53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 69374 vezes)

RedVC

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  • 19 de Março de 2016, 16:28
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L'étude fait l'avenir (parte I)



L'étude fait l'avenir.

O estudo faz o futuro



Era esse o lema da Escola Académica.

Vamos hoje aflorar sem aprofundar muito alguns aspectos desta prestigiada instituição de ensino privado. Fundada em 1847, a Escola Académica esteve activa até 1976, ano da sua extinção. Foram quase 130 de vida de uma acção formativa prestigiada.

Mas, como de costume, o nosso ponto de partida vai ser uma fotografia. Uma fotografia que nos mostra uma aula de esgrima no exterior em que dois alunos fazem uma demonstração. A aula era leccionada pelo Professor Câmara Leme e os restantes 34 alunos observavam atentamente.

 

Aula de esgrima do Professor Câmara Leme. Escola Académica, Setembro de 1903.
Fonte: Tiro Civil, nº 267, de 15 de Setembro 1903.

Os dois estudantes exibem-se perante a câmara numa atitude de grande beleza estética. Seriam com certeza os mais destacados dessa classe, exibindo o seu virtuosismo aos colegas e repórteres.

Agora, se olharmos mais em detalhe para a fotografia vemos que o aluno que se apresta para fazer touché é um nosso conhecido. Trata-se de Fortunato Monteiro Levy, o glorioso Cabo-verdiano que fez parte da primeira equipa do Sport Lisboa no dia 1 de Janeiro de 1905 (http://em-defesa-do-benfica.blogspot.pt/2015/01/um-minuto-de-silencio.html). Dele também já por aqui falamos num outro texto (-42- Duas despedidas e um alegre convívio. p.10)

 

Fortunato Monteiro Levy exibindo os seus dotes de esgrimista sobre o olhar atento do Professor Câmara Leme e dos restantes colegas da Escola Académica. Fonte: Tiro Civil, nº 267, de 15 de Setembro 1903.


Fortunato Levy, um desportista completo

Algures entre o final de Agosto e princípio de Setembro de 1903, Fortunato Monteiro Levy frequentava a Escola Académica para fazer o curso de Administração Comercial.

Fortunato terá nascido (ou pelo menos sido registado) na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde  em 21/04/1888. Assim, na data da fotografia, Fortunato teria pouco mais de 15 anos de idade. Algo notável tendo em conta o desenvolvimento morfológico que já aparentava. A Genética ajudava-o pois logo desde essa idade Fortunato revelou-se um atleta notável e completo.

Na Escola Académica, a Educação Física era uma componente complementar ao plano curricular mas, conforme se percebe, assumia grande importância para o desenvolvimento completo e harmonioso pretendido pelas diversas Direcções dessa instituição. Não por acaso um segundo lema instituído na Escola Académica era "mens sana in corpore sano" ou seja "mente sã em corpo são".

Assim não admira que a Escola Académica tivesse investido na contratação de professores de Educação Física prestigiados do meio desportivo nacional. E pelo que se observa, Fortunato Levy aproveitava bem demonstrando na esgrima mais uma faceta da sua versátil e enorme aptidão para desportista. Se notarem tanto nesta fotografia como na que em abaixo se apresenta, Fortunato exibia orgulhosamente uma medalha ao peito, mostrando que cedo se destacou como desportista completo. E de facto, na sua curta permanência na metrópole, são-lhe conhecidas actividades desportivas de competição como futebolista e ciclista. Provavelmente ter-se-á ainda interessado por outras modalidades.

 

Aula do Jogo do Pau do Professor Arthur dos Santos. Escola Académica, Setembro de 1903. Fonte: Tiro Civil, nº 267, de 15 de Setembro 1903.


Para além das aulas de esgrima leccionadas pelo Professor Câmara Leme, Fortunato também frequentou as aulas de jogo do pau ou Esgrima Portuguesa. Essas aulas eram leccionadas pelo Professor Arthur dos Santos, um prestigiado pedagogo da Educação Física em Portugal, formador e elemento de destaque no Real Ginásio Clube Português e mais tarde do Sport Lisboa e Benfica. Da figura e obra de Arthur Santos já por aqui já falamos (nº 86, “Um inesperado Glorioso” p. 25).

Nessa época, como veremos no próximo texto a publicar, a Escola Académica estava situada no centro de Lisboa. Por isso está ainda por estabelecer como se fez a ligação entre Fortunato e o Sport Lisboa. Quem e em que circunstâncias terá levado a que no ano seguinte Fortunato Levy se deslocasse para a zona de Belém para treinar e jogar o futebol. Como terá chegado ao Sport Lisboa, clube fundado bem longe, na zona de Belém?

Sabemos que Fortunato não esteve entre os 24 homens que oficializaram a fundação do nosso Clube. Provavelmente já terá estado entre os entusiastas que se reuniam para as  futeboladas nas Salésias em 1903, ou seja meses antes da própria fundação do Sport Lisboa. Certo é que com um pouco mais de 16 anos, compareceu em 10 dos 24 treinos do Sport Lisboa organizados por Manuel Gourlade e Daniel Santos Brito desde 28 de Fevereiro de 1904, dia da fundação do Clube, até ao dia 1 de Janeiro de 1905 (data do primeiro encontro oficial contra o Campo de Ourique (fonte: Alberto Miguéns).

Sabemos agora que Fortunato esteve na metrópole pelo menos 4 anos. Entre os 15 e os 19 anos. Uma passagem breve pela metrópole. Em Abril de 1907 regressou à cidade da Praia, à sua ilha de Santiago em Cabo-Verde. Esteve em Lisboa apenas durante uma pequena janela da sua longa vida. Uma passagem que foi decisiva para a sua futura vida profissional e social. Adquiriu conhecimentos e valores decisivos para o seu sucesso na sua terra natal.


Fortunato Levy desenhado por Manuel Mora, seu companheiro de equipa. Desenho de Abril de 1907 feito a propósito da despedida de ambos do Sport Lisboa. Fortunato regressava a Cabo Verde, Mora emigrava para a Argentina. Começava a a grande sangria do Sport Lisboa. Chegava ao fim o tempo dos Catataus.

E teve ainda a oportunidade maravilhosa de ter jogado na primeira equipa do nosso Clube. Ele que morreu em 1969 teve oportunidade para à distância ver o Benfica atingir a glória e a dimensão planetária. Que orgulho deve ter tido! Ver Africanos como ele serem as figuras maiores do Sport Lisboa e Benfica. Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Águas, Iaúca, Santana. Que orgulho deve ter tido!


Fortunato, o Glorioso.
A par de Marcolino foi o primeiro Africano da história do Sport Lisboa e Benfica

Por Santiago e restantes ilhas de Cabo Verde Fortunato terá dado bom uso ao que aprendeu na Escola Académica na casa comercial fundada pelo seu pai.


Quatro imagens da ilha de Santiago no princípio do século XX.

Por lá se dedicou aos negócios familiares tendo também atingindo posição de destaque em associações comerciais e na vida social Cabo-Verdiana.


Três excertos de jornais Cabo-verdianos que nos dão uma ideia do prestígio social e económico de Fortunato Levy. (A) anúncio necrológico no jornal “O Arquipélago” nº 386 de 01 Jan 1970; (B) anúncio da casa comercial “Levy & Irmãos” no jornal “O Caboverdiano de Abril 1918; (C) lista dos órgãos dirigentes da associação ou clube “Associação Comercial e Agrícola” 3 de Novembro 1918. Fortunato foi eleito Secretário da Assembleia Geral. Fonte para (B) e (C): http://www.barrosbrito.com/7976.html.


Fortunato terá assim feito os seus estudos liceais a Escola Académica frequentando o Curso Comercial. Nota-se a completa oferta pedagógica desses cursos com aulas não apenas das disciplinas curriculares básicas mas também de "Caligrafia", "Dactilografia", "Estenografia", "Escrita comercial", "Cálculo e operações comerciais", "Matérias-primas e espécies comerciais" e "Legislação comercial". Tudo conhecimentos leccionados e testados em aulas teóricas e práticas e por um prestigiado corpo docente. Uma formação valiosa para a sua futura vida profissional.



Aspecto de uma aula de preparação para actividade profissional num Escritório Comercial. Curso instituído em 1895. Fonte: Tiro Civil.


Note-se ainda o destaque dado no anúncio à importância da Educação Física: “Sem aumento de despeza e sendo incluídos nas anuidades, tem os alunos da escola cursos de gymnastica sueca e aplicada, patinagem, esgrima de florete, espada e pau e de bengala, volteio equestre e equitação, carreira de tiro e dansa”…
 

Curso Comercial da Escola Académica em Outubro de 1910. Fonte: Restos de Colecção.


Não custa imaginar que a excelente aptidão desportiva de Fortunato foi amplamente estimulada e desenvolvida pela diversificada oferta de diferentes modalidades desportivas como complemento necessário ao sadio e harmonioso desenvolvimento pessoal e espírito de grupo nos cursos da Escola Académica.

O próximo texto será sobre a Escola Académica. Talvez tenha poucas ligações ao Benfica mas será um texto complementar a este. O destaque é merecido pois foi uma Instituição centenária, hoje quase esquecida, e que teve à sua frente pessoas de grande qualidade.

Ao longo de 13 décadas, entre os milhares de alunos que formou a Escola Académica terá com certeza terá despertado muitas vocações desportivas. É possível que não lhe venha a fazer justiça mas pelo menos ficará a evocação.
« Última modificação: 21 de Março de 2016, 21:46 por RedVC »

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  • 20 de Março de 2016, 19:25
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L'étude fait l'avenir (parte II)

A Escola Académica foi uma instituição privada de ensino fundada em 1847 por António Florêncio dos Santos. Seria no entanto o seu filho o Dr. Jayme Mauperrin dos Santos que viria a dirigir a Escola durante muitos anos e como veremos a assumir uma posição de relevo na sociedade e no meio desportivo nacional.


António Florêncio Santos (pai; fundador da Escola Académica e seu primeiro Director, de 1847 a 1891) e Jayme Adolpho Mauperrin Santos (filho; Director da Escola Académica de 1891-1913).

A Escola Académica foi pioneira em Portugal no conceito de reunir numa única escola todos os diferentes níveis e tipos de ensino antes da entrada na Universidade. Assim, na Escola Académica era leccionada a instrução infantil, a instrução primária, o curso geral dos liceus (secundário), o curso Comercial e a admissão às Faculdades.

Originalmente, escola aceitava apenas alunos do sexo masculino mas mais tarde viria a aceitar alunos do sexo feminino. Como vimos os seus cursos eram bastante diversificados e para todos os níveis de escolaridade pré-Universitários.
 

Cartazes publicitários da Escola Académica em diversos tempos. Fonte: Restos de Colecção.


À semelhança do Colégio Militar, a Escola Académica cedo se preocupou em proporcionar a disciplina de Educação Física para todos os seus alunos. Para isso contou quase sempre com instalações adequadas e que ofereciam condições para a prática diversificada de modalidades como futebol, ginástica, patinagem, esgrima de florete, espada e pau, equitação e tiro. Provavelmente terão existido outras.

