22362 - Tópico: (actualizado) Memorial Benfica, Glórias  (Lida 164260 vezes)

ednilson

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  • 13 de Janeiro de 2008, 21:48
Bem tendo em conta os tempos que estamos a passar, nada melhor que recordar a história que fez do Nosso clube, um clube Glorioso, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica.

Ofereceram-me pelo Natal o livro, Memorial Benfica, 100 Glórias (de João Malheiro)................que vou tentar colocar aqui, neste post na sua totalidade, para que todos a ele tenham acesso e possamos recordar fantásticos homens que envergaram a nossa camisola. Começo por Adolfo.


Adolfo António da Cruz Calisto. Barreiro. 1 de Janeiro de 1944. Defesa
Épocas no Benfica: 9 (66/75). Jogos: 205. Golos: 5. Titulos: 6 (CN) e 3 (TP)
Outros Clubes: Barreirense, Portimonense e Seixal. Internacionalizações: 15.


                                                         Equipa 1967/1968

Pôs o pé no patamar da glória. Wembley foi a janela escolhida. Adolfo, em meteórico ascenso, parecia uma ilha, só que rodeada de craques por todo o lado. Até se mostrou desembruxado. Pior foi aquele prolongamento, mais George Best, aqui-d'el-rei, o Benfica perdeu a Taça dos Campeões, com o Manchester United, no Maio de 68, que era de festa no outro lado da Mancha.

Mais um produto do vivaz do campo de recrutamento do Barreiro. Luta e futebol, o binómio decisivo. Por isso deu Félix, deu Moreira, deu José Augusto, deu Mário João. Daria Chalana. Como deu Adolfo já no Benfica, para a primeira de 9 temporadas.

Dianteiro nas camadas juvenis, começou a ganhar expressão no posto de lateral direito, apenas se fixando no flanco contrário, depois de Cruz ter renunciado. Adolfo entrou a vencer, ele que havia jogado apenas no Barreirense e no Seixal. Na mega equipa de Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões foi uma limpeza. Uma colecção farta de honrarias. Seis campeonatos e três taças de Portugal haveria Adolfo de fazer constar no cardápios da bola.

Era um lateral do jogo moderno. Versátil, subia no corredor sem constrangimentos tácticos. Com ele, como que vingou un novo fundamento no exercicio da função. A linha divisória da intermediária já não estabelecia a diferença que vai da acção defensiva para a exploração atacante. Foi assim com Adolfo. Um revolucionário.

Na selecção nacional defendeu as cores por 15 vezes. Numa altura em que o vermelho pátrio esmagava o verde e quase fazia inexistir outras tonalidades, Adolfo encontrou na Minicopa, em 1972, no Brasil, o espaço de maior notoriedade. Deixou cartel, como cartel deixaria na campanha europeia que culminou nas meias finais da Taça dos Campeões, com o Ajax, na época a única esquadra suceptivel de barrar a excelência do futebol benfiquista. Eram os tempos de José Henrique e Fonseca; de Artur, Malta da Silva, Humberto Coelho, Rui Rodrigues, Messias, Zeca e Adolfo; Vitor Martins, Jaime Graça, Toni e Simões; de Nené, Eusébio, Artur Jorge, Vitor Baptista, Jordão e Diamantino. Mais, bem mais, que uma selecção Nacional. Como diria o eterno Pinhão, aí que saudades, aí, aí!

Adolfo jogou pela derradeira vez no clube a poucas horas de cair o pano daquele histórico 1974. Deixou quinhão, deixou mérito, deixou responsabilidade, numa das melhores gestações de sempre. E assim justificou o Benfica.


