22362 - Tópico: (actualizado) Memorial Benfica, Glórias  (Lida 166730 vezes)

ednilson

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  • 04 de Fevereiro de 2008, 20:34
Domiciano Borrocal Cavém. Vila Real de Santo António. 21 de Dezembro de 1932 – 12 de Janeiro de 2005. Avançado, médio e defesa.
Épocas no Benfica: 14 (55/69). Jogos: 416. Golos: 103.
Títulos: 2 (Taça dos Campeões), 9 (Campeonato Nacional) e 5 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Celeiro, Lusitano de Vila Real de Santo António e Covilhã. Internacionalizações: 18.




Equipa 1961/1962

Ainda não estava sequer matriculado na escola primária, quando Cavem descobriu, na singela casa da família, em Vila Real de Santo António, um retrato do pai, equipado à futebolista, com uma pose de tal ordem que o puto ficou fascinado. Na génese da paixão, como tantos outros, logo se dedicou ao muda-aos-cinco-acaba-aos-dez, afigurando-se jogador de futebol.

Norberto Cavém, assim se chamava o procriador, havia defendido os emblemas do Lusitano de Vila Real e do Olhanense, com nota acima do suficiente. Ao ponto de chegar a treinar-se no Benfica. Na capital só não ficou porque ao bucólico chamariz da terra irresistiu. De vermelho vestiria, mais tarde, o filho Domiciano, enquanto o primogénito Amílcar, no Sporting da Covilhã, assinaria também trabalho meritório.

Cavém era pouco dado ao universo dos livros. Aos 14 anos, aprovado no exame da quarta classe e já a bulir nos estaleiros navais, inscreveu-se no Celeiros. Nome bizarro esse, o do pequeno clube que arraiais assentou num espaço contíguo à estação de caminhos-de-ferro, mesmo ao pé dos armazéns de cereais. Está percebido.

Logo chamado pelo pai, quando começou a treinar o Lusitano, cujo quadro registava a baixa, entre outros, de um tal José Maria Pedroto, a caminho de Belenenses, por imperativos militares. Não obstante o concurso de Cavem, caiu o Lusitano à III Divisão e, para o adolescente, pior ainda, o incumprimento de uma promessa de emprego.

Partiu para a serra. Dois anos jogou, ao lado do irmão Amílcar, no Sporting da Covilhã. Foi interior, avançado-centro e extremo-esquerdo. Trabalho é que não, tal como no Algarve, também na Beira o prometido não parecia ser devido. Contumaz, preparou-se para representar o Vitória de Setúbal, a troco também de um lugar na Câmara Municipal da terra do poeta Bocage. Só que o Benfica foi mais veloz, mostrou o pilim, conquistou Cavém e transformou-o profissional de futebol.



Na Luz, teve direito ao baptismo internacional, frente ao Valência. Fixou-se na equipa por mérito próprio, ainda que a lesão de Fialho abrisse uma vaga na ala esquerda do comando de ataque. De 56 a 69, o Benfica foi a sua vida. Ele que até era sportinguista, sem que saiba bem porquê, ao longo de 14 épocas incorporou o esquadrão rubro. Fez mais de 400 jogos, ultrapassou a centena de golos. Começou a extremo, médio se fez, terminou defesa, indistintamente à esquerda ou à direita, alardeando uma polivalência só ao alcance dos efectivamente dotados. “O Barrocal, como nós lhe chamávamos, era um grande colega e um jogador espectacular, do melhor que alguma vez se viu passar pelo nosso Benfica”, diz Mário João, companheiro de tantas jornadas inesquecíveis. “Que mais posso eu dizer?”. Se calhar, nada.

Com aquela habilidade virtuosa, Cavém deixou marcas logo no final da década de 50. Equilibradas estavam muito as forças no futebol nacional, com Benfica, FC Porto e Sporting a chegarem ao titulo ou aos títulos. A partir de 60, sempre com ele também, disparariam as águias para o mais pronunciado domínio de sempre. Teve, assim, o privilégio de actuar na era vermelha. E de a tornar possível.



Supersticioso, conta que uma vez, num sonho, lhe apareceu uma imagem, exigindo que barba usasse em troco de triunfo certo. Pela manhã, exibiu os primeiros sinais de obediência. Dias depois, ganhou o jogo. “Ainda hoje me arrependo de não ter jogado de barba na final de Wembley, com o Inter”, confessa, mergulhado numa áurea de misticismo.

Na Selecção Nacional também fez figura, entre 57 e 63. Foram seis anos em que se revelou imprescindível, começando a dar corpo a uma geração que, em Inglaterra, chegaria ao fastígio. No Mundial de 66 já não esteve. Trintão, caminhava para o final da maior aventura da sua vida. A derradeira pelo Benfica aconteceu em Setembro de 68, com o Vitória de Setúbal, na Luz, tinha já 36 anos.

Notabilizou-se ao marcar um golo ao FC Porto, com apenas 16 segundos de jogo, numa final da Taça. Hoje, recorde ainda. Por muitos anos, decerto, também.

Amarguras, essas, sobretudos as teve depois de pendurar as botas. Com carta de treinador na algibeira, feliz não foi por onde passou. E do Benfica, do Benfica apresenta as queixas de quem não viu pagar amor com amor. “Penso que por aquilo que ajudei a conquistar para o clube, merecia outro tipo de tratamento. Não tenho jeito para mendigar, nunca tive, mas não deixa de ser verdade que outros que não deram tanto prestigio ao Benfica como eu dei foram auxiliados e, quanto a mim, se calhar por não viver em Lisboa, fui esquecido”.

