Conquistas gloriosas - Futebol - Taça de Portugal

Vitor84

Citação de: pcssousa em 28 de Agosto de 2012, 18:56
De facto, José Maria Pedroto encontrava-se a cumprir serviço militar em Tavira, penso que na escola de sargentos milicianos. Desta forma acabou por sair do Leixões e ir representar o Lusitano F.C. (Vila Real de Santo António), ao abrigo da Lei militar, vigente na época. Esteve por lá nas épocas de 48/49 e 49/50. O Lusitano, como já escreví por cá, delegação nº 1 do Sport Lisboa e Benfica, na época de 49/50, de má memória para eles, pois acabaram no último lugar da tabela classificativa, recebeu e bateu o Sporting naquele que hoje naquele que hoje  é conhecido como Campo Francisco Gomes Socorro, para espanto geral por 2-0, tendo sido José Maria Pedroto autor do golo inaugural. Naquele dia 16 de Janeiro de 1950, à 14ª jornada do campeonato, o Benfica acabaria por ganhar boa margem para o resto do campeonato. Já tinhamos ganho fora ao Sporting na 10ª jornada por 1-2, mas eles ganharm moral somando por vitórias os 3 jogos seguintes, pelo que esta inesperada derrota por terras algarvias, a abrir a 2ª volta do campeonato, acabou por ser a machadada definitiva de que não mais recuperaram. Ainda nos vieram ganhar na 2ª volta, mas o destino do campeonato estava traçado e apenas tivemos que o gerir.
No final do campeonato, o campeão nacional em titulo, Sport Lisboa e Benfica, foi disputar a Taça Latina, como todos sabemos. Ainda na mesma época  desportiva do campeonato, pois este terminou a 7 de Maio e a finalíssima da Taça Latina ocorreu a 18 de Junho do mesmo ano.
Entre as duas competições, ainda tivemos um particular contra o Sporting, em Braga, na inauguração do Estádio 1º de Maio, se não estou em erro a 28 de Maio, em que ganhámos por 3-2.

Ah, Pedroto, após esta época, acabou por ingressar nos Belenenses, apesar de o FCP também estar interessado nos seus serviços, e só mais tarde ingressaria no clube da invicta.

Cumprimentos e espero ter sido esclarecedor.
O0

pcssousa

#16
TAÇA DE PORTUGAL 1950/51




A Taça de Portugal voltava em 1950/51, após um ano de ausência e traria o segundo bis do Benfica na prova.
Um ano antes, na sequência dos títulos nacional e latino, a equipa empreenderia uma longa e bem sucedida digressão a África, que trouxe muitos proventos financeiros, espalhou ainda mais a fama do clube e permitiu descobrir um menino angolano que no futuro se tornaria o melhor marcador da história do clube (até hoje apenas ultrapassado por Eusébio) e seria o capitão das duas mais célebres equipas da história do clube,
Águas, defrontou o Benfica, integrado num misto do Lobito e marcaria logo dois golos. Seria imediatamente convidado para ingressar no clube e, o jovem dactilógrafo, benfiquista ferrenho, de imediato aceitou e envergaria a camisola encarnada logo no jogo seguinte da digressão, numa vitória frente ao Lubango a 28 de Agosto de 1950. Estrear-se-ia oficialmente a 24 de Setembro, num jogo contra o Atlético e marcaria logo passado uma semana frente ao Braga.

O Campeonato Nacional correria muito mal ao Benfica, que acabaria em 3º lugar a uns distantes 15 pontos do Sporting. Na altura, os exigentes adeptos benfiquistas culparam a digressão de mês e meio de duração a África pelos maus resukltados no campeonato. Mas, os benfiquistas tentavam sempre conquistar novos troféus de forma a ir contrariando da forma possível a superioridade sportinguista que se registava em finais dos anos quarente e inícios dos 50, nunca se dando por vencidos, nunca virando a cara à luta.
Desta forma, foi imbuídos desta garra que os Benfiquistas entraram na Taça, mais uma vez com eliminatórias disputadas a duas mãos, com uma vitória caseira por 4-1 sobre o Sporting da Covilhã, empatando depois na cidade serrana a 5 bolas. Seguiu-se uma deslocação à Pérola do Atlântico e uma vitória por 0-3 sobre o Marítimo, equipa que receberíamos em casa e voltaríamos a bater, agora por 2-1. Nas meias-finais, uma curta deslocação a Alcântara e uma preciosa vitória por 3-5, a que se seguiria uma recepção aos alcantarenses com magra vitória por 1-0.
O Benfica estava novamente na final.
Como opositor encontraria a Associação Académica de Coimbra, que eliminara nas meias-finais o CF Belenenses, carrasco de Sporting e porto.
Um pouco por todo o País, falava-se em vingança... a final de 38/39, não estava esquecida.