Por favor comentem, apenas se tiverem alguma história de algum dos intervenientes...............vão ser 100 Glórias................depois perde-se o fio á meada.
« Última modificação: 21 de Dezembro de 2008, 18:26 por ednilson »

Pedro Neto

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  • 13 de Janeiro de 2008, 22:06
Só para dizer que também tenho o livro mas da versão anterior, com capa preta.
O João Malheiro escreve muito bem.

pcssousa

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  • 14 de Janeiro de 2008, 11:58
Gostava que este tópico ficasse inamovível! é importante fazê-lo para divulgar a história do Benfica!

ednilson

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  • 14 de Janeiro de 2008, 21:53
Alberto Gomes Fonseca Júnior. Bissau. Guiné-Bissau. 28 de Agosto de 1956. Defesa.
Épocas no Benfica: 6 (76/81). Jogos: 123. Golos: 1. Titulos: 1 (CN) e 1 (TP)
Outros Clubes: Belenenses. Internacionalizações: 9.


                                                                                   Equipa 1974/1975

Quando o ex-júnior Alberto começou a ser utilizado pelo inglês John Mortimore, os benfiquistas ficaram apoderados de um sentimento dubitativo. Com 19 anos acabados de fazer, o defesa lateral, de origem guineense, aparecia no território de Artur, Bastos Lopes, Barros e Pietra, todos internacionais e personagens respeitados no tabuleiro da Luz. Coração e pulmão garantiram-lhe um lugar ao sol, cedo se transformando num dos ai-jesus da catedral vermelha.

Naquela segunda metade de 1977, confinou-se a um jogo da Taça de Portugal, em casa, ante o Riopele (3-0), compondo a retaguarda ao lado de Artur, Alhinho e Barros. Já no inicio do novo ano, numa tarde pardacenta de Inverno, estreou-se nas Antas, com a vitória (1-0), sobre o FC Porto, valendo o golo solitário de Chalana, no primeiro jogo para o campeonato. Em crescendo de produção, titularidade garantida, dele ficou importante préstimo na revalidação do titulo nacional (77/78).

Alberto era um puro sangue, uma força da natureza. “Pode jogar, mantendo os mesmos padrões exibicionais, dia sim, dia não; ou até dia sim, dia sim”, garantiu, por essa altura, o então seleccionador nacional, Mário Wilson, no alto da sua cátedra. Impetuoso, sólido a defender, perspicaz a atacar, o jovem africano fazia as delicias dos mais exigentes adeptos e provocava a ira nos mais sectários apoiantes de outros símbolos.

Cedo chegou à equipa nacional. Na trajectória, entretanto frustrada, para o Europeu de 80, marcou mesmo dois golos consecutivos. Na Áustria e em Lisboa, frente à Escócia. Atingiu 9 internacionalizações, numa altura em que se afirmava como melhor lateral-esquerdo da bola indígena. Ainda no Benfica, esteve na espantosa série de 56 jogos sem perder para o campeonato, registo apenas superado pelo Celtic (62), Saint-Gilloise  (60) e Milan (58), na mais que secular história do futebol europeu. Duro, reagiu com sorrisos desportivos a sucessivas catilinárias, sobretudo depois de ter partido uma perna ao já sportinguista Rui Jordão, num lance marcado pelo infortúnio.

De resto, vitima maior ele seria. A 7 de Junho de 1980, abandonou a final do Jamor, que o Benfica arrebataria ao FC Porto, com golo do brasileiro César. Perónio partido ao décimo minuto de jogo, na discussão de um lance com Frasco, cedeu o lugar a Frederico. Pior, muito pior, mergulhou num suplicio. Durante anos, já sem vinculo ao clube, tentou desesperadamente voltar à normalidade. Jogaria ainda no Belenenses, mas longe do fulgor que o havia caracterizado.

Atleta cool no consulado britânico de Mortimore, mais tarde no de Mário Wilson, para trás ficavam 4 temporadas, 123 jogos, um triunfo no Campeonato e outro na Taça de Portugal. Com 24 anos apenas, o Benfica perdeu, de forma imprevista, aquele que se arriscava a ser o melhor dos laterais-esquerdos, pelo menos até ao jubileu do Centenário.
« Última modificação: 22 de Janeiro de 2008, 16:44 por ednilson »

VanBasten

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  • Godinho Lopes... vai para o apre gaitinha!
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  • 14 de Janeiro de 2008, 22:13
Não é nenhuma história, mas tenho a final da Taça 72, em VHS...aquele Adolfo era qualquer coisa de sobrenatural. Sinceramente, nem estou a ver nenhum jogador na actualidade, que possa servir de termo de comparação...
Era um lateral que arrastava consigo, o medio ala e o defesa lateral adversário, nas inumeras incursões ofensivas que realizava. O extremo benfiquista (naquele jogo, Diamantino Costa), servia só como ponto de referencia, para flectir para o meio. Ganhamos 3-2...3 golos de Eusébio.

