53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 107158 vezes)

RedVC

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  • 20 de Abril de 2019, 23:15
Nos anos 80 era normal haver pelo menos um dérbi "Benfica - Sporting" no meu Liceu (Dona Leonor no bairro de Alvalade).

Os melhores jogadores da escola distribuíam-se pelas duas equipas de acordo com a sua preferência. Tenho ideia de que um deles o "Bentinho" jogava no lado do Benfica. "Bentinho" = Paulo Bento.

Nenhum jogo do campeonato escolar se aproximava sequer do número de espectadores e da vibração com que se vivia aquela partida. Campo rodeado e os lançamentos de linha lateral tinham de ser feitos com pessoal a afastar-se e dar lugar ao jogador... Cada golo era celebrado com uma berraria descomunal.

Uma filmagem disto dava-nos hoje um tesourinho inestimável.

RedVC

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  • 25 de Abril de 2019, 09:22
-239-
Sem Rei nem Restelo (parte I): na doca do Bom Sucesso


Dia 23 de Outubro de 1911. Um contingente de presos políticos desembarca na doca do Bom Sucesso, em Belém.

Olhando para a objectiva do fotógrafo Joshua Benoliel, vemos um homem de olhar amargurado.



Fonte: Hemeroteca Lx



Fotógrafo e fotografado, os dois homens eram velhos conhecidos (e talvez amigos). Benoliel sabia bem a relevância social do homem que então captava na sua objectiva. Tratava-se de alguém com grande estatuto no tempo em que vigorava a monarquia mas que agora se apresentava hesitante e frágil. Este encontro era bem diferente de todos os anteriores, sem a alegria dos convívios sociais elegantes ou do frenesim dos eventos desportivos...

O homem de olhar amargurado era Ignácio José Franco (1864-1931), 2º Conde do Restelo e um dos dois proprietários da Farmácia Franco nos dias que levaram à fundação do Sport Lisboa.

Com 47 anos de idade, na amargura da prisão e na indefinição do futuro, o 2º Conde do Restelo vivia alguns dos piores dias da sua vida. Longe pareciam os dias do seu protagonismo político.




Ignácio José Franco, 2º Conde do Restelo, enquanto vereador, entre o executivo camarário da CM Lisboa de 1907. Fonte: AML



Acerca dos Condes do Restelo


O 2º Conde do Restelo era um homem cortês, com actividade social e política na sociedade monárquica. Tinha um espírito desportivo e era um entusiasta do futebol, características pessoais que em muito beneficiaram o nosso Clube nos seus primeiros e delicados anos, antes e pós-fundação.

Juntamente com o seu irmão Pedro Augusto Franco Jr. (1865-1960), o outro proprietário da Farmácia Franco, permitiu que nas suas instalações comerciais se reunisse um grupo de rapazes moradores em Belém e na Ajuda, todos com a paixão pelo futebol. Esses encontros foram parte importante do processo que resultou na fundação do Sport Lisboa, naquele domingo, dia 28 de Fevereiro de 1904.




O interior da Farmácia Franco, a primeira sede do Sport Lisboa, em 1904



Os dois irmãos permitiram com total bonomia e tolerância que alguns desses miúdos pudessem treinar no pátio interior da Farmácia Franco, mesmo sob os protestos dos moradores de alguns apartamentos em redor, que viam os vidros das suas janelas quebrados por algumas boladas mais incautas (ver -61- Um certo pátio, pág 17).


 

A localização da Farmácia Franco e a única foto que conheço de uma das frentes do célebre pátio interior (foto de 1940…). Aquelas três portas estavam nas traseiras da Farmácia Franco


Os dois irmãos não se opuseram, antes apoiaram, que o Dr. António de Azevedo Meireles (1858-?), médico que prestava serviço na Farmácia Franco, desse também apoio clínico a algumas mazelas que os rapazes iam sofrendo (ver -224- A ilustre Casa do Dr. Meireles. pág. 55).

Os dois irmãos permitiram igualmente que dois dos seus funcionários, Daniel Santos Brito (balconista; 1883-1974) e Manuel Gourlade (secretário e contabilista; 1872-1944), integrassem o grupo fundador e a direcção do novo Clube, usando algumas partes da Farmácia Franco como se fossem, na prática, a primeira sede do nosso clube.