O Benfica acabaria mesmo por não desperdiçar a oportunidade de se desforrar da derrota que os estudantes tinham infligido na edição inaugural do troféu, doze anos antes – e, com uma exibição de mérito, sempre pautada pela "alma" de Chico Ferreira, que além de ter sido futebolista do F.C. Porto, era igualmente filho do porteiro do Estádio dos portistas na Constituição (isto segundo a fotobiografia do Benfica, da qual não tenho razões para duvidar. Há bibliografia que não refere isto) , mas que acabou por encarnar na perfeição o espírito benfiquista e, por com a sua "raça" nortenha, ser um dos mais históricos jogadores do clube até aos dias de hoje, um verdadeiro e genuíno "Benfiquista do norte" com B grande de quem nos devemos orgulhar, e valorizada pelos quatro golos de Rogério – o segundo dos quais com um primorosa execução, acabaria por tirar quaisquer veleidades ou ilusões aos jogadores e adeptos da "Briosa".
Não se pode deixar de referir que a "Briosa" naquele tempo era uma verdadeira "Briosa", de entre os seus onze jogadores, médicos teria o dr. Mário Torres, o dr. Branco (hoje Professor jubilado da FMUC), o dr. Melo, o dr. Eduardo dos Santos, o dr. Azeredo, o dr. Duarte e o dr. Rui Gil, Macedo seria engenheiro e Bentes (ainda hoje um dos mais conhecidos jogadores de sempre da Académica) professor primário.
Voltemos então ao jogo: Logo aos 5 minutos, devido a uma desatenção de Capela, fora dos postes e incapaz de deter o remate de  José Águas, a centro de Corona, Melo, com as mãos, impediu a bola de entrar na baliza, mas, na transformação da grande penalidade, Rogério não perdoaria. Estava feito o 1-0.
A Académica abalou e, aos 14 minutos, Arsénio fez novo golo. Entrou-se, de seguida, num período de jogo de menor qualidade, de parte a parte, de um lado o Benfica com a confortável vantagem, do outro a Académica incapaz de se impor, até que, por culpa de Bastos, que estava muito adiantado, Macedo fez um "chapéu" e reduziu a diferença. Estava-se à beira do último quarto de hora da primeira parte.
A partir daqui, seria a equipa de Coimbra a atacar mais e, já no reatamento da partida, falharia por duas vezes o golo do empate, em remates de Macedo e José Miguel, em qualquer um dos casos com Bastos, batido.
Do lado Benfiquista, Rogério ia pondo os academistas "em sentido", até que aos 55 minutos colocou novamente o Benfica com dois golos de vantagem, após jogada individual. A partir daqui, acabaria a resistência da Académica e o "Pipi" marcaria mais dois golos. Estava feito resultado final e alcançada a goleada, mas esta poderia ser ainda mais dilatada, não fora Águas e Corona mostrarem-se perdulários e o árbitro de Santarém ter anulado sem razão alguma um golo a Arsénio.
Estava consumada a "vingança", e que vingança...

Estádio Nacional do Jamor, 10 de Junho de 1951

Benfica: 5
José Bastos, Artur Santos, Moreira, Félix, Joaquim Fernandes, Francisco Ferreira, Eduardo Corona, Arsénio Duarte, José Águas, Rogério Carvalho e José Rosário
Treinador: Ted Smith
Marcadores: Rogério Carvalho (4), Arsénio Duarte

Académica: 1
Capela, Joaquim Branco, Melo, José Miguel, Torres, Pedro Azevedo, Álvaro Duarte, Rui Gil, João Macedo, Leite e Bentes.
Treinador: Óscar Tellechea
Marcadores: João Macedo.

Árbitro: Paulo de Oliveira (Santarém)

Esta final marcou o primeiro titulo oficial com a camisola do clube dos futuros campeões europeus, Artur Santos e José Águas.

Vitor84

Mais um excelente relato de uma grande conquista.
E acabei por descobrir algumas coisas que desconhecia por completo. Não fazia ideia que o José Águas era angolano, e não conhecia o Chico Ferreira muito menos a sua ligação ao fc porto. Shame on me :ashamed:

Shoky

Que tópico enorme...obrigado por colocares os hiperlinks, Sousa...O0

Daqui a uns tempos todos esses senhores terão o seu respectivo tópico.

Shoky

Citação de: Vitor84 em 29 de Agosto de 2012, 20:35
Mais um excelente relato de uma grande conquista.
E acabei por descobrir algumas coisas que desconhecia por completo. Não fazia ideia que o José Águas era angolano, e não conhecia o Chico Ferreira muito menos a sua ligação ao fc porto. Shame on me :ashamed:

Francisco Ferreira...um senhor.
Que pena a sua trágica despedida, com a morte da equipa toda do Torino no regresso a Itália.

dfernandes

Que tópico BRUTAL, amigo!!! Absolutamente fantástico.

Amanhã vou ler tudo de uma ponta à outra, e depois comentar.

Muito obrigado!

Shoky

Citação de: dfernandes em 30 de Agosto de 2012, 00:42
Que tópico BRUTAL, amigo!!! Absolutamente fantástico.

Amanhã vou ler tudo de uma ponta à outra, e depois comentar.

Muito obrigado!

Amigo...vou ver se amanhã tenho tempo para te mandar a outra...
Não tenho tido tempo. O0

dfernandes

Citação de: Shoky em 30 de Agosto de 2012, 00:48

Amigo...vou ver se amanhã tenho tempo para te mandar a outra...
Não tenho tido tempo. O0

Amigo é quando puderes. O0

Depois abrimos o estaminé. :slb2:

pcssousa

#23
TAÇA DE PORTUGAL 1951/52


A época de 1951/52 seria de boa memória para o Sport Lisboa e Benfica.
Apesar de no Campeonato Nacional ter ficado o amargo de boca resultante do 2º lugar na prova, muito por culpa do empate a uma bola ante o Estoril-Praia quando ficariam a faltar apenas 3 jogos para o final do mesmo, a verdade é que a época traria outras razões para comemorar.
Após muitas "turras" e desencontros, após o corte de relações em 39, Benfica e Futebol Clube do Porto encontravam-se agora numa fase de plena amizade e os Benfiquistas foram convidados para a inauguração do novo recinto do Porto, que seria para a posteridade conhecido por Estádio das Antas, a 28 de Maio de 1952. Poderão vocês estarem-se a questionar o porquê da inauguração de um Estádio a uma quarta-feira à tarde... a resposta é simples, o Futebol Clube do Porto decidiu honrar o 26º aniversário da implantação do regime totalitário de onde surgiu o Estado Novo, o regime fascista em Portugal, portanto. O mesmo regime que tinha ajudado a expropriar os terrenos das Antas para que o Porto lá pudesse construir o seu novo Estádio.
Presente na inauguração esteve o Presidente da República General Craveiro Lopes, nome que o clube andrade deu ao troféu atribuído ao vencedor do jogo de inicial. Na tribuna de honra do Estádio tinha sido construído um local próprio para albergar o gigantesco troféu com 18 quilos de prata, de modo a que ficasse para a posteridade à vista de todos os que entrassem nas bancadas do mesmo.
Os Benfiquistas entraram em campo naquela soalheira tarde de Maio na invicta dispostos a dar o seu melhor, a honrar o espectáculo e a mostrar a sua superioridade. Pouco depois do início do jogo, Arsénio, marcou o golo inaugural... no final o Benfica sairia vencedor por uns inesquecíveis 2-8 e Arsénio,com 5 golos só à sua conta. Os jornais do dia seguinte falavam do "dia em que até o Douro chorou" e alguns desculpavam-se argumentando que os jogadores portistas se encontravam embriagados... os jogadores do Benfica, pobres coitados, é que poderiam ter sido poupados a ter que carregar com tão pesado troféu... observem a cara de sacrifício de Moreira e Arsénio, enquanto levantam tão vetusta e robusta taça:


Seria ainda uma época especial, pois pela primeira vez Benfica e Sporting iriam encontrar-se numa final de uma Taça de Portugal, depois da final do campeonato de Portugal que tinham protagonizado em 1934/35 e que estava ainda na memória de muitos.

