Fonte
A Bola
Quatro golos no final do ano é, manifestamente, pouco para quem está tão familiarizado com o ataque como é o caso de Nuno Gomes. O jogador do Benfica está de consciência tranquila em relação ao seu contributo à equipa e apenas atribui esse facto ao seu sistema de jogo; espera, evidentemente, facturar muito mais em 2003 e A BOLA foi á procura de saber como pensa fazê-lo.
Nesta grande entrevista de final de ano, numa conversa franca e aberta, Nuno Gomes não fala apenas de si. Passa pelo clube, companheiros, passado recente e presente-futuro, SuperLiga e Selecção. Uma grande entrevista de um grande jogador que deixou para trás o fabuloso mundo do futebol italiano para voltar ao clube que o apaixonou.
— Simão e Tiago são os melhores marcadores da equipa, apesar de não serem pontas-de-lança. Isso não o afecta?
— Podia realmente somar mais golos neste momento, pois tive oportunidades para isso, só que nalguns casos a bola, simplesmente, não entrou e noutros bateu no poste. Mas o próprio sistema de jogo da equipa conduz a que mais jogadores marquem golos. É uma situação que não me preocupa, acima de tudo espero que a equipa continue a ganhar.
— Quatro golos não é uma média baixa para um ponta-de-lança?
— Claro que espero marcar mais golos em 2003 mas, sinceramente, preocupo-me, acima de tudo, com os interesses da equipa.
— Até que ponto a sua média de golos pode ter sido prejudicada pela lesão que o manteve afastado em três jogos?
— Não me posso deitar a adivinhar o que teria acontecido, mas é inegável que em três jogos as chances de marcar são muito elevadas.
— Três dos seus golos resultaram de passes feitos por Zahovic. O entendimento entre os dois caminha para a perfeição?
— Zahovic é um nº 10 e a sua missão é justamente assistir o melhor possível os avançados, fazer o último passe. Estou totalmente integrado com todos os companheiros, mas a posição de Zahovic permite-lhe efectuar maior número de assistências para golo.
— Quando esteve no Benfica antes de ir para Itália, disse que se sentia mais à vontade a jogar com outro avançado ao lado. Continua a pensar da mesma maneira?
— Sempre disse que gostava de jogar com dois avançados, mas esta é apenas uma opinião pessoal. Não pretendo com estas palavras dar pistas a ninguém, pois sou apenas mais um jogador do plantel e não o treinador. Jogo onde o mister quiser. Simplesmente quando disse que me senti bem ao lado de Brian Deane, na Luz, ou Jimmy Hasselbank, no Boavista, foi a pensar nas minhas características. Esse sistema dá-me mais liberdade porque sou um jogador que gosta de ter a bola e, também, de fazer assistências.
— Mantorras ou Féher, com qual se entende melhor?
— Não dou opinião acerca disso, são dois excelentes executantes e compete ao treinador decidir.
— Sendo evidente a sua subida de forma, a generalidade da crítica aponta o jogo de Alvalade como a sua melhor exibição até agora. Concorda?
— A subida de forma é normal porque acertei fisicamente o passo com os meus companheiros. Em relação ao jogo de Alvalade, muita gente me diz que foi a melhor mas, sinceramente, não sei. Fiz um bom jogo até porque a equipa cumpriu à risca as instruções do treinador, mas todos souberam interpretar o que tinham a fazer. Julgo que para ser o melhor, faltou o golo. Acima de tudo, o Benfica provou nesse jogo não ter medo de nenhuma equipa.
«Estamos a gostar dos métodos de Camacho»
— Camacho veio mesmo revolucionar o Benfica?
— Quando se muda de treinador, mudam-se por norma os métodos de trabalho. Com Jesualdo Ferreira fomos bastante irregulares e houve a eliminação na Taça de Portugal às mãos de uma equipa da 2ª Divisão B. Com José António Camacho houve evolução na maneira de pensar e encarar os jogos.
— Tratar a todos por igual é então o segredo de Camacho?
— Ele entrou e definiu muito bem aquilo que queria de nós e qual a sua forma de trabalhar. Acho que todos os jogadores estão satisfeitos com a sua maneira de ser, independentemente de não poderem jogar todos. É normal que aqueles que não jogam estejam insatisfeitos, mas cabe-lhes trabalhar e mostrar ao treinador que pode contar com eles. Camacho disse-nos claramente que todos tinham capacidade para jogar e haveria oportunidade para toda a gente.
— Ele é mesmo tão duro como se diz?
— É exigente e disciplinado, encaixa bem no perfil de uma equipa como a do Benfica.
— O que é que pediu ao Pai Natal?
— Saúde, paz e que o Benfica seja campeão.
