22362 - Tópico: (actualizado) Memorial Benfica, Glórias  (Lida 166063 vezes)

ednilson

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  • 02 de Março de 2008, 16:48
José Augusto Pinto de Almeida. Barreiro. 13 de Abril de 1937. Avançado.
Épocas no Benfica: 11 (59/70). Jogos: 369. Golos: 174. Títulos: 8 (Campeonato Nacional), 3 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: Barreirense. Internacionalizações: 45. Treinador do Benfica em 1969/1970. Títulos (conquistou uma Taça de Portugal).




Equipa 1960/1961

A finta foi a melhor concepção da arte fecunda e sempre harmoniosa de José Augusto. Com uma leveza inimitável, cedo lhe chamaram o “Garrincha português”, rendido se confessava aquele jornalista parisiense do “L’Équipe”, Grabriel Hanot. Marcá-lo em cima constituía humilhação ou suicídio; marcá-lo à zona era requinte que caro se pagava. Ele que até sempre foi considerado medroso. “Essa é a ideia que se faz de um jogador estilista, que tem na técnica a sua principal arma; eu era assim – rápido, versátil e, para além disso, com grande inteligência de jogo” ou José Augusto numa síntese autobiográfica.

Imitar o pai constituiu, obstinação de infância do jovem nascido no desigual Barreiro, alfobre de tantos artífices da bola. Também o era Alexandre Almeida e mais seria se o impiedoso destino não lhe tivesse roubado a vida. Antes, porém, “o meu pai, quando soube que eu despertara para o futebol, ficou satisfeito. Nunca me proibiu de jogar. Tinha sempre um sorriso afável, um sorriso de pai, desejando ver o filho tornar-se um ídolo. Se calhar, ele sentia que já não poderia sê-lo”.

Com apenas 10 anos, José Augusto fez subir o pano, começando a frequentar o parque do jogos do Barreirense, sob a liderança de Armando Ferreira. Basquetebol jogaria também, revelava polivalência. Mais tarde, fizeram-lhe um ultimato e optou pelo futebol com carácter de exclusividade. Na posição de avançado-centro, foi chamado, por José do Carmo, para a turma nacional de juniores, que disputou o Torneio Internacional da UEFA da categoria, em terras transalpinas. No começo da temporada de 54/55, ainda no comando de ataque, catapultou-se à equipa principal, marcando presença frente ao Torreense, nas festa de Eduardo Reis. “Os que recordavam o meu pai disseram que o filho do Alexandre Almeida tinha honrado o seu nome”. Apenas um mês passado, o Barreirense acolheu o Sporting, era o compatrício Carlos Gomes titular da baliza verde-branca. Dois golos marcou José Augusto, melhor, três golos, que um foi escandalosamente anulado pelo árbitro, na sofrida vitória 3-2 (leonina). Mas nem por isso causou estorvo a que fosse lançado à ribalta o jovem executante. Mil contos pediram, então, pela sua carta. Era um coro de insistência, interpretado por Benfica, Sporting e FC Porto, pretextando José Augusto, que os outros emblemas, esses, cedo entenderam que ali não estava galo para as suas capoeiras.



Num dia quente de Agosto, mala na mão, estava na estação ferroviária de Santa Apolónia, com destino ao Porto. Eis que aparece, in extremis, Manuel da Luz Afonso, responsável máximo pelo futebol benfiquista. Ali, naquele momento, a orquestra vermelha haveria de ganhar um dos seus mais afamados solistas. Na cerimónia de apresentação, marcada para 25 de Agosto de 1959, receberia 130 contos, enquanto o Barreirense, que tinha caído à II Divisão, se contentava com 350. “Nessa altura, sempre pensei que só não iria para o Benfica caso o clube não me pretendesse contratar”. Afinal, era muito um caso de amor…

Uma semana depois, vestia pela primeira vez a camisola garrida, frente ao Oviedo (1-0), cuja baliza era ocupada pelo sempre presente Carlos Gomes, entretanto transferido para Espanha. E não muito mais tarde, na segunda ronda do Nacional, logo frente ao Sporting, marcaria o primeiro golo ao serviço do Benfica, num delicioso apontamento de calcanhar.

Na Luz, o extremo-direito José Augusto conquistou tudo o que havia para conquistar. Foram Campeonatos (oito), Taças (três), títulos europeus (dois). Foram mais honrarias. Foram gabos, muitos gabos. Foram 369 jogos e 174 golos. Foram 11 épocas magnéticas.


Na final da Taça dos Campeões, frente ao Manchester United, com o número 8.

Magnifica rota protagonizou também na equipa das quinas. Foi 45 vezes internacional, durante uma década, sublinhando com três golos o contributo à epopeia do Mundial de 66. Conhecido em toda a Europa ou não fosse ele o único benfiquista, a par de Coluna e Cruz, a disputar cinco finais do Campeões, envergou por isso a camisola da FIFA. A 20 de Maio de 1964, em Copenhaga, nas comemorações das Bodas de Diamante da Federação Dinamarquesa; no mesmo ano, a 23 de Setembro, em Belgrado, numa partida de solidariedade para com as vitimas do terramoto de Skopje, com um golo apontado.



Quando abandonou a carreira de futebolista, ingressou no quadro técnico do Benfica. Mais tarde, substituiu o lendário Otto Glória, a tempo de vencer a Taça de Portugal, versão 69/70. Seleccionador nacional seria, por ocasião ma Minicopa, no Brasil, momento de elevada significância para o futebol nacional, através da conquista do segundo lugar na prova.

Actualmente, José Augusto é uma das glórias do clube com mais visitas às Casas do Benfica. São os seus outros jogos. Aos quais empresta também generosidade, classe e prestígio.
« Última modificação: 02 de Março de 2008, 16:52 por ednilson »

Mestre

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  • 02 de Março de 2008, 17:12
Em dia de derby, e depois de uma semana bem complicada, não podia deixar passar a visita ao melhor tópico deste forum.

Mais uma vez, revi jogadores de que me lembro e outros de quem ouvi falar, numa sucessão de memórias que me entristecem o actual dia a dia do Glorioso.

Parabéns Ednilson, por manteres a chama acesa.

ednilson

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  • 03 de Março de 2008, 21:28
José Henrique Marques. Arrentela. 18 de Maio de 1943. Guarda-redes.
Épocas no Benfica: 12 (66/77 e 78/79). Jogos: 298. Títulos: 8 (Campeonato Nacional) e 3 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Arrentela e Atlético. Internacionalizações: 15.




Plantel 1968/1969

Se, na Margem Sul do Tejo, o alfobre Barreiro ganhou destaque ao conduzir farto contingente de jogadores para o Benfica, há também os exemplos da Moita, do Montijo e de Almada. Na mesma faixa geográfica, do Seixal, da popular Arrentela, haveria de chegar à Luz, pouco depois da gesta dos Magriços, um guarda-redes de nome José Henrique, que no Atlético Clube de Portugal tinha demonstrado surpreendente vocação. Cedo passou a Zé Gato, cuja significância andará muito perto de adjectivações como felino, ágil ou veloz. Ou talvez todas elas.

Viviam-se tempos de incerteza na baliza do Benfica. O melhor guarda-redes até então, Costa Pereira, estava no ocaso da carreira. Nascimento fez, durante alguns meses, a transição. José Henrique, por seu turno, não demorou a conquistar a confiança e logo partiu para uma duradoura etapa com o estatuto de intocável. Era já o dono das redes, quando participou na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em Londres, frente ao Manchester United. No prolongamento, coincidindo com o sobressalto benfiquista, sofreu três golos, mas nem por isso deixaria de seduzir a exigente imprensa britânica.

Em Portugal, rivalizava com Vítor Damas. O sportinguista era mais elegante, mais bonito a defender, dir-se-ia. Mais José Henrique revelou-se mais eficaz. E desalojou o seu concorrente da equipa nacional, cumprindo 15 chamadas, 14 das quais consecutivas, sendo de evidenciar a presença na Minicopa. Batido apenas foi a cinco minutos do final, por Jairzinho, no triunfo do Brasil sobre Portugal, com o superlotado Maracanã em desespero, perante a forma como se apunha ao ataque dos então campeões mundiais.


José Henrique corre na direcção da baliza, na tentativa de parar
 o remate de George Best, na final de 1968 frente ao Manchester United.


Eram os tempos da hegemonia absoluta do Benfica intramuros. Em 11 anos, venceu oito Campeonatos e três Taças de Portugal, chegando quase às três centenas de partidas oficiais. Nos últimos anos, teve Bento a morder-lhe os calcanhares. Não se acabrunhou, resistindo na fase inicial, mas acabando por ceder a defesa da baliza ao seu companheiro e amigo.