A caminhada rumo à final, tinha-se iniciado com uma deslocação ao campo do Estoril, onde se tinha dado a malapata para o campeonato, mas desta vez com uma vitória dos encarnados por 0-1. Na recepção aos canarinhos, nova vitória, desta vez por 8-2. Depois, uma recepção ao Sporting da Covilhã, com goleada por 7-0, a que se seguiria um empate na cidade serrana (2-2).
Já nas meias-finais, o Benfica virava na segunda mão em casa, com uma vitória por 5-0, a derrota da primeira mão no Barreiro por 2-1. O Barreirense ficava assim pelo caminho e finalmente o Benfica encontraria o Sporting no dia de todas as decisões.

Em jeito de antevisão, o jornal "Record", publicou na edição que antecedia o jogo, um quadro comparativo entre os dois finalistas. Neste surgia o somatório de idades e peso do "11" que era projectado para cada formação. O sporting era deste modo apresentado com um total de 285 anos, aliado a um peso de 774 Kg. Por seu lado, o Benfica, apresentava uma equipa mais velha (294 anos) e mais pesada, (801 kg), (talvez devido ao peso da Taça General Craveiro Lopes, quem sabe...). Ainda em comparação esteve o número de internacionais no Sporting (4) e Benfica (7), assim como a média de alturas, 1,71 m para os sportinguistas e 1,73 m para os Benfiquistas. Numa altura em que o futebol ainda não era visto como um possível meio de subsistência, os atletas de ambos os clubes distribuíam-se por ofício bastante diversificados: mecânicos, serralheiros como Arsénio, comerciantes ou estudantes (como Águas).

O jogo começou, naquela tarde de 15 de Junho, praticamente com o golo de Albano para os leões, logo aos 9 minutos de jogo, e de grande penalidade. O Benfica empatou aos 23 minutos, por Rogério "Pipi", também de grande penalidade. Ainda antes do fim da 1ª parte, novo penalty a favor do Benfica, desta vez falhado por Rogério, aos 43 minutos.
Num jogo em que houve espectáculo, quatro revira-voltas no marcador, um hat-trick e três grandes penalidades, uma delas falhada, o melhor ficou para a segunda parte. O Benfica entrou melhor e logo a abrir, aos 49 minutos, Corona,  deu vantagem aos encarnados. Mas seis minutos depois, o Benfica já perdia por 2-3, com golos-relâmpago de Rola e Martins (há literatura que refere ter sido Pacheco Nobre e não Martins a marcar) aos 51 e 55 minutos, respectivamente.
Mas como o jogo era impróprio para cardíacos, Rogério "Pipi", redimiu-se da grande penalidade falhada e restabeleceu a igualdade ao minuto 69. Rola, inconformado voltaria a dar vantagem ao Sporting apenas dois minutos depois, com José Águas,  a restabelecer a igualdade aos 74 minutos de jogo. Ou seja, 3 golos novamente em 5 minutos apenas.
Mas o melhor estava guardado para o minuto 90, quando Rogério "Pipi", deu a vitória ao Benfica a poucos segundos do fim, depois de bem assistido por Águas,. Este correu uns bons 20 metros com a bola, até que finalmente rematou forte e colocado, perante ba saída de Carlos Gomes em desespero de causa. A bola, segundo descrição do próprio Rogério "pareceu demorou um século a entrar na baliza. Depois a festa. Foram tão fortes e tantos os abraços dos colegas, que quando dei por mim, estava estendido no solo". De facto o delírio era tanto, que minutos depois o árbitro da partida teve alguma dificuldade em dar por terminado o jogo, tendo que se fazer entender por gestos, tal era o ruído vindo das bancadas que nem deixou ouvir o apíto final. Quando se percebeu que o jogo terminara, a festa foi total, e no relvado os adversários abraçaram-se em sinal de que tinha sido um grande jogo, e que tinha vencido o melhor.
Ainda tempo para um pequeno episódio... Rogério  após o golo e o instantâneo terminus da partida, estatelou-se desmaiado no chão quando abraçado pelos colegas... Mais tarde o próprio Rogério  esclareceria que o seu desmaio teria sido a pedido do capitão do Sporting ,Passos, para que se preocupassem com o interior benfiquista e não o culpassem a ele por se ter adiantado muito no terreno e ter sido por isso batido em corrida pelo Benfiquista.
Junto dos sportinguistas, muitas lágrimas de desalento correram, o guardião Carlos Gomes chorava como uma criança.