Corrosivo

  • Eusébio
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  • 15 de Janeiro de 2008, 09:25
Acho que era o Adolfo que diziam que quando chegou ao Benfica era um tosco e o treinador obrigava-o a ficar a seguir aos treinos a treinar cruzamentos e carrinhos. E acabou por ser um dos grandes laterais da nossa história

ednilson

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  • 15 de Janeiro de 2008, 22:08
Alberto João Augusto. Lisboa. 31 de Julho de 1898-1973. Avançado.
Épocas no Benfica: 7 (17/24). Jogos: 39. Golos: 9. Títulos: 2 (Campeonato de Lisboa)
Outros Clubes: Sporting de Braga. Internacionalizações: 4.



Numa hipotética bolsa de apostas, Batatinha seria alcunha atribuível a um artista de circo, decerto palhaço, bem à cabeça das preferências. Já jogador de futebol não entraria, provavelmente, nas cogitações. Mas era mesmo. Pelo menos Alberto Augusto, o Batatinha, vá lá saber-se porquê, o avançado do Benfica, de 1917 a 1924. Dele se recordarão apenas os adeptos de muito provecta idade ou os estudiosos da bola, sobretudo na variante benfiquista.

Nasceu ainda no século XIX, no mesmo ano de Ferreira de Castro, Garcia Lorca ou Serguei Eisenstein. Nasceu mesmo antes do jogo, no que a Portugal diz respeito. Do jogo de futebol, importado da Inglaterra, que só na primeira década do século XX começou a organizar-se. Alberto Augusto vestiu a camisola do Benfica durante sete anos.

Foi na idade-bebé da bola que despontou. Viviam-se os rudimentos do jogo. Mas no bê-á-bá começou a impor-se. De estatura mediana, rezam as crónicas da época que se transformou num avançada empreendedor, versátil. Parecia até antecipar uma nova era.

Alberto João Augusto, de seu nome completo, venceu dois Campeonatos de Lisboa, apontando golos decisivos. As suas qualidades ajudaram a ganhar adeptos para a causa, então embrionária, do futebol e do Benfica. Com o estatuto de intocável, obteve a consagração máxima na primeira convocatória da Selecção Nacional. Acompanhado pelos também benfiquistas Vítor Gonçalves e Ribeiro dos Reis, no longínquo 18 de Dezembro de 1921, defrontou a Espanha, em Madrid, no primeiro jogo internacional de Portugal. Alberto Augusto, o Batatinha, marcou de grande penalidade ao lendário Zamora, mas não evitou o desaire (3-1) da nossa equipa. Ainda nesse jogo histórico, actuou ao lado do irmão, Artur Augusto, do FC Porto, que pouco tempo depois haveria de se transferir para o Benfica. Em mais três ocasiões, Alberto Augusto voltaria a envergar a camisola das quinas, a última das quais já em representação do Sporting de Braga.

Eclético, foi também praticante de atletismo, ainda que não tenha atingido grande expressão nessa modalidade. No Minho, em final de carreira, a jogar chegou na posição de guarda-redes (!), alardeando uma polivalência que, por esses anos, nada tinha de anormal.

Se Vítor Silva (1927-19369) é unanimemente considerado o primeiro grande avançado do Benfica, Alberto Augusto terá sido o mais brilhante e destacado dos seus antecessores. Daí a sua presença, intransferível e singular, no arquivo benfiquista.

ednilson

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  • 16 de Janeiro de 2008, 19:53
Francisco Alves Albino. Tortosendo. 2 de Novembro de 1912-1993. Médio.
Épocas no Benfica: 13 (32/45). Jogos: 343. Golos: 20. Títulos: 6 (Campeonato Nacional), 2 (Campeonato de Lisboa), 1 (Campeonato de Portugal) e 3 (Taça de Portugal). Internacionalizações: 10.