Ao todo foram seis edifícios:


Os seis edifícios onde funcionou a Escola Académica ao longo da sua história. Fonte das imagens: http://193.137.22.223/pt/patrimonio-educativo/museu-virtual/exposicoes/escola-academica-de-lisboa-1847-1977/

Talvez o mais emblemático desses edifícios tenha sido o situado na Calçada do Duque na baixa Lisboeta. Nessas instalações, em Abril de 1904, a Escola Académica passou a contar com um soberbo pavilhão para a época, inaugurado num clima festivo com a presença dos infantes Dom Luís Filipe e Dom Manuel (futuro rei de Portugal).


Festa de inauguração do pavilhão da Escola Académica em 1904.

Em particular nota-se que nas extremidades do pavilhão tinham sido colocado em destaque a inscrição de dois lemas fundamentais para esta Escola. L’ étude fait l’ avenir e “Mens sana in corpore sano.
 


Dois aspectos do pavilhão da Escola Académica inaugurado em 1904. Fonte: AML.

E no ano seguinte surgiu uma reportagem no periódico Tiro Civil que nos dá uma imagem gráfica do que era a experiência pedagógica vasta, dinâmica e complementar que era proporcionada pela Escola Académica aos seus alunos.
 

Diversas valências, instalações e actividades pedagógicas proporcionadas pela Escola Académica em 1905.
Fonte: Tiro e Sport.

 

Corpo Docente Julho 1905. Ao meio está sentado o Director, Dr. Jayme Mauperrin dos Santos. Fonte: Tiro e Sport.

Há também nota de que a Escola contou com um campo de futebol que na altura foi utilizado também para alguns jogos com carácter competitivo como demonstrado pelo registo fotográfico de um jogo que presumo opôs o Futebol Cruz Negra e o Gilman FC.
 

Uma bela imagem dos primórdios do nosso futebol. Legenda original: “Jogo de futebol na cerca da Escola Académica”. Ter-se-ao enfrentado as equipas do Gilman FC (camisola branca e calção escuro de cor desconhecida) e o Football Cruz Negra (calção e camisola escuro, cores desconhecidas). Fonte: AML.


A Escola Académica aliás acabou por participar no Campeonato Escolar de futebol ao lado de equipas de prestigiadas instituições de ensino como o Colégio Militar, a Casa Pia, o Liceu Camões, entre outros. Envergando a sua característica camisola de listas finas, presumo negras.


A Escola Académica promoveu diversos eventos festivos em que as actividades desportivas eram exibidas como demonstração do espírito de grupo e da vitalidade da instituição.

 

Capa do nº 2 do periódico “Os Sports Ilustrados” de 18 de Junho 1910. Festa na Escola Académica com a presença do Rei D. Manuel II. Destaques dados a diversas classes de desporto e ao Director da Escola, o Dr. Mauperrin Santos. Fonte: Hemeroteca de Lisboa.

Infelizmente as instalações modelares da Calçada do Duque estavam demasiado bem localizadas no centro de Lisboa. O barulho crescente do fluxo de comboios tornou-se um problema insanável pois a escola estava situada bem ao lado da estação do Rossio. Gradualmente o aumento da poluição sonora e atmosférica tornou impossível a permanência nesse local. Assim em 1926 a Escola acabou por se transferir para uma zona mais calma da cidade. O edifício da Calçada do Duque foi vendido à CP, empresa que tanto quanto sei ainda hoje é proprietária do espaço.


Dr. Jayme Adolpho Mauperrin Santos (1857-1913)

Filho do fundador, o Jayme Adolpho Mauperrin Santos nasceu quando a Escola Académica já tinha 10 anos de existência.

Foi Bacharel em Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra. Foi igualmente lente do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e médico dos Hospitais Civis (Fonte: http://forumolimpico.org/mauperrin-santos-jaime). Tirou uma especialização em hidroterapia em Paris. Era um grande pedagogo que acabou por se tornar numa figura pública nacional.

Sucedeu, por morte de seu pai (um antigo Casapiano) como director da Escola, tendo mantido esse cargo de 1891 até 1913 (21 anos), ano da sua morte. Acabaria por ter uma permanência na Direcção da Escola por um período bem mais curto do que o de seu pai (44 anos, 1847 até 1891) mas foi no entanto o grande responsável pela maior ampliação e desenvolvimento que a instituição sofreu. Note-se que era o Director da Escola no tempo em que Fortunato Levy por lá andou.


Dr. Jayme Adolpho de Mauperrin Santos trabalhando no seu gabinete nas instalações da Calçada do Duque. Fonte: Tiro Civil.

Entusiasta do Desporto, o Dr. Mauperrin Santos foi também fundador e dirigente de várias associações desportivas. Foi igualmente um dos grandes promotores do desenvolvimento do incipiente desporto nacional do início do século XX.

A confirmar essa ideia, note-se que foi um dos principais mentores e organizadores dos Jogos Olímpicos Nacionais, evento que teve 4 edições de 1910 a 1913. Aliás, foi sua a proposta, de tornar democrática a eleição do primeiro Comité Olímpico Nacional que ocorreu em 30 de Abril de 1912, no âmbito de uma assembleia de clubes e de jornalistas desportivos.

Sensatamente, a sua sugestão foi adoptada e assim credibilizou-se essa eleição uma vez que foi feita por durante as reuniões preparatórias dos Jogos Olímpicos Nacionais. Participaram delegados de clubes, jornalistas e ainda os directores da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional e da Liga Sportiva de Trabalhos Eclécticos (ambas fundadas em 1909), as duas entidades que organizaram os Jogos Olímpicos Nacionais.

De forma natural o Dr. Jayme Adolpho Mauperrin Santos foi eleito o primeiro presidente do Comité Olímpico de Portugal. Foi por isso o responsável máximo da primeira participação de Portugal nos Jogos Olímpicos. A comitiva veio a integrar 6 atletas, entre os quais o malogrado Francisco Lázaro.

Infelizmente assumiu esse cargo por pouco tempo uma vez que faleceu no ano seguinte. Mas a semente da sua obra e a força do seu pensamento permaneceram como referência.