Este jogo assinalou a despedida do Capitão encarnado na altura, Francisco Ferreira,  autor da alcunha do "Pipi". Francisco Ferreira, tinha planeado retirar-se do futebol após a goleada aquando da inauguração do Estádio das Antas, mas os apelos dos seus companheiros foram tantos que decidiu jogar esta final. Em boa hora o fez.
Esta final, continua a ser considerada a melhor e mais emotiva final da Taça de sempre, até porque detém o recorde de golos apontados que é de 9, já para não falar das emotivas reviravoltas do marcador.
Marcou ainda o primeiro tri na Taça de Portugal.

Foi há 60 anos, mas os benfiquistas não esqueceram... como poderiam esquecer?

Estádio Nacional do Jamor, 15 de Junho de 1952

Benfica: 5
José Bastos, Artur Santos, Joaquim Fernandes, Moreira, Félix, Francisco Ferreira, Eduardo Corona, Arsénio Duarte, José Águas, Rogério Carvalho e José Rosário
Treinador: Cândido Tavares.
Marcadores: Rogério Carvalho (3), Eduardo Corona, José Águas.

Sporting: 4
Carlos Gomes, Juvenal, Joaquim Pacheco, Veríssimo, Passos, Juca, Pacheco Nobre, Travassos, Martins, Albano, Rola.
Treinador: Randolph Gallway
Marcadores: Rola (2), Albano e Martins

Árbitro: Reis Santos (Santarém)

pcssousa

#24
TAÇA PORTUGAL 1952/1953


Mais uma época histórica para o Benfica que conseguiria aqui um histórico tetra na competição, o único até aos dias de hoje.
Depois da saída do capitão Francisco Ferreira, a equipa ia-se renovando aos poucos e iam entrando em campo alguns dos futuros campeões europeus. Paulatinamente ia-se construindo o futuro.
Mais uma vez, o campeonato foi conquistado pelo Sporting, mas o Benfica não desarmava, dava sempre séria réplica na prova e tornava-se força dominadora na Taça. A bem da verdade, o Campeonato acabaria por se decidir pelo simples facto de o Sporting ter ganho ambos os jogos ao Benfica, acabando assim com quatro pontos de avanço. Melhores dias chegariam...

Nesta edição da Taça, o Benfica eliminaria sucessivamente e a duas mãos, Setúbal, com um 5-2 na segunda mão em casa a virar uma derrota por 3-2 na deslocação à cidade sadina, Barreirense, com uma difícil vitória por uma bola sem resposta na deslocação ao Barreiro, seguida de uma goleada por 6-0 em casa, e finalmente Guimarães, com duas vitórias por 3-1, primeiro na recepção aos vimaranenses, segundo na deslocação à cidade berço.
Na final, o Benfica encontraria o FC Porto, naquela que seria nada mais nada menos que a primeira presença na final dos portistas, que tinham deixado pelo caminho sucessivamente Boavista, Marítimo e Lusitano de Évora.

Esta final seria mais um marco histórico, não só pelo tetra e pela primeira presença dos portistas, mas também pelo resultado final, que seria mais uma goleada histórica dos benfiquistas sobre o adversário nortenho, quando nada o faria prever, uma vez que nos dois jogos realizados entre ambos para o Nacional se tinha assistido a vitórias por 2-1 para os visitados.

