Nasceu em Rio Cuarto, Córdoba, na madrugada de 3 de Novembro de 1979, com 3 kilos e 400 gramas, Pablo César Aimar, aquele que era já o orgulho da sua família. Desde cedo que a sua paixão era só uma: a bola. Típico miúdo de um bairro humilde, para Pablo, o futebol era um simples passatempo, um hobbie que lhe consumia as tardes na esquina da sua casa em animados jogos com os amigos. Foi com 13 anos que o talento de Aimar ganhou outra dimensão, ao começar a jogar pelas camadas de base do River Plate. E tudo se transformou numa ascensão meteórica.
Longe da família vingou
A viver numa pensão, longe da família e dos seus amigos mais próximos, Pablo Aimar enfrentou uma infância distante dos seus, mas que é cada vez mais condição essencial da juventude dos jogadores dos clubes de topo de futebol. Daniel Pasarella, então técnico do River, pediu ao pai de Pablo que o seu filho regressasse a Buenos Aires (estava de férias) para completar a equipa de suplentes do plantel principal do River Plate no primeiro treino da época e que, culminava assim na primeira aparição de Aimar nos profissionais, com apenas… 16 anos.

Ainda um miúdo, envergonhou os craques
Diz quem viu esse primeiro treino de Aimar na equipa principal do River, que foi graças ao seu desempenho que tão cedo conquistou o seu lugar no clube das pampas. A jogar contra craques como Ortega ou Francescoli, há uma história que ninguém se esquece desse primeiro apronto de Pablo entre os profissionais.
Aimar era ainda um peso pluma (também fisicamente) numa equipa de estrelas. Um dos pesos pesados da altura, o defesa Ricardo Altaminaro, encheu-se de curiosidade sobre de que era feito este “miúdo”. E na primeira vez que Pablo foi para receber a bola, o experiente defesa argentino partiu a toda a velocidade em direcção a Aimar, disposto a colocar ordem na casa e mostrar o peso do plantel dos “grandes” ao jogador juvenil do River.

A verdade, é que Aimar partiu a toda a velocidade em direcção ao seu companheiro (ali adversário), e numa finta impossível deixou Altaminaro no chão (caiu de braços, conta quem viu), seguindo com a bola em direcção à baliza no seu estilo muito peculiar de cabeça levantada e numa subtileza de movimentos digna de um sobredotado. A gargalhada foi geral e Altaminaro, ferido no seu orgulho, passou todo o treino atrás do miúdo de 16 anos que com maior ou menor dificuldade ia ultrapassando o empenho do experiente Altaminaro, o que arrancou aplausos da plateia onde estavam alguns aficionados do River.
No dia seguinte, já toda a cidade de Buenos Aires sabia que Francescolli tinha sucessor assegurado no Monumental. Pablo César Aimar, de seu nome, um menino que aos 14 anos abandonou a sua casa, em lágrimas, via agora a sua carreira começar a ganhar forma. O bairro de Nunez (onde se situa o Estádio do River), sabia assim, desde muito cedo, que aquele pequeno craque, iria chegar muito, muito longe.
A estreia no River
No Torneio de Abertura de 96, frente ao Colón de Santa Fé, Aimar fez a sua estreia na equipa principal do River Plate, com apenas 16 anos. O então treinador do River, Pasarella, queria ver como se saia um “ratito” no meio dos profissionais. E não foi nada má, a sua estreia, comprovando que estava ali um diamante em bruto, mas ainda com muito tempo para ser lapidado.

Foi decidido que Aimar tinha tempo para aparecer e o River tinha outras obrigações na altura. Contava no seu plantel com nomes consagrados como os de Enzo, Gallardo, Ortega, Gancedo e Solari, jogadores ofensivos do meio-campo, o que constituiu principal razão para Pablo ter “desaparecido” do mapa durante ano e meio.
A brilhar na Selecção
Numa tarde de Dezembro, chegou ao bairro em Rio Cuarto, onde vivia Pablito, um telegrama que lhe dava lugar na Selecção Argentina de sub-17 que disputaria o Campeonato Mundial da categoria. José Pekermen, então seleccionador dos sub-17 argentinos, não tinha dúvidas do talento do pequeno Pablo e deu-lhe a mítica 10, para a competição. Com apenas 16 anos, Pablo Aimar é então estrela maior da selecção alvi celeste na Malásia.

Campeão do Mundo de sub-17, o melhor de sempre a seguir a Maradona
A Argentina passou sem dificuldades a fase de grupos, com Aimar a ser cabeça de cartaz de uma selecção que contava, entre outros, com Cambiasso (hoje no Inter), Riquelme (de regresso ao seu Boca Juniors) ou Walter Samuel (também no Inter).
Nos oitavos de final, a Argentina enfrentaria a Inglaterra de Jamie Carragher ou Michael Owen, vencendo por 2-1, com o golo da vitória a ser apontado por… Aimar. Sempre como titular indiscutível, Pablo leva a Argentina a vencer o Brasil por 2-0 nos Q-Final, sendo considerado o melhor elemento em campo. Nas meias finais, um golo solitário de Romeo coloca a selecção das pampas na final, que venceu ao Uruguai por 2-1, curiosamente o único jogo em que Aimar ficou no banco, entrando aos 56 minutos do desafio.

Com 17 anos, é agora convocado para a Selecção sub-20 que disputaria o Sulamericano no Chile, juntamente com Riquelme, ambos os benjamins da formação de Pekermen. Para além de ter ganho o troféu de melhor jogador do torneio, Aimar ganharia ali uma alcunha que acaba por odiar com todas as suas forças, até nos dias de hoje: “el payaso” (o palhaço), dada por um jornalista argentino, pois para ele, ver Aimar jogar futebol era sinónimo de diversão. Segundo analistas, Aimar era aos 17 anos o melhor jogador argentino de sempre (que viram com idade de juvenil), a seguir ao irrepetível Diego Armando Maradona.
Afirmação definitiva no River
O adeus de Francescoli e a transferência de Ortega para o Valência, abriram as portas da afirmação no Monumental a Pablo Aimar. Ramon Diaz, treinador do River, sabia que o seu jovem protegido tinha talento que sobrava para suprir as ausências do “príncipe” e do “el burrito”.

O astro uruguaio estava também certo disso e afirmou-o publicamente. Para ele, Aimar era “um jogador diferente, sempre um segundo à frente de todos os outros. Tirar-lhe a bola é uma tarefa quase impossível para os seus defensores. Estou seguro que triunfará com a camisola do River”. Vindo de quem vem, Aimar não se poderia sentir mais confiante.
A alegria que Aimar dava ao jogo, a verticalidade e velocidade do seu futebol eram determinantes na equipa do River. 50 mil pessoas gritavam pelo seu nome nas bancadas do Monumental. Em 1998, Diego Armando Maradona disse mesmo: “Aimar é o melhor jogador argentino, é desequilibrante!”. Palavra de astro.
Depois de recuperar de algumas lesões que o apoquentaram, Pablo Aimar faz um trio de luxo no ataque do River com Saviola e Juan Pablo Ángel e levam o River ao título em 99, depois de ano e meio sem alegrias. Atrás de Saviola (com 15 golos), Aimar fez 9, e foi considerado o melhor jogador do campeonato.

O Valência
O seu futebol era já demasiado vistoso para continuar na Argentina. Tal como todos os grandes craques sul americanos, que tinham o sonho de jogar na Europa, Pablo Aimar viu o seu concretizado, até mais cedo do que o que esperaria. No mês de Janeiro do ano de 2000, Pablo Aimar é apresentado no Mestalla, numa transferência a rondar os 25 milhões de €.
Depois de alguns problemas na transferência, pois a elevada quantia financeira demorou mais do que o previsto a chegar a Buenos Aires, também com o seu certificado que demorou a chegar, Pablo apenas fez a sua estreia no dia 14 de Fevereiro, e logo para a Champions League, frente ao Manchester United. Bastaram 90 minutos para deliciar a plateia, com fintas e passes que há muito não se viam no Mestalla.