No Verão de 79, o Benfica prestou-lhe uma justa homenagem. De resto, ao serviço do clube se tem mantido, desenvolvendo trabalho muito apreciado no futebol juvenil. Por ele têm passado várias promessas e algumas certezas, como o caso de Moreira.

José Henrique foi sempre a imagem estampada da simplicidade. Parece que nunca soube quem foi, o que fez, quanto fez. Sabem-no, seguramente, os adeptos do Benfica.

Bola7

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  • 04 de Março de 2008, 16:23
Zé Gato :metal:

ednilson

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  • 04 de Março de 2008, 20:18
José Luís Lopes Costa e Silva. Lisboa. 17 de Maio de 1958. Médio.
Épocas no Benfica: 10 (76/78 e 79/87). Jogos: 227. Golos: 20. Títulos: 5 (Campeonato Nacional), 6 (Taça de Portugal) e 2 (Supertaça).
Outros clubes: Marítimo e Ovarense. Internacionalizações: 4.




Equipa 1984/1985

Vivia-se já a era pós-Eusébio, Simões ou Jaime Graça. Mesmo assim tempo ainda em que o Benfica se arriscava a ser campeão, como havia sentenciado, com sentido profético, um antes, o treinador Mário Wilson. Na pré-época de 76/77, o britânico John Mortimore assumiu o comando técnico, apregoando a conquista do tricampeonato como objectivo.

O jovem José Luís, recém-promovido a sénior, com apenas 18 anos, fazia parte dos planos, depois de ser ter revelado nos patamares inferiores do clube. Ao lado do já genial Chalana, um ano mais novo, e do africano Alberto, lateral-esquerdo em ascensão, aí estava um trio disposto a dar substância à renovação da principal equipa benfiquista.

Para José Luís, a estreia, em Setúbal, ante o Vitória local, até nem correu bem. Era mesmo o quarto desaire nos cinco primeiros jogos do Nacional, versão 76/77. O Sporting foi soberano na primeira volta, orientado pelo bem conhecido Jimmy Hagan. Só que a recuperação do Benfica foi ganhando contornos de coisa séria e, muito antes do final da prova, fácil era divisar o campeão. Abria-se a colectânea de sucessos do promissor atleta.

Ao longo de dez temporadas consecutivas, José Luís arrebatou 13 títulos, distribuídos por cinco Campeonatos, seis Taças e duas Supertaças, justificando por quatro vezes a chamada à equipa nacional. Era uma espécie de jogador silencioso, que colocava a sua arte ao serviço do colectivo. Governava a direita ofensiva com imaginação e criatividade. Precioso no drible, seguro no passe, cirúrgico no centro. Era também um extremo sentinela, preocupado com o ataque antagonista.

Durante uma década não deixou de aperfeiçoar os seus predicados e minorar as suas insuficiências. Ultrapassou a marca dos 200 jogos na categoria de honra, não obstante a forte concorrência para o seu lugar. Carlos Manuel e Diamantino, sobretudo esses excelentes executantes, nunca lhe deram tréguas.

A 31 de Maio de 1987, despediu-se, ironicamente, com John Mortimore sentado no banco, o mesmo técnico que dez anos atrás o havia lançado à ribalta.

De José Luís ficou o perfume de um futebol inspirado, objectivo, cristalino. Com uma dedicatória aos escalões de formação do Benfica. Cresceu na casa onde nasceu, deu-lhe mais beleza e não menos encómios.
« Última modificação: 04 de Março de 2008, 20:21 por ednilson »

JoMi¹¹

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  • Glorioso só há um! O Benfica e mais nenhum!
  • 04 de Março de 2008, 21:45
Este barreiro... é uma maravilha, ou foi, em tempos.

Parabens Ad, excelente topico O0

Mestre

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  • 05 de Março de 2008, 16:37
O grande Zé Gato e o José Luis. Do primeiro guardo as histórias que o meu pai me conta, de um guarda redes não muito alto mas extremamente eficaz, ao estilo do que vimos depois com Bento e, num Benfica recente, com Moreira.

O José Luis lembro-me da 2ª fase dele, um jogador disciplinado e tácticamente exemplar. O tempos dos operários e dos artistas, onde alguns trabalhavam para o Chalana brilhar. Não sendo espectacular foi muito regular e consistente durante a sua estadia no Glorioso.

ednilson

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  • 05 de Março de 2008, 22:05
Júlio Correia da Silva. Ramalde. 1 de Dezembro de 1919. Avançado.
Épocas no Benfica: 10 (42/51 e 52/53). Jogos: 200. Golos: 199. Títulos: 1 (Taça Latina), 3 (Campeonato Nacional) e 6 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Boavista, Académico do Porto, Coruchense, Benfica Castelo Branco e Marinhense. Internacionalizações: 1.