Não foi na festa de inauguração do novo Estádio da Luz. Veio de Alcobaça. E que bom rever Cavém!
Para mais na última viagem com a bandeira da mística.
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  • 05 de Fevereiro de 2008, 19:21
Fernando Albino Sousa Chalana. Barreiro. 10 de Fevereiro de 1959. Avançado.
Épocas no Benfica: 12 (75/84 e 87/90). Jogos: 311. Golos: 47. Títulos: 6 (Campeonato Nacional), 3 (Taça de Portugal) e 2 (Supertaça).
Outros clubes: Barreirense, Bordéus, Belenenses e Estrela da Amadora. Internacionalizações: 27. Treinador do Benfica em 2002/2003.




Plantel 1976/1977

Chalana e a bola. Qual axioma! A suspeita começou pouco tempo depois de abandonar o berço. A confirmação ocorreu por altura daqueles primeiros passos titubeantes. A prova, essa, encontra-se na quase totalidade das fotografias do Fernando nos tempos da infância. Chalana e a bola. Sempre! Herdeiro foi de uma casta notável de futebolistas. No Barreiro. Terra de muita(s) luta(s). Terra de Azevedo, de Carlos Gomes, de Pireza, de Félix, de Moreira, de Vasques, de José Augusto, de Adolfo. De gente grande do oficio da bola. Que marcou décadas gostosas de futebol. No Benfica ou no Sporting. Na defesa de outros emblemas. Um pouco por todo o lado.

Ainda gaiato, Chalana jogava, jogava muito, quase sempre com os mais velhos. Baixo, franzino, fazia futebol inocente, mas nele havia uma maturidade esquisita. É que já inteligia o jogo, deixando os outros, mais forte, mais altos e de mais idade, embasbacados q.b..

O tirocínio fê-lo no Jogos Juvenis do Barreiro. Enquanto suspirava pela CUF, divertiu-se no futebol de salão, alinhando pela equipa de Serpa Pinto. Arrebatou o troféu de melhor marcador, a Taça Joanina. Logo surgiu a cobiça dos Unidos e do Sporting do Lavradio, conquanto o seu segundo amor haveria de falar mais alto. No corta-mato, já pela CUF, venceu a competição de Lisboa para iniciados e, em Coimbra, averbou a quinta posição no Campeonato Nacional.

Correr sim, mas com bola, desse modo cortou a paixão pelo atletismo, bem cerce, não sem antes ter corrido quilómetros e mais quilómetros, num exercício que a vida justeza fez. Bateu à porta do departamento de futebol juvenil da CUF, com 14 anos. Como inepto o trataram. Foi rejeitado. Imperava a lei da cunha. Afinal, o que lhe sobrava em talento, aos pais, operários da actual Quimigal, faltava em influência.

Recepcioná-lo-ia o Barreirense.

Com idade de juvenil actuava já nos juniores. A pinta não dava lugar a equívocos. Logo, Juca o chamou para o seio dos mais velhos. Um puto entre homens feitos, seis jogos, apenas seis, era jogador do Benfica. Para trás ficava, entre outros, o convite do Sporting. Pouco leonino, já que oitocentas notas de mil não comoveram os responsáveis de Alvalade. Teimoso, um tal Sr. Edgar, na Luz, desfazia-se em louvores ao miúdo Fernando Albino. Tal como São Tomé, o treinador Pavic sentou-se, um belo dia, na bancada do campo do Oriental. Chalana não desmereceu. O jugoslavo ficou de olhos arregalados.



A 6 de Março de 1976, o Anfiteatro da Luz como que virou pia baptismal. Lá jogava o Sporting Farense, em partida do Campeonato. Já com os ouvidos entregues aos sábios conselhos do mestre Ângelo, treinador dos juniores encarnados, Chalana escutou as indicações do britânico John Mortimore. Tinha 17 anos e 25 dias. Ao intervalo entrou para o lugar de Toni, anos mais tarde seu técnico, para quem “depois do Eusébio, foi o Chalana o mais espectacular jogador que pelo Benfica vi passar”. A estreia apadrinhada foi também por Bento, Artur, Eurico, Messias, Bastos Lopes, Vítor Martins, Vítor Baptista, Nené, Jordão e Diamantino. Triunfo por 3-0, com golos de Jordão (2) e Nené. Neste mesmo mês no dealbar da Primavera, voltaria Chalana a jogar entre os consagrados, de novo na Luz, ante o Sporting de Braga que regressou ao Minho, vergado ao peso de uma derrota, por 7-1. Campeão menino se fez essa temporada. De juniores e de seniores. Despontava o Pequeno Genial da prosa escorreita de José Neves de Sousa.

No ano seguinte, inconcebível era um Benfica sem Chalana. Fez quase o pleno de jogos. O primeiro falhou. Foi o da derrota, em Alvalade, por 3-0, na abertura do pano do Nacional de 76/77. Pedagógico, dir-se-ia, o insucesso. É que depois, deu Chalana, muito Chalana, sempre Chalana. De resto, segundo melhor marcador viria a cotar-se, logo depois do eterno Nené, começando a virar hábito o tangencial 1-0 do Benfica, com ponto por ele assinalado. Foi assim na Antas, em Coimbra, na Póvoa de Varzim… E o Benfica de novo campeão se fez.

O futebol cristalino de Chalana cedo o levou também à Selecção. Ainda não tinha atingido a maioridade, que não a futebolística, já o então seleccionador, José Maria Pedroto, com ele contava para as empresas do combinado nacional. Perante a Dinamarca, com vitória difícil, por 1-0, Chalana rubricou trabalho preeminente. “Chalana é um jogador “super-sénior”, que tem a visão ou a presciência de um futebol de cem metros, quer dizer, de um futebol do campo todo, que só se faz se cada um e todos os jogadores de uma equipa têm nos olhos os quatro vértices de terreno onde o jogo se pratica e são capazes de meter a bola em todos os pontos desse rectângulo”, escreveu, por essa altura, mais coisa menos coisa, o jornalista Vítor Santos.