Embora sem outra ligação conhecida ao Sport Lisboa é certo que a sua influência e a longa obra formativa da sua instituição terá influenciado com grande probabilidade alguns outros dos nossos Gloriosos jogadores.

Fica por isso a evocação da sua figura e um agradecimento pela sua obra.

« Última modificação: 04 de Maio de 2016, 22:10 por RedVC »

Lorne Malvo

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  • 22 de Março de 2016, 01:02
Interessante, mas fica uma coisa importante por responder: por que encerrou a escola?

Falência? Falta de alunos? Prejudicada por conotações com a ditadura?

RedVC

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  • 22 de Março de 2016, 09:46
Interessante, mas fica uma coisa importante por responder: por que encerrou a escola?

Falência? Falta de alunos? Prejudicada por conotações com a ditadura?

É uma boa questão Lorne.

É certo que fechou. Nesses anos houve muita turbulência e as escolas privadas sofreram muitas convulsões. Houve uma acção metódica para unificar o sistema de ensino e terminar com a divisão entre os Liceus e as Escolas Técnicas.

O Ministério da Educação tinha aliás diversos projecto-piloto para mudar radicalmente o sistema de ensino. Até projectos extremos como erradicar livros e substitui-los por fichas técnicas que viriam do próprio Ministério.

Independentemente das convicções políticas há que referir que se desmantelou instituições de valor do nosso País e se perdeu a capacidade de formar quadros técnicos de importância fundamental para o nosso País.

O Ensino Técnico foi pois progressivamente desmantelado por motivações políticas. Desconheço detalhes sobre a Escola Académica. é natural que fosse conotada com a ditadura mas o facto de andar a mudar de instalações poderá também indiciar algumas fragilidades internas.

Sei também que inclusivamente não existe noção de onde estão os arquivos da Escola Académica. Uma situação gravíssima e que reflecte a bandalheira reinante.

http://geneall.net/pt/forum/164133/escola-academica-lisboa/

É possível que tenha sido uma combinação de factores em que o declínio da Escola tenha coincidido com as convulsões sociais e políticas. Foi lamentável este desaparecimento e ainda mais o facto de se desconhecer o paradeiro dos arquivos. Muitos milhares de alunos por lá passaram e alguns dos grandes estadistas e figuras públicas deste País.

Num futuro próximo se souber mais colocarei aqui.

« Última modificação: 22 de Março de 2016, 09:55 por RedVC »

Benfiquista_

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  • 25 de Março de 2016, 00:39
Artigo importante, de Alberto Miguéns, acerca da História do Benfica e de um Projecto seu, pelos vistos que a actual Direção não deu o devido valor.

http://em-defesa-do-benfica.blogspot.pt/2016/03/para-os-benfiquistas.html
« Última modificação: 25 de Março de 2016, 00:41 por Benfiquista_ »

RedVC

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  • 25 de Março de 2016, 01:22
Artigo importante, de Alberto Miguéns, acerca da História do Benfica e de um Projecto seu, pelos vistos que a actual Direção não deu o devido valor.

http://em-defesa-do-benfica.blogspot.pt/2016/03/para-os-benfiquistas.html

Acho importante que os Benfiquistas possam ir ao blogue e não apenas deixar uma nota de apreço mas também de apoio!

Espero que a Direcção pense no Benfica e nos Benfiquistas e acarinhe este projecto. Alberto Miguéns está à altura de fazer uma obra magnífica para a divulgação simples, rigorosa e com bom gosto da incomparável História do nosso Clube.



Theroux

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  • 25 de Março de 2016, 02:08
O ideal era que fosse uma encomenda do clube, para tirar o máximo proveito do espólio do Museu e ser posteriormente traduzida para inglês. Seja como for o clube e os benfiquistas vão sempre ficar a ganhar.

Já agora, tão importante quanto a publicação da história (oficial ou não) seria a disponibilização gradual das publicações oficiais do clube, algo que teria custos residuais.

Benfiquista_

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  • 25 de Março de 2016, 16:38
É importante, que quem tenha material e até tenha maior acesso à Direcção, que tente fazer com que Alberto Miguéis, em vez de o desvalorizarem e até hostilizar em, o valorizassem.

Pelos vistos o Vitórias e Património, tem imensa erros e ninguém avisou e ninguém ligou.

Só para dar um exemplo.

Benfiquista_

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  • 25 de Março de 2016, 16:40
Mais, é de um grande Benfiquismo e altruísmo, disponibilizar,como aqui se faz também, o seu trabalho para todos nós, Benfiquistas.

RedVC

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  • 25 de Março de 2016, 17:24
Mais, é de um grande Benfiquismo e altruísmo, disponibilizar,como aqui se faz também, o seu trabalho para todos nós, Benfiquistas.

Não tanto altruísmo mas com certeza Benfiquismo. Como disseste Benfiquista_  O0

Falando por mim, há uma dose de satisfação pessoal enorme por saber mais sobre a nossa História e - por arrasto - a história do nosso País. Mas essa satisfação não seria nada se não colocasse aqui o que vou sabendo. Mal ou bem pelo menos estimula a conversa e saímos todos a saber um pouco mais e - espero eu - a reconhecer melhor os que engrandeceram o nosso Clube.

E realmente ter as coisas num computador, numa pasta ou numa caixa de sapatos isoladas, a ganhar pó... Guardar até que alguém já na nossa ausência se lembre de deitar para o lixo. Isso é lamentável.

O Benfica é partilha. Alguns são capazes pela persistência e pelo estudo fazer um pouco mais na recolha e divulgação. Alberto Miguéns é o Benfiquista superlativo nesse aspecto. As amostras daquilo que esperemos venha a ser a obra a produzir num futuro próximo, mostram bem da qualidade e rigor que inevitavelmente mostrará a grandeza do nosso Clube.

