53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 105572 vezes)

Mikaeil

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En 1965, el @RealZaragoza logró su único Trofeo Ramón de Carranza.
Algunos detalles de un magnífico programa del torneo con Zaragoza,
@SLBenfica, @Flamengo y @RealBetis


El Zaragoza ganó en semifinales 3-0 al Flamengo y 3-2 en la final al Benfica de Eusébio.




RedVC

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  • 16 de Agosto de 2019, 17:51
@enlineadegol

En 1965, el @RealZaragoza logró su único Trofeo Ramón de Carranza.
Algunos detalles de un magnífico programa del torneo con Zaragoza,
@SLBenfica, @Flamengo y @RealBetis


El Zaragoza ganó en semifinales 3-0 al Flamengo y 3-2 en la final al Benfica de Eusébio.






Obrigado pela partilha. Apesar do vidro é sempre uma emoção estar ao pé daqueles dois troféus que estão no Museu. Bem perto das duas orelhudas.








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  • 30 de Agosto de 2019, 22:19
-243-
A importância de se filmar… Ernesto!

Ernesto de Albuquerque, um dos pioneiros do Cinema feito em Portugal.




Fonte: Cinemateca Portuguesa




A propósito da oportuna menção feita há algumas semanas atrás pelo pica-foices ( que aparenta ser o moderador que mais lê este tópico  :coolsmiley: ) sobre filmes existentes na Cinemateca Portuguesa, vamos hoje falar deste pioneiro do Cinema feito em Portugal.

Como veremos, Ernesto de Albuquerque deixou uma obra cinematográfica interessante e diversificada, tendo provavelmente captado pela primeira vez em filme, actividades desportivas de equipas e atletas do Sport Lisboa e Benfica.



Ernesto de Albuquerque, o cineasta

 

Fonte: Cinemateca Portuguesa



Ernesto Januário Gualdino de Sousa Albuquerque e Cunha terá nascido em Lisboa, na Rua da Fé, no dia 19 de Setembro de 1883 e terá falecido no Rio de Janeiro, algures no verão de 1940.

No seu excelente Dicionário do Cinema Português 1895-1961, Jorge Leitão Ramos refere que Ernesto de Albuquerque começou a trabalhar no laboratório de fotografia do seu padrasto logo após concluir os seus estudos na Escola Nacional. Esse laboratório situava-se na Rua de Santa Justa, em pleno coração de Lisboa e terá sido por lá que Albuquerque adquiriu os conhecimentos técnicos basilares para as actividades profissionais que desempenhou durante o resto da sua vida.




Fonte: TT




A partir de 1908, Ernesto de Albuquerque tornou-se fotógrafo profissional e produtor cinematográfico, dispondo de um laboratório profissional. A extensa lista dos filmes em que participou entre os anos de 1908 e 1924, mostra-nos que desempenhou actividades diversas tais como operador de câmara, direcção de fotografia, montagem, produção e realização.






Várias imagens onde nos aparece Ernesto de Albuquerque. Fonte: Cinemateca Portuguesa




Essa lista de filmes compreende filmes de temáticas diversificadas desde ficção até documentários e reportagens de actividades políticas, militares, vida social e desportiva. Os filmes que sobreviveram oferecem-nos imagens preciosas de um Portugal desaparecido.

Por exemplo, um dos seus primeiros filmes foi "A Cultura do Cacau (em S. Tomé)" (1909) onde se fez uma abordagem documental à temática colonial e em particular à cultura do cacau em São Tomé, um assunto que à época tinha notória relevância política e comercial. Existia uma colisão dos interesses britânicos e portugueses e não estava ainda longe o trauma nacional com a questão do Ultimatum Inglês…


 



Entre os projectos mais curiosos em que participou destacam-se os primeiros filmes cómicos feitos em Portugal. Alguns desses filmes pretendiam ser réplicas nacionais do famoso Charlot. Neles contracenava Cardo, um sósia de Charlot, que era interpretado por um actor Argentino chamado Hector Quintanilla.


 



Vieram depois algumas longas-metragens com adaptações de clássicos da Literatura e do Teatro Português.