O rapaz do Barreiro continuou a encantar. É verdade que, de 78 a 81, o Benfica jejuou. Foram os anos brasa da luta Norte/Sul, com o FC Porto a impor-se, por uma unha negra, em 77/78 e 78/79. Da primeira vez, o insólito aconteceu, invicto terminou a prova o Benfica, só que o goal average madrasto foi. Da segunda, um só ponto separou na pauta as duas equipas. Já no ano imediato, o Sporting conquistaria o ceptro, após a menos luzidia campanha benfiquista. Mesmo assim, Chalana fazia as despesas da alegria. Era, por essa altura, o melhor jogador português, como deixava entender Mário Wilson: “Ele é futebol da cabeça aos pés. Sim, ele é todo futebol. É senhor de intuição extraordinária para jogar à bola. Numa equipa com Chalana é simples resolver qualquer problema, porque ele é um rapaz cheio de futebol. Um rapaz capaz de solucionar qualquer problema. Além disso, não se envaidece. Por isso, Chalana é um craque”.

O Europeu, de 84, em França, terá sido o palco onde o jogador mas fez refulgir o génio. Apeado dos grandes certames internacionais, desde a odisseia de 66, numa fase sabática que provocou descontentamento, eis Portugal de novo entre os grandes, pela primeira vez na fase final de um Campeonato da Europa. Nessa altura, bipartia-se a liderança do nosso futebol. Por isso, Benfica e FC Porto cederam o grosso do contingente que arraiais assentou em terras gaulesas.

Os empates com a Alemanha e a Espanha, mais o triunfo sobre a Roménia, guindaram os herdeiros dos Magriços às meias-finais da competição. Infantes os rotularam, sendo que infante maior Chalana haveria de ser. Produziu lances ornados de fantasia, com técnica superior, de bela plástica. Estatura meã, cabelos ao vento, barba farta, espírito guerreiro, concitava todas as atenções, qual Astérix na Gália. Da poção mágica não rezam as crónicas, antes do futebol enleante, provocador, eficaz.



Inesquecível esse despique com a França, pais organizador e campeão da prova. A poucos minutos do fim, o adversário parecia agonizar, perante a vantagem portuguesa, já em pleno prolongamento, graças às cirúrgicas assistências de Chalana ao felino Jordão, goleador de serviço. Só que Portugal sucumbiu nos derradeiros instantes. Chalana e seus pares derramaram…lágrimas de Portugal.

No começo da época subsequente, partiu para França, de novo, milionário contrato havia assinado pelo Bordéus. Uma aventura que não resultou. Lesionado gravemente, rescindiu o vinculo, perdeu muito dinheiro, ao Benfica regressou, corria o ano de 87, após calvário que se não deseja ao mais refinado inimigo.

Nem gozou a final da Taça dos Campeões, essa mesma época, frente ao PSV. Estava magoado. Era a sua sina. Dois anos volvidos, viajou com a equipa para Viena. Ficou fora da lista de convocados, já na erosão da carreira, por cruel veredicto de Eriksson. Era a segunda impossibilidade prática de vingar a derrota com o Anderlecht, na única final europeia em que interveio. Haveria de gozar, isso sim, um triunfo, mais de uma década adiante, no também único jogo que orientou na condição de treinador principal do Benfica.

Estádio da Luz, Lisboa, 30 de Novembro de 2002. Benfica, 3 – Sporting de Braga, 0. Chorou. Porque os campeões também podem ser meninos.

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  • 05 de Fevereiro de 2008, 20:08
Grande Domiciano Cávem, foi nas 3 finais seguidas sucessivamente avançado, médio e defesa! Infelizmente acabou os seus dias a arrastar-se por Alcobaça... :disgust:

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Grande Domiciano Cávem, foi nas 3 finais seguidas sucessivamente avançado, médio e defesa! Infelizmente acabou os seus dias a arrastar-se por Alcobaça... :disgust:
o homem que tinha visões antes das finais...

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  • 06 de Fevereiro de 2008, 21:48
Mário Esteves Coluna. Lourenço Marques. Moçambique. 6 de Agosto de 1935. Médio e avançado.
Épocas no Benfica: 16 (54/70). Jogos: 525. Golos: 126. Títulos: 10 (Campeonato Nacional), 7 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: João Abisini, Desportivo de Lourenço Marques, Olympique de Lyon e Estrela de Portalegre. Internacionalizações: 57.




Equipa 1961/1962

No arco-íris do futebol nacional, naquela primeira metade da década de 50, o verde era a tonalidade dominante. Vivia-se o tempo hegemónico dos Cinco Violinos (Jesus Correia, Travaços, Peyroteo, Vasques e Albano), que garantiram para o Sporting o primeiro tetracampeonato da história. No Benfica, com saudade, recordava-se o titulo de 49/50 e a vitória na Taça Latina, o primeiro grande feito do futebol lusitano.

Nessa altura, em Lourenço Marque, no bairro do Alto Mahé, onde também cresceram Matateu, Vicente e Hilário, um adolescente começava a emergir nas lides de cariz desportivo. Mário Esteves Coluna, assim crismado foi. Filho de um português da Beira Baixa, aventureiro por terras africanas, que com uma negra de nome Lúcia casaria na capital da antiga África Oriental Portuguesa. O jovem Mário era um predestinado para a cultura física. Decerto, a destreza provinha-lhe da experiência acumulada a subir árvores, ainda petiz, na procura saborosa de mangas ou de caju. “Um dia cais, partes uma perna e vais parar ao hospital”, asseverava José Maria Esteves Coluna, o progenitor, que havia fundado e defendido as redes do Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica.

