Defesa, 1950-04-18 - 2016-07-25)
Portugal
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19195 - Tópico: Artur Correia, o Ruço  (Lida 29069 vezes)

João Norte

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  • 27 de Julho de 2016, 23:48
Era uma notícia já esperada, até porque o seu corpo estava já martirizado pelos efeitos de tantos ataques vasculares.

Homem com «H» grande que amava o nosso clube com uma paixão tal que vocês nem imaginam. Tal como a Académica, de quem ele dizia ter uma paixão platónica, infelizmente não recíproca. E com uma honorabilidade acima de qualquer dúvida. Vou contar-vos o meu inesquecível encontro profissional com ele, em 2007.

Nesse ano, o Ministério da Educação recambiou-me para Águeda, para substituir uma colega que se afastara por graves problemas psíquicos. A escola vivia numa desorganização generalizada e, depois de muitos avanços e recuos, fui nomeado Diretor de Turma de um Curso Profissional de Desporto, miúdos e miúdas cheios de genica e com vontade de mostrar serviço. Apesar da oposição da Direção e com a colaboração do núcleo de Estágio de Educação Física da Univ. de Coimbra, organizamos um colóquio a um Sábado sob o tema «Futebol e Motricidade». Muitos professores conimbricenses, mas faltava-nos alguém que representasse o balneário. Poucos dias antes, no jantar de aniversário de uma colega nossa, o núcleo masculino começou a partilhar histórias de futebol, da nossa infância, já que todos éramos nascidos na década de 70. De repente, começamos a falar no Vítor Martins e no Artur Correia que tinham visto as suas carreiras interrompidas por motivos de saúde e, a certa altura, comentei que seria giro termos um dos dois no colóquio. De repente, o Serafim que era um dos mais caladitos e que era afilhado de um ex-treinador da Académica disse:«Eh pá, o meu padrinho é capaz de ter o contato do Artur».

3 dias depois, as minhas mãos lá estavam a tremer que nem varas verdes ao discar no PBX da escola o número do sr. Artur, sem saber muito bem qual o cachet que lhe iria oferecer, visto que a Direção se recusava a dar um cêntimo para a iniciativa, apesar de ser bem conhecido dos docentes que haveria um saco azul e caixa paralela que entre outras coisas, serviu para a aquisição de dois aparelhos de ar condicionado para os Gabinetes da Direção e do Gabinete do Chefe da Secretaria.

Atendeu. Do outro lado da linha, um homem extremamente afável, doce, voz solta e prolongada no tempo. Recusou honorários, viajaria de comboio, só pediu que alguém o fosse buscar à estação da Mealhada. Lá fui eu com uma colega minha, com a convição de que estávamos a dar boleia ao Presidente da República. Começamos a conversar e quando ele soube que morava em Braga, disse-me:«Sabe que eu também sou bracarense por nascimento?»

Tivemos o Auditório cheio e o sr. Artur, que teria direito só a uma preleção de 20 minutos, triplicou o tempo previsto perante o gáudio da plateia, essencialmente juvenil, falando sem tabus do seu acidente vascular que lhe findara o percurso profissional aos 30 anos de idade.

Findo o colóquio e como o sr. Artur tinha tirado bilhete de ida e volta e faltavam 5 horas, resolvemos oferecer-lhe um lanche ajantarado. Ainda pensamos em ir devorar leitão, mas um amigo nosso de Oliveira de Frades fez-nos uma surpresa e levou-nos a uma aldeia de que nunca ouvíramos falar: Arcozelo das Matas, onde numa tasquinha, devoramos a maior e mais saborosa tábua de queijos&enchidos da minha vida. O sr. Artur era um bom garfo e um amante do vinho de Lafões e já na altura bebia bem. Éramos 8 à mesa e para trás foram 12 garrafas vazias, ainda me lembro.

E o sr. Artur começou a desfiar as histórias de balneário: da Académica onde se lançou como extremo direito, da chegada ao Benfica, das "pancas" do Jimmy Hagan, as picardias na Selecção com o Pedroto, as bebedeiras épicas nos bares de Boston, etc,etc. Foi um verdadeiro banho de Mística.

Do AVC que lhe roubou a carreira, ele falou coloquialmente. Vou referir apenas as partes "publicáveis". Estava no Casino Estoril com um grupo de amigos e de "amigas", a festejar o regresso a Portugal. Ele tinha um contrato duplo, que lhe permitia fazer a temporada oficial nos EUA e jogar encontros oficiais em Portugal até ao Carnaval, regressando aos States quando faltariam sempre 4 ou 5 jornadas para findar o nosso campeonato. A temporada nos USA tinha-lhe corrido muito bem, continuava a ser o lateral direito titular da nossa Selecção. Ele tinha saído do Benfica 4 anos antes porque o novo Presidente (Ferreira Queimado), ao assumir o posto, decidiu apostar numa política de contenção orçamental, diminuindo bastante os vencimentos e prémios de jogo. Assinara pelo Sporting e pelo Boston por dinheiro e não por paixão, já que o coração ficara sempre benfiquista.

Nessa noite de setembro de 1980, depois duma jantarada em Cascais, ele e os amigos foram terminar a noite no Casino. O Artur estava um pouco cansado porque tivera o primeiro treino matinal muito puxado, já que o preparador físico Radisic dava verdadeiras tareias. Na parte final do treino com bola, o brasileiro Manoel dera um pastilho na bola e esta embateu na cara do Artur que passou o resto da tarde com dores de cabeça. Por volta da meia noite, ao dançar com uma "amiga", sentiu-se a desmaiar, a ver tudo andar à roda e a ficar com o lado esquerdo do corpo paralisado. O olho começou a fechar e deitaram-no num divã de um camarim. E eis o que choca: a assistência de emergência médica/hospitalar no início dos anos 80. Éramos um verdadeiro país de Terceiro Mundo. O sr. Artur esperou uma hora e meia pela ambulância, esta escolheu o caminho mais longo para o hospital e só chegou lá quase 3 horas depois do aparecimento dos sintomas. O hospital, para saber as condições do seguro desportivo dele, ligou ao médico do Sporting. A angiografia foi feita 8(oito!!) horas depois de chegar ao hospital e a operação para retirar o coágulo no final do dia seguinte...Sem comentários.

É verdade que lhe salvaram a vida, mas o mais engraçado é que na apólice de seguro feita pelo Sporting, esta não cobria problemas vasculares. A do Boston Teamen, sim, mas estes argumentaram que o jogador não se encontrava ao serviço deles. Saída airosa: em finais de 1981, o João Rocha concordou em promover um concerto rock no estádio de Alvalade, pediu ao Júlio Isidro para o organizar e até foi concorrido. O problema é que, das receitas que reverteriam para o Artur, metade serviu para pagarem às bandas, técnicos de som e de iluminação, apesar da Direção do Sporting ter garantido que a receita total iria para o Artur...


Descanse em paz, sr. Artur.

Desculpem a extensão do post, mas era importante que o fórum soubesse que este senhor vivia a Mística intensamente.

Imortal. Imortalíssimo!
Obrigado por mais um belo pedaço de história. A nossa grandeza revela-se na forma como tratamos os que nos ajudaram a ser grandes.

Gottschalk

  • Eusébio
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  • 28 de Julho de 2016, 03:34
Grande Artur.

Nunca serás esquecido.

RIP.

Miguelito22

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  • 28 de Julho de 2016, 14:59
Descanse em paz.

Geovanni95

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  • RUMO AO 38!!
  • 28 de Julho de 2016, 15:21
O meu pai conta que era um jogador cheio de raça e um excelente profissional.

Num famoso Benfica - Sporting em 1978 que o Benfica vence por 5-0 ao intervalo, o Artur Correia já era jogador do Sporting e foi o único a pegar na bola e levar a equipa do Sporting que esta de rastos para o ataque


Bola7

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  • Perdido no limbo do serbenf
  • 17 de Janeiro de 2017, 12:29
não sei se já disse mas foi para mim o melhor lateral direito do futebol português...

RedVC

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  • Todos por um!
  • 17 de Janeiro de 2017, 13:13
Quando faço um exercício de selecção da melhor equipa de sempre do SLB o lugar de lateral direito é reservado para Artur Correia. Não o vi jogar mas o que o meu Pai me disse chega e sobra. Foi um erro histórico deixa-lo sair. Mais um dos que aconteceram nesse período parvo: Jordão, Eurico, entre outros.

Dos que vi jogar Pietra e Veloso foram os melhores. Infelizmente Semedo não ficará muito tempo pro cá. Poderia estar neste grupo restrito. Muita qualidade.

Bola7

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  • Perdido no limbo do serbenf
  • 17 de Janeiro de 2017, 16:28
onde crl está o topico do shoky sobre os planteis?? >:(