Equipa 1934/1935

Poucos serão já aqueles que nos álbum de memórias encontraram referências a Francisco Alves Albino. E a verdade é que foi um dos maiores baluartes da sempre propalada mística do Benfica. Nasceu em Tortosendo, bem próximo da Serra da Estrela. Foi lisboeta por adopção, benfiquista por paixão, futebolista por opção. Fez a passagem das décadas de 30 e 40, na liderança do meio-campo encarnado. Era um jogador nuclear. Era pau para toda a colher. Era general e soldado. Patrão e operário.

Albino chegou ao clube dos seus afectos por indicação do treinador Artur John. Começou no escalão infantil (hoje, júnior) e passou, sucessivamente, da terceira à segunda e desta à primeira categoria, num trajecto que soube pisar e a pulso subir.

Com o beneplácito de Ribeiro dos Reis, subiu pela primeira vez ao palco principal, a 26 de Dezembro de 1932, num jogo particular, em Braga, no Campo do Raio, com uma selecção da cidade. Não muito mais tarde era campeão de Lisboa.

A época 34/35 constituiu um marco para Albino. Consagrou-se em definitivo. Chegou até à Selecção Nacional para disputar um amistoso com a  Espanha (3-3), no Lumiar. Revelava-se insubstituível no Benfica e na equipa das quinas. Garantiu, esse ano, o primeiro de seis Campeonatos. Ademais, à guisa de reconhecimento, foi eleito Sócio de Mérito e Águia de Prata.

Sempre em competição, prosseguiu na senda vitoriosa, garantindo o estrelato e conferindo ao clube um lugar de primazia no contexto do futebol nacional.

Era conhecido pelo Tempero. Financeiramente desprendido, já que nunca regateou na assinatura de um contrato, nem por isso deixava de pugnar por um prémio de jogo, pequeno que fosse, susceptível de recompensa fazer ao seu esforço e ao dos seus companheiros. “Quando é que vem o tempero?”, foi a frase, amiúde, proferida.

Fez 13 temporadas no Benfica. Disputou 462 jogos, 343 dos quais de carácter oficial. Venceu seis Campeonatos Nacionais, dois Campeonatos de Lisboa, um Campeonato de Portugal e três Taças de Portugal. Dos 17 aos 32 anos, sentiu a águia na camisola. Nunca quis outra.

Atleta extraordinário, avançado no tempo, era até franzino, com pernas que de alicate mais pareciam. Só que era um assombro de personalidade, de carácter, de genica. Albino tinha uma grande auto-estima e contagiava os companheiros, com humildade extrema e até bonomia. Fiel intérprete das mística, reforçá-la soube e transmiti-la melhor ainda. Na sua era, Albino é que era o homem do grito à Benfica.
« Última modificação: 26 de Janeiro de 2008, 09:53 por ednilson »

Bola7

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  • San Sebastian
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  • Perdido no limbo do serbenf
  • 17 de Janeiro de 2008, 16:37
maravilhoso tópico...se a administração for inteligente mete -o como inamovivel no geral...talvez assim as sondagens sobre os jogadores do Benfica deixem de conter os disparates do costume...
Ednilson... :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2:

ednilson

  • Eusébio
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  • 17 de Janeiro de 2008, 19:45
Aldair Nascimentos dos Santos. Ilhéus, Brasil. 30 de Novembro de 1965. Defesa.
Épocas no Benfica: 1 (89/90). Jogos: 33. Golos: 6. Títulos: 1 (Supertaça).
Outros clubes: Flamengo e Roma. Internacionalizações: Brasil.