Certo é que umas luvas de lutador, pertença de um amigo, fizeram as delicias do jovem Mário. Ainda na puberdade, experimentou o boxe, em combates pouco ortodoxos, sem regras coerentes, circunstância que bem poderá ter concorrido para o espírito combativo, matriz de toda uma vida. Por influência da trapeira, esse encanto dos pobres imberbes, foi Coluna jogar para a equipa João Albasini, albergue de muitos futebolistas de origem laurentina. Basquetebol praticou também, ainda que não tivesse passado da equipa de reservas do Desportivo. Mas foi no atletismo que Mário Coluna obteve, por essa altura, um notável registo. Para assombro de todos, estabeleceu recorde moçambicano de salto em altura, nuns muito estimáveis 1,825 metros, meio centímetro acima, pasme-se!, da marca com que Espírito Santo, outra grande figura do universo benfiquista, tinha destronado Pascoal de Almeida, na lista dos recordistas nacionais.

Ainda que a sua obsessão fosse profissionalizar-se como mecânico do automóveis, atentamente ouviu o conselhos de Severiano Correia, que nele encontrou talento suficiente para bonita carreira fazer no futebol.  É nessa altura que troca o Ferroviário pelo Desportivo, num apelo benfiquista que cedo, bem cedo, lhe havia provocado o imaginário.

Aos 17 anos, começou a jogar na equipa de honra da filial do Benfica. Todos os meses embolsava 500 escudos que, às escondidas dos pai, gastava em prazeres diversos. Nessa altura, o FC Porto ofereceu-lhe 90 contos, por um contrato de três temporadas. Reagiu o Sporting, sabedor da recusa de ingressar no grémio das Antas, adiantando a proposta de uma centena de contos, por contrato de três temporadas. A mesma oferta fez o Benfica. Respondeu com o coração, aquiesceu, de águia ao peito ficaria. Pouco tempo antes, já pontificava no Desportivo, coqueluche era, não jogou na África do Sul, que a tanto apartheid obrigava, mas vingou a derrota da sua equipa (2-1), em Lourenço Marques, num arrebatador 7-0, dia em que todos os golos marcou, como quem serve fria e até cruel vingança. Mandela, se é que soube, terá estrugido palmas. “Aterrei em Lisboa, após uma viagem que durou 34 horas. Dei a volta ao Mundo!”. Mas valeu a pena o esforço. De Moçambique, com destino ao Benfica, haviam já chegado, mas de barco, dias antes, Costa Pereira e Naldo. Era um tridente das paragens coloniais, resolutamente apostado, naquela época de 54/55, em devolver o Benfica à ribalta do futebol nacional.



Para além dos seus dois companheiros, Mário Coluna passou a trabalhar, no dia-a-dia, com Jacinto, Artur Santos, José Águas, Fernando Caiado, Francisco Calado, Ângelo, Palmeiro e Arsénio, entre outros. Ficou no Lar do Jogador, criação recente da direcção encarnada. “Mal cheguei, logo me quis ir embora. Vinha como craque, mas Otto Glória não contava comigo, não era titular. Para além disso, quiseram enganar-me no contrato. Meu pai sugeriu-me que voltasse, fiz as malas e só não regressei porque o mordomo do lar tinha ordem para me barrar a saída”.

Só que a bonança não tardou. E que bem ficou no Benfica! O brasileiro Otto apercebendo-se da incoexistência de Águas e Coluna, dois avançados-centro, transformou o moçambicano em centrocampista. Aposta ganha. De Otto, visionário. De Coluna, diletante. Do Benfica, revigorado.

Em Lisboa, o futuro Monstro Sagrado estreou-se frente ao FC Porto, na festa de Rogério e Feliciano. Mas foi com o Vitória de Setúbal, no pontapé de saída do Nacional de 54/55, que Mário Coluna, no palco do Jamor, marcou dois golos, no seu primeiro jogo oficial, para um robusto triunfo com chapa 5. “Deixou impressão lisonjeira. Habilidade, bons toques de bola, remate forte e fácil, e espírito de sacrifício. Um senão, somente: sua inevitável ingenuidade, leva-o a denunciar o passe provocando a intercepção ou o desarme”. Assim radiografou Vítor Santos o inaugural de 525 jogos com traje vermelho. “Nunca mais me esquecerei dessa época. Foi a minha primeira temporada pelo Benfica e ganhei tudo o que disputei (Campeonato e Taça de Portugal), sem esquecer que tive a honra de ser um dos jogadores que estrearam o Estádio da Luz”. E para a posteridade ficaria o registo de 17 golos apontados, o melhor em 16 anos quase sempre preenchidos por delicias garridas.

Mário Coluna deixou uma marca indelével no Benfica. Não fosse Eusébio, a quem carinhosamente trata por “afilhado”, por carinho e de facto, e talvez estivéssemos na presença do mais carismático jogador da centenária história encarnada. Capitão foi, naturalmente, de 63 a 70. Naquele jeito inconfundível de líder. Com voz baixa, mas ar severo. Granjeou respeito. Fez unanimidade.

Cinco finais europeias disputou. Nas duas primeiras, o Didi de Portugal, como era conhecido por terras de Vera Cruz, venceu e marcou golos, repositório afinal do seu dom de finalizador. E aquela terceira final, de má memória, frente ao Inter, tocado de forma vil por Trapattoni? Amputada ficou a equipa do seu maestro, interditas eram à época as substituições. Nesse dia, com estoicismo, aguentou até ao derradeiro e pesaroso silvo do árbitro, pouco mais fazendo que figura de corpo presente. Assim são os bravos, os campeões.



No Mundial de Inglaterra, capitaneou a turma das quinas. Eusébio esteve galvanizante, José Augusto, Torres e Simões deslumbraram. Ao lado de Jaime Graça, futuro reforço benfiquista, Mário Coluna pautou a intermediária, organizou o jogo. Com imponência. A ele se ficou a dever grossa fatia do sucesso das cores nacionais.

