, freguesia de Alvalade, Álvaro Vivaldo faleceu vítima de um cancro nos pulmões. Foi sepultado no cemitério do Alto de São João.

Álvaro Vivaldo faleceu 6-7 semanas depois do SL Benfica se ter sagrado Bicampeão Europeu em Amesterdão. Quem sabe se ainda terá tido consciência dessa grande vitória? Esperemos que sim.


Paz às Almas de Álvaro e Alfredo Vivaldo. Honra às suas memórias.





« Última modificação: 08 de Abril de 2019, 20:17 por RedVC »

Benfiquista_

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  • 09 de Março de 2019, 21:36
Ando a tentar encontrar uns recortes que colocaste aqui, acerca de um jogo em dezembro de 1988, acerca de uma homenagem ao incêndio do Chiado.

Onde consigo encontrar, ou a data do jogo?

Foi em dezembro de 1988 ou janeiro de 1989.

RedVC

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  • 09 de Março de 2019, 22:38
Ando a tentar encontrar uns recortes que colocaste aqui, acerca de um jogo em dezembro de 1988, acerca de uma homenagem ao incêndio do Chiado.

Onde consigo encontrar, ou a data do jogo?

Foi em dezembro de 1988 ou janeiro de 1989.

Sinceramente, não me lembro.

Estive a ver e parece estar aqui

18 de Janeiro de 1989


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353#!19



Reportagem no dia seguinte

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31354#!19

« Última modificação: 09 de Março de 2019, 22:46 por RedVC »

Benfiquista_

  • Eusébio
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  • 09 de Março de 2019, 22:59
Ando a tentar encontrar uns recortes que colocaste aqui, acerca de um jogo em dezembro de 1988, acerca de uma homenagem ao incêndio do Chiado.

Onde consigo encontrar, ou a data do jogo?

Foi em dezembro de 1988 ou janeiro de 1989.

Sinceramente, não me lembro.

Estive a ver e parece estar aqui

18 de Janeiro de 1989


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353#!19



Reportagem no dia seguinte

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31354#!19


Era isto mesmo amigo.

Obrigado.

Só não estou a conseguir sacar as fotos no android...

RedVC

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  • 09 de Março de 2019, 23:10
Ando a tentar encontrar uns recortes que colocaste aqui, acerca de um jogo em dezembro de 1988, acerca de uma homenagem ao incêndio do Chiado.

Onde consigo encontrar, ou a data do jogo?

Foi em dezembro de 1988 ou janeiro de 1989.

Sinceramente, não me lembro.

Estive a ver e parece estar aqui

18 de Janeiro de 1989


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353


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Reportagem no dia seguinte

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31354#!19


Era isto mesmo amigo.

Obrigado.

Só não estou a conseguir sacar as fotos no android...














Benfiquista_

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  • 10 de Março de 2019, 01:32
Ando a tentar encontrar uns recortes que colocaste aqui, acerca de um jogo em dezembro de 1988, acerca de uma homenagem ao incêndio do Chiado.

Onde consigo encontrar, ou a data do jogo?

Foi em dezembro de 1988 ou janeiro de 1989.

Sinceramente, não me lembro.

Estive a ver e parece estar aqui

18 de Janeiro de 1989


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353


http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31353#!19



Reportagem no dia seguinte

http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06888.205.31354#!19


Era isto mesmo amigo.

Obrigado.

Só não estou a conseguir sacar as fotos no android...














Muito obrigado! ;)

RedVC

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  • 15 de Março de 2019, 20:26
-230-
A propósito de um filme


Como num tríptico…



Estádio da Luz, dia 25.11.1962.



Começamos à boleia de um magnífico filme captado no Estádio da Luz dia 25 de Novembro de 1962





Este vídeo foi disponibilizado no canal Youtube “Portugal de antigamente”: https://www.youtube.com/channel/UCvKdyyAoldM5OShekX3McFA/playlists

Este canal é muito mais do que uma reunião de vídeos antigos. É uma janela extraordinária para o passado do nosso País, na diversidade, riqueza e beleza de um passado de várias épocas, regiões e temas. Quem quer que o tenha criado merece visitas prolongadas e o nosso maior agradecimento.

Em particular, este filme é uma absoluta raridade pois são escassos, irritantemente escassos, os vídeos disponíveis A CORES de jogos e jogadores do Glorioso dos anos 60. Vamos aproveitar para fazer umas identificações aquando da entrada em campo dos jogadores





E durante o jogo





O jogo captado neste vídeo foi disputado a contar para a 5ª jornada do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão da época de 1962-1963. Naquela tarde de 25 de Novembro de 1962, SL Benfica recebia e vencia a CUF por 3-1.





Neste jogo, a nossa equipa, jogando de Sul para Norte na primeira parte, arrumou o assunto logo ao fim dos 15 minutos iniciais. Nesse período José Augusto marcou os 3 golos da partida, aos 2’, 10’ e 15’. O resto do jogo seria bem menos excitante.



Fonte: DL




Esta vitória foi uma boa resposta à derrota sofrida na jornada anterior, em que fomos derrotados pelo FCP na nossa casa. Essa, aliás, seria a única derrota que registamos no Campeonato Nacional dessa temporada. Na segunda volta devolvemos a derrota ao FCP, vencendo-os nas Antas por 2-1. Já o SCP foi despachado na 1ª volta por 4-3 em nossa casa e na 2ª volta por 3-1 em Alvalade.

Durante o Campeonato só consentimos mais dois empates e assim conquistamos o título com 6 pontos de avanço para o FCP e com 10 para o SCP, numa altura em que a vitória valia 2 pontos.



Fonte dos dados (com reservas…): “Almanaque do Benfica”




Uma temporada de contrastes


O Sport Lisboa e Benfica partia para a temporada de 1962-1963 ostentando o título de Bicampeão Europeu mas tinha perdido o Campeonato Nacional anterior para o Sporting CP. Para a reconquista, o SL Benfica reforçou o seu plantel apesar de ter perdido o defesa lateral direito Mário João que, por razões profissionais decidiu ingressar na CUF. Consciente na necessidade de reforçar o plantel, A Direcção contratou novos elementos de grande valor para todos os sectores do campo.



As principais aquisições do plantel SLB 1962-1963. Falta ainda Jacinto.



Destas aquisições, os defesas Raul Machado, Jacinto e Humberto Fernandes foram os que mais jogaram na 1ª temporada, um facto que também foi facilitado pela lesão prolongada de Germano. Já no meio campo e no ataque, a competição era consideravelmente maior e por isso Pedras jogou pouco apesar da sua enorme qualidade.

Ainda assim, a aquisição de maior impacto na nossa equipa acabaria por surgir da equipa de reservas, pois seria nesta temporada que o grande José Torres começou a jogar com regularidade na 1ª equipa. Em 1962-1963, José Torres falharia apenas 5 dos 26 jogos do campeonato, sendo que um deles foi curiosamente este contra a CUF. O nosso imortal bom-gigante brilhou intensamente nesta temporada, conquistando o troféu de melhor marcador ao apontar 26 golos. Eusébio marcaria 23, embora o pantera negra tivesse sido o melhor marcador da equipa caso se considere todas as competições disputadas.