Também, ao que parece, Ernesto de Albuquerque chegou a receber um convite do General Norton de Matos para se deslocar a França para filmar aspectos da participação do CEP na Grande Guerra. Este convite talvez tenha resultado da participação (provavelmente como operador de câmara) de Ernesto de Albuquerque num fime de longa metragem (cerca 90 minutos) que captou uma parada militar que decorreu em 22-06-1916 em Montalvo, Tancos. A versão distribuída seria mais curta (cerca de 30 minutos) e designada por "Exercícios de Infantaria, Cavalaria e Artilharia pela Divisão Militar de Tancos" (fonte: Piçarra, MC. 2018. “Irmãos de armas”: o CEP no cinema de propaganda da Primeira Guerra Mundial).

Infelizmente, por causa da revolução Sidonista de 5 de Dezembro de 1917 ou por outra razão, tal não se veio a concretizar e assim, apesar de existirem as magníficas fotografias do fotógrafo (e sócio e atleta Benfiquista) Arnaldo Garcez, ficamos privados de registos cinematográficos extensos captando a participação Portuguesa na Guerra de 1914-1918.

Ernesto de Albuquerque colaborou ainda com o grande Stuart de Carvalhais (ver texto -234-Stuart e o Emblema, pág. 57), o homem que anos mais tarde - a pedido de Félix Bermudes - modernizou decisivamente o emblema do Sport Lisboa e Benfica.

Dessa colaboração resultou a adaptação ao grande ecrã das famosas aventuras de quadradinhos “Quim e o Manecas”, considerada a primeira banda desenhada Portuguesa, e que à época eram publicadas por Stuart no semanário humorístico “O Século Cómico” (ver: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OSeculoComico/OSeculoComico.htm).

E assim, com realização de Ernesto de Albuquerque e argumento de Stuart de Carvalhais (que também contracenava como o como pai do Manecas), foram rodadas duas curtas-metragens: “O Quim e o Manecas (Short)” e “As Aventuras de Quim e o Manecas”, de 1916 e 1923,. Infelizmente nem um fotograma desses filmes terá sobrevivido.


 




Ernesto de Albuquerque e o SL Benfica


De 1916 a 1919, trabalhando para a Empresa Internacional de Cinematografia, Ernesto de Albuquerque captou diversos eventos desportivos de ténis, hipismo, automobilismo, boxe, patinagem e futebol.

Para nós Benfiquistas, existem algumas notas interessantes a salientar. Como veremos, é lícito supor que Ernesto de Albuquerque terá rodado filmes em que pela primeira vez terão sido captados alguns eventos desportivos do nosso Clube.


Um exemplo disso é o filme “Campeonato de Patinagem No Rink do Sport Lisboa e Benfica em 1917” (http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/993/Campeonato+de+Patinagem+No+Rink+do+Sport+Lisboa+e+Benfica)

Infelizmente, não dispomos sequer de alguns fotogramas desse filme mas muito provavelmente terão sido captadas actividades de patinagem - eventualmente lúdicas e/ou competitivas - no ringue da Avenida Gomes Pereira em Benfica. É sabido que no ano anterior se tinha dado a integração dos Desportos de Benfica no Sport Lisboa e Benfica e que nesses tempos esse ringue tinha múltiplas actividades de diversas modalidades centradas na patinagem.



Fotografias do ringue de patinagem de Benfica que nos dão uma ideia do que poderá ter sido captado no filme de Ernesto de Albuquerque sobre o campeonato de patinagem de 1917



Ainda de 1917, a Cinemateca Digital disponibiliza-nos um pequeno filme, realizado por Ernesto Albuquerque, chamado “Portugal Desportivo”.

O filme captou actividades de uma festa desportiva na Amadora, que decorreu em 18-03-1917 e que visava homenagear os pioneiros da aviação Portuguesa (existia ali uma base de aviação militar que já por aqui falamos). Na festa decorreu sucessivamente um festival aéreo, uma largada de aeróstatos, uma prova de atletismo (corrida) e uma angariação de fundos para os feridos da guerra.

Na prova de atletismo (cross-country) inscreveram-se 160 atletas de 32 equipas, cada uma com 5 concorrentes. Participaram o Sport Lisboa e Benfica, Sacavenense, Nacional CF, C Internacional F, Lisboa FC, Recreios Desportivos da Amadora, Sporting CP, Ginasio FC, GS Nacional, Ginásio CP, AE Ferreira Borges, GF Benfica, G Escuteiros e Carcavelinhos FC.

Em termos formais o SL Benfica apresentou-se com duas equipas, cada uma com 5 atletas. Mas para lá de isso inscreveram-se outros atletas Benfiquistas havendo referência que poderão ter chegado aos 50... Na altura o atletismo estava já bastante implantado no nosso Clube, com a prática assegurada por bastantes atletas.

A primeira equipa Benfiquista veio a conquistar o primeiro lugar por equipas, arrebatando uma bela Taça (ver figura). Dela faziam parte atletas como Cecílio Costa, António Brás, Alberto Paula e Fernando Paula.

Da segunda equipa fazia parte nada mais nada menos do que o Glorioso Félix Bermudes, um dos homens da pré-fundação, atleta, ideólogo, futuro presidente, seguramente um dos três homens mais importantes da História do Sport Lisboa e Benfica.

Ora, Félix Bermudes é muito provavelmente o atleta que vemos chegar à meta no fotograma dos 5:35.






É sabido que Félix Bermudes representou o nosso Clube, em competição, não apenas como futebolista mas também em atletismo, modalidade que aliás já praticava ainda o nosso Clube não tinha sido fundado. Apesar das imagens oferecidas pela Cinemateca Digital não serem totalmente conclusivas, estou bastante convencido que era mesmo ele. É o único excerto de filme que conheço de Félix Bermudes em plena actividade desportiva com o manto sagrado.


Mas seguramente o filme de Ernesto de Albuquerque que tem mais interesse para os Benfiquistas é o que foi filmado um ano antes, em 1916, quando captou imagens de um "Desafio de futebol entre o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting de Portugal" (http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/3715/Desafio+de+Futebol+Benfica-Sporting).

Apesar de não termos quaisquer fotogramas ou qualquer menção acerca da data precisa ou do campo em que foi disputado esse desafio de futebol, é muito provável que esse dérbi tenha sido disputado nesse ano de 1916. Exibir em 1916 um filme rodado no ano anterior seria algo que faria pouco sentido para corresponder ao interesse dos espectadores na actualidade desportiva.

Ainda assim, tentar descobrir a data precisa desse dérbi filmado é tanto mais difícil quando se percebe que o ano de 1916 foi um dos mais prolíficos em dérbis lisboetas. Foram seis dérbis! Seis! Por ser tardio, é razoável excluir o dérbi disputado no dia 30-12-1916 mas ainda assim restam-nos 5 dérbis…


 

Os 6 dérbis do ano de 1916.



Numa opinião pessoal, e considerando os 5 dérbis-candidatos, afigurasse-me que o mais provável é que o dérbi filmado deverá ter sido o que foi disputado no dia 14 de Maio de 1916, aquando da inauguração do campo de futebol dos Recreios da Amadora, no Domingo, (ver texto -74- e -75- A Taça Amadora (partes I e II): Os Recreios Desportivos da Amadora). Essa minha opinião justifica-se com um detalhe que foi captado numa extraordinária fotografia de Joshua Benoliel (1873-1932).


 

Será uma câmara de filmar? Ver a comparação mais em baixo… Fonte: AML



E que magnífico seria podermos ver imagens em movimento de Cosme Damião a jogar futebol com o manto sagrado! É sabido que Cosme Damião finalizou a sua carreira de jogador pouco antes dos meados de 1916 para se ocupar plenamente do seu cargo de Capitão Geral do Clube ou seja assumir funções de coordenação de todo o nosso futebol.