 

A Farmácia Franco e suas principais figuras no ano de 1904



Por fim, Ignácio José Franco e o seu irmão proporcionaram ao nosso cCube não apenas algum precioso apoio financeiro como, pelo menos o primeiro, integraram alguns dos Orgãos Sociais. Ignácio José Franco foi sócio protector e presidiu ao Conselho Fiscal do Clube por alguns anos, mesmo depois da junção entre o Sport Lisboa e Grupo Sport Benfica, conferindo-lhes respeitabilidade e prestígio. O nosso Clube deve muito a estes dois irmãos Franco. Não disponho ainda de qualquer fotografia de Pedro Augusto Franco Jr., algo que muito lamento.




Um negócio de sucesso global


A Farmácia Franco foi estabelecida em Belém em 1821 pelo avô paterno dos dois irmãos. Nascido em Turcifal, Torres Vedras, ainda no século XVII, esse avô paterno chamava.se Ignácio José Franco (1797-1864) embora entre os populares de Belém tivesse sido mais conhecido por “Inácio dos unguentos”. Ignácio - avô - morreu 11 dias antes de nascer o seu neto homónimo.

A primeira localização física da Farmácia Franco foi também na Rua Direita de Belém, mas num prédio distinto, (no número 123 da antiga numeração de Belém) daquele onde mais tarde se instalou e onde se celebrizou (números 139 a 149 da antiga numeração).



As duas localizações da Farmácia Franco ao longo de mais de um século de existência.



O pai dos dois irmãos chamava-se Pedro Augusto Franco (1833-1902) e foi o 1º Conde do Restelo, título nobiliárquico outorgado pelo Rei D. Luís em 16 de Fevereiro de 1877, por via dos serviços prestados ao país.

O 1º Conde do Restelo foi um homem de enorme sucesso empresarial e que manteve uma igualmente bem-sucedida embora muito polémica actividade política. Foi o 2º presidente da Câmara Municipal de Belém (o 1º tinha sido o historiador Alexandre Herculano) e foi mais tarde presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Figura polémica, foi muitas vezes caricaturado pela pena, lápis e pincel certeiro, virtuoso e mordaz de Rafael Bordalo Pinheiro. E assim surgiam expressões como “Regudo Franco”, “Pastel de Belém” e “D. Xarope”.




A figura do 1º conde do Restelo como cacique eleitoral de Belém, caricaturada por Rafael Bordalo Pinheiro. Fonte: Hemeroteca Lx




Pedro Augusto Franco, 1º Conde do Restelo é considerado como um dos pioneiros da nossa moderna indústria farmacêutica. Foi empreendedor e inovador, tendo formulado e lançado no mercado nacional e internacional especialidades farmacêuticas que tiveram grande sucesso comercial.

Os três produtos inovadores de maior sucesso comercial da Farmácia Franco foram inventados pelo 1º Conde do Restelo e disseminados por Portugal e por muitos outros países. A estratégia comercial passava por muita publicidade em periódicos, e era usada também em diversos países da Europa e da América do Sul. No seu tempo a Farmácia Franco foi o epicentro de um negócio de grande monta e com moldes internacionais.



Os produtos de maior sucesso comercial da Farmácia Franco. Fonte: Museu da Farmácia




Mais detalhes biográficos destes quatro homens e da Farmácia Franco podem ser lidos nos textos -99 e 100- A Pharmácia Franco (partes I e II), pág 28.

 


As três gerações da família Franco que estiveram por trás do sucesso comercial da Farmácia Franco.



No próximo texto falaremos das contra-revoltas monárquicas de 1911 e 1912 e do destino do 2º Conde do Restelo.





« Última modificação: 28 de Abril de 2019, 16:54 por RedVC »

RedVC

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  • 27 de Abril de 2019, 10:25
-240-
Sem Rei nem Restelo (parte II): a contra-revolta monárquica



Lisboa, Outubro de 1911. A caminhada de centenas de prisioneiros monárquicos entre Paço de Arcos e o Forte de Caxias. Entre eles ia provavelmente o 2º Conde do Restelo

 


Fonte: Hemeroteca Lx




Depois de uma retrospectiva sobre a família e a Farmácia Franco, vamos agora abordar de forma sintética alguns eventos da contra-revolta monárquica, movimento que levou à prisão do 2º Conde do Restelo.



Os levantamentos insurreccionais monárquicos


A revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 pôs termo a quase 8 séculos de monarquia em Portugal. Triunfante, o regime republicano instalou-se rapidamente criando estruturas e alterações organizacionais profundas no país. Não obstante, existe hoje a ideia de que naquele dia a revolução triunfou contra todas as probabilidades, tendo em conta que em Lisboa, epicentro da revolução, a correlação inicial de forças bélicas era francamente vantajosa para os monárquicos.