A partilha é fundamental. O conhecimento correcto do nosso passado dará cada vez mais sentido às vitórias do presente. Tornará mais emocionado o apoio às nossas equipas onde quer que elas joguem, dentro dos condicionalismos que a nossa vida e carteira nos criarem.

Somos no presente e nos que é visível um Clube enorme mas isso é a ponta do icebergue. O resto que é muito maior está escondido na nossa História. Que ela venha à tona com todas as pequenas contribuições que possamos dar.
 

Benfiquista_

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  • 25 de Março de 2016, 17:28
Completamente de acordo.Benfiquismo é também  partilha.É aliás isso, acima de tudo.

Toda a gente deveria ter acesso gratuito à nossa História, de uma maneira ou outra.

O que tu e muitos fazem aqui.

O que o Alberto faz, o João Tomaz, Arrobas, etc, fazem não tem preço.

Eu pessoalmente tenho imensos jornais antigos do Clube que gostava de partilhar, mas como já falei algures por aqui, não tenho meios nem técnica para os digitalizar.

Mas hei-de conseguir.

E vou compartilhar, quando conseguir
« Última modificação: 26 de Março de 2016, 00:34 por Benfiquista_ »

Theroux

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  • 25 de Março de 2016, 19:52
Completamente de acordo.Benfiquismo é também  partilha.É aliás isso, acima de tudo.

Toda a gente deveria ter acesso gratuito à nossa História, de uma maneira ou outra.

O que tu e muitos fazem aqui.

O que o Alberto faz, o João Tomaz, Arrobas, etc, fazem não tem preço.

Eu pessoalmente tenho imensos jornais antigos do Clube que gostava de partilhar, mas como já fale algures por aqui, não tenho meios nem técnica para os digitalizar.

Mas hei-de conseguir.

E vou compartilhar, quando conseguir


Se tiveres acesso a um smartphone com uma câmara decente já dá (ou a uma impressora com scanner), só não é tão rápido quando utilizar um scanner profissional.

Isso até era um projecto muito interessante para fazer no fórum, digitalizar e disponibilizar num só ficheiro os documentos que os users têm em casa a apanhar pó.

RedVC

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  • 25 de Março de 2016, 21:00
-98-
Um fresco em prosa: o António das Caldeiradas revisitado.

Uma pequena pérola. Acabei de encontrar um artigo de jornal que é um verdadeiro fresco sobre o interior de um dos locais chave onde se deu a génese do nosso Clube.

Com este pretexto vamos hoje revisitar a casa de pasto o "António das Caldeiradas", casa famosa no termo de Belém, entre o final do século XIX e o princípio do século XX.

Em Novembro de 2014, já por falei aqui nessa casa de pasto (ver o nº -20- O António das Caldeiradas, pág 4).

A sua importância residiu em ser um ponto de encontro e convívio para os rapazes que vieram a fundar o Sport Lisboa em 28 de Fevereiro de 1904. Os mais endinheirados tiveram com certeza oportunidade para saborear os petiscos do mar que essa casa servia. E da camaradagem terá surgido com certeza uma identificação crescente entre eles, numa fase em que estavam a iniciar a grande aventura da criação de um Grupo.


Gourlade e alguns dos outros Gloriosos pioneiros do Sport Lisboa de 1904-1906.
Fotografia tirada nas terras do Desembargador às Salésias.

É preciso perceber que a Belém desses tempos era uma Vila pacata, algo afastado de Lisboa não tanto pela distância física mas mais pelos primitivos meios de transporte colectivo existentes assim como pelo reduzido urbanismo desses dias. A distância é uma medida relativa na escala dos homens.

Belém era um local populoso, com elevada natalidade, um local popular de gente simples e de trabalho. Mas era também um local onde viviam algumas famílias endinheiradas como os Rosa Rodrigues, como os Empis, os Burnay, entre outros.

Por Belém também se vivia, desde o final do século XIX, uma enorme efervescência futebolística. Para lá tinha sido transferida desde que os campos situados nos terrenos do Campo Pequeno deixaram de ser opção pela construção da Praça de touros e pelo crescente urbanismo dessa zona. Essa transição marcou a popularização do futebol, anteriormente um desporto de gente fina.


Localização do António das Caldeiradas e de outros locais chave para a fundação e primeiros anos do nosso Clube: os terrenos da CP perto de onde hoje fica o CCB, o Café do Gonçalves e a Farmácia Franco.
Fonte: Em Defesa do Benfica.


Vamos hoje usar um pequeno mas belo artigo de jornal de Tito Martins, um jornalista de renome da primeira metade do século XX.

José Augusto Tito Gonçalves Martins (Lisboa, 1868-1946) iniciou a sua carreira de jornalista no jornal "Interesse Publico". Tinha então 18 anos e nunca mais parou. Passou pelo "Imparcial", de Tomás Ribeiro; o "Correio Nacional", do Padre Matos; o "Diário Popular", de Mariano de Carvalho; a "Semana de Lisboa", de Alberto Braga (supl. do "Jornal do Commercio"); O "Século", de Silva Graça; "A Capital", de Manuel Guimarães; e também pela "Luta", "República", "Rebate", "Notícias da Tarde", "O Povo", etc. Assinava muitas vezes como “João Verdades”, n’ "O Micróbio" redactor literário adoptou o pseudónimo “Titan”. Dedicar-se-á também ao teatro, estreando-se como autor, em Novembro de 1889, com a revista "Farroncas do Zé. Também publicou algumas dezenas de livros com crónicas, contos, novelas e romances. Fonte: hemeroteca digital de Lisboa


Fonte: Ilustração Portugueza, nº 803 de 9 de Julho de 1921

Tito Martins foi muito provavelmente correspondente do jornal carioca Correio da Manhã, pois foi aí que o artigo foi publicado, na edição de 28 de Janeiro de 1911. O artigo, esse foi escrito em Lisboa no dia 8 Janeiro 1911.