Já depois de ter assinado contrato com o Benfica e, inclusivamente, ter iniciado os trabalhos de pré-época com o plantel encarnado, Nuno Gomes foi sondado por clubes estrangeiros. Na altura, segundo anunciou Luís Filipe Vieira, alguns estariam dispostos a recompensar o Benfica em cinco milhões de euros (um milhão de contos). O jogador teve conhecimento das propostas mas não tem dúvidas de que tomou a opção certa ao permanecer na Luz.
— Mesmo tendo regressado há poucos meses ao Benfica o seu nome continua no mercado. Como encara essa situação?
— Depois de consumada a saída da Fiorentina houve vários clubes interessados na minha contratação. Mas decidi-me pelo Benfica, essencialmente porque era meu desejo voltar um dia. Desde que parti era essa a minha vontade e quando se proporcionou não pensei duas vezes. Sabia que iria ser bem recebido, como realmente fui, e isso era fundamental para mim. Posteriormente, tive conhecimento de novas abordagens mas já estava no Benfica e não me passou pela cabeça mudar de clube nessa altura, como, de resto, acontece neste momento. Sinceramente, não estou a pensar mudar de clube tão cedo. É aqui que me sinto bem e é no Benfica que quero continuar.
— Assinou contrato até 2006. É para cumprir ou para tentar cumprir?
— Espero, sinceramente, cumpri-lo até ao fim. Neste momento não admito sair do Benfica tão cedo.
— O estrangeiro ainda o seduz ou a experiência na Fiorentina bastou?
— Sempre disse que gostava de jogar em Itália e concretizei esse objectivo. O futuro a Deus pertence, mas se me perguntar hoje se tenho vontade de sair para um clube estrangeiro respondo não. Como disse, por mim fico no Benfica para sempre.
— O seu passe pertence exclusivamente ao Benfica ou José Veiga é detentor de uma percentagem?
— O meu passe pertence ao Benfica.
«Falência da Fiorentina deu-me razão»
Nuno Gomes sentiu em Florença a injustiça em que o futebol é fértil. Apesar de ter aberto caminho para a Luz, a falência deu-lhe prejuízo. E muito.
— Já voltou a Florença depois de ter abandonado a Fiorentina?
— Não tive tempo de lá voltar, mas espero um dia visitar alguns bons amigos que fiz em Itália e na cidade.
— Alguns adeptos da Fiorentina ficaram zangados quando avançou com o processo de rescisão por justa causa. Espera ser bem recebido?
— As pessoas, em especial aquelas que viviam mais intensamente a vida da Fiorentina, não vão esquecer o que se passou, não só comigo como com outros jogadores que avançaram pela mesma via. Fiz excelentes amigos em Itália mas algumas pessoas não conseguiram compreender a minha atitude. Infelizmente, a falência deu-me razão. Poucos acreditavam que o clube podia fechar mas por aquilo que me era dado a conhecer do presidente sempre tive a sensação que um dia iria acontecer o pior.
«Sigo os amigos»
— A cidade ficou orfã do seu principal emblema mas nasceu outro em Florença. Tem acompanhado a vida da nova Fiorentina?
— Sim, na medida do possível, embora apenas um dos meus antigos companheiros, o Di Livio, tivesse continuado. Mas mantenho contactos com todos os outros colegas. Sigo as respectivas carreiras nos clubes onde estão, não só deles como de outros amigos que lá tenho.
— Numa análise aos primeiros meses da época, concorda que Rui Costa tem sido uma das figuras no futebol italiano?
— O ano passado não lhe correu bem devido a várias lesões que sofreu e à necessária adaptação a uma cidade e a um clube diferentes. Este ano já está a ser o Rui Costa que todos conhecemos. É bom para o AC Milan e bom para o futebol português, do qual é um excelente embaixador.
Seis pontos de desvantagem em relação ao F. C. Porto, que tem ainda um jogo a menos, não é certamente a prenda que Nuno Gomes gostaria de ter no Natal. Porém, o avançado sente-se plenamente satisfeito com o regresso à Luz de onde não pretende sair tão cedo. Quanto ao título, refere, resta aguardar por uma escorregadela do líder...
Nuno Gomes sente-se feliz na Luz e nada arrependido por ter trocado Florença por Lisboa. Desportivamente, reconhece que as coisas poderiam estar a correr melhor mas, avisa, o campeonato vai ainda a meio e à primeira escorregadela dos dragões, o Benfica tudo fará para encurtar distâncias e relançar o campeonato. A irregularidade da equipa é, na opinião do avançado, o factor que melhor explica a distância entre as duas equipas, mas o trabalho psicológico já começou a dar frutos...
— O regresso ao Benfica está a corresponder às expectativas?
— Plenamente, porque desde a minha saída para a Fiorentina sempre foi meu desejo regressar um dia. Acabou por acontecer mais cedo do que se esperava e ainda bem, pois continuo a sentir-me tão bem como da primeira vez. Claro que estaria ainda mais satisfeito se estivéssemos no primeiro lugar, mas sinto-me bem aqui e tão cedo não espero sair.