Assim sendo e dependendo desse dérbi ter sido filmado no primeiro trimestre de 1916 ou depois, então Cosme terá ou não sido filmado a jogar futebol. Se de facto o dérbi filmado foi o disputado no Campo da Amadora então só poderemos no máximo aspirar ver Cosme Damião entre a assistência ou na cerimónia que decorreu no final do jogo.


Mas, para além de Cosme, dever notar-se que muitos outros grandes jogadores integravam os planteis da nossa equipa de futebol principal nas temporadas de 1915-1916 e 1916-1917.

 

Os 23 jogadores Benfiquistas que integraram os plantéis de 1915-1916 e 1916-1917. A maioria senão todos disputou pelo menos um dos dérbis de 1916.



Existe pois um notório interesse em saber se este filme sobreviveu aos 103 anos que entretanto passaram uma vez que neste filme poderão estar alguns dos nossos mais Gloriosos Ases do passado. Do outro lado da barricada, há também o interesse de ter sido captado em filme o ex-Benfiquista, transitório Sportinguista e futuro Belenense, o grande (e desertor) Artur José Pereira.

E já agora, quem sabe se algum destes filmes rodados por Ernesto Albuquerque terá sido exibido no nosso Cine-Clube de Benfica, a sala de cinema que foi inaugurada nesse mesmo ano de 1916 na nossa sede na Avenida Gomes Pereira em Benfica? É interessante pensar que os nossos sócios poderão ter assistido a esses filmes no Cine-Clube de Benfica.


 

O Cine-Clube de Benfica nos finais da década de 70, localizado no nº17 da Av. Gomes Pereira, actual edifício da JF de Benfica. Fonte: TT




Um adeus Brasileiro


Em Abril de 1925, tal como fizeram muitos milhares de Portugueses de Norte a Sul de Portugal, Ernesto de Albuquerque emigrou para o Brasil. Ter-se-à radicado no Rio de Janeiro e por lá não se lhe conhecem actividades cinematográficas.

A informação disponível indica que Albuquerque manteve actividade como jornalista, fotógrafo e redactor. Colaborou em particular com a revista “Vida Doméstica”, publicação inicialmente mensal, editada entre os anos de 1920 e 1962 no Rio de Janeiro e que era direccionada a um público feminino.


 

Ernesto de Albuquerque num jantar da Revista Doméstica em Abril de 1928, revista onde chegou a redactor. Fonte: BND



E por terras Brasileiras terá permanecido até à data da sua morte, que pelas referências que encontrei terá ocorrido no Verão de 1940, altura em que deveria ter 67 anos de idade.



Epílogo


Como mencionei há alguns dias, seria muito interessante que a Cinemateca Portuguesa e o Museu Cosme Damião pudessem conversar para avaliar e recuperar o que resta destas obras. As questões de preço são absurdas uma vez que o interesse histórico deveria prevalecer. Pede-se um pouco de bom senso e muita boa vontade, se for esse o caso. A quem interessa manter os filmes ou o que resta deles a apanhar pó nas prateleiras? Absurdo.

Saber se estes filmes sobreviveram e em caso positivo, qual o seu estado de conservação é um aspecto fundamental. Talvez ainda existam fragmentos que ainda permitam ver movimento, talvez tenham sobrevivido alguns fotogramas isolados, talvez estejam perdidos para sempre. Esperemos que existam e que o bom senso e a boa vontade permitam que venham a ser vistos pelos Benfiquistas.

Se bem me lembro quando fui ao Museu o filme mais antigo que por lá se exibia era um filme dos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912 em que aparecia o infeliz Francisco Lázaro, na altura já um antigo atleta do SLB. É certo que estes filmes são posteriores mas por outro lado são bem mais interessantes uma vez que registaram atletas e actividades do nosso Clube. Cabe a palavra aos responsáveis.





« Última modificação: 03 de Setembro de 2019, 13:04 por RedVC »

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  • 14 de Setembro de 2019, 14:01
-244-
Félix e os vultos (I): António Sérgio

Lisboa, Palácio das Galveias, dia 16 de Fevereiro de 1956.





Dois vultos da Cultura em Portugal convivem numa cerimónia que evocava os 100 anos do nascimento de um amigo comum: o escritor Henrique Lopes Mendonça (1856 - 1931).