Equipa 1989/1990

Primeiro, chegou Mozer, um dos melhores do Mundo na sua posição. Depois, Ricardo Gomes, para compor a mais imperial dupla de sempre. Por fim, Aldair, uma promessa de nível internacional. Aos três centrais brasileiros muito ficou a dever o Benfica, nas transição das décadas de 80 e 90.

As insistentes abordagens de algibeira cheia não poderiam deixar os responsáveis benfiquistas indiferentes. Mozer partiu para Marselha, Ricardo foi considerado inegociável. Duo desfeito, baterias apontadas para o inesgotável filão brasileiro. O alvo era Aldair, central do Flamengo, de 24 anos, já internacional canarinho. Apresentou-se ao serviço, consumado o enlace, disposto a mitigar as saudades de Mozer. Sólido e correlativo foi o dueto que então formou com Ricardo, naquela época de 89/90.

Eriksson estava de regresso, após cinco anos de suspiro pela águia, relegando o campeão Toni para técnico adjunto. O Nacional discutia-se a duas vozes. Mais alto cantou o FC Porto, através de quatro pontos à melhor na hora do acerto de contas. A Supertaça Cândido de Oliveira, essa, não escapou, com a devida vénia ao vencido, o Belenenses. A nível internacional, o Benfica, como dois anos atrás, atingiu a final dos Campeões. Para a trajectória imaculada muito contribuiu Aldair, ausente apenas um jogo, por razões clínicas. Que não o da meia-final, com o Marselha, na Luz, esse mesmo da mão de (Deus) Vata.

A 23 de Maio, no Estádio Prater, em Viena, o Benfica repetia a final de 62/63, com o AC Milan. Pela frente tinha a melhor equipa do Mundo a nível de clubes, com os holandeses Gullit, Van Basten, e Rijkaard no topo das carreiras. Aldair e Ricardo estiveram quase insuperáveis, contrariando os tiques ofensivos do antagonista. O jogo foi equilibrado e revelador do receio mútuo das duas formações. Mais feliz, o Milan, por intermédio de Rijkaard coloriu o marcador. De nada valeram as preces de Eusébio na sepultura de Guttmann. A maldição continuava. Aldair não seria campeão da Europa.

Para começo de viagem, o ano apresentava resultados favoráveis. O jogador exibiu-se nas montras principais. Tecnicamente equipado. Tacticamente calçado. Emocionalmente agasalhado. E não era saldo, antes produto de primeira qualidade. Por isso, valeu cerca de um milhão de contos ao Benfica, quando transaccionado para a Roma.

Uma só época jogou Aldair na Luz. Ele que viria, como prova de afeição, a ultrapassar dez anos de permanência na capital italiana. Poderia ter sido assim no Benfica, não ditasse lei o dinheiro. Mas sempre ficou a imagem, a saudade mesmo, de um jogador diletante.
« Última modificação: 22 de Janeiro de 2008, 14:21 por ednilson »

ednilson

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  • 18 de Janeiro de 2008, 19:18
Alfredo Saúl Abrantes Abreu. Lisboa. 19 de Abril de 1929. Médio.
Épocas no Benfica: 6 (54/60). Jogos: 140. Golos: 1. Títulos: 3 (Campeonato Nacional) e 3 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Oriental. Internacionalizações: 1.


Equipa 1954/1955

Tão perfeito e rápido era na execução do desarme que a dúvida persistia. Qual foi o pé utilizado? Ganhou, por isso, alcunha. Três Pés lhe chamaram. Era lisonja. E Alfredo gostava. Nasceu na Lisboa popular, na Lisboa pobre. No Oriental começou a luzir, lá por Marvila. Alfredo era extremo-direito, naquela tendência juvenil para viver mais intimamente ligado ao golo. O Sporting namorou-o. Ainda se treinou de verde, por uma única vez. Agradou, rogaram-lhe que ficasse, usou expediente adequado. O pai não autorizava. Era mentira, era vermelho o coração. Do Benfica.

Já sénior, já defesa, investiram, então, o Belenenses e o FC Porto. Debalde também. Só poderia ser outro, o caminho. Finalmente aberto, pouco depois. A paciência deu lugar à impaciência. Benfiquista de alma, agora também de ficha. Queria apresentar-se ao serviço.