O inesquecível bom gigante.


O aspecto menos feliz dessa ascensão de José Torres foi o progressivo ocaso de José Águas, Já antes se dizia que Guttmann planeava essa alteração mas o rendimento e o carisma de Águas mantiveram-no como o nosso avançado centro até à final de Amesterdão. Nesta temporada de 1962-1963, José Águas veio a cumprir a sua última época de Águia ao peito. Ainda assim sempre que foi chamado, respondeu com golos.



Um treinador Latino


Mas a mudança mais relevante registada nesta época foi forçada pela recusa do treinador Béla Guttmann em renovar o seu contrato. Após 3 anos de Benfica, o Húngaro de nascimento mas autêntico cidadão do mundo, decidiu sair e regressar à América do Sul, assinando pelos uruguaios do Penarol.

Em sua substituição, a Direcção Benfiquista presidida pelo Dr. Fezas Vital, contratou o conceituado treinador Fernando Riera. O Chileno já antes tinha treinado em Portugal (CF “os Belenenses” de 1954-1957) onde de resto tinha deixado boa impressão mas foi depois de liderar por 5 anos a selecção chilena, que ganhou notoriedade internacional ao levar a selecção do seu país a um sensacional 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1962.




Fernando Riera Bauzá tinha 42 anos quando chegou ao SL Benfica.



No SL Benfica, Fernando Riera formou uma equipa técnica de grande qualidade. Eram 3 Fernandos pois, para além do próprio Riera, tivemos a continuidade de Fernando Caiado (ex-adjunto de Guttmann) e o recrutamento de Fernando Cabrita. Um luxo.




As carreiras de Fernando Riera enquanto jogador e treinador (fonte wikipedia) e os três Fernandos da equipa técnica do SLB em 1962-1963.


Suceder a Guttmann não era tarefa fácil mas Riera conseguiu manter o bom futebol, explorando bem o enorme potencial de um plantel superior aos nossos rivais de Portugal e da Europa. Infelizmente, nessa temporada, Riera falharia apenas nos detalhes que… fizeram toda a diferença! Perdemos o final da Taça com o SCP (0-2) e mais importante, a final Europeia contra o AC Milan. Nessa final, disputada no Estádio de Wembley na tarde do dia 22.05.1963, merecíamos melhor sorte, tal a diferença de classe – para melhor – da nossa equipa.




A final mais fácil… perdida!



Riera deixou imagem de um conhecedor profundo de futebol mas tinha também um modelo de jogo mais romântico, pouco dado a marcações individuais, indispensáveis em certas condições e com certos adversários. A equipa atacava bem, explorando a classe individual dos seus executantes, apesar de exibir menos vertigem no ataque relativamente ao que tinha feito com Béla Guttmann. Nessa final de Wembley faltou ousadia, rigor e concentração competitiva. Faltou também sorte e um árbitro que punisse a brutalidade premeditada de alguns italianos.

Por outro lado, Riera mostrou-se também ser um homem de personalidade algo instável. Esse temperamento latino explica que as suas ligações ao nosso Clube terminassem de forma menos suave do que o que seria desejável. Ao longo da sua carreira ficou geralmente uma temporada nos Clubes que treinou. Tinha no entanto qualidade técnica indiscutível e uma personalidade cativante para a maioria dos seus jogadores.  É muito justamente considerado o melhor treinador de sempre do Chile.



Busto de homenagem inaugurado em 2016 na proximidade do Estádio Nacional, Santiago do Chile.



Fernando Riera deixou marca no SL Benfica. Podia e devia ter sido mais feliz. Passou, em voo rasante, ao lado de uma grandeza maior. Infelizmente essa grandeza permanece como um estatuto exclusivo de Béla Guttmann. Tenhamos fé que um dia isso venha a mudar.




« Última modificação: 16 de Março de 2019, 19:21 por RedVC »

RedVC

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  • 21 de Março de 2019, 23:05
-231-
Essa Beira Benfiquista… (parte I)









===///===


Nota prévia: Vivemos dias de profundo horror e angústia sobre tragédia humana provocada pela passagem do furacão Idai sobre diversas regiões de Moçambique (Sofala, Manique, Tete e Zambézia, as mais afectadas).

Esperemos que a ajuda internacional, aquela que está efectivamente capacitada em meios e volume para dar essa ajuda, consiga ainda salvar vidas e dar algum conforto material e emocional aos milhares de necessitados.

Neste e no próximo texto falaremos sobre ligações da antiga cidade da Beira, capital da província de Sofala, ao Sport Lisboa e Benfica. Para o texto de hoje recuaremos aos anos 20 e 30 do século XX. No próximo iremos para as décadas de 50 a 70.


===///===



Começamos com uma fotografia tirada no princípio da década de 30 no pavilhão sede do Sport Lisboa e Beira. Um dia que não podemos precisar mas que se nota ter sido de particular agitação associativa.




Interior do pavilhão central do Sport Lisboa e Beira num dia particularmente concorrido pela comunidade Portuguesa local. Vê-se o símbolo do Clube. Fonte: TT




A disseminação do Glorioso


A disseminação geográfica do Sport Lisboa e Benfica começou muito cedo. Deu-se mesmo no contexto agreste dos primeiros anos, marcados pela falta de um local para erigir um parque de jogos condigno. Fomos sendo escorraçados dos diversos locais que fomos alugando quer por via dos aumentos das rendas por parte dos senhorios (Feiteira, Sete Rios) quer por via das autoridades que “precisavam” dos terrenos para edificar estradas algumas das quais nem que fosse… 70 anos depois (Benfica e Amoreiras)!

Paradoxalmente, esse nomadismo forçado transformou-se numa das maiores forças do Clube. Cosme Damião e seus pares cedo perceberam que deixar representações nos antigos locais onde tivemos as sedes tinha a enorme vantagem de manter pólos de recrutamento de sócios e atletas. Foram os casos de Belém e Benfica, locais em que as antigas sedes foram convertidas em delegações quando, acertadamente, o Clube decidiu instituir a sede do Clube em plena baixa de Lisboa.

A disseminação do Clube para fora de Lisboa onde viria a tornar-se decisiva a acção de antigos sócios e atletas na disseminação dos valores do Clube, fez-se um pouco no espírito da diáspora casapiana. Leopoldo Mocho foi o primeiro, estando por trás da criação do Sport Lisboa e Évora em 8 de Julho de 1911. Seguir-se-ia Braga com Germano Vasconcelos, Coimbra com José Domingos Fernandes, e depois Figueira da Foz, Setúbal, Porto, Faro e por aí em diante.