O Benfica começou o jogo de forma fulgurante, e logo a abrir,  Arsénio e Águas, desperdiçaram boas oportunidades para abrir o activo. Os benfiquistas continuaram ao ataque, nunca desarmando e, Vieira primeiro, e depois Águas, voltaram a falhar. Barrigana , o melhor dos portistas, tentava por todos os meios fazer frente aos de encarnado trajados, mas o ímpeto inicial dos Benfiquistas surpreendeu o adversário, cuja linha média se apagou muito cedo.
De repente, no curto espaço de cinco minutos, surgiram três golos. Aos trinta e quatro minutos, na sequência da marcação de um livre frontal, Joaquim Fernandes,  toca a bola para  Rogério que, com um forte disparo, a faz sobrevoar a barreira portista, só parando no fundo das malhas da baliza defendida por Barrigana. O jornal "Mundo Desportivo" tinha estipulado que ofereceria um relógio de ouro para o jogador que marcasse o primeiro golo do encontro. Rogério recebeu-o e imediatamente o doou para que fosse leiloado e a verba revertesse para as obras do Estádio da Luz que seria inaugurado no ano seguinte. Outros tempos, outro Benfica.
Logo de seguida, nascia o segundo tento.  Águas tocou a bola para Arsénio e este desferiu um violento remate que Barrigana não conseguiria segurar. Na recarga, Arsénio, como uma flecha, fazia a emenda. Estava feito o dois a zero.
Não acomodados com o resultado, os benfiquistas continuavam a pressionar. Aos 39 minutos, após uma combinação de bola de Vieira, Arsénio, Rogério e finalmente Águas, permite a este fazer um potente remate, levando a que o guardião portista defendesse para uma zona perto da entrada da área e o mesmo  Águas dominava acrobaticamente com o pé esquerdo no ar, rematando com o direito com êxito.
Com o resultado em 3-0 atingia-se o descanso.
Contrariamente ao que seria de supor, a falange de apoio portista não deixava de apoiar os seus jogadores mas, o Benfica estava endiabrado.
À passagem do minuto 23, os benfiquistas celebrariam novo golo. A jogada iniciara-se em Rogério, que correu todo o meio campo, servindo Águas que se desmarcava na ala esquerda. Este cruzaria para a direita já na linha de cabeceira e Rosário apareceria para amortecer a bola de cabeça, entregando-a a Arsénio que lhe daria o rumo certo, não perdoando.
Numa tarde imparável e, quando faltava apenas um minuto para o final do encontro, o Benfica voltaria a marcar, novamente por Arsénio, em mais um tento sem hipóteses de defesa para Barrigana.
Apesar dos remates certeiros de Arsénio  a eleição da imprensa desportiva da época para melhor em campo recairia em... Barrigana, guarda-redes portista, que realizara uma exibição classificada de "magistral".
Do lado Benfiquista, apesar dos três golos de Arsénio e de Águas ter sido o melhor marcador da competição com nove golos, a imprensa destacaria o portuense Ângelo como o melhor, não só pela sua eficácia na defesa, como também no precioso auxílio ao ataque.
O "Diário de Notícias", destacaria no dia seguinte mais uma excelente exibição do Benfica e podia ler-se que "a jogar assim, O Benfica seria irresistível para qualquer adversário", até porque o adversário tinha elementos de grande valor, como Barrigana, Virgílio e Carvalho com presenças assíduas na Selecção Nacional.
No culminar do jogo, ouvir-se-iam foguetes e palmas aos vencedores e vencidos. Em conjunto, ambas as equipas dariam a volta de honra, sendo ambos ovacionados como se de dois vencedores se tratasse, isto porque acima de tudo, o conjunto nortenho havia caído de pé.
A titulo de curiosidade, cada jogador benfiquista receberia pela vitória dois mil escudos, num jogo que renderia 400 contos de bilheteira.

Estádio Nacional do Jamor, 28 de Junho de 1953

Benfica: 5
José Bastos, Artur Santos, Joaquim Fernandes, Moreira, Félix, Ângelo, José Rosário, Arsénio Duarte, José Águas, Manuel Vieira e Rogério Carvalho
Marcadores: Rogério Carvalho, Arsénio Duarte (3) e José Águas.
Treinador: Ribeiro dos Reis

FC Porto: 0
Barrigana, Virgílio Mendes, Ângelo Carvalho, Eleutério, Correia, Pinto Vieira, Carlos Duarte, António Teixeira, Monteiro da Costa, José Maria, Carlos Vieira. Treinador: Cândido de Oliveira

Árbitro: Evaristo dos Santos (Setúbal)