O desvairo iniciou-se em 54/55. Era mesmo para alucinar. Campeonato e Taça no bornal. Com as impressões digitais de Costa Pereira, Jacinto, Artur Santos, Coluna, Caiado, Ângelo, Palmeiro, José Águas, Arsénio. Também já as de Alfredo. Parecia fácil jogar ao lado de campeões. Continuava a destacar-se na leveza com que desarmava os oponentes. Frugal, perseverante, eficaz, ficavam-lhe bem os adjectivos.

Viveu mais quatro anos em alta. Antes do Mundial da Suécia de 58, numa entrevista, considerou “aquele interior do Santos, chamado Pelé, o jogador mais difícil de marcar”. Tinha olho vivo. De José Águas, ainda militava no Oriental, havia dito algo semelhante. Também não se equivocou. Águas, agora, companheiro de equipa ou uma enxaqueca a menos. Com ele, com os outros, ganhou três Campeonatos e três Taças de Portugal. Até ouviu A Portuguesa, inamovível e trajado a rigor, em jogo internacional.

A despedida bem poderia ter sido na temporada de 59/60. Nos arrebaldes de Lisboa, no Jamor, com cartaz de pompa. Era a final da Taça. Pela primeira vez, um Chefe de Estado desceu ao relvado. Cumprimentou Américo Tomás. Poderia também ter cumprimentado uma gigantesca onda vermelha. Seria o adeus em apoteose.

Alfredo prosseguiu mais uma época no Benfica. Tão-só para um jogo fazer. Madrasto, o tempo, já não era o mesmo Três Pés. Mas assim ficou, com justiça, na selecta benfiquista.
« Última modificação: 26 de Janeiro de 2008, 09:55 por ednilson »

ednilson

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  • 19 de Janeiro de 2008, 18:17
Carlos Alexandre Alhinho. São Vicente. Cabo Verde. 10 de Janeiro de 1949. Defesa
Épocas no Benfica: 4 (76/80). Jogos: 90. Golos: 2. Títulos: 2 (Campeonato Nacional) e 2 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros Clubes: Académica, FC Porto, Sporting e Portimonense. Internacionalizações: 15.


Equipa 1978/1979

A meio da década de 70, a cadeia de comando do sector defensivo do Benfica desmoronou-se com a saída de Humberto Coelho. Ainda assim, na ausência do líder carismático (75-77), nem por isso o clube deixou de saborear dois títulos nacionais. Uma escrupulosa colecção de centrais foi a terapêutica em boa hora perfilhada. António Bastos Lopes (também lateral-direito), Eurico, Messias, Alhinho e Barros (também lateral-esquerdo) integraram o plantel naquela temporada de 76/77. A novidade era o internacional de origem cabo-verdiana, então com 27 anos, já campeão nacional pelo Sporting, oriundo do Bétis de Sevilha.

Carlos Alhinho era a experiência acumulada. Dotado de excelente sentido posicional, consistente no jogo aéreo, firme na marcação. Capaz de sair a jogar com autoridade, forte no contexto emocional, logo se tornou um bem-avindo na retaguarda benfiquista. Reencontrou o sucesso com o título de campeão e sucessivas chamadas à equipa nacional. De tal sorte que uma irresgatável proposta do Racing White, da Bélgica, o conduziu a nova aventura, em 77/78, data do regresso apoteótico de Humberto Coelho.

No ano seguinte, então sim, novamente na Luz, contrato assinado por três temporadas, fez dupla com o capitão, seguramente a melhor e mais harmoniosa da época. Em todo o caso, o desenlace não correspondeu ás expectativas, quedando-se o Benfica pela segunda posição, mesmo que a um só ponto do campeão FC Porto. Nessa prova, o triunfo folgado (5-0) sobre o Sporting, com todos os golos obtidos na metade inaugural, constituiu o marco mais saliente da prestação encarnada.