A disseminação do Clube para fora de Portugal deu-se, por via da diáspora Portuguesa, para as então colónias ultramarinas. Assim, África assistiu à fundação de múltiplas delegações e filiais Benfiquistas. Em 1927, um boletim oficial do SLB listava já 3 delegações africanas entre as 31 com quem o clube pretendia manter ligações institucionais: Beira (Moçambique), Luanda e Benguela (Angola). Muitas outras vieram depois. Na década de 30 já existiam clubes com essas ligações também em Lourenço Marques (Moçambique) e Huambo e Bela Vista (Angola).


 

Fonte: Boletim oficial do SLB em 1927.



Para os interessados deixo aqui a ligação para aquele que considero o melhor texto sobre filiais do SLB: https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2014/07/gloriosas-filiais-pioneirismo.html



Sport Lisboa e Beira


O Sport Beira e Benfica, fundado em 8 de Dezembro de 1916, foi o primeiro Clube organizado fora da metrópole que se constituiu como filial do Sport Lisboa e Benfica. Entre os locais era conhecido como o Esselbê… Só em 1918 chegaria a vez do Sport Lisboa e São Tomé, filial em São Tomé e Príncipe. Depois Luanda, Benguela, etc.

No tempo em que o SL Beira foi fundado já existiam na cidade da Beira actividades desportivas promovidas por colectividades, embora essencialmente com carácter lúdico e visando o convívio social. De facto, ainda no final do século XIX, concretamente em 1896, a pequena comunidade inglesa da Beira fundou o Beira Sports Club (mais tarde Beira Amateur Sports Club) que já praticava o cricket, o golfe e outros desportos, presumivelmente, futebol incluído. É possível que a elite Portuguesa fosse convidada para essas actividades (Eduardo Medeiros, 2013)




Actividades desportivas e associativas do Beira Sports Club no ano de 1904. Fonte: TT




Como vimos, o Sport Lisboa e Beira foi fundado em 1916 e foi o primeiro Clube formado por colonos Portugueses da Beira. Só na década seguinte foram fundados o Clube Ferroviário da Beira (29 de Julho de 1924) e o Sporting Clube da Beira, filial do SCP (17 de Outubro de 1929). Existiram outros mas não se detalham.

Os fundadores do Sport Lisboa e Beira estavam interessados na prática desportiva e numa activa e saudável vida comunitária. A sua predilecção pelo SL Benfica, o mais popular dos Clubes da metrópole, motivou-os a adoptar as suas cores e emblema. Curiosamente optaram pela ausência da roda de bicicleta facto que parecia evocar os tempos mais recuados do Clube, os tempos de 1904 a 1908.


 

O símbolo do Sport Lisboa e Beira e as óbvias semelhanças com o do Sport Lisboa.



Curiosamente, o emblema e o nome do Clube terão sido pontos de discórdia que mais tarde levariam a algumas cisões no Clube. Aparentemente o desentendimento surgiu de que uns defendiam que o Clube se devia chamar Sport Lisboa e Beira e outros defendiam o nome de Sport Beira e Benfica. Estes últimos pretendiam também que a roda da bicicleta fosse incluída no emblema. Alguns dos dissidentes estiveram na formação do Atlético da Beira do qual pouco se sabe, enquanto que outros, mais tarde, fundariam o Sporting local...

A fundação do SL Beira resultou do entusiasmo mostrado por alguma dessa comunidade Portuguesa para com o jogo de futebol. Apesar de fundado por colonos portugueses, o SL Beira cedo teve grande apoio entre os residentes locais.

Desde cedo o Sport Lisboa e Beira teve sócios dedicados ao clube dando o melhor do seu dinamismo e capacidades. Um dos mais prestigiados foi o seu fundador Carlos Alberto Faria cuja acção meritória foi reconhecida pela casa mãe da metrópole quando lhe foi atribuída a medalha de 1ª classe durante a Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica em 4 de Fevereiro de 1923. Vale isto por dizer que este Benfiquista Moçambicano foi o primeiro Águia de Ouro do nosso Clube, decisão justificada pelo facto de Carlos Alberto Faria ter “desenvolvido acção de propaganda no Sport Lisboa e Beira”.



Não disponho de qualquer fotografia de Carlos Alberto Faria mas encontrei esta referência de um álbum de 1924, doado ao SLB em 1956 pela sua viúva.




Um grandioso parque desportivo


Em 1932 o Sport Lisboa e Beira dispunha já de um parque desportivo amplo e de grande qualidade, com um airoso campo de futebol e campos anexos para a prática do ténis.




Parque desportivo do Sport Lisboa e Beira em 1932. Quatro campos de ténis, um campo de futebol e uma sede imponente. Fonte: Digitarq.




Numa primeira fase, o Clube tinha erigido um imponente pavilhão-sede de cimento, que estava situado entre os bairros do Maquino e do Esturro. Esse edifício, bem ao lado do campo de futebol, sofreria sucessivos melhoramentos, servindo quer para eventos do Clube quer para cerimónias mais formais das autoridades locais.

 

Três etapas de evolução da sede do Sport Lisboa e Beira; datas entre décadas de 20 e 30.



O complexo desportivo foi gradualmente sendo melhorado e usado não apenas em actividades desportivas mas também em actividades culturais e sociais.


 

Outros aspectos do parque desportivo do Sport Lisboa e Beira em 1932. A - Portão de entrada e bilheteira no Parque Desportivo do Sport Lisboa e Beira. B – Campos de ténis. C – Cinema e auditório. D – Bar. Fonte: TT



Ao lado do parque de jogo estava situado o Aeródromo Pais Ramos, que dispunha de uma pista ampla onde em 1935 aterrou a célebre esquadrilha de nove aviões Portugueses que participou no Cruzeiro Aéreo às Colónias, evento de que já por aqui falamos (ver textos 71-73, páginas 21-22). Entre esses aviadores estava o capitão José Bentes Pimenta, antigo jogador do SLB.


 

O Ibis, avião pilotado pelo Capitão José Bentes Pimenta, antigo jogador do SLB. Fonte: delagoabayorld e TT



Actividades desportivas


O Sport Lisboa e Beira viria a ser condecorado pelo Estado Português com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo por serviços prestados à causa da educação física, traduzidos numa multiplicidade de modalidades desportivas.

O futebol foi a modalidade que aglutinou as vontades iniciais dos fundadores do Sport Lisboa e Beira. Viriam depois modalidades como o ténis, o atletismo e o hóquei-em-campo. Há também registo de campeonatos de cricket, golfe, natação e até automobilismo, tudo ainda antes da II Guerra Mundial (Fonte: Eduardo Medeiros in Caderno de Estudos Africano 2013).


 

A equipa da primeira categoria de futebol do Sport Lisboa e Beira em 1924. Semelhanças evidentes com o SL Benfica… Fonte: Gazeta das Colónias.




Futebol, hóquei em patins e ciclismo, três das modalidades praticadas no SL Beira da década de 40. Fonte: Hemeroteca de Lisboa.




Bibliografia

Eduardo Medeiros. 2013. Etnia e raça no desporto beirense da época colonial. O caso dos “sino-moçambicanos”. Caderno de Estudos Africanos.