— À parte os primeiros dois jogos e os três que falhou por lesão foi sempre titular...
— Tenho jogado desde que cheguei e, sinceramente, esperei sempre poder dar o meu apoio à equipa, para ajudá-la a melhorar.
— E está satisfeito com o seu rendimento?
— Tenho de estar, se tivermos em conta que comecei a época num nível inferior ao dos meus colegas em termos físicos. Não fiz a pré-época e passei por toda aquela fase complicada que culminou com a falência da Florentina, mas fui melhorando jogo a jogo e agora estou completamente limpo.
«Árbitros são seres humanos»
— Com tantos pontos de desvantagem em relação ao F. C. Porto, ainda é possível chegar ao título?
— Não estamos a nove pontos como já ouvi dizer e sim a seis. Que eu saiba, o F. C. Porto não ganhou ainda o jogo em atraso. É difícil chegar ao título porque o F. C. Porto tem uma vantagem que lhe permite gerir a situação, mas também faltam muitos jogos. O que temos a fazer é lutar para nos aproximarmos e esperar que escorregue.
— O que é que faltou ao Benfica para chegar ao primeiro lugar?
— Falhámos em alturas em que não podíamos falhar e perdemos pontos onde não devíamos. O F. C. Porto tem aproveitado ao máximo esses deslizes e tem sido mais regular. Começámos bem, alcançamos quatro vitórias seguidas, mas houve semanas inteiras em que se disse e escreveu que o Benfica andava a ser levado a co-lo. E assim se fazem os campeões...
— Quer explicitar melhor as suas palavras?
— Sou jogador de futebol, não tenho de pronunciar-me sobre as arbitragens, mas ficamos sempre revoltados quando se levantam estas dúvidas na praça pública. Os árbitros são seres humanos e podem errar. Todos são beneficiados e prejudicados, mas há clubes que são beneficiados e mesmo assim vêm dizer que são prejudicados. Felizmente, os dirigentes do Benfica têm um grande fair-play, mas isso é um pau de dois bicos. Se calhar, se agissem de outra maneira podíamos ter mais proveito. Não me compete falar de arbitragens, mas que o clima de suspeição continua a existir é um facto.
— Discorda daqueles que dizem que a Liga portuguesa evoluiu nos últimos anos?
— Há agora mais agressividade nas equipas portuguesas e os pequenos encurtaram distâncias em relação aos habituais candidatos. Mas no que se refere ao ambiente de suspeição encontrei o futebol português igual ou pior do que quando saí para Itália. Há clubes que vetam árbitros... o ambiente de suspeição é insuportável.
O Euro-2004 é a meta que se segue para uma geração que continua a perseguir um grande feito internacional ao nível de selecções. Portugal joga em casa e, por isso, vai assumir as responsabilidades de jogar para ganhar. É Scolari quem o diz e Nuno Gomes não vê razões para não estar de acordo.
— Scolari é boa escolha para o assalto ao Europeu?
— Sendo um campeão do Mundo, se aceitou Portugal é porque acha que temos capacidade para sermos campeões da Europa. Parece ser um treinador com carisma e, obviamente, todos esperamos tirar benefícios da sua experiência e da sua vinda para o comando técnico da Selecção.
— O título europeu é o objectivo declarado. Não acha que a fasquia está, de novo, bastante elevada, como aconteceu no Mundial?
— É bom que o seleccionador seja uma pessoa ambiciosa, porque é importante incutir esse espírito em todos os jogadores. No entanto, é óbvio que não passa pela cabeça dos jogadores não lutarem por esse objectivo. Não digo que vamos ser campeões, porque é muito difícil, mas vamos lutar para proporcionar essa alegria ao povo português, que bem a merece. Também nós próprios, jogadores, perseguimos esse objectivo há muito tempo.
«Brasileiros do Benfica elogiam Scolari»
— Já falou com Scolari?
— Ainda não tive essa oportunidade. Também não o conheço pessoalmente mas já ouvi comentários favoráveis e elogiosos, principalmente dos meus colegas brasileiros no Benfica.
— Tem a fama de ser um duro, inflexível, assumindo decisões controversas. É o homem certo para o cargo de seleccionador português?
— Os jogadores, essencialmente, têm de ser profissionais ao máximo, apesar das características e da personalidade de quem os comanda. Mas, segundo os meus colegas brasileiros, trata-se de um bom treinador e de uma excelente pessoa.
— O esquema preferido do novo seleccionador contempla a utilização de dois avançados, o que o favorece...
— Não sei se vai ou não jogar com dois avançados e nem sei se essa estratégia me favorece na Selecção. Neste momento, sinto apenas que sou um dos muitos jogadores que pode ser convocado e que luta por um lugar na equipa nacional, o que muito me orgulha.