Circunstâncias diversas, algumas fortuitas, erros de cálculo, falta de informação e divisionismo entre as facções monárquicas, terão ajudado ao sucesso republicano, isto apesar de se dever salientar a importância vital da tenacidade dos revoltosos barricados da rotunda do Marquês de Pombal. Depois de triunfar em Lisboa, a onda da revolução republicana alastraria a todo o País.


Mas há sempre um retorno da onda…


Quase um ano depois, na noite de 29 Setembro de 1911, iniciou-se um período conflituoso e bélico no norte de Portugal. Esses movimentos de inspiração monárquica consistiram numa contra-revolta militar ao mesmo tempo que se davam levantamentos insurreccionais monárquicos em diversas localidades, levados a cabo por sectores tradicionalistas de inspiração monárquica, civis e eclesiásticos.

O gatilho terá sido as notícias das movimentações de tropas monárquicas revoltosas, através de diversas localidades do Minho e em Trás-Os-Montes, após terem entrado em Portugal pela fronteira com a Galiza. À frente dessas tropas vinha o Capitão Henrique Mitchell da Paiva Couceiro que, com o seu Estado-maior, pretendia organizar um movimento político-militar crescente, capaz de derrubar o novo regime e restaurar a monarquia. Mas disso falaremos mais à frente.

Uma das localidades que se mostrou mais radical no apoio à contra-revolta monárquica terá sido Santo Tirso, terra com muitos entusiastas da monarquia e local onde o 2º Conde do Restelo tinha uma casa de família onde passava largas temporadas. A bandeira azul e branca da Monarquia chegou a ser arvorada em Santo Tirso mas – como sucedeu noutras localidades - as forças republicanas seriam rápidas a abafar a contra-revolta.



Visita do Rei D. Manuel II a Santo Tirso, três anos antes, em 25-11-1908. Com grande probabilidade ali no meio esteve o 2º Conde do Restelo. Fonte: TT





De facto, a resposta das forças republicanas foi violenta, mobilizando tropas para as localidades revoltosas e fazendo centenas de detenções entre os populares e as elites locais, gente onde tinha permanecido forte o sentimento conservador e monárquico. Foram detidas personalidades militares, civis e eclesiásticas em Santo Tirso, Braga, Porto, Guimarães, Fafe, Paços de Ferreira, Paredes, Vila Nova de Gaia, Famalicão, Paredes. E foi em Santo Tirso que o 2º Conde do Restelo foi detido, sendo depois forçado a embarcar para Lisboa.



Fonte: BND





Os republicanos vigiaram as vias de comunicação terrestres incluindo linhas férreas e apreenderam grandes volumes de armamento e explosivos, guardados mesmo em locais de culto católico. Conhecem-se aliás casos de padres (como o Padre Nemésio dos Reis, pároco em Vila Pouca e Aguiar) que armazenavam material bélico nas suas próprias residências...



Em cima, grupo de padres católicos detidos por alegadamente estarem envolvidos em movimentos insurreccionais monárquicos. Em baixo, algumas das armas apreendidas em locais de culto. Fonte: Hemeroteca Lx




Na vertigem da violência foram praticadas invasões e destruições de seminários e de outras edificações da Igreja. Foram cortadas linhas de telégrafo e desencadeados tumultos diversos. Muitos dos revoltosos presos nessas localidades nortenhas foram então transportados para Lisboa no cruzador Adamastor para serem julgados. Ali chegados, foram transferidos para diversas prisões de Lisboa, de acordo com o seu estatuto e com a lotação dos estabelecimentos prisionais. Estima-se que em determinada altura estivessem detidas mais de 600 pessoas.

Foi numa segunda leva de prisioneiros que o 2º Conde do Restelo acabou por desembarcar na doca do Bom Sucesso, em Belém. Estranha ironia para o 2º Conde do Restelo pois apesar de ser preso em Santo Tirso acabou por ser transferido e desembarcar perto do lugar que ele tinha nascido, onde tinha vivido a maior parte da sua vida e perto daquele que ostentava no título nobiliárquico, herdado de seu pai.

Os presos eram tão numerosos que alguns foram mesmo encarcerados no couraçado Vasco da Gama onde foram julgados. Outros foram conduzidos para o Forte do Alto do Duque, outros para o Forte de Caxias, outros ainda - os militares - para o Forte de S. Julião da Barra. Nesse caminho os revoltosos foram humilhados e apupados ruidosamente por populares Lisboetas, algo que terá tornado ainda mais dolorosa a experiência para homens como o 2º Conde do Restelo.




Fonte: Hemeroteca Lx





As incursões de Paiva Couceiro


Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (Lisboa, 1861 – Lisboa, 1944) foi uma figura heróica mas também com laivos quixotescos. Militar, administrador colonial e político português que se notabilizou nas campanhas de ocupação colonial em Angola e Moçambique e como inspirador das chamadas incursões monárquicas contra a Primeira República Portuguesa em 1911, 1912 e 1919. A sua dedicação à causa monárquica e a sua proximidade aos princípios do Integralismo Lusitano, conduziram-no por diversas vezes ao exílio, antes e depois da instituição do regime do Estado Novo em Portugal (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Mitchell_de_Paiva_Couceiro).




Fonte: TT




Não obstante o voluntarismo dos defensores da causa monárquica, D. Manuel II, o último rei de Portugal, deposto e exilado em Inglaterra, teve sempre um outro pensamento, mostrando-se pouco ou nada entusiasmado em dar apoio a movimentos dos quais resultassem confrontos armados entre portugueses.

Ainda assim, surgiram boatos entre os republicanos que davam como certa a conivência entre o rei deposto e uma eventual invasão do País por tropas estrangeiras. D. Manuel II chegou até a ser considerado um traidor à pátria...




D. Manuel II, o trajecto da 1ª incursão monárquica (1911) e o capitão Henrique Paiva Couceiro .




Assim, no dia 4 de Outubro de 1911, um contingente militar liderado por Paiva Couceiro entrou em Vinhais, vindo da Galiza, percorrendo um itinerário sinuoso através de diversos pontos de Trás-os-Montes, tomando depois a praça de Chaves. Contra eles foi enviado uma força de marinheiros de Lisboa que reforçou os regimentos republicanos já escalonados nessa zona. Três dias mais tarde, depois de um conflito armado sangrento, as milícias monárquicas foram derrotadas em Chaves, obrigando os sobreviventes a retirar para a Galiza.




Movimentações de tropas republicanas em resposta à 1ª incursão de Paiva Couceiro. Fonte: Hemeroteca Lx



Persistente, Paiva Couceiro comandaria uma 2ª incursão monárquica no princípio de Julho de 1912, mas as suas tropas, que chegaram a ter uns dois milhares de combatentes, foram novamente derrotadas em Chaves. Não encontrei fotografias de vítimas da 1ª incursão monárquica provavelmente porque Joshua Benoliel se coibiu de captar essas imagens, no entanto foram publicadas imagens da 2ª incursão que atestam quão mortíferos foram esses violentos recontros.



Mortos e feridos abundaram dos violentos recontros de Chaves em 1912. Fonte: Hemeroteca Lx




Nessa mesma altura um tribunal do Porto julgou vários dos revoltosos de Outubro de 1911, condenando a maioria dos réus a penas de prisão ou degredo. Alguns desses julgamentos foram efectuados no Convento das Trinas em Lisboa e deles já aqui se mencionou o envolvimento do advogado Dr. Alberto Lima, futuro presidente do Sport Lisboa e Benfica (ver: -64- O tribunal dos conspiradores, pág. 20).

O próprio Paiva Couceiro foi condenado à revelia a uma pena de 6 anos de prisão ou 10 anos de degrado, pena considerada leve uma vez que tinham sido levadas em conta atenuantes por via dos serviços relevantes prestados à pátria ainda no tempo da monarquia.

Anos mais tarde, em 1919, e após o assassinato de Sidónio Pais, Paiva Couceiro organizou uma 3ª incursão dos monárquicos exilados. Desta vez optou por uma estratégia diferente, subvertendo instituições da parte do território português que ia do Minho à linha do Vouga. Em nome de D. Manuel II, Paiva Couceiro proclamou a chamada Monarquia do Norte, da qual foi o Presidente da Junta Governativa do Reino (equivalente a primeiro-ministro) (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_Mitchell_de_Paiva_Couceiro).

Nesse curto período (19 de Janeiro a 13 de Fevereiro de 1919) revogou toda a legislação republicana promulgada desde 5 de Outubro de 1910, restaurou a bandeira e o hino monárquicos e legislou intensa e de forma infrutífera.

No entanto esta Monarquia do Norte não obteria apoios fundamentais, tendo soçobrado rapidamente. Ironicamente, as aspirações de uma restauração monárquica seriam definitivamente extintas já no Estado Novo, por intermédio de um monárquico de coração (embora muitos defendam que assim se “mostrasse” apenas por conveniência política): Oliveira Salazar…


De tudo o que atrás se disse resulta que Portugal não foi sempre um país de brandos costumes. No século XIX o país tinha sofrido cruelmente a devastação material e humana causada por uma guerra civil (1828-1834) e agora no princípio do século XX (1910-1912) surgia de novo uma violência extrema entre Portugueses. Destes episódios fica claro que um certo Portugal precisa apenas de um certo rastilho para que a força bruta se instale nas ruas. É preciso ter memória destes tempos de grande violência. E prevenir.