Félix Bermudes (1874 - 1960) e António Sérgio (1883 - 1969) partilhavam ainda uma relação familiar pois um sobrinho de António Sérgio (que não teve filhos) estava casado com Clara Bermudes, uma das duas filhas de Félix Bermudes.




Félix Bermudes e as suas duas filhas Cesina (esquerda) e Clara (direita)




De Félix Bermudes, da sua fascinante personalidade e da superlativa contribuição que deu ao Sport Lisboa e Benfica, já por aqui falamos de forma extensa:



-69- As manas Bermudes, Gloriosas a pedalar. (p.21)

-82- Eterno Bermudes. (p.24)

-143- Sport Lisboa, Bemfica 1923 (p. 39)

-174- O Olímpico Bermudes (parte I) – Gloriosos tiros (p. 46)

-175- O Olímpico Bermudes (parte II) – Fora de Paris, dentro dos Jogos (p. 46)

-176- O Olímpico Bermudes (parte III) – Muitos tiros, poucos pontos (p. 46)

-197- Félix e os Leões da Estrela (p. 49)




Mas o Sport Lisboa e Benfica não está apenas restrito ao desporto, não integrando outras dimensões, igualmente ricas e complementares. Assim sendo decidi fazer uma pequena série de artigos, biografando brevemente algumas figuras da Cultura em Portugal que interagiram com o nosso Félix Bermudes.

Os textos mostrarão que Félix Bermudes não é apenas um imortal do Sport Lisboa e Benfica, mas também que foi influente e considerado nos meios Culturais de Portugal.

No presente texto falaremos de António Sérgio, figura maior da Cultura e Política Portuguesa, um intelectual e pedagogo cujo legado e influência ainda hoje se faz sentir.



António Sérgio
(1883 – 1969)



António Sérgio caricaturado por António



António Sérgio nasceu em Damão, Índia Portuguesa, no dia 3-09-1888. Nesse tempo, o seu pai era um respeitado oficial da Marinha Portuguesa que desempenhava o cargo de governador de Damão. Damão era ainda uma cidade integrante do Império Colonial Português havendo ainda a circunstância de que anos antes o avô de António Sérgio tinha sido governador-geral da Índia.

Ainda nesse ano de 1888, a família Sousa regressaria a Lisboa para mais tarde voltar a emigrar, desta vez para Angola e para o Congo, onde seu pai também assumiu funções de governador. Por terras Africanas permaneceriam até ao pequeno António ter cerca de 9 anos de idade, altura em que regressaram definitivamente à metrópole.

Concluída a instrução primária e seguindo uma tradição familiar (pai e avô paterno), António Sérgio entrou para o Colégio Militar para mais tarde ingressar na Escola Naval onde completou o curso de Marinha de Guerra. A sua vida parecia destinada à vida militar.


 

António Sérgio no Colégio Militar e na Escola Naval  onde o podemos encontrar num momento desportivo, ao centro, de bigode. Fonte: sergio19.net



Apesar da carreira náutica lhe ter permitido viajar por todo o mundo, António Sérgio não se identificava com a componente militar da profissão. E assim, em finais de 1910, por alturas da instauração da Republica, António Sérgio renunciou definitivamente à sua condição de militar. Com pouco mais de 30 anos era chegado o tempo de seguir as suas verdadeiras vocações.


 

António Sérgio Sousa (pai) e António Sérgio Sousa (filho), representantes de duas de pelo menos três gerações de oficiais da Marinha. Fonte: Marinha Portuguesa



Anos mais tarde, António Sérgio admitiu que essa decisão radical foi também motivada pelo desejo de contribuir para o combate nacional às dificuldades económicas e sociais trazidas pelas convulsões geradas com a instauração da Republica. A revolução de 5 de Outubro de 1910 despertou-lhe as suas verdadeiras vocações, traduzidas depois numa prestigiada ainda que conturbada carreira de filósofo, pedagogista e reformador social (tal como se auto-definiu).