Equipa 1944/1945

O golo de Julinho, no segundo prolongamento da Taça Latina, em 1950, merece ser elencado no topo da hierarquia das glórias benfiquistas. Afinal, garantiu o primeiro grande triunfo internacional de uma equipa portuguesa, na altura em que parecia ser de anos-luz a nossa distância relativamente ao que de melhor se fazia na Europa.

Júlio Correia da Silva nasceu em Ramalde, no Porto, a 1 de Dezembro de 1919. A sua afabilidade valeu-lhe, desde cedo, o diminutivo de Julinho. Começou no Boavista. Clube que representou durante seis temporadas, no termo das quais passou a exibir os seus dotes no Académico. Era um goleador inveterado.

Ao cabo de duas épocas, mudou-se para o Benfica. Recebeu dez contos, enquanto o grémio nortenho foi premiado com 24 notas de mil. À época, a transacção pareceu elevada, ainda que o FC Porto até se tenha disponibilizado para gastar o dobro. Para não variar, o conhecido Necas Maneta, espinha cravada na garganta dos portistas, ele que já havia desviado Francisco Ferreira para o Benfica.

No gozo da indumentária rubra, Julinho integrou a famosa linha ofensiva, conhecida pelos cinco Diabos Vermelhos, ao lado de Mário Rui, Arsénio, Espírito Santo e Rogério.



Logo na estreia, o Benfica garantiu o seu primeiro duplo da história, com o novo recruta a situar-se no cimo da lista dos melhores marcadores, mercê do registo de 24 golos em 16 jogos. A façanha viria a ser reeditada, em 1950, ano da conquista da Taça Latina.

Julinho tinha na grande área o curto território das suas batalhas, ás quais emprestava raro sentido de orientação pelos ainda mais estreitos atalhos. Era perito a desviar as sentinelas e a desferir o golpe fatal. Sempre intrépido e persuasivo, conquistou três Nacionais e seis Taças de Portugal, chegando à Selecção, numa altura em que a concorrência feroz era na sua posição. Chegou a ser melhor goleador de sempre do Benfica. Hoje, meio século após se ter despedido da competição, ainda figura no top ten, creditado na sétima posição. Facturou 272 vezes nos 269 jogos oficias e particulares em que interveio.

Cumprimentou a massa simpatizante do Benfica pela derradeira vez, no Dia de Portugal do ano de 1953. Os aplausos ainda parece que se ouvem, tal como se vêem os seus golos. É que Julinho perdura no horizonte vermelho.
« Última modificação: 06 de Março de 2008, 10:38 por ednilson »

ednilson

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  • 07 de Março de 2008, 21:20
Mats Ture Magnusson. Helsingborg, Suécia. 10 de Julho de 1963. Avançado.
Épocas no Benfica: 5 (87/92). Jogos: 164. Golos: 87. Títulos: 2 (Campeonato Nacional) e 1 (Supertaça).
Outros clubes: Malmoe e Helsingborg. Internacionalizações: Suécia.




Plantel 1988/1989

Por mais que o arquétipo nórdico, alto e louro, sugira tosco em futebolês, numa teimosia latina, Mats Magnusson, nos cinco anos em que defendeu o reino da águia, provou que os recursos técnicos não têm fronteiras. É provável que um dos seus antecessores, o dinamarquês Manniche, tenha criado essa imagem, por oposição, na época, à subtileza de Nené ou à elegância de Filipovic. Companheiro de muitas fainas, Shéu sentencia que Magnusson “tinha até um toque alatinado”.

O internacional sueco chegou à capital na época de 87/88, por fiança de Ebbe Skovdahl, treinador que não aqueceu o lugar, réplica infeliz de Eriksson foi. Ao debutar no troféu Teresa Herrera, na Corunha, onde se exibiu em plano de evidência. Magnusson passou a ser utilizado de forma frequente ao lado de Rui Águas, no comando de ataque. Essa época ficou marcada pela presença na final da Taça do Campeões. O nórdico jogou a titular, lutou abnegadamente com Ronald Koeman e Nielsen, centrais do PSV, mas o pontapé do suicídio involuntário de Veloso roubou-lhe a máxima consagração.



Dois anos depois, nova corrida aos Campeões. Costacurta e Baresi tiveram de se aplicar a fundo. Só que a desventura, uma vez mais, aconteceu. Nessa temporada, Magnusson foi o melhor marcador do Campeonato Nacional, com um registo de 33 golos em 32 jogos. Havia caído no goto dos adeptos, que apreciavam a sua relação amor/ódio com a baliza. Tinha cultura competitiva. Critério de jogo. Raça e harmonia. Contemporâneo de Rui Águas, Diamantino, Chiquinho, César Brito, Vata, Lima, Izaías e Yuran, jamais se intimidou. Soube cativar o seu posto no eixo de ataque.



Conquistou dois Campeonatos Nacionais e uma Supertaça, numa época em que o Benfica dava indícios de quebra a nível doméstico, mas de regresso, por paradoxal que parecesse, aos grandes palcos do mais velho dos continentes. A 17 de Maio de 1992, perante o olhar atento do compatriota Eriksson, na Luz, frente ao Salgueiros, vestiu conclusivamente a camisola do Benfica.

De então para cá, ainda que radicado na Suécia, acumulam-se as visitas ao ninho da águia. Porque, afinal, amor há que sempre dure. É assim com Magnusson, membro honorário da associação de goleadores do Benfica.
« Última modificação: 07 de Março de 2008, 23:41 por ednilson »

Mestre

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  • 08 de Março de 2008, 11:18
Grande Mats. Dele guardo a imagem de um almoço na cervejaria Edmundo (estava na mesa ao lado da minha) em que mandou abaixo uma duzia de sardinhas assadas num ápice, sempre bem disposto com os empregados e a responder a toda a gente que lhe falava.

O osso triunvirato sueco foi do melhor que vi na Luz, um mixto de força, garra e técnica que nos deu bastantes alegrias.

Dandy

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  • "Temos a melhor equipa dos últimos 15 anos... espero que não tenhamos a melhor equipa dos próximos 15 anos", Júlio Machado Vaz, na "RTP-N", após a vitória na final da Taça da Liga, por 3-0, sobre o Porto, a 21 de Março de 2010.
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  • 08 de Março de 2008, 15:06
Grande Mats. Dele guardo a imagem de um almoço na cervejaria Edmundo (estava na mesa ao lado da minha) em que mandou abaixo uma duzia de sardinhas assadas num ápice, sempre bem disposto com os empregados e a responder a toda a gente que lhe falava.

O osso triunvirato sueco foi do melhor que vi na Luz, um mixto de força, garra e técnica que nos deu bastantes alegrias.


   Mais do que triunvirato falaria, antes, em "Quarteto de Luxo". Pois tanto Mats Magnusson, como Glenn Stromberg, como Stefan Schwarz...como Jonas Thern...eram atletas de um muito refinado e requintado nível.

   Com lugar indiscutível, qualquer um, no plantel actual.


 

ednilson

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  • 08 de Março de 2008, 18:59
Amândio José Malta da Silva. Benguela, Angola. 19 de Fevereiro de 1943. Defesa.
Épocas no Benfica: 11 (64/65 e 66/76). Jogos: 193. Golos: 1. Títulos: 7 (Campeonato Nacional) e 2 (Taça de Portugal).
Internacionalizações: 5.




Equipa 1969/1970

Procedente de Benguela, a 26 de Setembro de 1963, com 20 anos feitos, desembarcou em Lisboa, capital da então Metrópole, um jovem considerado promitente, Malta da Silva de seu nome. Em Angola, havia jogado futebol e basquetebol, no Portugal de Benguela, clube da cega predilecção do seu pai. Descoberto por olheiros do Benfica, de pronto recebeu guia de marcha.

Os primeiros anos, na mítica década de 60, não foram pêra doce. A competição pelos lugares ao sol de frívola nada tinha e, por essa altura, a experiência era mesmo a mãe de todas as coisas. O tirocínio parecia infinitamente prolongado, épocas a fio durou. Malta da Silva não esmoreceu. Afina, como reza o provérbio macua, o galo não canta sem amanhecer. E só na temporada de 70/71 se fez dia.

Vivia-se o inicio do consulado Hagan, germinava a equipa-maravilha. Malta da Silva, a lateral-direito e já não central, integrou a primeira convocatória. Passou a ser recorrente. Enterrados estavam os tempos de ansiedade recalcada, um jogador fino no trato da bola passava a vingar. Era resoluto e sacrificado. Era vistoso e dinâmico. Com Artur e Adolfo compunha o trio dos melhores laterais portugueses. Os três no Benfica, a emulação era constante.