VitorFernando

pcssousa parabéns pelo tópico, devem estar aqui muitas horas de trabalho e o minimo que podemos fazer é agradecer por esta lição de história, és um autêntico José Hermano Saraiva do serbenfiquista

pcssousa

Citação de: VitorFernando em 03 de Setembro de 2012, 20:26
pcssousa parabéns pelo tópico, devem estar aqui muitas horas de trabalho e o minimo que podemos fazer é agradecer por esta lição de história, és um autêntico José Hermano Saraiva do serbenfiquista
Obrigado.
Se gostaste passa no tópico do antecessor da Taça de Portugal, o Campeonato de Portugal:
http://serbenfiquista.com/forum/index.php?topic=50945.0

estão cá umas horitas, de facto, principalmente porque tenho que confirmar certos factos que divergem consoante a fonte consultada... ainda gasto um pouco mais a colocar as hiperligações dos jogadores, mas penso que fica bem mehor assim.
Estou a planear continuar com a Taça dos Campeões Europeus, assim que terminar a Taça de Portugal e de seguida as grandes datas da história do clube...


pcssousa

#28
TAÇA DE PORTUGAL 1954/1955




Esta foi uma época memorável para o imaginário benfiquista, tudo mudou, o Benfica, daqui para a frente jamais seria o mesmo...

Em Dezembro era inaugurado o Estádio do Sport Lisboa e Benfica, para sempre conhecido como Estádio da Luz... a 1 de Dezembro, dia histórico que marca a restauração da independência recuperada em 1640, trezentos e catorze anos antes. Estavam lançadas as bases para o futuro... imediatamente se planeou a colocação de torres de iluminação, algo que possibilitaria, poucos anos depois as grandes noites europeias da Luz.
Entretanto, Ferreira Bogalho, já com a inauguração do Estádio, originalmente programada para dia 5 de Outubro, planeada, entendeu que um grande Estádio merecia uma grande equipa, um Benfica esmagador... trouxe então para o clube um jovem treinador brasileiro, formado em direito, que tinha sido jogador de pouco destaque mas que era considerado um treinador revolucionário, campeão carioca com... 31 anos, pasme-se! Isto no Botafogo, já depois de ter pendurado as chuteiras aos 25 anos e começado a carreira de treinador e futebol imediatamente nas camadas jovens do Vasco da Gama... quem diria que um dia, este neto de portugueses, seria o treinador mais ganhador da história do maior clube português... na verdade, ainda hoje o é e, afigura-se difícil que outro atinja as mesmas marcas.
Otto Glória,  seria um nome que jamais os benfiquistas esqueceriam.

Com a sua chegada ao Benfica, tudo mudaria no clube, revolucionaria os métodos de treino, com estes a ocorrerem duas vezes ao dia, de manhã e à tarde e até metodologia científica utiliza, tornando-o em muitos aspectos num clube moderno, ao nível do que de mais avançado havia no Mundo, em certos pontos até mais avançado do que hoje em dia, conforme já explanei e demonstrei inequivocamente noutros posts.
A profissionalização que levou a cabo no futebol benfiquista, coisa inédita em Portugal, assentou em diversos pontos: Criação do Lar do Jogador, implementação de concentrações e estágios, proibiu o próprio presidente de entrar no balneário para falar com os jogadores, introduziu a táctica 4x2x4, já difundida no Brasil, em contraponto com o WM. A nível de apoio médico, nem os cuidados dentários, essenciais para a boa performance desportiva em alta competição e o rápido debelar de lesões, ficaram de fora.
A verdade é que tudo isto levou a perdas no clube... A exigência da dedicação exclusiva ao futebol levou à saída de ídolos como Rogério Carvalho, que saiu de imediato e de Arsénio, no ano seguinte. Este ainda ganharia na CUF a "Bola de Prata".
Mas logo na sua primeira época no clube, o Benfica, que vinha de uma prolongada seca de títulos nacionais, conquista a dobradinha logo na primeira época do brasileiro no Benfica e, hoje, é consensual que o grande Benfica Europeu dos anos 60 começou ali e não seria possível sem Otto Glória.
O campeonato nacional acabaria por ser conquistado, na derradeira jornada. Na Luz o Benfica ganhava confortavelmente ao Atlético por 3-0 e, nas Salésias, o Belenenses recebia o Sporting, precisando de ganhar para garantir aquele que poderia ser o seu segundo título nacional. A quatro minutos do fim, quando já estoiravam os foguetes no campo do Belenenses, João Martins, empatou um jogo dramático, que assim terminou com 2-2, e ofereceu o Campeonato ao Benfica, acabando, segundo se diz, a chorar com os homens de Belém e a imediatamente lhes pedir desculpa.
O primeiro título ganho no Estádio da Luz, novinho em folha, tinha chegado.