Dez vezes lhe foi colocada a faixa de campeão nacional, sempre ao serviço do seu Benfica. E mais sete Taças de Portugal ergueu. E internacional foi, ininterruptamente, durante 35 partidas, entre Dezembro de 1957 e Junho de 1965m fixando um recorde, só recentemente superado por Pauleta. E mais, muitas mais honrarias, com destaque para a presença na selecção dos Resto do Mundo, em Espanha, no Chamartin, ao lado de Rivera, Hamrin, Mazzola, Corso e Burgnich, na homenagem ao grande Ricardo Zamora. Helenio Herrera, o treinador, deu-lhe a braçadeira de capitão. Durante hora e meia capitaneou o mundo do futebol. Sempre humilde, imagem de marca jamais contestada.



A meio da época de 69/70, temporada fatídica para o Benfica, Otto Glória foi substituído por José Augusto no comando técnico da equipa principal. Para o antigo extremo, a hora era de renovação, de nada valendo que o magistral técnico Stefan Kovacs, nesse mesmo ano, tivesse dito que “o Benfica sem Coluna não é igual”. Ferido, despediu-se, não sem antes deixar um remoque a José Augusto, assim se traduz esse “acabei no Benfica quando era o melhor da defesa; sempre fui um jogador invejado”. O tempo passou e a ferida cicatrizou, o Benfica ganhou.

A 8 de Dezembro de 1970, o Monstro Sagrado recebeu os favores da plateia vermelha na festa do adeus. Com Cruijff, Djazic, Luís Suarez, Bobby Moore, Seeler, Hurst. Justo tributo ao grande capitão. À malvas mandou convites do FC Porto e do Belenenses, que em Portugal a paixão era rubra. Rumaria a França para jogar no Lyon. Terminou a carreira, um ano mais tarde, no modesto Estrela de Portalegre, na qualidade de jogador-treinador.

Cidadão exemplar, atento ao mundo, não resistiu ao apelo de Moçambique. Deputado foi da FRELIMO. Presidente da Federação de Futebol é ainda…

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  • 07 de Fevereiro de 2008, 11:20
Super jogador...super capitão... :bow2: :bow2: :bow2: :bow2:

ednilson

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  • 07 de Fevereiro de 2008, 22:12
Alberto da Costa Pereira. Nacala, Moçambique. 22 de Dezembro de 1929. Guarda-redes.
Épocas no Benfica: 13 (54/67). Jogos: 358. Títulos: 7 (Campeonato Nacional), 4 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: Sporting de Lourenço Marques e Ferroviário de Lourenço Marques. Internacionalizações: 22.




Equipa 1960/1961

Poucos terão sido tão desportivamente ecléticos, na primeira e sempre mais fascinante parte vida, como Alberto Costa Pereira. O basquetebol, a vela, o atletismo e o futebol foram as modalidades a que se entregou, sempre com denodo, o jovem moçambicano, natural de Nacala, uma pequena povoação muito quilómetros a norte da então Lourenço Marques. Já em Nampula, para onde se transferiu o pai, funcionário dos caminhos de ferro, o jovem Alberto derretia-se sempre que falava em dois jogadores: João Azevedo, do Sporting, e o brasileiro Ademir, por Queixada conhecido, do Vasco da Gama, o mais português dos clubes da “pátria da chuteira”, como um dia Chico Buarque, escreveu.

Primaveras 15, Costa Pereira chegou à actual Maputo, sufocado pela dor da morte do irmão mais velho. Internado no Instituto de Portugal ficaria. Começou a recordar-se da arte de encestar, corpulento e alto era, por isso dotado para basquetebolista. Pela mocidade fez-se também praticante de vela, desafiando as águas sem temor. No atletismo, então, sublimou-se, recordista moçambicano acabaria por ser no… lançamento de peso.

Tal como alguns anos mais tarde Eusébio, o Sporting de Lourenço Marques, no escalão júnior, propiciou que se federasse. Era o tempo de sonho (avançado-centro) e da vocação (guarda-redes). Mais alto falou o sonho. Na dianteira jogava. “Quem sabe o que o futebol perdeu com a minha passagem a keeper? Talvez fosse hoje um avançado como me dizem ter sido o Soeiro, que eu não vi jogar, mas que me afirmam levava tudo na sua frente, graças ao poder físico que possuía”. Assim falou, um dia, Costa Pereira, baluarte já da máquina pulverizadora benfiquista.

De candeias às avessas com a filial laurentina do Sporting, que o impediu de jogar basquetebol no Ferroviário, precipitou a jura, segundo a qual, verde nunca mais. Curto hiato na disciplina futebol, que a precognição de Severiano Correia não tardou. Com aquelas mãos, tenazes mais pareciam, e aquela facilidade com que se elevava a um qualquer andar de cima, disse-lhe o então treinador de futebol do Ferroviário que a guarda-redes botaria figura. Assim foi.



À capital chegou, após longa viagem de barco, no Verão de 54, com destino ao Benfica. A equipa ardia por novas sagas, apelava à ressurreição, tão prolongado estava sendo o reinado do leão por obra e graça dos seus Violinos. Com Mário Coluna também a debutar, mais Jacinto, Artur, Águas, Caiado, Calado e Ângelo, reconquistado foi o velho brasão.

Só que nem por isso fez Costa Pereira unanimidade. O seu jeito basquetebolizado de a baliza defender causou facturas nas apreciações dos benfiquistas e da critica especializada. Para uns, Costa Pereira; para outros, José Bastos. Tão diferentes, mas tão do (des)agrado popular. Foi assim durante três anos. Até que, finalmente, atingiu o altar reverencial.