Centrando atenções no progresso económico e moral do nosso país, António Sérgio foi um defensor coerente de um socialismo libertário ou cooperativista por oposição a um socialismo de Estado. Rejeitava o modelo do socialismo soviético, marxista-leninista e admirava antes as linhas políticas sociais-democratas adoptadas pelos países da Escandinávia.

Detentor de uma cultura humanista profunda e cultivadora, o pensamento e a acção pública de António Sérgio foram marcadamente voltados para a problemática da Educação. Foi ideólogo e figura central do movimento Seara Nova, cuja obra produziu profundas e marcantes influências sociais e políticas no resto do século XX. Como ele próprio dizia, a grandeza dos homens mede-se pelas consequências da sua acção e nos seus discípulos. Mede-se ao longo das décadas seguintes à sua morte. António Sérgio deixou obra e discípulos.




Tempos difíceis



António Sérgio teve ainda oportunidade de tentar implementar na prática algumas das suas ideias do cooperativismo como modelo de sociedade, ao fazer parte, como ministro da Educação, do Governo de Álvaro de Castro, em 1923.

Tudo mudaria em 28 de Maio de 1926 com a instauração da ditadura e o subsequente fim da I República. Foi forçado a exilar-se em Paris apenas regressando a Portugal em 1933. Desde essa altura e até ao fim da sua vida, António Sérgio viria a estar ligado a movimentos oposicionistas ao Estado Novo, opção que lhe custou ser preso pela PIDE em diversas ocasiões.




Opositor, perseguido e preso pela PIDE. Fonte TT




O activismo político levou-o a ser presença destacada nas campanhas presidenciais de Norton de Matos (1948-1949) e depois de Humberto Delgado (1958). Nessas campanhas esteve ao lado de nomes relevantes de diversas sensibilidades da Política e Cultura Portuguesas tais como Aquilino Ribeiro, Rolão Preto, Cunha Leal, Jaime Cortesão, Azevedo Gomes, Cesina Bermudes (filha de Félix Bermudes), entre outros.


 



Dois episódios da campanha presidencial de Humberto Delgado. Fonte: TT



António Sérgio faleceu em Lisboa, 24 de Janeiro de 1969. Viviam-se os tempos da primavera Marcelista, facto que permitiu que a sua morte tenha tido o merecido destaque da imprensa escrita em Portugal.


 

A morte de um vulto. Fonte: DL



No remate de um excelente artigo, Raul Rego referia: “Desaparece com António Sérgio talvez o maior português do nosso tempo, um daqueles que contribuíram para que o País não seja, ao deixarem-no, o mesmo que o encontraram.".



Uma homenagem já em tempos de Democracia.




É do nosso conhecimento que existe um outro cruzamento interessante de António Sérgio com duas figuras maiores, duas figuras primordiais da História do Sport Lisboa e Benfica mas essa curiosidade histórica fica guardada para outra - melhor – ocasião.

No próximo texto falaremos de Henrique Lopes Mendonça.




« Última modificação: 14 de Setembro de 2019, 14:09 por RedVC »

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  • 15 de Setembro de 2019, 08:30
-245-
Félix e os vultos (II): Henrique Lopes de Mendonça


Dia 16 de Fevereiro de 1956, nº 120, rua do Diário de Notícias, Lisboa.



Sessão pública de homenagem celebrando o centenário do nascimento de Henrique Lopes Mendonça, falecido 25 anos antes. Fonte:AML



Félix Bemudes discursa perante uma pequena multidão, assumindo não apenas o seu cargo de Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores mas também o de amigo de longa data do homenageado.




Fonte: DL




Esta sessão pública antecedeu a exposição no Palácio das Galveias, reportada na fotografia com que iniciamos o texto anterior.

E já agora voltemos a essa fotografia, centrando a atenção no quadro por trás de Félix Bermudes.




Fonte: lopesmendonca.net





A sala central da exposição do centenário do nascimento de Henrique Lopes Mendonça. Fonte: AML




Ali vislumbramos um excelente retrato de Henrique Lopes Mendonça, pintado várias décadas antes pelo seu cunhado, o pintor Columbano Bordalo Pinheiro. Tal como o seu irmão Rafael Bordalo Pinheiro, Columbano integra sem favor qualquer lista que se faça dos maiores artistas Portugueses de sempre.