Sem Rei nem Restelo: epílogo


Voltando ao 2º Conde do Restelo, a sua inocência foi dada como provada poucos dias depois da sua inusitada prisão. Foi libertado, assim como muitos outros presos e, pelo que sei, nunca chegou a ser presente a um tribunal de conspiradores. Estavam ultrapassados mas não esquecidos aqueles dias de profunda angústia e sofrimento.




Fonte: BND




Depois, de 1911 a 1931, ano da morte do 2º Conde do Restelo, passaram duas décadas das quais não tenho qualquer notícia dele ou do irmão.

Presumo que vivendo agora um contexto social, político e económico completamente diferente, o 2º Conde do Restelo e o seu irmão continuaram a dedicar-se ao negócio familiar. Deduzo que a exuberância financeira e comercial que a Farmácia revelava no tempo de seu pai se tenha gradualmente desvanecido. Viviam-se agora tempos diferentes em que outros actores, de outros países, impuseram novos produtos e estratégias comerciais na área farmacêutica.

Há também que considerar o facto de a Farmácia ter reduzido para metade a sua área comercial física e de se ter transformado em Laboratório Franco, provavelmente para diversificar a área de negócio. Desconheço em que data se extinguiu a Sociedade Farmacêutica Franco e Filhos, mas presumo que terá sido algures pela década de 50.



Duas etapas do percurso da Farmácia, depois Laboratório Franco




Em todo o caso não deixa de ser interessante que não obstante tanta notoriedade comercial e política dos seus donos ao longo dos mais de 100 anos de actividade, a fama imorredoira da Farmácia Franco foi conseguida no ano de 1904, quando se deu a fundação daquele que rapidamente se tornou o mais popular, o mais vencedor e o maior Clube Português.


 

Nascido na Farmácia Franco, criado por 24 fundadores…



Ignácio José Franco faleceu na sua casa da Rua da Junqueira, à uma hora da manhã de quarta-feira, dia 29-07-1931. Tinha 67 anos de idade e faleceu vítima de uma congestão pulmonar fulminante. Com a sua morte extinguiu-se o título de Conde do Restelo.





Pedro Augusto Franco, seu irmão, teria uma vida mais longa, falecendo em S. Pedro do Estoril num Sábado, dia 30-01-1960. Tinha 95 anos de idade.


Paz às suas almas. Honra às suas memórias.


 



« Última modificação: 30 de Abril de 2019, 09:24 por RedVC »

capelada

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  • 27 de Abril de 2019, 13:00
Mais um excelente trabalho com cunho RedVC!


RedVC

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  • 27 de Abril de 2019, 13:03
Mais um excelente trabalho com cunho RedVC!

Muito obrigado, Capelada  O0

RedVC

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  • 30 de Abril de 2019, 23:56
O trepidante Costa




Agora publicado no facebook do Museu, lembrei-me de um texto que escrevi em Novembro de 2016.


Costa Pereira, uma figura extraordinária da História do Sport Lisboa e Benfica!



-132-
O trepidante Costa

Aproveitando um belo texto de Mafalda Esturrenho no jornal "O Benfica", volto a salientar esta fotografia:


Com a presença do massagista Brasileiro Mão de Pilão (ver os números 129 e 130) e do seu colega Zézinho, a fotografia foi captada no Estádio da Luz no dia 14 de Abril de 1957. O grande dia da comemoração do campeonato de 1957.


Os campeões nacionais de 1956-1957. Nota-se que José Águas ampara nas mãos a sua filha pequenina, Helena.


Curiosamente fazia-me impressão a ausência de Costa Pereira nesta fotografia de grupo da festa do Campeonato de 1956-1957. Mas, olhando para as estatísticas dessa época percebe-se a razão. Costa Pereira não foi Campeão Nacional nessa época. Ou seja não jogou nenhuma partida do Campeonato.

De facto, depois de ter sido titular absoluto nas suas duas primeira épocas no Benfica (1954-1955 e 1955-1956), nas duas épocas seguintes (1956-1957 e 1957-1958), Alberto da Costa Pereira foi relegado para o banco de suplentes. Otto Glória tinha dado a titularidade a Bastos que cumpriu com brilhantismo. O Benfica tinha dois óptimos guarda-redes. Assim, nessa época de 1956-1957 Costa Pereira terá feito 4 jogos na Taça de Portugal e um na Taça Latina. Não sendo Campeão Nacional não apareceu na fotografia de grupo envergando a respectiva faixa. Não obstante, Costa Pereira não deixou de manifestar a sua alegria, assim se compreendendo que estivesse em trajos "civis".

Mas Alberto da Costa Pereira era uma figura por si só. Para além de um dos maiores guarda-redes de futebol da nossa história, era um homem com outros talentos desportivos (basquetebol e atletismo). Atleta completo e rapaz com uma atitude bem característica da juventude nativa da África colonial Portuguesa, um perfil bem distinto da juventude reprimida da metrópole.

Costa Pereira era igualmente - como se vê - um jovem dado aos trepidantes ritmos Afro-Brasileiros! Para ilustrar, nada melhor que ler o texto em baixo, com os devidos créditos:


"Adeptos, atletas, técnicos e dirigentes juntaram-se para festejar 'à Benfica' o nono título de campeão nacional.

'Raramente se terá visto em Portugal uma festa tão extraordinária como a que no passado domingo se realizou na Luz'. Assim iniciava, o jornal O Benfica, o relato das festividades que, a 14 de Abril de 1957, a Comissão Central organizou para comemorar mais um título conquistado pelo futebol benfiquista: o de campeão nacional.

Embora tivesse como primordial pretexto a consagração da equipa, com a entrega simbólica das faixas de campeões, a 'bela tarde primaveril' contou com cinco horas de animação non stop. 'Festa rija, bonita, colorida, «à Benfica»', 'onde apenas se respirou o perfume estonteante e delicioso de uma vitória do campeonato'.

Cedo começou a '«romaria» das gentes encarnadas para a Luz'. 'Por todos os lados se viam, agitadas pelo vento ou pelos frenéticos aplausos, bandeiras do Benfica'. Foram milhares de adeptos que quiseram confraternizar com os seus ídolos.

Do programa constaram inúmeras actuações. Entre elas, números de ginástica, entregas de troféus, números musicais e até um jogo de futebol, entre a primeira categoria e a equipa de aspirantes, em que a 'gentil filhinha de José Ricardo Domingues' (presidente da secção de futebol) 'com todo o estilo possível' deu o pontapé de saída. Porém, um dos momentos altos de tarde foi, sem dúvida, o protagonizado por Costa Pereira.

Após um conjunto de números musicais 'no qual tomarem parte os conhecidos artistas Luís Piçarra, Tristão da Silva e Frutuoso França', guarda-redes 'encarnado' deu o seu show. No centro do relvado, acompanhado pelos brasileiros Irmãos Guarás, 'fez a sua estreia - e muito bem! - com artista de variedades', noticiou o Diário de Lisboa.

A actuação, a que não ficou alheia a objectiva de Roland Oliveira, proporcionou aos benfiquistas ali presentes, um 'momento folclórico de pura inspiração brasileira' e revelou um artista de grande talento e excelente sentido de humor. O insólito e pitoresco episódio captado na fotografia, em que Costa Pereira cantou e sambou, alcançou tal êxito entre os presentes que, no final, os colegas de equipa o ergueram em ombros perante uma entusiástica ovação do público..."


Mafalda Esturrenho, in O Benfica








Fonte: DL, 15 Abril 1957



Os "Irmãos Guarás"





Trio vocal e instrumental criado em meados da década de 1940 pelos irmãos Juca no acordeom, Pimentinha no violão e Toninho no pandeiro. Em 1945, o trio gravou pela Continental os sambas "Advinhação" e "Palhaço apaixonado", ambos de Príncipe Pretinho. Seguiram-se apresentações em programas de Rádio e apresentações pelos estados do sudeste. Fonte: http://dicionariompb.com.br/trio-guaras



Deixo por fim, em imagens, uma homenagem a este grande desportista em três pilares que o distinguiram durante a sua longa e Gloriosa carreira de Águia ao peito: dedicação, dor e glória









Obrigado Alberto da Costa Pereira!

WHERO

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  • o que não te mata enrijece-te os tomates.
  • 08 de Maio de 2019, 15:00
Ler e reler. O meu refúgio nestas alturas de maior pressão em que só penso no Benfica mas quero evitar as barbaridades que se vão escrevendo sobre a espuma dos dias.

Mais uma vez, muito, muito, obrigado RedVC.

RedVC

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  • 08 de Maio de 2019, 19:50
Ler e reler. O meu refúgio nestas alturas de maior pressão em que só penso no Benfica mas quero evitar as barbaridades que se vão escrevendo sobre a espuma dos dias.

Mais uma vez, muito, muito, obrigado RedVC.

Muito obrigado WHERO  O0

Nos próximos tempos aparecerão mais dois textos da série "Águias na Guerra" mas depois terei de fazer uma pausa.

WHERO

  • Júnior
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  • o que não te mata enrijece-te os tomates.
  • 09 de Maio de 2019, 09:08
Ler e reler. O meu refúgio nestas alturas de maior pressão em que só penso no Benfica mas quero evitar as barbaridades que se vão escrevendo sobre a espuma dos dias.

Mais uma vez, muito, muito, obrigado RedVC.

Muito obrigado WHERO  O0

Nos próximos tempos aparecerão mais dois textos da série "Águias na Guerra" mas depois terei de fazer uma pausa.

Boa série, essa. Apela ainda mais à emoção, apesar de felizmente não ter vivido esses tempos.
A vida não se esgota nisto, claro. Mas durante a pausa não falta material para muitos lerem pela primeira vez e outros relerem com redobrada atenção. Obrigado.

Carminati

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  • 09 de Maio de 2019, 17:01
Nos anos 80 era normal haver pelo menos um dérbi "Benfica - Sporting" no meu Liceu (Dona Leonor no bairro de Alvalade).

Os melhores jogadores da escola distribuíam-se pelas duas equipas de acordo com a sua preferência. Tenho ideia de que um deles o "Bentinho" jogava no lado do Benfica. "Bentinho" = Paulo Bento.

Nenhum jogo do campeonato escolar se aproximava sequer do número de espectadores e da vibração com que se vivia aquela partida. Campo rodeado e os lançamentos de linha lateral tinham de ser feitos com pessoal a afastar-se e dar lugar ao jogador... Cada golo era celebrado com uma berraria descomunal.

Uma filmagem disto dava-nos hoje um tesourinho inestimável.

Ser benfiquista em Alvalade nos anos 80 não devia ser facil, certo?

As claques deles nasceram todas aí nessa zona e nesses anos foram um verdadeiro fenómeno entre os jovens da classe media lisboeta.

RedVC

  • Eusébio
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  • 09 de Maio de 2019, 17:36
Nos anos 80 era normal haver pelo menos um dérbi "Benfica - Sporting" no meu Liceu (Dona Leonor no bairro de Alvalade).

Os melhores jogadores da escola distribuíam-se pelas duas equipas de acordo com a sua preferência. Tenho ideia de que um deles o "Bentinho" jogava no lado do Benfica. "Bentinho" = Paulo Bento.

Nenhum jogo do campeonato escolar se aproximava sequer do número de espectadores e da vibração com que se vivia aquela partida. Campo rodeado e os lançamentos de linha lateral tinham de ser feitos com pessoal a afastar-se e dar lugar ao jogador... Cada golo era celebrado com uma berraria descomunal.

Uma filmagem disto dava-nos hoje um tesourinho inestimável.

Ser benfiquista em Alvalade nos anos 80 não devia ser facil, certo?

As claques deles nasceram todas aí nessa zona e nesses anos foram um verdadeiro fenómeno entre os jovens da classe media lisboeta.


Como é sabido o Liceu Dona Leonor estava (e está - embora algo mudado...) no bairro de Alvalade, que está mais perto de Alvalade do que da Luz mas a diferença é pouca.

Nos anos 80 o bairro de Alvalade era então um bairro mais jovem e sim, havia muito sportinguista mas ainda assim não me lembro de haver desequilíbrio a favor do SCP. Ainda assim devo dizer que não passava a maior parte do tempo no bairro embora por via dos furos no horário, das minhas (algumas, não muitas) baldas e das faltas dos Profs (essas menos...) ainda passava algum tempo pelas ruas, em trânsito entre livrarias e casas de jogos. Era um ótimo Liceu situado num ótimo bairro. Bons tempos.

A maioria dos meus colegas, tanto quanto me lembro era Benfiquista. Havia rivalidade sim e claro havia bocas mas não passava disso. Só guardo contacto com dois deles que curiosamente ou não são meus companheiros de Estádio da Luz... Fiz o Liceu todo no Dona Leonor e lembro-me que vi vários desses "dérbis" ao longo de vários anos. Havia muita festa e muito frenesim apimentado pelas camisolas (nada combina melhor num campo de futebol do que o vermelho e branco contra o verde e branco). Não havia violência ou coisa que se parecesse. Aliás esses jogos nunca decorreriam sem a necessária autorização do Conselho Directivo do Liceu. Como disse, eram o remate do ano lectivo desportivo, depois de encontrado o campeão do campeonato interno escolar.

Os campeonatos de futebol eram bastante concorrido e lembro-me que regra geral eram adotados nomes de equipas estrangeiras. As que me ocorrem no momento são o "Hamburgo" e o "Stoke City".

Havia um ambiente muito desportivo. Lembro-me que os meus intervalos eram regra geral passados a praticar centros e fuzilar um desgraçado que ficava à baliza. Noutros anos houve a mania do básquete e também do vólei. Bons tempos.

Não conheço a história da Juve Leo ou dos Diabos vermelhos mas sim, nos anos 80 eram já uma força importante. Ainda assim tive poucas experiências más, lembro-me apenas que à saída do Estádio da Luz depois de um dérbi, houve pessoal da Juve Leo a bloquear e depois a "abanar" o autocarro onde estava. Lá esfriou tudo sem grandes consequências.

Uma coisa gira era o pessoal partilhar essas memórias também. Talvez alguém se lembre de abrir um tópico.

Ned Kelly

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  • 09 de Maio de 2019, 19:52
Talvez um dia RedVC, talvez um dia...  :smokin:

RedVC

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  • 09 de Maio de 2019, 20:10
Talvez um dia RedVC, talvez um dia...  :smokin:

Já percebi que há por aí boas histórias.
E nisto, estou certo que muita malta viria para aqui desbobinar histórias.
Vamos esperar.  :coolsmiley:

fudim flan

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  • tripoli
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  • kadafi das cameras de ar
  • 09 de Maio de 2019, 22:08
Nos anos 80 era normal haver pelo menos um dérbi "Benfica - Sporting" no meu Liceu (Dona Leonor no bairro de Alvalade).

Os melhores jogadores da escola distribuíam-se pelas duas equipas de acordo com a sua preferência. Tenho ideia de que um deles o "Bentinho" jogava no lado do Benfica. "Bentinho" = Paulo Bento.

Nenhum jogo do campeonato escolar se aproximava sequer do número de espectadores e da vibração com que se vivia aquela partida. Campo rodeado e os lançamentos de linha lateral tinham de ser feitos com pessoal a afastar-se e dar lugar ao jogador... Cada golo era celebrado com uma berraria descomunal.

Uma filmagem disto dava-nos hoje um tesourinho inestimável.
conheci o paulo bento na decada de 80,benfiquista ferrenho com lugar cativo no antigo estádio.ele andava sempre por alvalade,porque os pais tinham um restaurante numa tansversal da av. da igreja,esse mesmo restaurante,é hoje propriedade dos tios,tambem benfiquistas ferrenhos e está decorado com posters do paulo bento.

RedVC

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  • Todos por um!
  • 09 de Maio de 2019, 23:24
Nos anos 80 era normal haver pelo menos um dérbi "Benfica - Sporting" no meu Liceu (Dona Leonor no bairro de Alvalade).

Os melhores jogadores da escola distribuíam-se pelas duas equipas de acordo com a sua preferência. Tenho ideia de que um deles o "Bentinho" jogava no lado do Benfica. "Bentinho" = Paulo Bento.

Nenhum jogo do campeonato escolar se aproximava sequer do número de espectadores e da vibração com que se vivia aquela partida. Campo rodeado e os lançamentos de linha lateral tinham de ser feitos com pessoal a afastar-se e dar lugar ao jogador... Cada golo era celebrado com uma berraria descomunal.

Uma filmagem disto dava-nos hoje um tesourinho inestimável.
conheci o paulo bento na decada de 80,benfiquista ferrenho com lugar cativo no antigo estádio.ele andava sempre por alvalade,porque os pais tinham um restaurante numa tansversal da av. da igreja,esse mesmo restaurante,é hoje propriedade dos tios,tambem benfiquistas ferrenhos e está decorado com posters do paulo bento.

Exacto. Almocei lá algumas vezes. Penso que o primeiro Clube do Paulo Bento foi o Clube Atlético de Alvalade cuja localização foi durante alguns anos um mistério para mim.  Camisola com listas vermelhas e brancas se não estou em erro.

O "Bentinho" desses tempos da escola era um jogador destacado, de pequena estatura e de grande técnica. Jogava no "Hamburgo". Ainda me lembro dos nomes de alguns jogadores dessa equipa como por exemplo de um moço chamado Armando que tinha uns pés de ouro mas de quem nunca mais ouvi falar. Deve ter optado por uma carreira longe do futebol, imagino eu.