Na Taça de Portugal, o Benfica depois do empate caseiro com a CUF por 2-2, deslocou-se ao Barreiro para o jogo de desempate, tendo ganho por 1-5. Nova goleada se seguiria, desta vez na Luz contra o Barreirense e por 5-0. Seguiu-se deslocação a Braga e nova vitória, desta vez por 4-1. De goleada, em goleada, a Académica seria presenteada na Luz com 6 golos sem resposta e nova final era atingida.
O adversário seria, uma vez mais, o rival Sporting.

Sob arbitragem do internacional juiz portuense Vieira da Costa, marcando a primeira vez que um árbitro seria escolhido por sorteio ao invés de por nomeação da Comissão Central de Árbitros, a partida do Jamor juntava os dois últimos conquistadores do troféu. Num estádio que registava a afluência de 50 mil espectadores, com um sol radioso a iluminar a jornada de encerramento de mais uma época, os capitães de equipa, Passos e o Benfiquista Caiado, fizeram a tradicional troca de galhardetes e apresentaram-se para dar início ao encontro (carregar no link).
Com um vento a soprar de forma adversa à realização de um bom espectáculo, o Sporting assumiu o comando do centro do terreno, procurando, a partir desse ponto, construir jogadas de ataque.
Com uma maior rapidez e capacidade de desmarcação, o Benfica ia invertendo a tendência e criando as primeiras jogadas de perigo, com ocasiões perdidas por José Águas. e Arsénio, mas Travassos chegou a ser desarmado por Ângelo, na pequena área, num lance que deixou dúvidas. Pouco depois, forte remate ao poste direito da baliza de Costa Pereira. Logo no começo da 2ª parte, o Sporting adiantou-se no marcador, após combinação entre Mokuna, o "fura-redes" do Congo Belga, e Martins, que este concluiu com um remate cruzado indefensável para Costa Pereira.
O Sporting, com a vantagem no marcador, acabaria por subir de rendimento, mas o Benfica nunca virou a cara à luta e, foram-se libertando dessa fase. Aos 75 minutos, livre de Caiado, centro de Palmeiro, defesa defeituosa de Carlos Gomes e surge Arsénio, que apenas tem que empurrar, de cabeça, para a baliza deserta. Estimulado por este golo, o Benfica, logo volvidos dois minutos, pressiona a defesa sportinguista, ganha constantes ressaltos na grande área adversária, até que a bola sobra para Arsénio, que volta a fazer o gosto ao pé, desta vez num remate à queima-roupa.
Arsénio, bisava naquele que seria o seu último jogo oficial com a camisola do Benfica.
Este resultado não sofreria alterações até ao final, levando o Benfica à conquista do troféu pela 8ª vez e à dobradinha pela 2ª. Caiado erguia o troféu na tribuna, certo de que daria mais brilho ao Benfica na digressão ao Brasil que se aproximava e, onde o Benfica se apresentaria como Campeão e vencedor da Taça de Portugal. 

Costa Pereira e Águas eram homens duplamente felizes. Tinham realizado uma aposta com o dirigente do clube, José Ricardo Domingues, que a fez um pouco para os "espicaçar" ainda mais. Estes apostaram em como ganhariam a Taça e como tal, o dirigente teve que pagar os acordados 500$00 a cada um deles.

Estádio Nacional do Jamor, 12 de Junho de 1955

Benfica: 2
Costa Pereira, Jacinto, Ângelo, Caiado, Artur Santos, AlfredoZézinho, Arsénio, José Águas, Coluna e Palmeiro.
Treinador: Otto Glória
Marcador: Arsénio (2);

Sporting: 1
Carlos Gomes, Caldeira, Galaz, Joaquim Pacheco, Passos, Juca, Sarmento, Travassos, Mokuna, Martins e Albano.
Treinador: Alessandro Scopelli
Marcador: Martins

Árbitro: Vieira da Costa (Porto)

VIDEO DA APRESENTAÇÃO DAS EQUIPAS

MarceloSilva@92

Excelente texto Sousa, essa história do João Martins é deliciosa e já tinha o prazer de a conhecer, acho que li em qualquer lado que tinha sido o pior golo da vida dele e que se fosse agora (na altura em que deu a entrevista) não marcava.

Sabes com que idade é que o Rogério e o Arsénio se despediram do Benfica?