22362 - Tópico: (actualizado) Memorial Benfica, Glórias  (Lida 166600 vezes)

ednilson

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  • 11 de Fevereiro de 2008, 22:23
Eurico Monteiro Gomes. Santa Marta de Penaguião. 29 de Setembro de 1955. Defesa.
Épocas no Benfica: 4 (75/79). Jogos: 115. Golos: 1. Títulos: 2 (Campeonato Nacional).
Outros clubes: Sporting, FC Porto e Vitória de Setúbal. Internacionalizações: 38.




Plantel 1977/1978

Da então muito ostracizada província de Trás-os-Montes até ao reconhecimento internacional pelos seus bons ofícios de futebolista, Eurico só percorreu um curto caminho. É que coragem e perseverança jamais deixaram de ser as suas principais qualidades. