53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 106455 vezes)

Mikaeil

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En 1965, el @RealZaragoza logró su único Trofeo Ramón de Carranza.
Algunos detalles de un magnífico programa del torneo con Zaragoza,
@SLBenfica, @Flamengo y @RealBetis


El Zaragoza ganó en semifinales 3-0 al Flamengo y 3-2 en la final al Benfica de Eusébio.




RedVC

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  • 16 de Agosto de 2019, 17:51
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En 1965, el @RealZaragoza logró su único Trofeo Ramón de Carranza.
Algunos detalles de un magnífico programa del torneo con Zaragoza,
@SLBenfica, @Flamengo y @RealBetis


El Zaragoza ganó en semifinales 3-0 al Flamengo y 3-2 en la final al Benfica de Eusébio.






Obrigado pela partilha. Apesar do vidro é sempre uma emoção estar ao pé daqueles dois troféus que estão no Museu. Bem perto das duas orelhudas.








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  • 30 de Agosto de 2019, 22:19
-243-
A importância de se filmar… Ernesto!

Ernesto de Albuquerque, um dos pioneiros do Cinema feito em Portugal.




Fonte: Cinemateca Portuguesa




A propósito da oportuna menção feita há algumas semanas atrás pelo pica-foices ( que aparenta ser o moderador que mais lê este tópico  :coolsmiley: ) sobre filmes existentes na Cinemateca Portuguesa, vamos hoje falar deste pioneiro do Cinema feito em Portugal.

Como veremos, Ernesto de Albuquerque deixou uma obra cinematográfica interessante e diversificada, tendo provavelmente captado pela primeira vez em filme, actividades desportivas de equipas e atletas do Sport Lisboa e Benfica.



Ernesto de Albuquerque, o cineasta

 

Fonte: Cinemateca Portuguesa



Ernesto Januário Gualdino de Sousa Albuquerque e Cunha terá nascido em Lisboa, na Rua da Fé, no dia 19 de Setembro de 1883 e terá falecido no Rio de Janeiro, algures no verão de 1940.

No seu excelente Dicionário do Cinema Português 1895-1961, Jorge Leitão Ramos refere que Ernesto de Albuquerque começou a trabalhar no laboratório de fotografia do seu padrasto logo após concluir os seus estudos na Escola Nacional. Esse laboratório situava-se na Rua de Santa Justa, em pleno coração de Lisboa e terá sido por lá que Albuquerque adquiriu os conhecimentos técnicos basilares para as actividades profissionais que desempenhou durante o resto da sua vida.




Fonte: TT




A partir de 1908, Ernesto de Albuquerque tornou-se fotógrafo profissional e produtor cinematográfico, dispondo de um laboratório profissional. A extensa lista dos filmes em que participou entre os anos de 1908 e 1924, mostra-nos que desempenhou actividades diversas tais como operador de câmara, direcção de fotografia, montagem, produção e realização.






Várias imagens onde nos aparece Ernesto de Albuquerque. Fonte: Cinemateca Portuguesa




Essa lista de filmes compreende filmes de temáticas diversificadas desde ficção até documentários e reportagens de actividades políticas, militares, vida social e desportiva. Os filmes que sobreviveram oferecem-nos imagens preciosas de um Portugal desaparecido.

Por exemplo, um dos seus primeiros filmes foi "A Cultura do Cacau (em S. Tomé)" (1909) onde se fez uma abordagem documental à temática colonial e em particular à cultura do cacau em São Tomé, um assunto que à época tinha notória relevância política e comercial. Existia uma colisão dos interesses britânicos e portugueses e não estava ainda longe o trauma nacional com a questão do Ultimatum Inglês…


 



Entre os projectos mais curiosos em que participou destacam-se os primeiros filmes cómicos feitos em Portugal. Alguns desses filmes pretendiam ser réplicas nacionais do famoso Charlot. Neles contracenava Cardo, um sósia de Charlot, que era interpretado por um actor Argentino chamado Hector Quintanilla.


 



Vieram depois algumas longas-metragens com adaptações de clássicos da Literatura e do Teatro Português.

Também, ao que parece, Ernesto de Albuquerque chegou a receber um convite do General Norton de Matos para se deslocar a França para filmar aspectos da participação do CEP na Grande Guerra. Este convite talvez tenha resultado da participação (provavelmente como operador de câmara) de Ernesto de Albuquerque num fime de longa metragem (cerca 90 minutos) que captou uma parada militar que decorreu em 22-06-1916 em Montalvo, Tancos. A versão distribuída seria mais curta (cerca de 30 minutos) e designada por "Exercícios de Infantaria, Cavalaria e Artilharia pela Divisão Militar de Tancos" (fonte: Piçarra, MC. 2018. “Irmãos de armas”: o CEP no cinema de propaganda da Primeira Guerra Mundial).

Infelizmente, por causa da revolução Sidonista de 5 de Dezembro de 1917 ou por outra razão, tal não se veio a concretizar e assim, apesar de existirem as magníficas fotografias do fotógrafo (e sócio e atleta Benfiquista) Arnaldo Garcez, ficamos privados de registos cinematográficos extensos captando a participação Portuguesa na Guerra de 1914-1918.

Ernesto de Albuquerque colaborou ainda com o grande Stuart de Carvalhais (ver texto -234-Stuart e o Emblema, pág. 57), o homem que anos mais tarde - a pedido de Félix Bermudes - modernizou decisivamente o emblema do Sport Lisboa e Benfica.

Dessa colaboração resultou a adaptação ao grande ecrã das famosas aventuras de quadradinhos “Quim e o Manecas”, considerada a primeira banda desenhada Portuguesa, e que à época eram publicadas por Stuart no semanário humorístico “O Século Cómico” (ver: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OSeculoComico/OSeculoComico.htm).

E assim, com realização de Ernesto de Albuquerque e argumento de Stuart de Carvalhais (que também contracenava como o como pai do Manecas), foram rodadas duas curtas-metragens: “O Quim e o Manecas (Short)” e “As Aventuras de Quim e o Manecas”, de 1916 e 1923,. Infelizmente nem um fotograma desses filmes terá sobrevivido.


 




Ernesto de Albuquerque e o SL Benfica


De 1916 a 1919, trabalhando para a Empresa Internacional de Cinematografia, Ernesto de Albuquerque captou diversos eventos desportivos de ténis, hipismo, automobilismo, boxe, patinagem e futebol.

Para nós Benfiquistas, existem algumas notas interessantes a salientar. Como veremos, é lícito supor que Ernesto de Albuquerque terá rodado filmes em que pela primeira vez terão sido captados alguns eventos desportivos do nosso Clube.


Um exemplo disso é o filme “Campeonato de Patinagem No Rink do Sport Lisboa e Benfica em 1917” (http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/993/Campeonato+de+Patinagem+No+Rink+do+Sport+Lisboa+e+Benfica)

Infelizmente, não dispomos sequer de alguns fotogramas desse filme mas muito provavelmente terão sido captadas actividades de patinagem - eventualmente lúdicas e/ou competitivas - no ringue da Avenida Gomes Pereira em Benfica. É sabido que no ano anterior se tinha dado a integração dos Desportos de Benfica no Sport Lisboa e Benfica e que nesses tempos esse ringue tinha múltiplas actividades de diversas modalidades centradas na patinagem.



Fotografias do ringue de patinagem de Benfica que nos dão uma ideia do que poderá ter sido captado no filme de Ernesto de Albuquerque sobre o campeonato de patinagem de 1917



Ainda de 1917, a Cinemateca Digital disponibiliza-nos um pequeno filme, realizado por Ernesto Albuquerque, chamado “Portugal Desportivo”.

O filme captou actividades de uma festa desportiva na Amadora, que decorreu em 18-03-1917 e que visava homenagear os pioneiros da aviação Portuguesa (existia ali uma base de aviação militar que já por aqui falamos). Na festa decorreu sucessivamente um festival aéreo, uma largada de aeróstatos, uma prova de atletismo (corrida) e uma angariação de fundos para os feridos da guerra.

Na prova de atletismo (cross-country) inscreveram-se 160 atletas de 32 equipas, cada uma com 5 concorrentes. Participaram o Sport Lisboa e Benfica, Sacavenense, Nacional CF, C Internacional F, Lisboa FC, Recreios Desportivos da Amadora, Sporting CP, Ginasio FC, GS Nacional, Ginásio CP, AE Ferreira Borges, GF Benfica, G Escuteiros e Carcavelinhos FC.

Em termos formais o SL Benfica apresentou-se com duas equipas, cada uma com 5 atletas. Mas para lá de isso inscreveram-se outros atletas Benfiquistas havendo referência que poderão ter chegado aos 50... Na altura o atletismo estava já bastante implantado no nosso Clube, com a prática assegurada por bastantes atletas.

A primeira equipa Benfiquista veio a conquistar o primeiro lugar por equipas, arrebatando uma bela Taça (ver figura). Dela faziam parte atletas como Cecílio Costa, António Brás, Alberto Paula e Fernando Paula.

Da segunda equipa fazia parte nada mais nada menos do que o Glorioso Félix Bermudes, um dos homens da pré-fundação, atleta, ideólogo, futuro presidente, seguramente um dos três homens mais importantes da História do Sport Lisboa e Benfica.

Ora, Félix Bermudes é muito provavelmente o atleta que vemos chegar à meta no fotograma dos 5:35.






É sabido que Félix Bermudes representou o nosso Clube, em competição, não apenas como futebolista mas também em atletismo, modalidade que aliás já praticava ainda o nosso Clube não tinha sido fundado. Apesar das imagens oferecidas pela Cinemateca Digital não serem totalmente conclusivas, estou bastante convencido que era mesmo ele. É o único excerto de filme que conheço de Félix Bermudes em plena actividade desportiva com o manto sagrado.


Mas seguramente o filme de Ernesto de Albuquerque que tem mais interesse para os Benfiquistas é o que foi filmado um ano antes, em 1916, quando captou imagens de um "Desafio de futebol entre o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting de Portugal" (http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/3715/Desafio+de+Futebol+Benfica-Sporting).

Apesar de não termos quaisquer fotogramas ou qualquer menção acerca da data precisa ou do campo em que foi disputado esse desafio de futebol, é muito provável que esse dérbi tenha sido disputado nesse ano de 1916. Exibir em 1916 um filme rodado no ano anterior seria algo que faria pouco sentido para corresponder ao interesse dos espectadores na actualidade desportiva.

Ainda assim, tentar descobrir a data precisa desse dérbi filmado é tanto mais difícil quando se percebe que o ano de 1916 foi um dos mais prolíficos em dérbis lisboetas. Foram seis dérbis! Seis! Por ser tardio, é razoável excluir o dérbi disputado no dia 30-12-1916 mas ainda assim restam-nos 5 dérbis…


 

Os 6 dérbis do ano de 1916.



Numa opinião pessoal, e considerando os 5 dérbis-candidatos, afigurasse-me que o mais provável é que o dérbi filmado deverá ter sido o que foi disputado no dia 14 de Maio de 1916, aquando da inauguração do campo de futebol dos Recreios da Amadora, no Domingo, (ver texto -74- e -75- A Taça Amadora (partes I e II): Os Recreios Desportivos da Amadora). Essa minha opinião justifica-se com um detalhe que foi captado numa extraordinária fotografia de Joshua Benoliel (1873-1932).


 

Será uma câmara de filmar? Ver a comparação mais em baixo… Fonte: AML



E que magnífico seria podermos ver imagens em movimento de Cosme Damião a jogar futebol com o manto sagrado! É sabido que Cosme Damião finalizou a sua carreira de jogador pouco antes dos meados de 1916 para se ocupar plenamente do seu cargo de Capitão Geral do Clube ou seja assumir funções de coordenação de todo o nosso futebol.

Assim sendo e dependendo desse dérbi ter sido filmado no primeiro trimestre de 1916 ou depois, então Cosme terá ou não sido filmado a jogar futebol. Se de facto o dérbi filmado foi o disputado no Campo da Amadora então só poderemos no máximo aspirar ver Cosme Damião entre a assistência ou na cerimónia que decorreu no final do jogo.


Mas, para além de Cosme, dever notar-se que muitos outros grandes jogadores integravam os planteis da nossa equipa de futebol principal nas temporadas de 1915-1916 e 1916-1917.

 

Os 23 jogadores Benfiquistas que integraram os plantéis de 1915-1916 e 1916-1917. A maioria senão todos disputou pelo menos um dos dérbis de 1916.



Existe pois um notório interesse em saber se este filme sobreviveu aos 103 anos que entretanto passaram uma vez que neste filme poderão estar alguns dos nossos mais Gloriosos Ases do passado. Do outro lado da barricada, há também o interesse de ter sido captado em filme o ex-Benfiquista, transitório Sportinguista e futuro Belenense, o grande (e desertor) Artur José Pereira.

E já agora, quem sabe se algum destes filmes rodados por Ernesto Albuquerque terá sido exibido no nosso Cine-Clube de Benfica, a sala de cinema que foi inaugurada nesse mesmo ano de 1916 na nossa sede na Avenida Gomes Pereira em Benfica? É interessante pensar que os nossos sócios poderão ter assistido a esses filmes no Cine-Clube de Benfica.


 

O Cine-Clube de Benfica nos finais da década de 70, localizado no nº17 da Av. Gomes Pereira, actual edifício da JF de Benfica. Fonte: TT




Um adeus Brasileiro


Em Abril de 1925, tal como fizeram muitos milhares de Portugueses de Norte a Sul de Portugal, Ernesto de Albuquerque emigrou para o Brasil. Ter-se-à radicado no Rio de Janeiro e por lá não se lhe conhecem actividades cinematográficas.

A informação disponível indica que Albuquerque manteve actividade como jornalista, fotógrafo e redactor. Colaborou em particular com a revista “Vida Doméstica”, publicação inicialmente mensal, editada entre os anos de 1920 e 1962 no Rio de Janeiro e que era direccionada a um público feminino.


 

Ernesto de Albuquerque num jantar da Revista Doméstica em Abril de 1928, revista onde chegou a redactor. Fonte: BND



E por terras Brasileiras terá permanecido até à data da sua morte, que pelas referências que encontrei terá ocorrido no Verão de 1940, altura em que deveria ter 67 anos de idade.



Epílogo


Como mencionei há alguns dias, seria muito interessante que a Cinemateca Portuguesa e o Museu Cosme Damião pudessem conversar para avaliar e recuperar o que resta destas obras. As questões de preço são absurdas uma vez que o interesse histórico deveria prevalecer. Pede-se um pouco de bom senso e muita boa vontade, se for esse o caso. A quem interessa manter os filmes ou o que resta deles a apanhar pó nas prateleiras? Absurdo.

Saber se estes filmes sobreviveram e em caso positivo, qual o seu estado de conservação é um aspecto fundamental. Talvez ainda existam fragmentos que ainda permitam ver movimento, talvez tenham sobrevivido alguns fotogramas isolados, talvez estejam perdidos para sempre. Esperemos que existam e que o bom senso e a boa vontade permitam que venham a ser vistos pelos Benfiquistas.

Se bem me lembro quando fui ao Museu o filme mais antigo que por lá se exibia era um filme dos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912 em que aparecia o infeliz Francisco Lázaro, na altura já um antigo atleta do SLB. É certo que estes filmes são posteriores mas por outro lado são bem mais interessantes uma vez que registaram atletas e actividades do nosso Clube. Cabe a palavra aos responsáveis.





« Última modificação: 03 de Setembro de 2019, 13:04 por RedVC »

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  • 14 de Setembro de 2019, 14:01
-244-
Félix e os vultos (I): António Sérgio

Lisboa, Palácio das Galveias, dia 16 de Fevereiro de 1956.





Dois vultos da Cultura em Portugal convivem numa cerimónia que evocava os 100 anos do nascimento de um amigo comum: o escritor Henrique Lopes Mendonça (1856 - 1931).

Félix Bermudes (1874 - 1960) e António Sérgio (1883 - 1969) partilhavam ainda uma relação familiar pois um sobrinho de António Sérgio (que não teve filhos) estava casado com Clara Bermudes, uma das duas filhas de Félix Bermudes.




Félix Bermudes e as suas duas filhas Cesina (esquerda) e Clara (direita)




De Félix Bermudes, da sua fascinante personalidade e da superlativa contribuição que deu ao Sport Lisboa e Benfica, já por aqui falamos de forma extensa:



-69- As manas Bermudes, Gloriosas a pedalar. (p.21)

-82- Eterno Bermudes. (p.24)

-143- Sport Lisboa, Bemfica 1923 (p. 39)

-174- O Olímpico Bermudes (parte I) – Gloriosos tiros (p. 46)

-175- O Olímpico Bermudes (parte II) – Fora de Paris, dentro dos Jogos (p. 46)

-176- O Olímpico Bermudes (parte III) – Muitos tiros, poucos pontos (p. 46)

-197- Félix e os Leões da Estrela (p. 49)




Mas o Sport Lisboa e Benfica não está apenas restrito ao desporto, não integrando outras dimensões, igualmente ricas e complementares. Assim sendo decidi fazer uma pequena série de artigos, biografando brevemente algumas figuras da Cultura em Portugal que interagiram com o nosso Félix Bermudes.

Os textos mostrarão que Félix Bermudes não é apenas um imortal do Sport Lisboa e Benfica, mas também que foi influente e considerado nos meios Culturais de Portugal.

No presente texto falaremos de António Sérgio, figura maior da Cultura e Política Portuguesa, um intelectual e pedagogo cujo legado e influência ainda hoje se faz sentir.



António Sérgio
(1883 – 1969)



António Sérgio caricaturado por António



António Sérgio nasceu em Damão, Índia Portuguesa, no dia 3-09-1888. Nesse tempo, o seu pai era um respeitado oficial da Marinha Portuguesa que desempenhava o cargo de governador de Damão. Damão era ainda uma cidade integrante do Império Colonial Português havendo ainda a circunstância de que anos antes o avô de António Sérgio tinha sido governador-geral da Índia.

Ainda nesse ano de 1888, a família Sousa regressaria a Lisboa para mais tarde voltar a emigrar, desta vez para Angola e para o Congo, onde seu pai também assumiu funções de governador. Por terras Africanas permaneceriam até ao pequeno António ter cerca de 9 anos de idade, altura em que regressaram definitivamente à metrópole.

Concluída a instrução primária e seguindo uma tradição familiar (pai e avô paterno), António Sérgio entrou para o Colégio Militar para mais tarde ingressar na Escola Naval onde completou o curso de Marinha de Guerra. A sua vida parecia destinada à vida militar.


 

António Sérgio no Colégio Militar e na Escola Naval  onde o podemos encontrar num momento desportivo, ao centro, de bigode. Fonte: sergio19.net



Apesar da carreira náutica lhe ter permitido viajar por todo o mundo, António Sérgio não se identificava com a componente militar da profissão. E assim, em finais de 1910, por alturas da instauração da Republica, António Sérgio renunciou definitivamente à sua condição de militar. Com pouco mais de 30 anos era chegado o tempo de seguir as suas verdadeiras vocações.


 

António Sérgio Sousa (pai) e António Sérgio Sousa (filho), representantes de duas de pelo menos três gerações de oficiais da Marinha. Fonte: Marinha Portuguesa



Anos mais tarde, António Sérgio admitiu que essa decisão radical foi também motivada pelo desejo de contribuir para o combate nacional às dificuldades económicas e sociais trazidas pelas convulsões geradas com a instauração da Republica. A revolução de 5 de Outubro de 1910 despertou-lhe as suas verdadeiras vocações, traduzidas depois numa prestigiada ainda que conturbada carreira de filósofo, pedagogista e reformador social (tal como se auto-definiu).

Centrando atenções no progresso económico e moral do nosso país, António Sérgio foi um defensor coerente de um socialismo libertário ou cooperativista por oposição a um socialismo de Estado. Rejeitava o modelo do socialismo soviético, marxista-leninista e admirava antes as linhas políticas sociais-democratas adoptadas pelos países da Escandinávia.

Detentor de uma cultura humanista profunda e cultivadora, o pensamento e a acção pública de António Sérgio foram marcadamente voltados para a problemática da Educação. Foi ideólogo e figura central do movimento Seara Nova, cuja obra produziu profundas e marcantes influências sociais e políticas no resto do século XX. Como ele próprio dizia, a grandeza dos homens mede-se pelas consequências da sua acção e nos seus discípulos. Mede-se ao longo das décadas seguintes à sua morte. António Sérgio deixou obra e discípulos.




Tempos difíceis



António Sérgio teve ainda oportunidade de tentar implementar na prática algumas das suas ideias do cooperativismo como modelo de sociedade, ao fazer parte, como ministro da Educação, do Governo de Álvaro de Castro, em 1923.

Tudo mudaria em 28 de Maio de 1926 com a instauração da ditadura e o subsequente fim da I República. Foi forçado a exilar-se em Paris apenas regressando a Portugal em 1933. Desde essa altura e até ao fim da sua vida, António Sérgio viria a estar ligado a movimentos oposicionistas ao Estado Novo, opção que lhe custou ser preso pela PIDE em diversas ocasiões.




Opositor, perseguido e preso pela PIDE. Fonte TT




O activismo político levou-o a ser presença destacada nas campanhas presidenciais de Norton de Matos (1948-1949) e depois de Humberto Delgado (1958). Nessas campanhas esteve ao lado de nomes relevantes de diversas sensibilidades da Política e Cultura Portuguesas tais como Aquilino Ribeiro, Rolão Preto, Cunha Leal, Jaime Cortesão, Azevedo Gomes, Cesina Bermudes (filha de Félix Bermudes), entre outros.


 



Dois episódios da campanha presidencial de Humberto Delgado. Fonte: TT



António Sérgio faleceu em Lisboa, 24 de Janeiro de 1969. Viviam-se os tempos da primavera Marcelista, facto que permitiu que a sua morte tenha tido o merecido destaque da imprensa escrita em Portugal.


 

A morte de um vulto. Fonte: DL



No remate de um excelente artigo, Raul Rego referia: “Desaparece com António Sérgio talvez o maior português do nosso tempo, um daqueles que contribuíram para que o País não seja, ao deixarem-no, o mesmo que o encontraram.".



Uma homenagem já em tempos de Democracia.




É do nosso conhecimento que existe um outro cruzamento interessante de António Sérgio com duas figuras maiores, duas figuras primordiais da História do Sport Lisboa e Benfica mas essa curiosidade histórica fica guardada para outra - melhor – ocasião.

No próximo texto falaremos de Henrique Lopes Mendonça.




« Última modificação: 14 de Setembro de 2019, 14:09 por RedVC »

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  • 15 de Setembro de 2019, 08:30
-245-
Félix e os vultos (II): Henrique Lopes de Mendonça


Dia 16 de Fevereiro de 1956, nº 120, rua do Diário de Notícias, Lisboa.



Sessão pública de homenagem celebrando o centenário do nascimento de Henrique Lopes Mendonça, falecido 25 anos antes. Fonte:AML



Félix Bemudes discursa perante uma pequena multidão, assumindo não apenas o seu cargo de Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores mas também o de amigo de longa data do homenageado.




Fonte: DL




Esta sessão pública antecedeu a exposição no Palácio das Galveias, reportada na fotografia com que iniciamos o texto anterior.

E já agora voltemos a essa fotografia, centrando a atenção no quadro por trás de Félix Bermudes.




Fonte: lopesmendonca.net





A sala central da exposição do centenário do nascimento de Henrique Lopes Mendonça. Fonte: AML




Ali vislumbramos um excelente retrato de Henrique Lopes Mendonça, pintado várias décadas antes pelo seu cunhado, o pintor Columbano Bordalo Pinheiro. Tal como o seu irmão Rafael Bordalo Pinheiro, Columbano integra sem favor qualquer lista que se faça dos maiores artistas Portugueses de sempre.

O texto de hoje fará uma biografia sintética de Henrique Lopes Mendonça, o homem que entre muitas outras coisas, escreveu a letra de “A Portuguesa”, o Hino Nacional de Portugal.



Henrique Lopes Mendonça
(1856 - 1931)


Fonte: AML




Henrique Lopes de Mendonça nasceu em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1856 e faleceu a 24 de Agosto de 1931.

Foi um destacado Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa na primeira parte da sua vida adulta. Mais tarde foi também professor de História na Escola de Belas Artes de Lisboa, arqueólogo; poeta; dramaturgo; romancista, bibliotecário da Escola Naval e membro das comissões oficiais dos centenários de Colombo e Vasco da Gama. Foram 75 anos de uma vida bem preenchida.

Mas, talvez o facto pelo qual é mais recordado é que Henrique Lopes de Mendonça é um dos autores de “A Portuguesa”, o Hino Nacional de Portugal.

 



Na ressaca do ultimato inglês de 1890, Henrique Lopes de Mendonça foi desafiado por Alfredo Keil (um Português de ascendência Alemã) a escrever os versos para uma música heróica que apelava ao orgulho e independência nacional.

O resultado seria “A Portuguesa”, um hino que foi rapidamente adoptado pelos revolucionários republicanos e proibido pela monarquia Portuguesa. Apenas duas décadas depois, em 19 de Julho de 1911, após a implantação da República, esse hino seria adoptado como o Hino Nacional de Portugal.




Lopes Mendonça, o criador


Tal como Félix Bermudes, que ao longo de 4-5 décadas foi um destacado autor teatral, Henrique Lopes de Mendonça foi ao longo da sua vida, um autor. Foi historiador; arqueólogo; poeta; dramaturgo e romancista, com obra publicada e reconhecida pelos seus pares.

Assim, para lá dos laços de amizade, os dois autores partilharam sempre a preocupação pela defesa dos direitos de propriedade intelectual. Com naturalidade, os dois homens integraram o grupo que esteve por trás da formação da Sociedade Portuguesa de Autores (ver https://www.spautores.pt/spa/historico-spa).

Em 1911, juntamente com alguns outros autores teatrais, forma a Associação de Classe dos Autores Dramáticos Portugueses que infelizmente teve uma vida curta, não conseguindo reunir mais do que uns 50 associados.

Finalmente, em 1925 seria fundada a SECTP (Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) com o objectivo de proceder à "... união dos escritores teatrais e compositores musicais portugueses para a defesa dos seus direitos e melhoria dos seus interesses...".

Entre os fundadores, para além de Félix Bermudes e Henrique Lopes de Mendonça, estiveram nomes como Mário Duarte, André Brun, João Bastos, Ernesto Rodrigues e os compositores Alves Coelho, Carlos Calderón e Luz Júnior.




Fotografia colorida do grupo que em 22-01-1927, promoveu uma festa de homenagem a Júlio Dantas, presidente da SECTP. Fonte: TT.





Numa primeira fase, o escritor (e médico, político e diplomata) Júlio Dantas foi eleito para o cargo de Presidente da SECTP mas a partir de 1928 e até ao fim da sua vida (5 -01-1960), o cargo seria desempenhado por Félix Bermudes,

Ao longo de 3 décadas, Félix Bermudes foi o principal responsável pela legislação do sector e pela expansão da rede de correspondentes nacionais e parceiros internacionais da SECTP. Assim sendo, Félix Bermudes estava em posição privilegiada para valorizar a contribuição de Henrique Lopes de Mendonça para a defesa do direito autoral em Portugal.


No seu discurso de 1956, Félix Bermudes não se esqueceu de valorizar essa contribuição para o avanço das Artes em Portugal.



Fonte: AML e DL




É assim, os grandes sabem reconhecer os grandes.


 

Fonte: DL



« Última modificação: 15 de Setembro de 2019, 08:34 por RedVC »

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  • 20 de Setembro de 2019, 21:50
-246-
A debandada dos Gansos (parte I)


Paris, Vincennes, Estádio Pershing, dia 25 de Dezembro de 1920.



A equipa do CPAC que alinhou em Paris no dia de Natal de 1920. Fonte: Gallica




Foi nesse dia de Natal de 1920 que uma equipa Portuguesa disputou pela primeira vez uma partida de futebol na capital Francesa. Essa equipa foi a 1ª categoria do Clube Atlético Casa Pia (CPAC) e participava no “Tournoi Internationale du Club Français”, torneio que decorreu de 24 a 26 de Dezembro de 1920 e em que competiram também equipas de França, Espanha e Suíça.


 

Capa da Revista Portuguesa “Football” que destacava a digressão casapiana a Paris no Natal de1920.



Os “gansos”, como os casapianos eram carinhosamente chamados ficaram assim uma vez mais ligados à História do Futebol em Portugal.


Gansos?


Gansos? Sim, pois enquanto órfãos os miúdos que ingressavam na Casa Pia eram acolhidos na casa-mãe, e a ela recolhiam, rodeando-a como os pequenos gansos rodeiam a sua mãe, gentil, carinhosa e protectora.

Uma imagem bonita que é evocada numa das versões do emblema do CPAC, encimada por um ganso. Esse emblema foi desenhado por Pedro Guedes, pintor, ilustre casapiano e também o guarda-redes do 1º jogo registado do Sport Lisboa, disputado nas Salésias no dia 1 de Janeiro de 1905 (ver: -31- O primeiro guardião. pág.7).




O emblema do CPAC desenhado por Pedro Guedes, ilustre pintor e desportista casapiano.




O Torneio


No seu primeiro jogo no torneio de Paris, o CPAC enfrentou o Cercle Athletic de Paris, a equipa anfitriã e que esse ano ostentava o título de Campeã de França. Venceram os franceses por 2-1 após um jogo bastante disputado que deixou os anfitriões bastante bem impressionados acerca das capacidades futebolísticas e da postura desportiva dos Portugueses. O golo casapiano foi marcado pelo inevitável Cândido de Oliveira, capitão de equipa e a força motriz da fundação e dos primeiros anos do CPAC.




Fonte: Gallica




Foram muitos os elogios que na ocasião a imprensa francesa fez ao jogo veloz, dinâmico e artístico dos Portugueses. Segundo eles, os casapianos pecaram apenas pela capacidade de concretização.


 

Os (muitos) elogios da imprensa francesa à equipa Portuguesa. Fonte: Gallica



No dia seguinte, os franceses do Cercle AP venceram o torneio ao derrotar o CA Vitry por uns rotundos 4-1. Em jogo a contar para a atribuição do 3º e do 4º lugar, o CPAC disputou e perdeu o jogo contra os espanhóis do FC Espanya por 1-3. Terá talvez pesado algum cansaço ou alguma inexperiência pois Cândido de Oliveira e António Pinho eram os únicos casapianos que tinham já experiência em jogos internacionais por terem integrado digressões que o SL Benfica fez em Espanha entre 1915 e 1919.


 

Alguns aspectos do jogo FC Espanya vs CPAC que deu o 3º lugar aos espanhóis. Fonte: Gallica




O Estádio Pershing


Os jogos do Torneio foram disputados no Estádio Pershing, situado na zona de Vincennes em Paris. Inaugurado em Junho de 1919 e demolido na década de 60, o Estádio tinha inicialmente capacidade para 25.000 lugares e foi usado essencialmente para a prática do futebol, do râguebi e do atletismo.

Surpreendentemente, o Estádio foi desenhado e construído não por franceses mas pelos americanos da YMCA (Young Men's Christian Association), uma associação de origem inter-religiosa cristã protestante, fundada em Londres em 1844 por George Williams (1821-1905).

A YMCA tem actualmente sede em Genebra, na Suíça. Reúne mais de 15.000 associações de jovens locais, está presente em 120 países, e soma cerca de 65 milhões de membros que trabalham em muitos campos de actividade.



Estádio de Pershing em 1919, durante a cerimónia de inauguração aquando dos Jogos Interaliados. Fonte: wikipedia




A construção do Estádio teve inicialmente como objectivo a sua utilização para os Jogos Interaliados 1919, prova desportiva aberta aos oficiais e praças das forças armadas dos exércitos Aliados que tinham combatido na I Guerra Mundial. Estes Jogos Interaliados procuraram preencher o vazio em que a guerra tinha deixado no movimento olímpico, com o cancelamento da VI Olimpíada prevista para 1916 em Berlim. A ideia dos Jogos foi adoptada pelo General JJ Pershing, Comandante do Exército Americano na Europa, tendo participado 18 países, entre eles Portugal.




O General JJ Pershing e os Jogos Interaliados de 1918.



Depois desses Jogos e para além de diversos desafios disputados pela equipa nacional Francesa de futebol, o Estádio foi usado para jogos de râguebi do torneio das 5 nações e para diversos jogos do torneio olímpico de futebol dos Jogos de Paris de 1924. O Estádio esteve ainda ligado a um episódio pioneiro do desporto feminino internacional com a realização em 1922 dos primeiros Jogos Mundiais da Mulher que registaram assistências na ordem dos 20.000 espectadores.



A debandada dos gansos e a fundação do CPAC


Nesse torneio de 1920, a equipa casapiana exibiu-se em excelente nível, deixando não apenas um rasto da qualidade do seu futebol mas também o prestígio do seu exemplar desportivismo e da excelência das personalidades que constituíam a equipa. Entre todos destacava-se a liderança de Cândido de Oliveira, capitão de equipa e que embora ainda fosse jogador estava já num processo evolutivo que o levou a tornar-se uma das mais sabedoras e prestigiadas figuras de sempre do Futebol Português.

Cândido Plácido de Oliveira (1896-1958), foi uma personalidade invulgar, extraordinária do nosso futebol. Foi futebolista, jornalista, dirigente, treinador e pedagogo. Foi ele o homem que deu corpo à vontade de alguns casapianos em se fundar um Clube que reunisse os jovens futebolistas saídos da Casa Pia. Mas lá iremos.

Uma nota relevante daquela equipa casapiana é que a maioria (ou mesmo todos) dos seus jogadores tinha abandonado os quadros do Sport Lisboa e Benfica em meados desse ano.

Alguns deles, como o guarda-redes Clemente Guerra, o defesa António Pinho, o médio Cândido de Oliveira e o avançado Silvestre Rosmaninho, eram já jogadores regulares e destacados da 1ª categoria do SLB que tinha conquistado o Campeonato Regional de Lisboa (o campeonato mais competitivo e prestigiado então disputado em Portugal) de 1920.



Duas equipas Benfiquistas do final da década de 10.




Os restantes ex-Benfiquistas (algumas dezenas) que debandaram para o CPAC integravam equipas das categorias inferiores do SLB, embora muitos deles provavelmente tinham capacidade para ainda ascender à 1ª categoria.

Cosme Damião, também um antigo Casapiano, exercia uma liderança sagaz, sabedora mas também muito exigente quer nos aspectos técnicos quer no comprometimento para com a equipa e a vitória. Cosme foi o pai da Mística e com ele não era fácil aos jovens jogadores chegar à 1ª categoria…

E assim, em 14 de Junho de 1920, 18 homens reuniram-se numa sala de sessões da Associação de Classe do Pessoal Superior dos Correios e Telégrafos na Rua Eugénio dos Santos, 159 – 2º andar, Lisboa, para assinarem o auto de fundação do CPAC (fonte: http://dubleudansmesnuages.com/?p=3064).




O auto de fundação e o estandarte do CPAC. Fonte: dubleudansmesnuages.com




Entre esses 18 fundadores encontramos, para lá do inevitável Cândido de Oliveira e de António Pinho, homens como Ricardo Ornelas (jornalista e seleccionador nacional de futebol), Mário da Silva Marques (primeiro nadador olímpico Português, competindo em Paris, 1924) e David Ferreira (pai do futuro escritor e poeta David Mourão Ferreira).

Um aspecto fundamental da fundação do CPAC é que Cândido de Oliveira apesar de ter convencido algumas dezenas de companheiros casapianos a acompanharem-no para o novo Clube, não conseguiu convencer outros antigos companheiros. Entre esses homens que preferiram manter-se no SLB temos alguns dos que tiveram um papel fundamental nas décadas seguintes do Sport Lisboa e Benfica.




Os casapianos mais destacados que saíram (para o CPAC) e que permaneceram (no SLB) depois da debandada dos gansos em 1920.




Uma década comprometida


Em abono da verdade, Cândido de Oliveira terá pensado na fundação do CPAC logo em 1919 mas decidiu adiar essa decisão durante 1 ano pelo facto do SLB estar a viver um período conturbado. Em 1919, para além da perda do título regional de Lisboa para o SCP, deu-se também a debandada de uma dezena de jogadores Benfiquistas para o recém-fundado CF “os Belenenses”.

Só no final da época 1919-1920, depois do Benfica ter reconquistado o título regional de futebol, Cândido de Oliveira julgou estarem criadas as condições para avançar com o CPAC.

A debandada dos Gansos em 1920 teve consequências nefastas para o SLB, alterando significativamente o sucesso e o desenvolvimento do nosso Clube. Em grande medida perdeu-se o viveiro casapiano que abastecia abundantemente as diversas categorias do SLB. Custou-nos uma década desportiva pois apenas em 1929-1930 voltaríamos a conquistar um título de futebol na categoria principal.

Antes dessa debandada, Cosme terá pensado em Cândido de Oliveira como o homem mais capaz de o substituir e de guindar o SLB para novas etapas do seu desenvolvimento. Quis o destino que assim não fosse.

Sabe-se que Cândido de Oliveira discutiu a ideia da formação do CPAC com Cosme Damião mas este não se terá mostrado interessado, antecipando que essa fundação iria apenas enfraquecer o SLB. É provável que Cosme não tenha acreditado na sustentação a longo prazo do CPAC.

Cosme Damião não terá guardado rancores. A sua personalidade e o seu amor à Casa Pia terão evitado esses sentimentos. E isso mais se demonstrou quando Cosme Damião convidou a equipa do CPAC para o primeiro jogo oficial disputado no Campo das Amoreiras, o primeiro complexo desportivo propriedade do SLB.

E assim, no dia 13 de Dezembro de 1925, perante 15 mil espectadores, o CPAC venceu o SLB por 3-1.




Fonte: Hemeroteca de Lisboa




Para perceber a qualidade dos jogadores que debandaram em 1920 para o formar o CPAC basta dizer que logo em 1920-1921, o CPAC venceu invicto o Campeonato Regional de Lisboa e a Taça Associação. Nos anos imediatamente subsequentes as equipas casapianas manter-se-iam competitivas mas nunca mais tiveram o sucesso desportivo inicial.



O êxodo de Belém


Infelizmente para o CPAC, o sucesso desportivo do Clube ao mais alto nível foi imediato mas não duradouro. O CPAC participou apenas por uma vez no Campeonato Nacional, em 1938-1939, tendo ficado classificado no último lugar (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Divis%C3%A3o_de_1938%E2%80%9339) Ao CPAC faltava-lhe uma grande adesão popular e instalações desportivas adequadas.

Neste último caso, o CPAC teria ainda de percorrer um longo e difícil caminho até finalmente dispor do seu actual complexo desportivo. E, à semelhança do Sport Lisboa, o preço a pagar foi ter de abandonar Belém.


 

Os complexos desportivos do CPAC: Restelo (1924-1940) e Pina Manique (1954-actual).



De 1920 até 1924 o CPAC jogou no Campo das Laranjeiras, propriedade do CIF. Em finais de 1924, com a presença de Manuel Teixeira Gomes, presidente da Republica, o CPAC inaugurou o Campo do Restelo (não confundir com o actual Estádio do CFB), projectado por António do Couto Abreu, antigo aluno casapiano.

Até 1940, o Campo do Restelo seria a casa do CPAC mas nesse ano todo o complexo desportivo foi demolido para libertar espaço para a grande "Exposição do Mundo Português".

Seguiram-se anos de nomadismo passados entre os campos das Salésias (treinos), FNAT em Belém, Cascalheira em Campolide, Santo Amaro, e Estrela da Amadora. Apenas em Agosto de 1954 o CPAC conseguiria inaugurar na zona de Monsanto o Estádio de Pina Manique. Apesar de estar longe da terra-mãe de Belém, o CAPC passou a dispor de infra-estruturas próprias e assim condições para continuar o seu meritório percurso.



(continua)


« Última modificação: 21 de Setembro de 2019, 18:45 por RedVC »

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-247-
A debandada dos Gansos (parte II)


Uma imagem inesperada: Cosme Damião, presidente do CPAC!



Cosme Damião, presidente do CPAC em meados da década de 30. Fonte: Jornal “O Casapiano”.



Não há muitos Benfiquistas que saibam mas Cosme Damião, um dos 24 fundadores do Sport Lisboa, o homem que nunca quis ser presidente do Sport Lisboa e Benfica foi presidente do CPAC de 1936 a 1938. Ao seu lado esteve o seu velho companheiro António do Couto Abre. Falou alto a camaradagem casapiana. Mas não terá sido só isso.




Fotografia colorida de uma cerimónia pública festiva do CPAC no Campo do Restelo em 3 de Julho de 1936. Em destaque estão Cosme Damião (Presidente) e António do Couto Abreu (Vice-Presidente). Fonte: TT





O caminho para assumir a presidência do CPAC foi longo e passou por uma fase durante a qual Cosme Damião se desligou temporariamente, olhando com desencanto para o seu Sport Lisboa e Benfica e para o trajecto que o futebol português passou a trilhar desde a década de 20.

Nessa aventura presidencial, Cosme terá talvez pensado em concretizar no CPAC as suas ideias para o desporto, assentes num conceito puramente amador, algo que tinha sido para sempre comprometido no SLB depois das eleições de 1926. Infelizmente para Cosme, a sua visão também se mostraria inviável no CPAC face à evolução da sociedade e do desporto em Portugal.

Apesar da sua passagem pelo CPAC, Cosme foi sempre Benfiquista. Depois de quase duas décadas como Capitão Geral do Clube, teve um momento de desencanto que o levou a afastar-se dos destinos do Clube de 1926 até 1931.

Cosme regressaria ao dirigismo no nosso Clube 5 anos depois de ter saído, assumindo, de 1931 a 1935, a Presidência da Mesa da Assembleia Geral. Infelizmente esse cargo não se adequava muito às suas características pessoais e depois terá surgido o desafio para colaborar com o CPAC.

Cosme foi sempre uma figura prestigiada e uma presença habitual nos convívios e actos solenes do SLB. Até à sua morte, ocorrida em 12 de Junho de 1947, a sua palavra foi sempre ouvida e respeitada.



A vida num balanço


No desporto e na vida as amizades valem ouro. Infelizmente nem sempre os trajectos de vida são lineares, quer pelas escolhas que fazemos quer pelas circunstâncias que não controlamos. Os amores Clubísticos nem sempre são exclusivos e as amizades e os conflitos acumulados nem sempre são inquebrantáveis.

Das dezenas de gansos que acompanharam Cândido de Oliveira para o CPAC tenho ideia que apenas dois regressaram ao SLB. O primeiro foi o guarda-redes Clemente Guerra, que não obstante ser um dos 18 fundadores do CPAC, jogou por lá apenas duas temporadas tendo decidido regressar ao SLB na temporada de 1922-1923.

O outro foi António Pinho, também fundador do CPAC e o mais próximo de Cândido de Oliveira. Pinho foi um defesa de categoria, internacional A por 12 vezes num tempo em que a nossa selecção disputava pouco jogos. Em meados de 1928, após 8 temporadas no CPAC, Pinho cortou relações com Cândido de Oliveira e regressou ao SLB. Foi recebido de braços abertos, jogando ainda duas temporadas no SLB, finalizando a sua carreira. Em 1929-1930, a sua última época, ajudou o Benfica a conquistar um título em primeiras categorias, o primeiro a nível nacional.


 

A equipa do Sport Lisboa e Benfica vencedora do Campeonato de Portugal em 1929-1930



Para Cândido de Oliveira o cenário seria outro. Até falecer, em 1958, e apesar de ser o mais sabedor e mais prestigiado dos treinadores Portugueses, nunca teve a possibilidade de voltar ao SLB. Durante a sua longa carreira no futebol, treinou o CPAC, a Selecção Nacional, o CFB, o FCP, o CR Flamengo (sim o do Rio de Janeiro!) e até o SCP, onde foi Campeão Nacional. Faltou-lhe treinar o maior Clube de Portugal, facto que - estou certo – muito terá lamentado.

Para essa porta se manter definitivamente fechada muito terão contribuído Cosme Damião e António Ribeiro dos Reis. Os dois ilustres Benfiquistas, apesar de serem amigos de Cândido durante toda a sua vida, foram inflexíveis na separação entre os sentimentos pessoais e os valores do Clube. A debandada dos Gansos em 1920 poderá ter sido perdoada mas nunca foi esquecida.




Perto do fim, amizades duradouras… fora do campo!





Uma presença inesperada


E para acabar este texto, vamos dar um outro exemplo de amores-desamores e de trajectos clubísticos não lineares. Vamos regressar à fotografia com que iniciamos o texto anterior, ao Estádio Pershing naquele dia de Natal de 1920.





Olhemos agora para o homem que posou à civil, ao lado dos jogadores Casapianos. Esse homem era Luís Francisco Vieira, um ilustre Benfiquista, pioneiro dos tempos das Salésias!



Algumas das etapas do trajecto desportivo de Luís Francisco Vieira.




A presença de Luís Viera na comitiva casapiana é para mim inesperada, desconhecendo os motivos que o levaram a esta aventura. Em princípio, Luís Viera não foi casapiano pois quando tinha 10 anos de idade frequentou a Escola Académica, então uma prestigiada instituição de ensino privada (ver: -96- L'étude fait l'avenir - parte I e II, pág. 27). É possível que tenha sido convidado por ser um velho companheiro da zona de Belém e também um homem do futebol, respeitado e sabedor.

De Luís Vieira também já por aqui falamos, num texto que me deu um particular prazer publicar (ver: -161- O primeiro Luís F. Vieira, pág 44).

Entre 1904 e 1919, Luís Viera foi um excelente médio/avançado das equipas Benfiquistas. Jogou nas Salésias, na Feiteira, fez digressões a Espanha, jogou muitos jogos ao lado de Cosme Damião, Henrique Costa, Álvaro Gaspar, Félix Bermudes, etc, etc.

Em 1913 foi seleccionado integrar a equipa da Associação de Futebol de Lisboa (AFL) que fez a lendária digressão ao Brasil (ver -46 e 47- A Missão Portugueza Intelectual e Sportiva no Brasil, 1913 pág. 12 e 13). Durante essa digressão recebeu convites de vários clubes brasileiros e assim, encantado com a vida carioca, Luís Viera decidiu aceitar o convite do CR Botafogo.

De 1913 até 1916, Luís Viera permaneceu no Rio de Janeiro, tornando-se o terceiro jogador Português a jogar no estrangeiro. Quando regressou a Portugal, Luís Vieira regressou também ao SLB, envergando o manto sagrado por mais duas épocas.

Finda a carreira de futebolista, Luís Vieira parece ter-se desligado do SLB. Era um filho de Belém e isso ajuda a explicar que se tenha associado ao CF “os Belenenses”, ajudando a solidificar esse clube fundado em 1919. Nesse ano inicial, quando o CFB formou a sua primeira equipa de futebol (maioritariamente com elementos vindos do SLB e do SCP) já Luís Vieira tinha abandonado os campos de futebol. Restava-lhe o caminho de dirigente desportivo…

E de facto, Luís Viera foi dirigente do CFB, tendo sido 2º Presidente da Direcção do Clube Belenense, cumprindo mandato entre 1922 e 1924. Ao longo do resto da sua vida foi um homem de negócios bem-sucedido, sempre reconhecido e respeitado no meio futebolístico nacional.

Não obstante este trajecto clubístico não linear, com ligações ao CPAC e ao CFB, Luís Vieira concedeu uma entrevista em 1969, em que olhou para trás, para a sua vida desportiva. Durante a entrevista Luís vieira assumiu-se taxativamente como Benfiquista. E, com a autoridade e o saber de quem lutou bravamente com a Águia ao peito, Luís Viera explicou como era sentido o Amor ao Clube nos seus tempos de jogador.




Excertos de uma entrevista de Luís Vieira em 1969. Fonte: Hemeroteca de Lisboa





Luís Viera teve uma vida cheia e rica em futebol. Viveu os tempos da fundação, as Salésias, migrou para a Feiteira, jogou no Brasil, viveu os tempos da fundação do CPAC e do CFB, foi dirigente, viu o SLB inaugurar as Amoreiras, viu a sua demolição, o Campo Grande e a Luz. Viu jogar Vítor Silva, Rogério Pipi, Águas, Costa Pereira, Coluna, José Augusto e Eusébio, entre tantos outros. Viu a conquista de campeonatos e Taças, a Taça Latina, as Taças do Campeões Europeus, enfim a Glória Mundial do Sport Lisboa e Benfica. Tantas e tão Gloriosas foram essas figuras e conquistas.

Circunstâncias diversas terão determinado que o seu amor ao Glorioso nem sempre tenha sido linear. Ainda assim estou convencido que Luís Vieira estava a ser sincero quando assumiu que o SLB era o seu Clube do coração. Honra e glória à memória de Luís Vieira.




« Última modificação: 23 de Setembro de 2019, 08:45 por RedVC »

Mufete

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  • 28 de Setembro de 2019, 10:26
Este tópico é um colírio nos tempos que correm...

RedVC

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  • 08 de Outubro de 2019, 22:55
-248-
Félix e os vultos (III): António Silva, cruzamentos na estrada da glória


Dia 5 de Fevereiro de 1935, Cais de Alcântara, Lisboa.

A bordo do paquete Raul Soares, um conjunto de pessoas apresenta cumprimentos de boas-vindas ao actor Brasileiro Procópio Ferreira.




Fonte: TT




Era a primeira vez que Procópio, conceituado actor, director de teatro e dramaturgo brasileiro visitava Lisboa, gerando expectativa e satisfação entre a comunidade teatral Lisboeta (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Proc%C3%B3pio_Ferreira). A visita mereceu destaque de 1ª página no DL




Fonte: DL



Há várias curiosidades ligadas quer a esse navio quer a muitas das pessoas presentes nesta fotografia mas vamos directos ao ponto de interesse deste texto. Vamos concentrar-nos na presença do glorioso Félix Bermudes e de um dos mais extraordinários e inesquecíveis dos actores Portugueses, o imensamente popular António Silva.

Nesta recepção, Félix Bermudes esteva presente não apenas na sua qualidade de autor teatral mas também na de presidente da SECTP (Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses), organismo que desde 1970 passou a designar-se SPA (Sociedade Portuguesa de Autores).

Já António Silva conhecia Procópio Ferreira desde os seus tempos de jovem actor, altura em que fez longas digressões pelo Brasil.



António Silva (1887-1971)


O original e a caricatura pelo traço de “António”




António Maria Silva nasceu no dia 15 de Agosto de 1886, no palácio do Correio Velho, na Calçada do Combro em Lisboa. Nasceu no seio de uma família muito humilde e com grandes dificuldades financeiras. O pai era dourador de molduras mas o ofício rendia pouco e a escassez de recursos familiar obrigou o pequeno António a trabalhar desde cedo, primeiro como marçano (aprendiz de caixeiro), depois como empregado de retrosaria e mais tarde como caixeiro de drogaria. Com enorme força de vontade, persistiu nos estudos tendo conseguido concluir o Curso Geral do Comércio no antigo Colégio Calipolense.

Pelos seus 20 anos de idade já António Silva estava bem empregado com tudo a proporcionar-se para que viesse a ter uma carreira longa e proveitosa no comércio. Mas a precocidade também se revelou na paixão pelas artes cénicas e por todas as suas envolventes. Sempre que podia frequentava as caixas dos teatros, observando tudo, desde a montagem dos palcos e adereços até às representações. Tornou-se assim um frequentador habitual, compulsivo dos teatros da altura, Teatro Avenida, Dª Amélia, Dª Maria e por aí em diante.

Ao mesmo tempo começou a ensaiar peças num clube de amadores, destacando-se nas récitas onde recebeu o primeiro retorno carinhoso do público. Parecia traçado um novo destino mas o passo fundamental implicava tomar a arriscada decisão de abandonar uma carreira comercial previsível e bem remunerada em troca de uma vida artística errante e frequentemente mal paga.

Com a morte do pai e a necessidade de aumentar os rendimentos, procurou um segundo emprego fora do comércio. Surgiu-lhe assim a possibilidade de trabalhar em “fitas faladas” ou seja de fazer locução ao vivo (por trás do ecrã) de filmes mudos no Salão Ideal do Loreto, a sala de cinema mais antiga de Lisboa. As “fitas faladas” eram um artifício técnico usado antes do cinema sonoro ser inventado e de se generalizar.

António persistiu e finalmente em finais de 1910 começou a sua carreira como actor profissional participando numa peça de Leão Tolstoi chamada "O Novo Cristo". A peça foi levada aos palcos pela companhia Alves da Silva, então sediada no teatro da Rua dos Condes. A companhia chamava-o de forma irregular, e só ganhava quando participava mas passados apenas 3 meses foi convidado para uma digressão no Brasil.

Voltaria ao Brasil logo em 1913, agora com a companhia Alves de Sousa e por lá permaneceu até 1921. No Brasil coleccionou sucessos nos palcos e também se estreou como actor de cinema, participando em pelo menos três filmes mudos que, ao que sei, estão hoje considerados como perdidos. Em dois desses filmes fazia também parte do elenco uma actriz portuguesa chamada Josefina Silva, com quem veio a casar em 1920.




Três fases dos 51 anos vida em conjuntos do casal Josefina e António Silva.




Em 1921, o casal Silva regressou a Portugal e António ingressou numa companhia de operetas no Porto, passando depois para a companhia Satanela-Amarante, onde permaneceu 10 anos. Ao longo das décadas seguintes integrou diversas companhias, percorreu o teatro ligeiro e o teatro de revista, actuando também em diversos registos dramáticos, exibindo o seu talento e consolidando uma carreira de enormes sucessos. O público apreciou sempre a sua capacidade de improviso, as suas desconcertantes expressões faciais e a mestria no uso do corpo e das mãos.

Foi um extraordinário actor cómico mas também um excelente actor dramático. Pelo seu talento, António Silva seria um actor excepcional em qualquer tempo mas também beneficiou de fazer parte de uma plêiade de actores que foi o melhor que alguma vez existiu em Portugal.

Em 1933 contracenou em “A Canção de Lisboa”, a obra-prima de Cottinelli Telmo que foi o primeiro filme sonoro do Cinema Português. Actuou depois em quase todos os filmes excepcionais produzidos pela Tobis Portuguesa (https://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/07/tobis-portuguesa.html), tais como As Pupilas do Senhor Reitor (1935), O Pátio das Cantigas (1942), O Costa do Castelo (1943), Amor de Perdição (1943), A Menina da Rádio (1944), A Vizinha do Lado (1945), Camões (1946), O Leão da Estrela (1947), Fado (1948), O Grande Elias (1950), Aqui Há Fantasmas (1964).

Olhando para essa galeria de filmes percebe-se que embora o Teatro lhe tenha assegurado o carinho do público do seu tempo, foi no Cinema que obteve a sua imortalidade artística. Nessas fitas intemporais retratou tipos e temáticas da época, deixando-nos para sempre actuações frescas, joviais, talentosas e delirantemente humorísticas. Inesquecíveis.



Alguns dos cartazes dos filmes mais populares de António Silva. Algum drama, muita comédia, sempre a genialidade.





Cruzamentos



Caricaturas de Zeco. Fonte: Hemeroteca de Lisboa.




Félix Bermudes (1874-1960) era 12 anos mais velho do que António Silva (1886-1971) mas apesar da diferença de idades, os dois homens viveram longas vidas, coexistindo no meio artístico durante 4 ou 5 décadas.

Ao longo da sua vida, Félix Bermudes colaborou com diversos autores teatrais mas foi com Ernesto Rodrigues (1875-1926, https://repositorio.ul.pt/handle/10451/414) que se iniciou e com quem mais e melhor trabalhou. Os dois homens foram amigos de infância e colegas de escola. Foi aliás sob a insistência e sob o talento de Ernesto Rodrigues que Félix Bermudes se aventurou como autor teatral. Desde 1907 até à morte de Ernesto, os dois homens trabalharam sempre juntos, sempre proficuamente, deixando o seu talento em múltiplas peças teatrais que tiveram amplo reconhecimento do público, em Portugal e no Brasil.