E vamos justamente à principal peça deste texto. Um artigo publicado sobre o nome Chronica de Lisboa no jornal "Correio da Manhã" em 28 de Janeiro de 1911:



Artigo publicado por Tito Martins no jornal “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro em 28 de Janeiro de 1911.


Pelo seu interesse vou transcrever a parte dessa “Chronica de Lisboa” que se refere ao António das Caldeiradas. Vou fazê-lo actualizando apenas a grafia da época para a tornar a leitura mais fluída.


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(…) Acaba de falecer o popular António das Caldeiradas feliz proprietário de uma casa de pasto de faina universal... dentro de uns arrabaldes de Lisboa, isto é, no termo de Belém, nos bons tempos em que ir até lá assumia importância de realizar uma verdadeira jornada... de cinco quilómetros.

Pela casa do António das Caldeiradas passaram portanto pelo menos duas gerações de estúrdios atraídos pelo justificado renome da petisqueira que veio a celebrizar o seu autor, ou, antes, manipulador exímio.

E não era julgar-se que o estabelecimento correspondia, em suas proporções e conforto a tal renome... Pelo contrário, modesto, como a mais modesta hospedaria de aldeia, cujo aspecto, por sinal, conservou integral até hoje, era - e é - constituído pelos baixos, onde se encontra instalada a taberna, e pelo sobrado, sede do restaurante que de pouco mais consta que de uma pequena sala onde 20 pessoas a custo abancarão.

Pelas paredes, oleografias baratas, um espelho pouco mais caro, e pingentes de papel de cores, recortado, destinados a atrair as moscas que, por sinal, ou zombavam do ingénuo estratagema do proprietário, ou foram sempre por lá em abundância tal que dava para encher os pingentes e perseguir os fregueses com o seu eterno zumbido e impertinente contacto.

Da última vez que lá estivemos - dois anos haverá - já sob o ponto de estabelecimento da moda o António das Caldeiradas se encontrava na mais manifesta decadência, o que não quer dizer que as caldeiradas e o peixe frito não continuassem a honrar a justificada fama dos melhores tempos e a ausência de guardanapos não continuassem também a atestar as tradições da casa.

As mesas eram as mesmas de sempre, do mesmo pinho, ladeadas pelas mesmas cadeias de "pao à toa", como costumava chamar um agrónomo que conhecemos no Pará, a todas as árvores cuja classificação excedia os seus conhecimentos botânicos... E o próprio António das Caldeiradas, aparte os anos e os cabelos brancos perdurava também imutável pois tendo apenas há 6 meses resolvido deixar de ser o que fora até então, ou seja, trespassar a casa, custou-lhe, talvez, isso a morte com 74 anos de idade e cerca de 40 de fabricante... do apelido como diria Eduardo Garrido se estivesse escrevendo por nós. (...)

Lisboa, 8 de Janeiro de 1911.

Tito de Morais

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Na ausência de uma fotografia do interior da casa de pasto, este texto é absolutamente notável. É um fresco que nos descreve o interior dessa rústica mas popular casa de pasto.  É um artigo em discurso directo. Um testemunho pessoal de alguém que frequentou a casa e que lá foi por diversas vezes e em diferentes tempos. Um artigo curto mas bastante rico em detalhes, só lhe faltando mesmo uma fotografia. Com ele ficamos conhecedores de diversos detalhes que até agora desconhecidos (pelo menos para mim):


● O estabelecimento consistia numa taberna nos baixos do prédio e num restaurante no piso superior.

● A sala de refeição, apenas uma, tinha uma capacidade para não mais de 20 pessoas.

● A sala tinha uma decoração modesta que se manteve por décadas. Essa não era uma preocupação do dono.

● O serviço não primava quer pela elegância quer pela limpeza. Era rústico, bem rústico.


Depois sabemos da excelência da comida. Mas isso já se sabia uma vez que um nome maior das artes Portuguesas, Rafael Bordalo Pinheiro, foi decisivo para a imortalizar no seu traço genuíno e inconfundível – publicado no periódico humorístico "O António Maria" de Julho de 1883.



Montagem com o desenho publicado por Rafael Bordalo Pinheiro no periódico humorístico "António Maria" em 19 de Julho 1883, pág. 230. O famoso autor está também representado de forma irreverente (bem apropriada para este contecto) no canto superior esquerdo.
Fonte: Hemeroteca de Lisboa


Uma bela homenagem de alguém tão bom conhecedor e que tanto gostava dos prazeres da boa mesa como o genial criador do Zé Povinho.

E aliás a esse propósito atentemos numa passagem esclarecedora de um outro artigo assinado por João Pinheiro Chagas em louvor a Rafael Bordalo Pinheiro (com quem colaboraria mais tarde no periódico "A Paródia"), publicado no jornal carioca "O Paiz" no longíquo dia de 20 de Fevereiro de 1885. O artigo foi feito a propósito do último número de "O António Maria" quando na altura se pensava que tinha chegado ao fim. Na verdade publicar-se-ia uma segunda série entre 1891 e 1898. "O António Maria" foi editado e dirigido pelo genial Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Atente-se à última linha para perceber a fama que Rafael Bordalo Pinheiro deu ao “António das Caldeiradas”.


Excerto de um artigo entitulado o "António Maria" da autoria de Pinheiro Chagas, publicado no Rio de Janeiro no jornal "O Paiz" no longíquo dia de 20 de Fevereiro de 1885. Fonte: BND.