No Domingo seguinte, estreia na Liga, o Valência foi ganhar 2-0 a Las Palmas, e Aimar fez o segundo, de livre directo. No entanto, a falta de adaptação ao futebol espanhol, típica de um jovem sul americano ainda à procura de afirmação na Europa, fez com que Pablito desaparecesse aos poucos do sistema de Héctor Cuper.
A difícil afirmação de Aimar
No Verão de 2001, chegou a Valência Rafa Benitez, hoje técnico do Liverpool, com uma filosofia bem mais ofensiva do que a de Cuper. Nos seus primeiros jogos, Aimar era titular indiscutível, sendo no entanto, substituído constantemente. Pablo demorava a explodir. E a titularidade acabou por se esfumar. No Montjuic, frente ao Espanyol, o Valência perdia ao intervalo por 2-0 e Aimar foi substituído no descanso. Terminaram a partida com uma vitória e fantástica reviravolta, fixando o resultado em 2-3. Aimar era agora inquilino fixo do banco valencianista.

No entanto, tudo acabaria por mudar. Aos 60 minutos de mais um jogo da Liga Espanhola, Aimar entrou em campo. Demorou 22 minutos para receber uma assistência de Sanchez e fazer um grande golo, colocando o Valência novamente na liderança do campeonato. Aimar mandou fora toda a raiva que conteve durante meses, sem se afirmar no clube espanhol. E a partir daí, Pablito Aimar mudou radicalmente.
A afirmação de Aimar, juntamente com o regresso de Baraja, deu outra dimensão ao futebol do Valência. Todos os Domingos se via no Mestalla um futebol de grande qualidade, triangulações, lances magistrais, muitos golos… o que culminaria, com a conquista da Liga Espanhola. Aimar passou a ser, desde aí, figura de proa da equipa do Valência.

A mudança para Saragoça
Os números eram esclarecedores. 152 jogos oficiais pelo Valência em 5 anos, com 25 golos marcados. Uma das máximas glórias que passou por Valência, Aimar acabaria por interromper o seu trajecto no Mestalla. Um Saragoça de boa saúde financeira e de muitos projectos inovadores, acabou por contratar Pablo Aimar no Verão de 2006 por 15 milhões de €. Era uma das transferências mais caras de sempre do clube.
O primeiro ano de Aimar em Saragoça ficou aquém do que tinha feito no Valência, mas ainda assim não deixou os seus créditos por mãos alheias. Marcou 4 golos e fez 6 assistências em 31 desafios. O seu segundo ano seria aquele que transformaria Aimar na «dúvida» que é hoje.

As lesões
Paco de Miguel, então preparador físico de Quique Flores no Valência, soube subtrair o melhor de Aimar em termos físicos. No Saragoça, os problemas musculares começaram. Já com uma pubalgia ultrapassada (dos tempos de Valência), Aimar acabou por estar praticamente meio ano parado, o que culminou com a descida do Saragoça à 2ª divisão espanhola.
A sua passagem por Saragoça foi decepcionante e deixou de ser convocado para a Selecção Argentina, pela qual contava já com 43 internacionalizações. Os problemas físicas perduraram e Aimar acabou por ser envolvido uma novela este Verão, o que culminou na sua transferência para o Benfica.

O sucessor de Rui Costa
Também amante das qualidades do El Mago, o hoje director desportivo do Benfica, Rui Costa, levou ao leme um projecto ambicioso e que quereria trazer para o clube os melhores jogadores à sua disposição. E Rui Costa, procurando um sucessor para a sua camisola 10, cedo fez ver a Aimar, que era a pessoa indicada para envergar esse estatuto.