A partir de 1912 juntou-se-lhes João Bastos (1883-1957; http://www.ilonabastos.webhs.pt/Jbastos.html), formando os três homens aquela que ficou conhecida como a "Parceria de Lisboa", autora de revistas, operetas, fantasias (mágicas, como eram então chamadas) e argumentos de enorme sucesso, tais como "O Leão da Estrela", "João Ratão", "Vida Nova", "O Conde Barão", "O Amigo de Peniche", "De Capote e Lenço", etc.




A Parceria: Ernesto Rodrigues, João Bastos e Félix Bermudes. .Fonte: Hemeroteca de Lisboa.





É possível – não investiguei isso em detalhe - que António Silva tenha actuado em bastantes peças da Parceria, mas foi no Cinema que se deram os dois cruzamentos mais interessantes entre Félix Bermudes e António Silva. Vamos falar deles.



“João Ratão”


O primeiro desses cruzamentos aconteceu no filme “João Ratão”, de 1940, argumento adaptado às grandes telas a partir de uma opereta com o mesmo nome, escrita pela Parceira.

A opereta original foi levada aos palcos no ano de 1920, no Teatro Avenida, pela companhia Satanela Duarte. Foi protagonizada por Estevam Amarante, uma das grandes estrelas da época do teatro de revista e operetas. Nesse elenco fizeram parte, entre outros, os recém-casados António Silva e Josefina Silva.

Em 1943, já depois do sucesso do filme, a mesma companhia repôs a peça nos palcos, no Teatro Avenida embora agora com alguns actores diferente, entre os quais Eunice Muñoz e Luis Piçarra. António Silva não constou do elenco.


 

Os protagonistas de “João Ratão”, peça levada à cena em 1920 no Teatro Avenida e de “João Ratão”, filme de 1940, realizado por Jorge Brum do Canto



O filme ”João Ratão”, de 1940, foi realizado por Jorge Brum do Canto para a Tobis Portuguesa. Esta obra, uma comédia dramática, teve como protagonistas Óscar de Lemos, Maria Domingas e António Silva.




“João Ratão” de 1940, realizado por Jorge Brum do Canto



A maior parte da acção do filme decorre numa aldeia do Vale do Vouga mas teve também uma secção de cerca de 20 minutos em que o protagonista João Ratão participa na campanha da Flandres na Primeira Guerra Mundial. Para lá das imagens de guerra encenadas em estúdio, o filme incluiu imagens reais retiradas de documentários da época sobre a I Guerra Mundial, uma ideia inovadora para a época, aumentando a intensidade dramática da obra.

Para as filmagens foram construídos nos estúdios da Tobis Portuguesa não apenas os cenários campestres mas também um abrigo subterrâneo, uma trincheira e até recriadas linhas inimigas alemãs. Félix Bermudes e João Bastos, os dois membros vivos da Parceria, visitaram os cenários durante as filmagens.


 

João Bastos e Félix Bermudes visitam as filmagens de “João Ratão” (1940)




“O Leão da Estrela”


O segundo cruzamento cinematográfico entre Félix Bermudes e António Silva foi o filme “O Leão da Estrela”, realizado em 1947 por Arthur Duarte para a Tobis Portuguesa. Os protagonistas foram António Silva, Milú e Maria Eugénia.

O filme, que marca talvez a mais notável das interpretações cinematográficas de António Silva, está repleto de peripécias humorísticas e românticas, sempre associadas a um desafio de futebol entre o FCP-SCP, disputado no Porto, no Estádio do Lima, então propriedade do Académico FC.

“O Leão da Estrela” foi inicialmente uma peça de teatro escrita pela Parceria e levada à cena em 1925 no Teatro Politeama pela companhia Chaby Pinheiro. A peça foi protagonizada pelo actor Chaby Pinheiro (ver: -197- Félix e os Leões da Estrela, pág. 49).




Os protagonistas de “O Leão da Estrela”, peça levada à cena em 1926 e de “O Leão da Estrela”, filme de 1947, realizado por Arhur Duarte




Quando em meados da década de 40 se pensou em adaptar esta obra ao cinema, já o actor Chaby Pinheiro tinha falecido. A escolha do protagonista recaiu em António Silva, escolha óbvia e feliz pois o actor deu uma cor, jovialidade e genialidade incomparáveis à personagem.




“O Leão da Estrela” de 1947, realizado por Arthur Duarte.



Sportinguista?!


Sempre tive alguma curiosidade pessoal em saber porque o insigne Benfiquista Félix Bermudes terá escolhido o universo leonino para o personagem central da obra… A explicação poderá encontrar-se quer no reconhecido desportivismo de Félix Bermudes, quer no facto de Ernesto Rodrigues ser um conhecido sportinguista.

Uma curiosidade da película é que no enredo o Sporting vence o desafio por 1-2 mas ao que parece as imagens (reais) terão sido captadas em dois jogos. Mas isso agora interessa pouco, são coisas para sportinguistas e portistas. O(s) jogo(s) foi(foram) disputado(s) no Porto, no Estádio do Lima, um dos primeiros campos relvados de Portugal e que era propriedade do Académico FC (https://pt.wikipedia.org/wiki/Acad%C3%A9mico_Futebol_Clube). E por lá as equipas alinharam…




Uma curiosidade cénica da película “O Leão da Estrela”, de 1940. Imagens reais de uma saudação comum à época e não encenada. Ao cuidado e em benefício da cultura geral do Sr. Rui Moreira.



 


Erico Braga e António Silva



Uma consequência do filme é que desde então António Silva ficou conotado com o SCP. Não poderia ser de outra forma e até li algures que numa entrevista ao jornal I, Artur Agostinho terá testemunhado que António Silva era efectivamente sportinguista.

Ainda assim nada melhor do que ouvir da boca do actor. E assim numa entrevista concedida à Rádio, a Igrejas Caeiro, no programa “Perfil de um Artista”, António Silva fez algumas curtas mas interessantes revelações quanto à sua relação com o futebol.

A primeira revelação é que António Silva jogou futebol na sua juventude. Jogou em Belém, no campo das Salésias, num pequeno clube chamado Football Clube de Portugal! Jogou a half-back direito.

Desconhecia por completo a existência deste clube que não deve ser confundido com o Portugal Football Club, um clube que existiu algumas décadas mais tarde numa zona próxima ao Campo-Grande e ao Lumiar.

Esse Football Clube de Portugal terá sido um dos muitos pequenos clubes formados nas zonas de Belém, Ajuda e Alcântara. Clubes como Football Club, Ajudense Football Club, Sport União Belenense, Arsenal Football Club, Vasco da Gama Football Club, entre outros, tiveram vida efémera mas ainda foi por lá que se iniciaram alguns dos mais notáveis jogadores do futebol dessa primeira década do século XX.




António Silva durante um convívio futebolístico da companhia de teatro Satanela-Amarante




A outra afirmação curiosa é que António Silva disse taxativamente que não pertencia a nenhum Clube. Nenhum.



Afirmações de António Silva durante a sua entrevista a Igrejas Caeiro em 1957


Dito pela boca dele, como podem comprovar no excerto áudio que aqui se apresenta:


https://sndup.net/2z6b
Excerto áudio da entrevista de António Silva a Igrejas Caeiro, algures em 1957. Fonte: aminharadio.com



Com isto não pretendo afirmar que António Silva não tivesse uma preferência clubística leonina. O que constato é que dito pela boca dele ficou claro que não pertencia a nenhum Clube. Dixit.



Estrada da glória



Fonte: DL e RTP




António Maria da Silva faleceu no dia 3 de Março de 1971. Apenas 4 dias antes tinha gravado uma entrevista retrospectiva para o programa “Estrada da Glória” da RTP. No final, quase que adivinhando, António Silva despediu-se em lágrimas, agradecendo ao público todo o carinho e reconhecimento que tinha recebido ao longo da sua “estrada da glória”.

Que descanse em Paz.







« Última modificação: 08 de Outubro de 2019, 23:14 por RedVC »