Segundo Raúl Valente o António da Barbuda seria originário da Galiza (http://www.raulvalente.pt/historia/das-casas-de-pasto-a-alta-cozinha/). Nos seus tempos áureos o António da Barbuda recebia na sua casa de pasto uma elite feita de fidalgos e figuras da intelectualidade como o poeta Bulhão Pato, o escritor Fialho de Almeida, Júlio César  Machado, o já referido artista Rafael Bordalo Pinheiro e até o escritor e crítico francês Charles Yriarte.

Escritos de outros escritores desse tempo igualmente frequentadores da casa de pasto,  são igualmente elucidativos:

«Um pouco mais à frente, na Rua Vieira Portuense, a antiga rua do Cais, temos essa ala de prédios que «serão alindados para se integrarem, em 1940, na área da Exposição do Mundo Português», «São casas do tempo em que o rio lhes beijava os pés dourados de areia.» (in «Peregrinações em Lisboa», Norberto de Araújo, vol. IX)

ou ainda,

Aí ficava o «caldeirista-mor da rigolade alfacinha, António de Belém, perto dos Arcos», verdadeiro «génio do refogado», tão gabado por Fialho de Almeida, em especial «nas suas relações sociais e aperitivas com o peixe era tão alto, que o crítico francês Charles Yriarte, jantando ali uma vez comigo, prometeu mandar-lhe de Paris o diploma de sócio do Instituto.» (in «Os Gatos», Fialho de Almeida, vol.4, 1889-1894]

Até a tradição oral de Belém aludia à fama desses tempos e deste estabelecimento conforme nos refere António Filipe Rato na sua tese de mestrado. O autor ouviu da boca de uma anciã, nascida em 1913 uma letra de uma canção da sua juventude que falava da fama das feiras de Belém:

Linda feira de Belém
Lembrança que eu acarinho
Como tu me fazes falta
Ainda me lembro bem.

Do café do Machadinho
Com um tostão
(Que era então um dinheirão)
Fazia-se um figurão
E sempre o diabo a quatro

Eram cafés, cervejas e capilés
E sobrava muita vez
Maçaroca p’ro teatro

A feira era tão linda
Que até lá iam escritores
Das peças mais consagradas
Vi Marcelino Mesquita
Ramada e outros escritores
E [ o ] António das Caldeiradas

Ai meus amigos
Naqueles tempos antigos
Até os pobres mendigos
Ali se sentiam bem

Eram cervejas e capilés
Queijadas e água-pés
E o café só custava um vintém

Desta feira o que me resta
É [ sic ] as saudades que eu tinha
E já lá vai tanto ano

Ia a gente p’ra festa
Ou no carro do Jacinto
Ou no carro americano.


(Fonte: AF Rato (2009) "Marcelino Mesquita, aspectos da sua vida e memória pública")



Uma rara imagem da Rua onde estava o António das Caldeiradas em 1883. Note-se o bulício da feira, cavalos, negociantes, cavalheiros, senhoritas com sombrinhas e crianças brincando. Bem condizente com as prosas e versos que acima se apresentam. Fonte: AHM.


Mas voltando ao artigo de Tito Martins, apesar de o artigo não esclarecer o nome completo daquele que era conhecido por António da “Barbuda” podemos retirar algumas notas a propósito dessa figura:
 
● Faleceu por volta da primeira semana de Janeiro de 1911 com a idade de 74 anos, logo terá nascido por volta de 1837.

● Terá trabalhado naquela casa durante cerca de 40 anos, até seis meses antes da sua morte.

E na verdade há outra indicação de que a casa de pasto já estaria aberta em 1870 quando o António da Barbuda ainda era trintão. Esse detalhe é-nos revelado pelo Sr. João Reboredo da Gazeta das Caldas (fonte: http://www.gazetacaldas.com/24865/caldeiradas/ ) quando nos refere que a maravilhosa caldeirada já era bem apreciada e conhecida nessa data.

Ainda segundo o dito artigo terá sido esse longínquo reconhecimento da excelência gastronómica que levou o escritor Júlio César Machado a introduzir uma receita de caldeirada na sua participação no afamado livro "O Cozinheiro dos Cozinheiros", editado em Lisboa por editado por Paul Plantier e cuja primeira edição data de 1870.

 

Receita assinada pelo escritor Júlio César Machado (também na figura) que com toda a probabilidade era um frequentador de “O António das Caldeiradas”. Página 684 de “O cozinheiro dos cozinheiros” editado por Paul Plantier.


O livro "O Cozinheiro dos Cozinheiros" é uma monumental compilação de cerca de 1500 receitas com a colaboração de escritores nacionais e internacionais de enorme prestígio nessa época tais como Fialho de Almeida, Gomes de Amorim, Brito Aranha, Luciano
Cordeiro, Rafael Bordalo Pinheiro, Eduardo Coelho, Cândido de Figueiredo, Henrique Lopes de Mendonça, Ramalho Ortigão, Bulhão Pato, Teixeira de Vasconcelos, o visconde de Benalcanfôr, o conde de Arnoso, o conde de Monsaraz, entre outros.

A estes nomes há ainda que acrescer justamente o escritor Júlio César Machado. Este aliás publicou em 1876 juntamente com Rafael Bordalo Pinheiro, um álbum de caricaturas "Phrases e anexins da lingua portuguesa" que é uma colectânea de provérbios. Ou seja todas as evidências apontam para que estes dois grandes homens das artes de Portugal eram dois bons garfos frequentadores de “O António das Caldeiradas”. Não custa por isso admitir que Bordalo Pinheiro fizesse parte de um núcleo de homens das letras e dar artes (os tais estúrdios) frequentadores e apreciadores da famosa casa de pasto.
 

Uma edição de “O cozinheiro dos cozinheiros” editado por Paul Plantier. A primeira edição data de 1870.

Mas na verdade em 1903 e 1904, quando os rapazes que viriam a fundar e/ou a fazer parte dos treinos e das primeiras equipas do Sport Lisboa, por ali andavam, já o António das Caldeiradas estava em decadência. Depois de décadas de serviço e tendo atravessado mutações físicas e sociais daquela zona, aproximava-se o fim. O António da Barbuda retirava-se em meados de 1907 e morreria logo no princípio de 1908. Chegava ao fim uma das mais afamadas casas de pasto de sempre. Mas a sua fama ficou na pena e no traço dos mais notáveis dos seus frequentadores.

Para nós Benfiquistas fica o conhecimento acrescido de um ponto de encontro e convívio de grande importância para o nascimento do nosso Clube.

De Belém para o Mundo.


A famosa Casa de pasto O António das Caldeiradas na Rua Vieira Portuense, termo de Belém. Fotografia do início do século XX, época da fundação do nosso Clube. Fonte: AML.

 

Doca de Pedrouços. Seria por ali que o António das Caldeiras viria chegar alguma da sua matéria-prima. Fonte: AML.


Uma brincadeira gráfica em homenagem ao António da Barbuda e ao seu "O António das Caldeiradas".
« Última modificação: 04 de Abril de 2016, 00:28 por RedVC »

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  • 26 de Março de 2016, 00:26
Completamente de acordo.Benfiquismo é também  partilha.É aliás isso, acima de tudo.

Toda a gente deveria ter acesso gratuito à nossa História, de uma maneira ou outra.

O que tu e muitos fazem aqui.

O que o Alberto faz, o João Tomaz, Arrobas, etc, fazem não tem preço.

Eu pessoalmente tenho imensos jornais antigos do Clube que gostava de partilhar, mas como já fale algures por aqui, não tenho meios nem técnica para os digitalizar.

Mas hei-de conseguir.

E vou compartilhar, quando conseguir


Se tiveres acesso a um smartphone com uma câmara decente já dá (ou a uma impressora com scanner), só não é tão rápido quando utilizar um scanner profissional.

Isso até era um projecto muito interessante para fazer no fórum, digitalizar e disponibilizar num só ficheiro os documentos que os users têm em casa a apanhar pó.
Tenho Android.Já experimentei algumas!as aplicações de scanner, mais indicadas para este tipo de coisas, mas não me saíram bem as coisas.

Scanner até tenho, embira o pc estreja a dar o berro...depoois o problema é ter receio de estragar os jornais.

Tenho material do anos 70, 80, 90 e recuando, até dos anos 60.

São uns 500 jornais mais ou menos.

Já andei a pesquisar por pessoas que são profissionais na área e o preço é muito elevado(acima dos 1000 euros...)

Terei de ter imensa paciência e ser página a página. Depois terei sendo sacaneado ou com câmara pelo Android, tratadas as imagens.

Ando a tentar engendrar um plano, mas tem que ser com calma e meios,que não tenho infelizmente.

Fico triste porque mesmo que tenha cuidados m manter os jornais em segurança e não a apanhar pó, humidade, etc, existe sempre a erosão do tempo.

Pedi recentemente conselhos/ajuda à Fundação Benfica, através dos conhecimentos do nosso Museu Cosme Damião.

Expliquei a situação, que tinha material histórico do Clube e não tinha meios para tratar, mas não obtive qualquer feedback...

Sem querer entrar por outros caminhos, a Fundação Benfica também deveria tomar em consciência esas situações e não apenas as mais usuais, como dar a conhecer os jogadores a um menino z etc, que tem a sua importância, mas isto também têm, dentro das duas situações em si.
« Última modificação: 26 de Março de 2016, 00:32 por Benfiquista_ »

Theroux

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  • 26 de Março de 2016, 01:15
Completamente de acordo.Benfiquismo é também  partilha.É aliás isso, acima de tudo.

Toda a gente deveria ter acesso gratuito à nossa História, de uma maneira ou outra.

O que tu e muitos fazem aqui.

O que o Alberto faz, o João Tomaz, Arrobas, etc, fazem não tem preço.

Eu pessoalmente tenho imensos jornais antigos do Clube que gostava de partilhar, mas como já fale algures por aqui, não tenho meios nem técnica para os digitalizar.

Mas hei-de conseguir.

E vou compartilhar, quando conseguir


Se tiveres acesso a um smartphone com uma câmara decente já dá (ou a uma impressora com scanner), só não é tão rápido quando utilizar um scanner profissional.

Isso até era um projecto muito interessante para fazer no fórum, digitalizar e disponibilizar num só ficheiro os documentos que os users têm em casa a apanhar pó.
Tenho Android.Já experimentei algumas!as aplicações de scanner, mais indicadas para este tipo de coisas, mas não me saíram bem as coisas.

Scanner até tenho, embira o pc estreja a dar o berro...depoois o problema é ter receio de estragar os jornais.

Tenho material do anos 70, 80, 90 e recuando, até dos anos 60.

São uns 500 jornais mais ou menos.

Já andei a pesquisar por pessoas que são profissionais na área e o preço é muito elevado(acima dos 1000 euros...)

Terei de ter imensa paciência e ser página a página. Depois terei sendo sacaneado ou com câmara pelo Android, tratadas as imagens.

Ando a tentar engendrar um plano, mas tem que ser com calma e meios,que não tenho infelizmente.

Depois de falares nos jornais experimentei com uma página para ver como ficava (a luz não era a ideal): http://i.imgur.com/bqZim1d.jpg Sendo que é de borla acho que está aceitável. Repetir isto umas 25.000 vezes é que é uma tarefa hercúlea...

O truque é fixar o telemóvel e ter um aparelho deste género http://tinyurl.com/hk782nx para que depois seja só uma questão de ir virando as folhas e clicando.