Foi também com Costa Pereira que o Benfica siderou a Europa. “Aquele guarda-redes que era o protótipo da elegância, fino nos movimentos, surpreendente na destreza”, assim o via o jornalista Aurélio Márcio. Na primeira final dos Campeões, períodos houve em que os vermelhos quase submergiam ao poderio do Barcelona. Valeu Costa Pereira mais a sua exibição substantiva. No ano seguinte, ainda que três vezes batido por Puskas, susteve outros ímpetos atacantes do Real Madrid, deixando que Eusébio, lá ao fundo e no fundo também, o resto fizesse. Era bicampeão europeu.

No quarto grande empreendimento internacional, desperdiçado que foi, pelo meio, um desvairante tri, frente ao AC Milan, com o Benfica cruzaria destino outra formação italiana, o Inter, na conclusão da temporada 64/65. Noite de calamidade para Costa Pereira. O único golo, apontado pelo brasileiro Jair, teve menos arte do autor e mais, bem mais, imperícia de quem o sofreu. Nessa altura, apeteceu-lhe zarpar do jogo. Foi até o que sucedeu, dez minutos após o reatamento, acusando lesão antiga. Ele que animicamente estava tem-te-não-cais. A Lisboa chegou, duplamente derrotado, em cadeira de rodas. Com a auto-estima a vaguear pelas ruas da amargura.


Costa Pereira defende remate de Altafini na final de 1963 frente ao Milan

Um retalho infeliz não pode, não deve, macular a trajectória de um dos maiores símbolos do historial benfiquista. Generosos, os adeptos, guardaram-no no lado esquerdo do peito.
« Última modificação: 07 de Fevereiro de 2008, 22:18 por ednilson »

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  • 08 de Fevereiro de 2008, 11:15
ao chegar a Lisboa em cadeiras de roda a mulher ao vê-lo berrou..ele imediatamente se levantou para acalmar a mulher... ::)

Mestre

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  • I remember how 'different' became dangerous. I still don't understand it... why they hate us so much.
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  • 08 de Fevereiro de 2008, 15:50
Tenho andado muito distraído com o bla bla do geral e este tópico passou-me completamente.
Parabens pela iniciativa, Ednilson, estive a ler todos os jogadores e fico feliz de me lembrar de alguns deles.

Alberto, muita força, muita garra, um lateral de grande qualidade que acabou muito cedo.
Aldair, um falso lento, jogador com um sentido posicional fantástico e que saía bem com a bola nos pés. Jogo na Roma até aos 36, se não me engano. Daqueles jogadores com pouco estilo mas muita eficácia.
Álvaro, o que posso dizer dele. Os berros que dava aos colegas quando o golo não aparecia, até se ouviam na "varandinha" do 3º anel. Um poço de força, uma alma enorme, um dos grandes exemplos de benfiquismo que vi e dos jogadores que mais admiro.
António Bastos Lopes, central muito eficaz, pouco bonito mas exemplar. Quer na direita, quer no centro, foi o operário ao lado de um senhor chamado Humberto Coelho.
Bento, o herói de Portugal no jogo do apuramento para o mundial do México, o coração do Benfica dos anos 80, o líder que empurrava a equipa nos momentos menos bons. Um dos momentos mais tristes que tive quando soube da morte dele, para mim um dos melhores guarda redes de sempre.
Carlos Manuel, o Carlão do golo impossível na Alemanha, uma trave do grupo do Barreiro, outro simbolo do "meu" Benfica em que a pergunta a caminho do estádio era "por quantos vamos ganhar hoje".
Chalana, o pequeno génio. A asa esquerda de que fala o livro, a força de Álvaro que se desdobrava naquela ala e a magia do Chalanix, qual heroi gaulês que acabou por se transferir para o Bordeus. Na memória tenho aquele penalty the ele "cavou" contra a Russia na Luz, e que nos deu o apuramento para o europeu de França.

Não quero parecer nostálgico mas, ao ver estas caras e com estas memórias, que vergonha tenho do meu Benfica actual. :cry2:

VitorPaneira7

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  • 08 de Fevereiro de 2008, 18:02
Moçambique, Angola, Barreiro.... para quando  uma reexploração destas minas de recursos como Nené, Shéu, Adolfo, Carlos Manuel, Jordão, Chalana, Bento, José Águas, Costa Pereira,José Augusto.... já nem mesmo o nosso viveiro é explorado ainda por cima quando deu a espinha dorsal do ultimo tri e da equipa invencivel , outra das história que meu pai conta, o dia em que Mortimore pegou nos juniores e esteve 56 jogos sem perder ganhando um campeonato e  perdendo outro INVENCIVEL por...golos

ednilson

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  • 08 de Fevereiro de 2008, 21:57
Fernando da Conceição Cruz. Lisboa. 12 de Agosto de 1940. Defesa.
Épocas no Benfica: 11 (59/70). Jogos: 346. Golos: 1. Títulos: 8 (Campeonato Nacional), 3 (Taça de Portugal) e 2 (Taça dos Campeões).
Internacionalizações: 11.




Equipa 1965/1966

Era mais do que aspirar ao céu como limite, era chegar lá. Foi a sensação de Cruz, no inolvidável Maio de 61, arrebatada estava a primeira final da Taça do Clubes Campeões da Europa. Para quem havia nascido no bairro da Liberdade, na Lisboa popular e gaiata, era como vestir pele aristocrática, que o feito assumia foros de retumbância.

Ainda não estava um homem feito quando chegou ao Benfica. Contava 16 anos de ilusão, com o perfume da liberdade do bairro e o capital de experiência dos jogos de rua ou dos baldios por imposição juvenil e desafio ás autoridades. Aos 20 anos, Cruz tinha já nome certo nas fichas oficiais dos mais apetecidos embates. Para logo comemorar o primeiro titulo nacional, como Bélla Guttmann, acabado de chegar das Antas, na temporada 59/60.

Percorreu toda a Europa, ao longo dos anos, segurando de forma competente o manto vermelho de diáspora benfiquista. Jogou cinco finais dos Campeões, privilégio só partilhado por Coluna e José Augusto. E também por poucos, muitos poucos representantes de outras formações, ao longo do historial da prova fantástica. Atingiu o zénite nas duas primeiras tentativas, sentiu a desilusão nas últimas três.

A nível domestico, Cruz venceu oito Nacionais, em 11 épocas de Benfica. Mais três Taças de Portugal. Foi o defesa-esquerdo da irrepetível década de 60. Na sombra do sportinguista Hilário, ainda vestiu por 11 vezes a camisola da Selecção, com direito a ingresso no Mundial de 66.

Numa equipa tecnicamente desenvolta, Fernando Cruz não se deixou subestimar. Defesa não era sinónimo de menoridade. “O Cruz, em termos técnicos, era um jogador evoluído”, sentencia Eusébio. Evoluído e firme, mas também cerebral. Fez antecâmara do lateral moderno, que emergiu, num novo e mais ousado dispositivo táctico, no início dos anos 70.


Cruz a desarmar Péle

Foi onde já não chegou. A 16 de Novembro de 1969, na Luz, frente ao Sporting minhoto, realizou o último jogo a contar para o Nacional, com a satisfação de um expressivo (5-0) triunfo da cor da casa. Para o álbum de recordações, ficou o apontamento número 344, tantas vezes quantas envergou o símbolo da águia em partidas de carácter oficial. À semelhança de Coluna, não escaparia ao rejuvenescimento do plantel. Tentou a sorte lá fora, que em Portugal a fidelidade era vermelha.

Foi um dos mais carismáticos jogadores do clube. O Pescas, como era tratado pelos companheiros, filho de mulher peixeira. Filho também do melhor futebol que o Benfica jamais serviu nas arenas desportivas da Europa.
« Última modificação: 08 de Fevereiro de 2008, 22:00 por ednilson »

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  • 08 de Fevereiro de 2008, 22:06
este senhor deve ser o jogador com o palmarés mais rico  :bow2: :bow2:

edit: o do Sr. Coluna é mais recheadito  :slb2:

ednilson

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  • 09 de Fevereiro de 2008, 19:31
Diamantino Manuel Miranda. Sarilhos Pequenos. 3 de Agosto de 1959. Médio e avançado.
Épocas no Benfica: 9 (79/80 e 82/90). Jogos: 309. Golos: 83. Títulos: 4 (Campeonato Nacional), 4 (Taça de Portugal) e 2 (Supertaça).
Outros clubes: Vitória de Setúbal, Amora e Boavista. Internacionalizações: 22.




Equipa 1982/1983

Quando Diamantino virou Diamante, a razão não foi a lei do menor esforço. Também não foi por apócope. Foi, isso sim, a exaltação dos seus méritos enquanto jogador de futebol. Era mesmo um diamante. Em bruto, mas não muito, no dealbar da carreira. Precioso, mas sempre muito, na fase da consolidação. Por isso, vingou no Benfica e na Selecção Nacional.

Homem da Margem Sul, cresceu na Moita, a dois passos do Barreiro, outros tantos do Montijo, zona de excelência para o recrutamento de bons discípulos da doutrina da bola. Pela mão de um tio, começou na capital do distrito, treinando-se no Vitória de Setúbal. Como lhe jorrava o talento, dos iniciados saltou para os juniores, queimando a etapa dos juvenis. Às selecções chegaria, para logo polarizar as atenções do Benfica e do Sporting. Com afecto, optou por vestir de vermelho.

Na primeira temporada, na Luz, já sénior, sob o comando de Mário Wilson, realizou nove jogos, com dois golos apontados. Só se deu a conhecer. Emprestado ao Amora e ao Boavista, as expectativas revelaram-se profícuas. Não pretextou, mas amadureceu. Abriram-se-lhe de novo as portas do Glorioso.

Já internacional A, Diamantino encontrou um novo treinador, Sven-Goran Eriksson, que de pronto se deixou enternecer pelos seus encantos. Jogou assiduamente nessa época (82/83), marcada pela obtenção da dobradinha e pela presença na final da Taça UEFA. No ano imediato, marcaria 19 golos em 29 jogos, o seu melhor registo a contar para o Nacional.



Incontornável no Benfica, com a vertigem do drible, a magnitude da assistência e o deleite do golo, Diamantino não poderia passar ao lado do Euro 84 e do Mundial de 86. Destacou-se, mais até no México, com um golo da sua lavra, a despeito da campanha ter sido menos bem sucedida. Despediu-se em Guadalajara, na sequência do caso Saltillo, lançando o grito de alerta na defesa da dignidade dos profissionais do seu oficio.

No dia 21 de Maio de 1988, o Benfica realizava, frente ao Vitória de Guimarães, um ensaio com vista à final da Taça dos Campeões, em Estugarda, com o PSV. Vivia-se uma espécie de Diamantinodependência. Lesionou-se gravemente. Talvez por essa razão a vitória tivesse escapado.

Foi capitão da equipa, numa altura em que Bento e Shéu, em final de carreira, começaram a ser menos utilizados. Venceu quatro Campeonatos, quatro Taças e duas Supertaças. Destaque para a final do Jamor, com o Sporting, em 86/87, com os dois golos da vitória.

Em 89/90, Diamantino reencontrou Eriksson. Mas não houve deja-vu. O técnico que o lançou na ribalta também o dispensou do plantel, a bordo de um avião, procedente de Maputo. O rendez-vous deu-se logo a seguir. É que a família benfiquista não renuncia a Diamantino.

ednilson

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  • 10 de Fevereiro de 2008, 19:33
Guilherme S. G. Espírito Santo. Lisboa. 30 de Agosto de 1919. Avançado.
Épocas no Benfica: 12 (36/41 e 43/50). Jogos: 210. Golos: 149. Títulos: 2 (Campeonato Nacional), 2 (Iª Liga) e 3 (Taça de Portugal).
Outros clubes: SL Luanda. Internacionalizações: 8.




Equipa 1936/1937

Aquele traço afro numa cultura centenária. Que bem fica ao Benfica. Aquela multirracialidade nas suas hostes. Aquele apego aos valores da negritude. Aquele vermelho solidário. Aquela paz nos dois lados da trincheira colonial. Aquele carruagem africana de Eusébio, de Coluna, de Santana, de Rui Rodrigues, de Jordão, de Shéu, de Mantorras. Aquele precursor, Guilherme Espírito Santo – a Pérola Negra.

De ascendência angolana, nasceu em Lisboa, menos de um anos depois de ter sido assinado o armistício que punha termos à I Guerra Mundial, de 14-18. Tinha oito anos, quando a família regressou a Luanda, na expectativa de melhorar as condições de vida. Cedo se iniciou no futebol, jogando em meados dos anos 30 na filial luandense do Benfica. “Sou benfiquista desde os três anos. Havia na altura uns maços de tabaco com as figuras dos jogadores da época. Eu gostava especialmente do Vítor Silva e foi a partir dessa altura que fiquei a torcer pelo clube”.

Como ninguém resiste à usura do tempo, haveria Espírito Santo de substituir Vítor Silva no eixo do ataque do Benfica. Ele que, regressado a Lisboa, já amigo de Peyroteo, passou a equipar de rubro, a partir de 36/37. Era ágil e rápido. Subtil também. Atributos que disfarçavam uma compleição meã. Destacava-se também por um tocante fair-play. “O cavalheirismo das suas atitudes foi faceta evidenciada logo no começo da sua carreira e mantida pelo tempo adiante, com uma dignidade que era motivo de orgulho para os seus amigos e admiradores”, elogiou Ribeiro dos Reis.

Estreou-se em mês de vindimas, na cidade do Sado, em 1936, num embate que se inscreveu no âmbito da transferência do defesa António Vieira para o Benfica. No registo da vitória encarnada, não consta nenhum golo de Espírito Santo, que actuou na metade complementar. Mas nesse mesmo ano, um outro registo, histórico e até à data imbatível, dá conta dos nove golos (!) que apontou no triunfo (13-1) sobre o Casa Pia. Um triplo hat-trick produzido por um temível goleador.



Foi ao FC Porto que mais golos marcou ao longo de 12 temporadas no Benfica. Duas dúzias de vezes obrigou os guarda-redes portistas a olharem com desalento para o fundo das redes. No final da década de 30, numa meia-final da então menina Taça de Portugal, no Estádio do Lima, o Benfica perdeu (6-1) com o FC Porto. Na segunda mão, no Campo das Amoreiras, o triunfo (6-0) foi retumbante. Espírito Santo marcou dois golos e, naquele que terá sido um dos seus melhores recitais, outros golos poderia ter marcado se o jogo não durasse apenas 75 minutos, porque os portistas, humilhados, decidiram… abandonar o campo.

Fez 199 golos em 285 jogos. Esteve duas temporadas sem actuar (41/42 e 42/43), vitima de um grave problema de saúde, que degenerou numa inflamação dos pulmões. Quando regressou, sem prejuízo das suas faculdades, enveredou pelo posto de extremo-direito, optimizando a sua velocidade. Ele que se destacou também no atletismo. “Estava num treino e a determinada altura a bola saiu do campo, fui a correr apanhá-la e sem dar por isso saltei uma barreira de salto em altura. Estava a 1,70 metros e ninguém tinha conseguido fazê-lo”. Não enjeitou o convite para incursão fazer no atletismo. Bateu o recorde nacional, com 1,80 metros, só ultrapassado vinte (!) anos mais tarde. Foi ainda campeão nacional de salto em comprimento e triplo-salto. “Deve ter sido porque em Angola fui mordido por um macaco”, diz meio a sério, meio a brincar.

Oito vezes internacional, venceu dois Campeonatos da I Liga, dois Nacionais e três Taças. Nessa época, o despique Benfica-Sporting era muito também o despique Espírito Santo-Peyroteo. “O Guilherme sempre foi melhor jogador de futebol que eu: mais técnica, mais jogo. Menos prático, menos golos, etc.? Sim, também é verdade. Mas mais jogador”. Com a humildade que caracterizava os melhores, era assim Peyroteo, na primeira pessoa do singular.



Atleta eclético, jogador à Benfica, Guilherme Espírito Santo unia, não dividia. “Naquele tempo, existiam alguns preconceitos por causa dos jogadores de cor. Um dia, em 1947, num hotel da Madeira, queriam colocar-me num anexo por ser negro. Os jogadores do Benfica disseram que para onde eu fosse eles também iam. E acabamos todos no anexo”. Nesse momento, num outro jogo, perdeu o repugnante racismo, venceu o multirracial Benfica. Assim foi sempre doravante.

Águia de Ouro, prémio Fair Play do Comité Olímpico Internacional, Guilherme Santana da Graça Espírito Santo, já octogenário, é o decano dos jogadores do Glorioso. Presidente das comemorações do Centenário, ele simboliza a generosidade misturada com a paixão sem limites e uma longa modéstia, que só os grandes possuem. Com o Benfica, pelo Benfica.

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  • 10 de Fevereiro de 2008, 19:37
esse tal de espírito santo n foi o tal q engravidou Maria, mãe de Jesus?


Desculpem mas n me contive!