Galeria de imagens da cidade da Beira na década de 30 do século XX - https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Beira_in_the_1930s

Galeria de imagens da cidade da Beira na década de 20 do século XX -
https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Beira_in_the_1920s



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-232-
Essa Beira Benfiquista… (parte II)



Finalizando a evocação da cidade da Beira, no texto de hoje falaremos de uma grande figura do SL Benfica que veio directamente daquela cidade. Falaremos ainda de dois jogos – em dois tempos distintos - que a equipa principal do Sport Lisboa e Benfica disputou naquela cidade Moçambicana.

O nosso Clube tem duas grandes figuras que vieram da Beira para a Luz. O primeiro foi o grande Tamagnini Nené de quem já por aqui se falou (ver texto-209- Magaga, Holandês Voador e Calções Limpinhos, pág. ).

O outro, de quem vamos agora falar, foi o grande She Han, que apesar de não ter nascido por lá, está profundamente ligado à cidade da Beira.







Low Sheu Han, de seu nome completo, nasceu no dia 3 de Agosto de 1953, em Inhassoro, sede do distrito do mesmo nome que é parte da província de Inhambane. Sheu era filho de mãe moçambicana, nascida em Inhambane e de pai chinês, nascido em Guangzhou, Cantão. O seu pai, que tinha o peculiar nome de Low Fuck Him, era negociante no sector da exportação de peixe.
 
Quando tinha 6 anos de idade, o pequeno Sheu foi mandado por seu pai para a cidade da Beira para ingressar num colégio. Na Beira, desde cedo, o pequeno Sheu mostrou predilecção pelo desporto e nunca esmoreceu nem quando aos 10 anos sofreu um acidente com um foguete e que lhe custou uma deficiência permanente na mão direita.

Chegou assim ao Sport Lisboa e Beira, praticando futebol nas suas camadas jovens, tendo inicialmente ocupado a posição de extremo direito. Perspicaz, o seu treinador de então, fê-lo recuar para uma posição de médio onde o jovem Sheu melhor pode demonstrar todo o seu virtuosismo técnico e visão de jogo. Seria ali que ele se fixaria para o resto da sua carreira.




Entre os juniores do Sport Lisboa e Beira de 196x campeões da seu escalão.





Em Julho de 1970, o Diário de Lisboa noticiava a chegada de Sheu ao nosso Clube. O jornal acrescentava que o aval para a sua contratação tinha sido dado por José Augusto que andava em Moçambique a tratar da finalização das papeladas para a transferência de Néné.

Mas, em boa verdade, a primeira informação positiva sobre Sheu tinha chegado ao SLB vinda do tenente-coronel Manuel da Costa, um Benfiquista dedicado que o tinha visto jogar na Beira. Essa recomendação seria depois reforçada por Francisco Calado, jogador destacado das nossas equipas dos anos 50, que para além da qualidade futebolística ficou igualmente convencido que o miúdo precisava de… comer, para reforçar a sua massa muscular!

A transferência de Sheu para o SLB foi complicada. Em primeiro lugar o pai de Sheu mostrou-se renitente, só aceitando a vinda do miúdo para Lisboa depois de ouvir a promessa da boca do filho de que continuaria a estudar. Sheu cumpriria a promessa quando anos mais tarde terminou o curso de Mecânica e Desenho Industrial. Para além de bom aluno, era frequente ver Sheu com um livro debaixo do braço nos estágios da sua equipa.

Em Lisboa, Sheu foi viver para o Lar do Jogador do Benfica mas, por via de desentendimentos institucionais entre o SL Benfica e o SL Beira, ficou impedido durante alguns meses de se poder estrear em jogos oficiais dos juniores.

Nos juniores do SLB, Sheu foi primeiramente treinado por Mário Coluna e depois por Ângelo Martins. Sagrou-se campeão nacional, integrando equipas carregadas de futuros grandes futebolistas tais como João Alves, Jordão, Fidalgo e António Bastos Lopes, entre outros.




Notícia da chegada de Sheu Han e uma das equipas juniores do SLB. Fontes: DL e SerBenfiquista.



Estreou-se na equipa sénior no dia 15 de Outubro de 1972, quando substituiu Toni num jogo disputado no Barreiro contra o FC Barreirense. Estreou-se jogando ao lado de Eusébio, Simões, Jaime Graça, enfim… com o melhor que alguma vez o SLB teve.

O SLB venceu por 3-0 e no final do jogo, em declarações à imprensa, o lacónico e sisudo Jimmy Hagan mostrou-se muito satisfeito com Sheu, augurando-lhe grande futuro.

Curiosamente, na noite anterior ao jogo, temendo que a convocatória para a equipa principal fosse uma brincadeira, Sheu terá feito a sua mala de forma discreta, transportando-a depois escondida para evitar ser gozado.



Fonte: DL



Depois, a sua carreira na equipa principal do SLB foi o que se viu... Ao todo, 17 temporadas na categoria principal, 646 jogos, cerca de 50.000 minutos em campo, 57 golos, 89 jogos como capitão de equipa, 24 internacionalizações A, 9 títulos de Campeão Nacional de Portugal, 6 Taças de Portugal, 2 Supertaças, 6 Taças de Honra da AFL. Números impressionantes de um futebolista cuja correcção, elegância e categoria técnica foram sempre reconhecidos por companheiros e adversários, dirigentes, treinadores e adeptos. Sheu é um daqueles homens que geram consenso.






Sheu ocupava as zonas centrais mais recuadas do meio campo Benfiquista. Era um pêndulo, um jogador cerebral, rigoroso nos equilíbrios e nas marcações, cumprindo com excelência as tarefas defensivas. Mas, ao mesmo tempo, Sheu tinha também uma rara capacidade de servir os avançados com enorme classe. Néné foi um dos destinatários privilegiados daqueles passes de veludo, como ficou demonstrado na inesquecível final da Taça de Portugal de 1980-1981, em que Néné marcaria 3 golos, aproveitando de forma magistral 3 extraordinárias assistências de Sheu! Eu estive lá!





Faltou a Sheu a consagração Europeia, que até esteve quase por acontecer por três vezes. A primeira foi na Taça das Taças de 1980-1981 (meia-final contra o Carl Zeiss Jena), a segunda na Taça UEFA de 1981-1982 (finais contra o Anderlecht) e a última na Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1987-1988 (final de Estugarda contra o PSV Eindhoven).

No dia 20 de Maio de 1989, num jogo contra o Boavista FC, Sheu Han, despediu-se em lágrimas do futebol e do SL Benfica. Perante um Estádio da Luz a prestar-lhe uma sincera e sentida homenagem, o campeão chorou. Companheiros antigos e actuais, dirigentes, adeptos, jornalistas, em uníssono, despediram-se homenageando um homem que sempre prestigiou o manto sagrado, que ele tão amou e tão bem soube respeitar.






Terminado o futebol no campo, Sheu Han continuaria a ser uma figura de relevo no nosso Clube. Exerceu durante longos anos o cargo de secretário técnico, sempre com dedicação e competência. Direcção após Direcção, Sheu foi sendo reconduzido, mostrando sempre a mesma lealdade e competência. Sheu serviu sempre o Clube, nunca se serviu do Clube.

Essa lealdade e dedicação viriam uma vez mais a ser demonstradas quando aceitou o pedido do Clube para assumir de forma transitória o cargo de treinador da equipa principal, após a saída de Graeme Souness, em 1998-1999.

Acima de tudo, Sheu foi sempre um magnífico transmissor da Mística do Benfica. A Mística que nos foi legada por Gourlade, Damião e Bermudes e todos os que vieram depois. Os homens passam, o Benfica permanece. Glorioso.






Em Julho de 2018, Shéu Han deixou por vontade própria o cargo de secretário técnico do Clube. Julgou chegada a hora de descansar e dar lugar a outros mais novos. E essa também é uma das facetas dos verdadeiros Benfiquistas.




A homenagem do plantel Benfiquista no dia da despedida de Sheu Fonte: slbenfica.pt




Beira, 1950


O primeiro jogo que o SL Benfica disputou na cidade da Beira aconteceu aquando da deslocação do Sport Lisboa e Benfica a África no ano de 1950, pouco depois da conquista da Taça Latina. Essa digressão que se prolongou por mais de um mês, começou em Moçambique (5 jogos), passou pela África do Sul (1 jogo), prosseguiu em Angola (8 jogos) e terminou no Congo Belga (1 jogo).



Os resultados da digressão do SLB em África no anos de 1950.



O jogo da Beira foi o segundo dos cinco disputados em Moçambique, facto que levantou dificuldades logísticas. Dessa forma, depois do jogo inaugural em Lourenço Marques (vitória por 6-1 sobre o Desportivo de LM), a nossa equipa voou para a Beira, dividida em 3 pequenos aviões, aterrando em segurança no Aeródromo Pais Ramos. Imagine-se o que deve ter sido aqueles voos quando 1 anos antes tinha acontecido a tragédia de Superga…

Felizmente correu tudo bem e assim, no dia 30 de Julho de 1950, a equipa principal do SL Benfica disputou um jogo contra a selecção da Beira, vencendo por esclarecedores 5-0. Logo de seguida o SLB regressaria a Lourenço Marques onde continuaria essa maravilhosa mas desgastante digressão.

Não encontrei imagens desse jogo na Beira mas aqui ficam imagens de parte da comitiva aquando do regresso a Portugal e de um dos jogos disputados em Lourenço Marques.



Fonte: slbenfica.pt e Cinemateca Portuguesa





Beira, 1974


O segundo jogo que o SL Benfica disputou na cidade da Beira aconteceu aquando de uma digressão em Junho de 1974. Apesar da satisfação dos locais com a visita do Glorioso, vivia-se em Moçambique tal como na metrópole e nas restantes colónias, uma atmosfera de tensão por via das mudanças políticas então em curso.

De facto, dois meses antes tinha acontecido a revolução do 25 de Abril de 1974 mas a guerra em Moçambique só terminou oficialmente no dia 8 de Setembro desse ano e a independência de Moçambique só foi proclamada a 25 de Junho de 1975. Ou seja quando o SL Benfica jogou na Beira, vivia-se ainda em estado de guerra.

A nossa equipa era treinada por Fernando Cabrita, técnico que tinha assumido o comando depois da resignação de Jimmy Hagan no princípio da temporada. Essa época de 1973-1974 foi desastrosa pois apesar de um plantel de luxo, perdemos o campeonato, num ano em que a conquista teria significado um tetra. Apesar disso Fernando Cabrita manteve-se como treinador e passaria a adjunto nas e+pocas seguinte, primeiro com Pavic e depois com Mário Wilson como treinador principal.




Jimmy Hagan e Fernando Cabrita, como teria sido se não tivesse havido troca?




Dias antes da partida para Moçambique, a nossa equipa tinha perdido a final da Taça de Portugal para o SCP, uma derrota por 1-2 após prolongamento, num jogo em que o árbitro César Correia de Coimbra nos sonegou uma grande penalidade que foi tão evidente que até o jornalista (e sportinguista) Neves de Sousa o admitiu na sua crónica. Foi um desfecho frustrante tanto mais que na meia-final tínhamos ido às Antas triunfar por 3-0…




Fonte: Jornal “O Benfica”





Uma final pouco feliz.



Logo depois soube-se que Eusébio não foi incluído na comitiva para África, decisão que envolveu alguma polémica entre os dirigentes do Clube. António Simões era o capitão de uma equipa que contava com grandes nomes mas que precisava urgentemente de ser renovada.

E assim lá se fez a digressão e assim, no dia 17 de Junho de 1974, a nossa equipa jogou na Beira contra uma Selecção local, triunfando facilmente por 6-1.





Curiosamente, tal era a excitação das gentes locais, os dirigentes da comitiva do Sport Lisboa e Benfica foram forçados a aceitar a exigência de que a equipa do Sport Beira e Benfica pudesse disputar… 10 minutos contra a equipa do SL Benfica! Nunca visto… uma partida de futebol com 10 minutos!

Nesse período “extra” o Benfica marcou dois golos, ambos por Jordão, que foram festejados pelos próprios jogadores do SL Beira! Benfiquismo nos dois lados do campo, pois então!


Estou certo que o Benfiquismo subsiste na cidade da Beira pois onde há Portugueses e Moçambicanos há sempre Benfriquistas.

E, por fim, perante tamanha tragédia que essa bela cidade sofreu nos últimos dias, espero que a Direcção do Sport Lisboa e Benfica esteja à altura dos pergaminhos do Clube.




« Última modificação: 27 de Março de 2019, 09:33 por RedVC »

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  • 26 de Março de 2019, 22:36
Um belo texto de Alberto Miguéns, na mesma linha dos textos aqui publicados sobre a cidade da Beira.


https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2019/03/benficambique.html


No texto Alberto Miguéns identifica um dos homens de uma fotografia aqui colocada como sendo


Carlos Alberto Faria, o 1º ÁGUIA DE OURO da História do Sport Lisboa e Benfica




Petrov_Carmovich

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  • 27 de Março de 2019, 03:42
Em todos os dicionários feitos em Portugal devia estar isto:

clas.se

ˈklas(ə)
nome feminino

1.
grupo de pessoas, animais ou coisas com atributos semelhantes

2.
categoria de funções da mesma natureza

3.
cargos de natureza idêntica

4.
aula

5.
os alunos de uma aula

6.
grupo de militares dados como prontos anualmente na Escola de Recrutas

7.
secção

8.
qualidade


9.
distinção;  requinte


10.
 BIOLOGIA designação da categoria utilizada na classificação dos organismos e que consiste num agrupamento de ordens muito semelhantes

E depois da 8ª e 9ª definições aparecer esta fotografia no dicionário:

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  • 29 de Março de 2019, 20:12
-233-
Um Príncipe do Fado


João Linhares Barbosa. Um vulto da nossa Cultura, o Príncipe dos letristas populares do Fado.




João Linhares Barbosa (Ajuda, 15 Julho, 1893 – Ajuda, 19 Agosto, 1965). Fonte: Museu do Fado



Figura maior do Fado, foi popular e admirado em vida por aqueles que sabiam da sua importância para o Fado. Letrista prolífico e inspirado, João Linhares Barbosa deixou-nos uma obra poética estimada em mais de 3000 versos.



A família Linhares


João Linhares Barbosa nasceu no bairro da Ajuda, no dia 15.07.1893. Filho natural de João Barbosa e de Palmira da Conceição Linhares. Neto paterno de José Barbosa e Henriqueta Maria e materno de Joaquim Amaro Linhares e Delfina da Soledade.


Para nós, Benfiquistas, há também que saber que João Linhares de Barbosa era primo direito de Joaquim José Linhares de Almeida, um dos 24 fundadores do Sport Lisboa.


 

Genealogia simplificada da família Linhares



Os dois homens eram primos direitos porque as suas mães eram irmãs. João Linhares Barbosa era filho de Palmira da Conceição Linhares enquanto Joaquim José Linhares de Almeida (ou José Linhares, como o conhecemos) era filho de Joaquina do Livramento Linhares. Eram ambos netos maternos de Joaquim Amaro Linhares e Delfina da Soledade, naturais de Belém e Alcântara, respectivamente.

No dia 28 de Fevereiro de 1904, quando o Sport Lisboa foi fundado, José Linhares tinha 16 anos incompletos, facto que fazia dele o mais jovem entre os fundadores do nosso Clube. José Linhares era 4 anos mais velho do que o primo João Linhares Barbosa. Dada a escassa diferença de idades e por morarem muito perto um do outro, os primos terão com grande probabilidade, convivido muito quando eram pequenos.

Apesar de viver na então populosa freguesia da Ajuda, nos primeiros anos do século XX, João Linhares Barbosa, morador na Travessa da Faustina (actual Travessa da Madressilva), vivia porta com porta relativamente a Manuel Gourlade, morador na Rua da Paz (actual Rua do Laranjal). É quase certo que se terão conhecido.


 

Travessa da Faustina (actual Travessa da Madressilva) e Rua da Paz (actual Rua do Laranjal), duas artérias contíguas na freguesia da Ajuda. Fonte: AML



Tal como Gourlade, também João Linhares Barbosa teve uma ligação constante ao longo da sua vida ao Bairro da Ajuda e às suas gentes.




Ruas do bairro da meninice de Gourlade e Linhares Barbosa celebradas nos versos deste último. Fonte: AML



Evoca-se muitas vezes a importância da zona de Belém mas a Ajuda foi também uma freguesia que nos deu homens e locais importantes na História inicial do nosso Clube. Parte da família Linhares nasceu, viveu e morreu naquela freguesia. Na Ajuda nasceu e viveu Manuel Gourlade. Na Ajuda, nos seus últimos anos, morou e faleceu o fundador Daniel Santos Brito.



O Príncipe dos letristas populares do Fado


A poesia do Fado é muito rica e diversificada. Ao longo dos mais de 100 anos da sua história conhecida, o Fado teve contribuições líricas voluntárias ou involuntárias, em vida ou póstumas, de versejadores de diversas eras e com os mais diversos graus de literacia e proveniências. Temos assim poetas cultos e populares autodidactas, romancistas clássicos e dramaturgos revisteiros a até temos trovadores medievais. Mesmo versos de Luís de Camões, poeta maior da língua portuguesa, já foram por diversas vezes cantados em fados.

A sofisticação e a qualidade lírica maior ou menor das letras do Fado surge da inspiração e do sentimento. É preciso ter nascido com veia poética mas também é preciso ter Fado, sentir o Fado, viver o Fado. João Linhares Barbosa tinha tudo isso.
Linhares Barbosa deixou-nos uma obra poética enorme da qual constam muitos dos mais famosos fados, cantados pelos melhores fadistas, conjugação que nos deixou momentos de expressão sublime da Alma Portuguesa:



 
João Linhares Barbosa publicou pela primeira vez os seus versos no jornal “A Voz do Operário” em 1907, quando contava apenas 14 anos de idade (fonte: fadotradicional.wixsite.com). Tal como seu pai, Linhares Barbosa foi torneiro mecânico até aos 29 anos de idade, altura em que decidiu tornar-se jornalista, fundando o quinzenário “Guitarra de Portugal”, no dia 15 de Julho de 1922.

O “Guitarra de Portugal” teve uma I série que durou 17 anos (1922-1939) em que João Linhares Barbosa para lá de proprietário era também editor. O jornal contava ainda com valiosos colaboradores como Domingos Serpa e Martinho d' Assunção (pai), Stuart de Carvalhais, Artur Inez, Antônio Amargo, entre outros.




O 1º número da séria I do periódico “Guitarra de Portugal”
“Se aquilo que a gente sente / Cá dentro tivesse voz / Muita gente, toda a gente / Teria pena de nós” Augusto Gil.




No jornal, Linhares Barbosa publicava também poemas seus, alguns dos quais relacionados com as suas convicções políticas e sensibilidade social (afecto ao anarco-sindicalismo).

O jornal teve uma II série que durou apenas 3 anos (1945 a 1947), período em que João Linhares de Barbosa já não era o proprietário embora continuasse como colaborador. O jornal chegou a ter centenas de assinantes por todo o país e foi sempre um arauto especializado na divulgação, defesa e dignificação do Fado e das suas figuras. Foi também uma força cultural viva no bairro da Ajuda, organizando festas e soirées de fados bastante apreciados pela maioria dos populares daquele bairro.



Fonte: efémera e Hemeroteca Lx



Linhares Barbosa era um autodidacta que não se limitou a escrever os seus versos, dos quais aliás dependia para o seu sustento. Ao longo da sua vida foi também um dedicado e eficaz defensor e divulgador da grandeza cultural do Fado, canção identitária, género de expressão ilustrativo de uma das facetas da Alma Portuguesa.

Foi ainda e durante vários anos, o Director Artístico do Salão Luso, situado nas antigas cavalariças do palácio de S. Roque no Bairro Alto, em Lisboa, onde actuaram Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Alberto Ribeiro, Berta Cardoso, Lucília do Carmo, e Hermínia Silva, Carlos Ramos, entre muitos outros (ver: http://restosdecoleccao.blogspot.com/2016/01/cafe-luso.html).




Fonte: Restos de Colecção




Existe aliás um disco extraordinário da grande Amália, um entre os meus predilectos, com Fados gravados ao vivo naquele “Templo do Fado”. Na faixa inicial, a entrada e as “queixas” de Amália são deliciosas.


Amália Rodrigues no Café Luso – Não tolero
Letra: Linhares Barbosa / Música: Armandinho / Fado Mayer



 


Ao longo da sua vida, Linhares Barbosa viveu intensamente os ambientes do Fado. Contribuiu activamente para a época dourado do Fado, relacionando-se, divulgando, promovendo e dignificando os Artistas, fossem eles cantores, instrumentistas ou escritores.



Amália recebendo em sua casa o Fadista Carlos Ramos (de pé) e João Linhares de Barbosa. Fonte: http://recursos.bertrand.pt/recurso?id=9973442




Martinho d’Assunção, Alberto Costa, Amália Rodrigues, Linhares Barbosa, Berta Cardoso e Francisco Carvalhinho Fonte: Museu do Fado




Linhares Barbosa com Berta Cardoso e Alfredo Marceneiro na Adega “O Faia”. Fonte: Museu do Fado



De carácter generoso e desprendido, não guardava, antes costumava dar os manuscritos dos seus originais aos amigos que lhos pediam. Em 1963 foi homenageado no Coliseu dos Recreios, tendo recebido o prémio da Imprensa para o “Melhor Poeta de Fado”.




Um artigo evocando as bodas de ouro de Linhares Barbosa enquanto letrista do Fado. Fonte: http://fadistascomoeusou.blogspot.com



No dia 21 de Agosto de 1965, na sua casa da Rua das Mercês, nº 131, Ajuda, João Linhares Barbosa morreu vítima de uma trombose cerebral. Tinha 72 anos de idade e era viúvo de Dª Sara Monteiro, falecida 2 anos antes. Deixou um filho. Foi sepultado no cemitério da Ajuda, onde repousa ao lado de muitos dos fundadores do nosso Clube.





Em sua homenagem, o seu amigo e Poeta Carlos Conde escreveria um sentido poema que exprimia a dimensão da perda.






E como não pensar no Sentido da Vida, nas próprias palavras de Linhares Barbosa…

 

Fonte: Hemeroteca de Lisboa



Em 1995, cumpridos 30 anos após a sua morte, a Câmara Municipal de Lisboa prestou-lhe uma justa homenagem dando o seu nome a uma rua no Bairro do Caramão da Ajuda.



Fonte: Museu do Fado e toponimialisboa.wordpress.com



E que melhor forma de completarmos este texto do que dar palco aos dois mais virtuosos Artistas, que mais e melhor o homenagearam, cantando os seus versos.


Silêncio que se vai cantar o Fado.



Alfredo Marceneiro - É tão bom ser pequenino
Letra: Linhares Barbosa / Música: Alfredo Marceneiro



 

===///===


Amália Rodrigues - Os meus olhos são dois círios
Letra: Linhares Barbosa / Música: Fado Menor


 


« Última modificação: 30 de Março de 2019, 14:28 por RedVC »

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  • 06 de Abril de 2019, 16:46
-234-
Stuart e o Emblema


O mais belo e icónico de todos os emblemas



Fonte: Em Defesa do Benfica (EDB)



Esta foi a mais bela versão de sempre do Emblema do Sport Lisboa e Benfica. Vigorou, em termos oficiais, de 1929 até 1962. Apresentava quase todos os elementos que actualmente e segundo os estatutos do nosso Clube - devem constar do Emblema oficial. Devem constar mas não constam, mas isso é outra história.

Esta versão modernizada do nosso Emblema foi desenhada por Stuart Carvalhais a pedido de Félix Bermudes, figura maior da História do nosso Clube. O pedido terá sido feito por volta de 1927, uma vez que os boletins oficiais do Clube já o apresentavam naquele ano. No entanto, ao que sei, a oficialização do Emblema foi feita em 1929, por ocasião do 25º aniversário do Clube.

Sendo ele próprio um criador artístico e durante décadas presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (da qual foi fundador), Félix Bermudes tinha grande sensibilidade estética e conhecimento do meio artístico nacional. Félix Bermudes tinha também uma grande preocupação com a simbologia, elemento definidor dos propósitos mais altos de uma instituição. Havia que escolher bem o homem para fazer essa modernização. Ora, em Lisboa e pelo menos desde a segunda metade do século XIX, abundavam grandes talentos na área do desenho, pintura e da caricatura.




Stuart Carvalhais (Vila Real, 1887 — Lisboa, 1961)




A escolha de Félix Bermudes recaiu em Stuart Carvalhais, então com 42 anos de idade, que era um dos numerosos amigos que tinha no meio artista nacional. Como seria de esperar, os caminhos dos de Félix Bermudes e Stuart Carvalhais cruzar-se-iam diversas vezes ao longo das suas longas carreiras no meio artístico Lisboeta.



Alguns dos múltiplos cruzamentos artísticos entre Félix Bermudes, autor teatral e Stuart Carvalhais artista do traço. Fonte: Matriznet e Citizengrave



Nessa época, Stuart era já um dos mais prestigiados e talentosos entre os desenhistas portugueses. Stuart iniciou-se no mundo artístico trabalhando na oficina de azulejos de Jorge Colaço. onde pode colaborar com muitas outros  artistas prestigiados. Depois, entre 1912 e 1914, Stuart viveu em Paris, trabalhado com grande sucesso em diversos periódicos Parisienses.

Com o deflagrar da Grande Guerra, Stuart trocou Montmartre por Alfama ou seja trocou uma vida financeiramente mais confortável que tinha em Paris por uma vida bem mais modesta na sua amada Lisboa. As guerras não eram para ele e como gostava da alegria, da luz e da vida boémia, Lisboa foi o destino escolhido.

E foi na capital alfacinha que Stuart viveu e onde durante meio século trabalhou intensamente, colaborando com numerosos títulos da imprensa diária e periódica. Trabalhou com nomes igualmente grandes da ilustração e caricatura portuguesas como Francisco Valença e Amarelhe, entre outros.

De traço rápido e criativo, Stuart ilustrou muitos livros de escritores, com lugar de destaque para “Fado” de José Régio e “A via sinuosa”, romance de 1918 de Aquilino Ribeiro, que tinha sido seu companheiro nos tempos boémios e criativos de Paris. Muitos anos mais tarde, Aquilino definiria Stuart como "O grande e pobre Stuart". Os dois homens mantiveram contacto e amizade ao longo da vida, sendo companheiros de boémias e tertúlias literárias.




Artigo sobre o romance “A via sinuosa” de Aquilino Ribeiro, ilustrado por Stuart Carvalhais. Fonte: Hemeroteca Lx





Stuart no traço de seu colega Amarelhe (esquerda) e no seu próprio traço (direita). Fonte: Hemeroteca de Lx



Caricaturista, aguarelista, cenografista e ilustrador, era dotado de um talento técnico raro, de uma acutilante crítica social e de um humor fino, virtudes pouco apreciadas pelo poder e que por isso não raras vezes esbarraram contra o lápis azul da censura.

De carácter boémio mas conhecendo os tipos populares, as vidas sombrias, o lado escondido e brutal da vida Lisboeta, Stuart foi um ilustrador notável da vida que experienciou. Stuart foi um homem de personalidade fascinante, que cultivou a amizade e que teve um trajecto de vida interessantíssimo. Fez também algum trabalho de publicidade e esteve envolvido – infelizmente com pouco sucesso - em alguns negócios por via das suas ideias e dos amigos que sempre cultivou.




Stuart Carvalhais em Junho de 1917, ao pé da sua barraca de fantoches Quim e Manecas na Festa da Flor de Lisboa. Fonte: TT




A sua natureza era desprendida de bens materiais, mostrando – à semelhança do seu pai - ter pouco jeito para negócios. Modesto quanto às suas enormes capacidades artísticas, Stuart terá exposto apenas por uma vez ao longo da sua vida, facto que não o ajudou a rentabilizar devidamente todo o seu imenso talento.

Ainda assim, Stuart Carvalhais deixou-nos uma obra extraordinária em quantidade e qualidade, sendo muito justamente considerado como um dos maiores artistas de sempre do nosso país.

Aos interessados, recomenda-se um artigo excepcional sobre a vida e personalidade artística de Stuart, aqui:





Melhor ainda, recentemente ficou disponível o áudio de uma excelente entrevista que o grande jornalista Igrejas Caeiro fez a Stuart Carvalhais no dia 03-07-1958. Ali podemos ouvir o artista em voz própria, cerca de três anos antes de falecer.





A esse propósito, é justo fazer aqui uma nota lateral sobre Igrejas Caeiro, um homem que reconhecia e estimava a excelência artística. Em meados da década de 50, teve a iniciativa de entrevistar homens destacados da Cultura Portuguesa. Foi uma iniciativa notável e providencial que resultou em cerca de 300 entrevista, muitas das quais são peças raras e valiosas para ouvir em voz própria, personalidades que em breve se extinguiriam da presença dos vivos.

Infelizmente, do seu vasto espólio apenas uma ínfima minoria das entrevistas está disponível para audição pública. Entre essas destacam-se as que foram feitas a Aquilino Ribeiro e ao próprio Félix Bermudes (esta última por via de uma cortesia inestimável de Alberto Miguéns).




Igrejas Caeiro, um homem de notável que deu notáveis contribuições para a Cultura mas também para o desporto em Portugal. Fonte: SPA




Stuart Carvalhais faleceu no dia 2 de Março de 1961, no Hospital de Santa Maria, Lisboa, depois de alguns anos de sofrimento.





No dia seguinte ao óbito, num longo elogio póstumo publicado no Diário de Lisboa, podiam ler-se palavras reveladoras da dimensão da personalidade e obra de Stuart





Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Lisboa deu o seu nome a uma rua da antiga freguesia de S. João de Deus, actual freguesia do Areeiro, perto do Jardim do Arco do Cego (ver: https://toponimialisboa.wordpress.com/2015/02/05/stuart-do-quim-e-manecas-numa-rua-do-arco-do-cego/). Existe também a Escola Secundária Stuart Carvalhais, situada a norte da freguesia de Massamá.



O Emblema


Não sabemos ao certo quem o criou nem quando foi criado o Emblema do Sport Lisboa. Não temos aliás nenhum emblema original quer a cores quer a preto e branco datado da primeira década do nosso Clube.

As cores principais do Clube, elemento fundamental do Emblema, foram segundo o que nos foi contado em 1954 por Mário de Carvalho e Rebelo da Silva da autoria de José da Cruz Viegas. Esta indicação merece todo o crédito pois os autores entrevistaram não somente o Major Cruz Viegas mas também outros homens chave desse tempo, incluindo diversos fundadores.

A escolha recaiu no vermelho e branco, cores que transmitiam a alegria e a vivacidade como base no entusiasmo na competição desportivo. Eram também cores distintivas quanto a tudo o resto que existia na época, e que ficavam na retina das assistências. Nessa escolha começou desde logo a superioridade precoce do nosso Clube.




O impacto daquelas camisolas de flanela…




Já quanto ao Emblema sabemos menos mas tudo aponta para que os elementos principais do Emblema terão sido definidos logo na fase da fundação do Clube. Não foram escolhidos ao acaso, havendo notória cultura heráldica e percepção da importância que a simbologia tinha em apontar desde logo a ambição e o caminho de futuro para um Clube que aspirava aos mais altos desígnios.

As cores do escudo bipartido eram o vermelho e branco, eram naturalmente as mesmas escolhidas por José da Cruz Viegas. A Águia que encimava escudo é um elemento heráldico tradicional, símbolo de autoridade, força, vitória, orgulho, da elevação de propósitos e do espírito de iniciativa.

Com as suas asas abertas, olhando para o céu, aprestando-se para voar alto, a Águia agarra a divisa do Clube nas suas garras. Levantando voo, a Águia levará o lema do Clube aos mais altos desígnios, voando altaneira sobre os seus adversários. Desde então e até hoje.

Num antigo número de “O Benfica Ilustrado”, Alberto Miguéns também nos contou que muito provavelmente terá sido Félix Bermudes o homem que escolheu ou sugestionou a divisa “E Pluribus Unum”. A divisa é um elemento fundamental da identidade do nosso Clube, bem conhecido por todos os nossos consócios e simpatizantes. Com várias traduções consoante o gosto, é talvez na mais rigorosa versão traduzível por “Todos por um”, tal como Félix Bermudes deixou escrito no Hino Oficial do Sport Lisboa e Benfica.





Seja como for, a divisa é um elemento poderoso, que faz a apologia do espírito de união e de família que caracterizou o Clube desde os seus primeiros tempos. O Clube está acima de todos e todos estão pelo Clube. Todos por Um.

Desde que foi criado, algures por 1904, até 1928, o nosso Emblema conheceu diversas evoluções que resultaram das alterações das estéticas da época, das evoluções associativas (junção com o Grupo Sport Benfica em 13-09-1908) e até das conjunturas políticas (instauração da Republica em 5-10-1910).

Na evolução criada por Stuart Carvalhais foi escrupulosamente mantido o significado múltiplo e nobre do Emblema sendo que as principais melhorias se deram ao nível estético global e principalmente da postura e da elegância da Águia que se apresenta mais realista, temerária e altaneira. Nunca é demais reparar na modernidade, no salto de qualidade que o novo emblema trouxe. Aquela Águia é com certeza bem definidora da ambição e da nobreza do nosso Clube.




Aspectos marcantes da evolução que Stuart Carvalhais trouxe ao Emblema do SLB.




Não conheço melhor nem mais completa reflexão sobre a temática associada ao nosso Emblema e por isso recomendo vivamente a leitura do artigo de Alberto Miguéns:






A evolução dos emblemas do Sport Lisboa e Benfica mas mantendo o significado desde que foi instituído pelos nossos fundadores em 28 de Fevereiro de 1904. Fonte: EDB, Alberto Miguéns
 





Glorioso SLB!



« Última modificação: 07 de Abril de 2019, 13:08 por RedVC »