O texto de hoje fará uma biografia sintética de Henrique Lopes Mendonça, o homem que entre muitas outras coisas, escreveu a letra de “A Portuguesa”, o Hino Nacional de Portugal.



Henrique Lopes Mendonça
(1856 - 1931)


Fonte: AML




Henrique Lopes de Mendonça nasceu em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1856 e faleceu a 24 de Agosto de 1931.

Foi um destacado Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa na primeira parte da sua vida adulta. Mais tarde foi também professor de História na Escola de Belas Artes de Lisboa, arqueólogo; poeta; dramaturgo; romancista, bibliotecário da Escola Naval e membro das comissões oficiais dos centenários de Colombo e Vasco da Gama. Foram 75 anos de uma vida bem preenchida.

Mas, talvez o facto pelo qual é mais recordado é que Henrique Lopes de Mendonça é um dos autores de “A Portuguesa”, o Hino Nacional de Portugal.

 



Na ressaca do ultimato inglês de 1890, Henrique Lopes de Mendonça foi desafiado por Alfredo Keil (um Português de ascendência Alemã) a escrever os versos para uma música heróica que apelava ao orgulho e independência nacional.

O resultado seria “A Portuguesa”, um hino que foi rapidamente adoptado pelos revolucionários republicanos e proibido pela monarquia Portuguesa. Apenas duas décadas depois, em 19 de Julho de 1911, após a implantação da República, esse hino seria adoptado como o Hino Nacional de Portugal.




Lopes Mendonça, o criador


Tal como Félix Bermudes, que ao longo de 4-5 décadas foi um destacado autor teatral, Henrique Lopes de Mendonça foi ao longo da sua vida, um autor. Foi historiador; arqueólogo; poeta; dramaturgo e romancista, com obra publicada e reconhecida pelos seus pares.

Assim, para lá dos laços de amizade, os dois autores partilharam sempre a preocupação pela defesa dos direitos de propriedade intelectual. Com naturalidade, os dois homens integraram o grupo que esteve por trás da formação da Sociedade Portuguesa de Autores (ver https://www.spautores.pt/spa/historico-spa).

Em 1911, juntamente com alguns outros autores teatrais, forma a Associação de Classe dos Autores Dramáticos Portugueses que infelizmente teve uma vida curta, não conseguindo reunir mais do que uns 50 associados.

Finalmente, em 1925 seria fundada a SECTP (Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) com o objectivo de proceder à "... união dos escritores teatrais e compositores musicais portugueses para a defesa dos seus direitos e melhoria dos seus interesses...".

Entre os fundadores, para além de Félix Bermudes e Henrique Lopes de Mendonça, estiveram nomes como Mário Duarte, André Brun, João Bastos, Ernesto Rodrigues e os compositores Alves Coelho, Carlos Calderón e Luz Júnior.




Fotografia colorida do grupo que em 22-01-1927, promoveu uma festa de homenagem a Júlio Dantas, presidente da SECTP. Fonte: TT.





Numa primeira fase, o escritor (e médico, político e diplomata) Júlio Dantas foi eleito para o cargo de Presidente da SECTP mas a partir de 1928 e até ao fim da sua vida (5 -01-1960), o cargo seria desempenhado por Félix Bermudes,

Ao longo de 3 décadas, Félix Bermudes foi o principal responsável pela legislação do sector e pela expansão da rede de correspondentes nacionais e parceiros internacionais da SECTP. Assim sendo, Félix Bermudes estava em posição privilegiada para valorizar a contribuição de Henrique Lopes de Mendonça para a defesa do direito autoral em Portugal.


No seu discurso de 1956, Félix Bermudes não se esqueceu de valorizar essa contribuição para o avanço das Artes em Portugal.



Fonte: AML e DL




É assim, os grandes sabem reconhecer os grandes.


 

Fonte: DL



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