Jogou até 76/77, completando 11 épocas na Luz. Participou em sete vitórias no Campeonato e em duas na Taça de Portugal. Com naturalidade, não deixou de emprestar os seus créditos à Selecção. Foi com Jimmy Hagan que atingiu maior notoriedade, talvez na altura em que o lote de jogadores do Benfica tenha sido o mais extraordinário de todo o historial centenário.

“Gostaria de ter sido campeão europeu”, confessa. Quem não gostava? Mas na época 71/72, esteve próximo desse desiderato, só que o Ajax levou a melhor numas semifinais pautadas até pelo equilíbrio. “Quando ao mais, penso que cumpri”. Cumpriu mesmo.

Há muitos anos que Malta da Silva acompanha o futebol à distância, ele que até vive quase paredes meias com o Estádio da Luz. Foi um ciclo que se fechou com tampa pesada. Sobra a recordação de um jogador que amou o Benfica e que, em campo, deu muitas e variadas expressões a esse afecto.
« Última modificação: 08 de Março de 2008, 19:10 por ednilson »

ednilson

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  • 09 de Março de 2008, 20:56
Michael Manniche. Copenhaga, Dinamarca. 17 de Julho de 1959. Avançado.
Épocas no Benfica: 4 (83/87). Jogos: 132. Golos: 77. Títulos: 2 (Campeonato Nacional), 3 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
Outros clubes: Hvidovre e BK 1903/Copenhaga. Internacionalizações: Dinamarca.




Equipa 1984/1985

A estética na estava no centro das suas preocupações. Tinha mais coisas com que se entreter. Desde logo, gozar a satisfação do dever cumprido, sempre numa onda altruísta. O dinamarquês Manniche até poderia não ter sido jogador de futebol, longe estava da imagem de precógnito. Juntou laboratório e querer. Deu ponta-de-lança. Daqueles que antes quebrar que perder.

Ingressou no clube na época 83/84. Especialistas na linguagem do golo, por essa altura, eram Nené, Diamantino e Filipovic, ou seja, oportunidade, versatilidade e elegância. Combativo, Manniche introduziu um novo conceito no jogo ofensivo encarnado. Era uma outra valência, que até chegou a fazer escola em diferentes paragens.

Tendo Eriksson na chefia do grupo, de pronto ofuscou Filipovic, alternando com Nené e Diamantino no onze inicial. Em campos pequenos, pelados até, perante defensivas vigorosas, Manniche era um utilitário. Noutras arenas também. Jogava pelo espaço contra o tempo. Derrubava as sentinelas contrárias, parecendo estender a passadeira vermelha, que outros percorriam em momentos de glória. Era como dar sangue ao talento alheio. Em prol da equipa.



Manniche foi, também ele, um goleador. Durante quatro temporadas, desferiu 77 remates vitoriosos, ao cabo de 132 jogos. Venceu dois Campeonatos, três Taças e uma Supertaça. Nas épocas de 84/85 e 85/86 foi mesmo o melhor marcador da equipa, já com Rui Águas e César Brito em actividade. A experiência atingida no Benfica conduziu-o à forte selecção dinamarquesa, na antecâmara do titulo europeu. Ele que esteve, com Stromberg, na génese da importação nórdica do Glorioso. Seguira-se Magnusson, Thern e Schwarz. Mais tarde, Pringle e Andersson.

Tosco talvez não chegasse a vitupério. Marimbou-se Manniche. Corajoso, valente, esforçado, assim adjectivava o seu jogo, sem ponta de narcisismo. E com substantiva saúde. Assunto arrumado, ganhou o Benfica.
« Última modificação: 09 de Março de 2008, 21:02 por ednilson »

Preacher

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  • 09 de Março de 2008, 21:05
BENFICA

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  • 09 de Março de 2008, 21:39
Manniche, o mesmo que dizia n'A Bola "ao terceiro toque a bola foge-me".

Um colosso no ataque, trabalhador como poucos e ingloriamente alcunhado de tosco. Deu muito ao Benfica e foi dos que deixou saudades.

@Dandy

Stromberg foi outro grande profissional nórdico, quando te falava de triunvirato foi porque actuaram os três na mesma altura. Mas os 4 que referiste e o Maniche foram do melhor que conseguimos importar.