E Aimar não se fez rogado. Aceitou o desafio, e o Benfica pagou cerca de 6 milhões e meio de euros para contar com o astro argentino nas suas fileiras. Pré-época de «encarnado», à procura de um melhor ritmo competitivo, Aimar começou a época a um nível ainda muito longe do que sabe, sobretudo a nível físico. E a 30 de Agosto, o calvário das lesões musculares, voltaram a assolar o argentino. Jogo frente ao Porto, Aimar num pique a alta rotação junto à linha sente dor e pede substituição. Temeu-se o pior.
O que é certo é que um mês e alguns dias de pois, o número 10 do Benfica estava de volta aos relvados, para encontro a disputar em Guimarães. E que exibição portentosa assinou nesse encontro. Passe de letra magistral, a dar golo a Suazo. Um dos ídolos benfiquistas e antigo capitão, João Pinto, disse mesmo no dia seguinte: “Isto só pode ser mesmo de um sobredotado a nível técnico. Eu joguei durante quase 20 anos e nunca soube fazer isto”.

Aimar parecia recuperado e voltou a assinar lance de génio frente ao Aves, num passe de calcanhar para golo de Maxi Pereira. No entanto, passado três semanas do regresso, volta a lesionar-se. Aqueceu em Coimbra, mas na hora de entrar, voltou a queixar-se. Falhou 2 jogos e voltou à competição nos Barreiros. O Benfica até venceu por 6-0 mas Aimar assinou exibição muito cinzenta, completamente afastado dos companheiros ao nível do ritmo de jogo.
A falta de ritmo era evidente. Novo jogo no Mar, nova exibição longe do que sabe fazer. Descansou a meio da semana e frente ao Nacional, no último jogo do ano dos «encarnados», aqueceu e quando ia a entrar, sentou-se e não mais deu sinais de si. Aimar passou o jogo no banco e Quique Flores em conferência de imprensa disse mesmo que o jogador argentino não estava em perfeitas condições para jogar. É necessário recuperar Aimar a 100% para que volte a ser o jogador que foi. E aí, espalhará pelo Benfica uma qualidade que não é vista regularmente no Mundo do futebol. Porque Aimar, tem um talento apenas ao alcance dos verdadeiros génios do futebol, capazes de levantar estádios inteiros com os seus lances de magia. E Aimar já o fez!

Estatísticas da Carreira:
1997-98 – River Plate, 15 jogos, 4 golos
1998-99 – River Plate, 21 jogos, 3 golos
1999-00 – River Plate, 30 jogos, 12 golos
2000-01 – River Plate, 16 jogos, 2 golos
2001-02 – Valência, 10 jogos, 2 golos
2002-03 – Valência, 33 jogos, 4 golos
2003-04 – Valência, 31 jogos, 8 golos
2004-05 – Valência, 25 jogos, 4 golos
2005-06 – Valência, 31 jogos, 4 golos
2006-07 – Saragoça, 31 jogos, 5 golos
2007-08 – Saragoça, 22 jogos, 0 golos
2008-09 – SL Benfica, 7 jogos, 0 golos
Total: 298 jogos, 53 golos
Títulos:
Argentina
Campeão Mundial sub-17
River Plate
Apertura 1996/97
Copa Libertadores 1996
Clausura 1996/97
Supertaça América do Sul 1997
Apertura 1997/98
Apertura 1999/00
Clausura 1999/00
Valência
Liga Espanhola 2001/02
Liga Espanhola 2003/04
Supertaça Europeia 2004
Vice-Campeão Europeu de clubes (Champions League) 2001/02
Taça Uefa 2003/04
Troféus Individuais
Melhor Jogador Sul Americano sub-20
Melhor Jogador Campeonato Argentino 99-00
Troféu EFE (Melhor Iberoamericano) Liga Espanhola 06-07
Artigo Serbenfiquista.com.