Voltou a penar na temporada seguinte, com o Sporting a impor-se, já João Laranjeira, por coincidência velho companheiro das sagas de Alvalade, engrossava o lote de centrais do Benfica. A final da Taça lenitivo foi, com triunfo arrancado ao FC Porto, graças a um golo solitário do brasileiro César.

O regresso às vitórias estava aprazado para o ano imediato. Com Lajos Baroti, deu Campeonato, deu Taça, deu Supertaça, deu até meias-finais da Taça das Taças. Mas já deu menos Alhinho, inferiorizado por lesões várias e numa idade em que a recuperação se apresentava mais penosa. Adivinhava-se o adeus.

Não desmereceu a passagem pelo clube. Carlos Alhinho, prolongamento da legião africana de futebolistas com generosidade e arte, ajudou, no seu tempo, à criação de sinergias num Benfica em fase de adaptação aos novos tempos.
« Última modificação: 22 de Janeiro de 2008, 14:11 por ednilson »

ednilson

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  • 20 de Janeiro de 2008, 17:54
Álvaro Monteiro Guimarães. Lamego. 3 de Janeiro de 1961. Defesa
Épocas no Benfica: 9 (81/90). Jogos: 263. Golos: 9. Títulos: 4 (Campeonato Nacional) 4 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros Clubes: Cracks de Lamego, Académica, Estrela da Amadora e Leixões. Internacionalizações: 20.



Não deixa de ser intrigante ler o nome do Cracks de Lamego na lista de títulos nacionais de futebol juvenil. Era lá que jogava, ainda menino, o raçudo Álvaro. Está talvez explicado. Como explicado está o sucesso que teve na Académica, já sénior, ao ponto de suscitar a cobiça dos mais prestigiados emblemas desportivos da nossa praça. Ganhou o Benfica a corrida. E ganhou também um jogador modelar. Sério e combativo. Que não era nenhum prodígio. Sabia-o bem. Como sabia até onde poderia ir. Optimizou os seus recursos. Marcou território. E fez história.

Começou a vestir a farda vermelha na época 81/82. Veloso e Pietra tinham, nessa altura, o grosso das despesas defensivas nas laterais. Tarefa assaz difícil, a de Álvaro, perante dois companheiros tão experimentados. Nos dois primeiros anos, jogou de forma algo descontinua, mas raramente deixava de integrar as convocatórias. Sempre paciente e abnegado.

Em 83/84, protagonizou a sua mais sensacional temporada. Foi o único totalista da equipa nos jogos do Nacional, que o Benfica ganhou de forma categórica. A asa canhota, com Álvaro e Chalana, aos adversários não dava nunca sinais de misericórdia. Era um Benfica à esquerda, um pouco coxo até, tão grande era o pesos dos dois jogadores no edifício táctico. Assim foi também na Selecção Nacional, no Europeu de França, desse mesmo ano. À boleia de Chalana, mas com muito mérito pessoal, Álvaro colheu a preferência de muitos jornalistas internacionais que o reputaram como sendo o melhor lateral-esquerdo do Velho Continente.

Manteve-se no auge até ao final de 1988. De permeio, jogou o Mundial do México, no flanco dextro da cortina defensiva, relegando o portista João Pinto para o banco de suplentes. No Benfica foi campeão nacional quatro vezes, conquistou outras tantas Taças de Portugal e uma Supertaça Cândido de Oliveira.

Anos mais tarde, como treinador adjunto, marcou a retoma alvi-rubra, com a Taça (2003/2004, ao lado de Camacho) e o Nacional (2004/2005, junto a Trapattoni).

Para além da final da Taça UEFA, disputou o embate decisivo dos Campeões, em 1988, frente ao PSV, mas já não marcaria presença, dois anos depois, na discussão do título europeu com o Milan. Foi quando Eriksson optou pelo defesa central Samuel, colocando-o à canhota, com Álvaro, Fernando Mendes e Fonseca, todos defesas esquerdos, no plantel. “Não ter jogado essa partida foi um dos momentos mais tristes da minha carreira”, reconhece.

Despediu-se no termo da época 89/90, com o Belenenses, no Estádio da Luz. Dele ficaram vestígios, mais de uma década depois reforçados, do seu amor à camisola.

ednilson

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  • 21 de Janeiro de 2008, 22:05
Álvaro Gaspar. Lisboa. 10 de Maio de 1889-1915. Avançado
Épocas no Benfica: 3 (11/14). Jogos: 16. Golos: 18. Títulos: 3 (Campeonato de Lisboa).



Plantel Época 1911/1912

Rezam as crónicas que no primeiro de Janeiro de 1905, o então Sport Lisboa disputou o jogo inaugural de uma caminhada que talvez ninguém vaticinasse no mínimo centenária. Foi frente ao Campo de Ourique, nas Salésias (em Belém), com triunfo 1-0. Já depois da fusão (13 de Setembro de 1908) com o Grupo Sport Benfica, mais tarde Sport Clube de Benfica, da qual resultou o actual Sport Lisboa e Benfica, o Campeonato de Lisboa era a prova dominante. Assim, foi até quase à década de 30.

A temporada de 1913/1914, no inicio da I Guerra Mundial, ficou na história do novel clube. O Benfica venceu a edição em todas as categorias, quatro eram. Fez o pleno. Ainda que grosseira a comparação, seria um tanto como na actualidade garantir a conquista, no mesmo ano, dos Nacionais de infantis, iniciados, juvenis, juniores e seniores.

Nesse longínquo 1914, um jogador sobressaiu aos demais. Álvaro Gaspar era o seu nome. De alcunha Chacha, avançado de posição. Com Paiva Simões, Homem de Figueiredo, Henrique Costa, Cosme Damião e Artur José Pereira, todos integrantes da Selecção de Lisboa que, um anos antes, havia digressionado pelo Brasil. Viviam-se tempos de futebol casto. Insipiente.

Álvaro Gaspar actuou três anos com o emblema do Benfica. Outras tantas vezes venceu o Campeonato de Lisboa. Reputavam-no executante fantástico, já tecnicamente perfumado, com sentido de organização, temível a finalizar. Havia ingressado nas fileiras do clube pouco depois da fundação. Assistiu apenas ao primeiro desafio oficial, a 4 de Novembro de 1906, frente ao Carcavelos, a melhor equipa do ano, com derrota por 3-1. Ele que se iniciou no patamar inferior, na terceira categoria, sempre em espiral, até à turma de honra.

Em Março de 1913, relatos na época mencionam que aos ombros havia sido levado, até aos balneários pelos componentes de uma equipa inglesa, o New Cruzaders, maravilhados com os seus atributos de índole técnica. Numa espécie de paleolítico superior, naqueles pré-história do futebol aborígene, o Chacha parecia de outro estádio de desenvolvimento. A  melhor exibição, pelo menos a mais produtiva, realizou-a em Dezembro de 1913. O Benfica aturdiu (9-0) o Cruz Quebrada, com cinco golos de Álvaro Gaspar. Sempre na presença do tutor Cosme Damião, lenda benfiquista, fundador, jogador, técnico, dirigente.  Aquele que “fez do Benfica o maior clube português”, segundo o mestre Cândido de Oliveira.

Álvaro Gaspar contribuiu, embrionariamente, para o estatuto singular e não menos invejável do clube. Com aura popular. Ainda na casa dos 20 anos, adoeceu e deixou de jogar. Mesmo desaconselhado pelos médicos, não perdia pitada dos jogos da sua equipa de afeição. Minado pelo infortúnio, morreu a 3 de Setembro de 1915, foi sepultado no cemitério da Ajuda. Uma bandeira do Benfica cobriu-lhe o caixão, tal como havia pedido a Ribeiro dos Reis. Era a bandeira do futuro.
« Última modificação: 21 de Janeiro de 2008, 22:30 por ednilson »

LuigiSLB83

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ednilson Não tenho palavras

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Administração do Forum, de que é que estão à espera para colocar no Inamovível? :tickedoff: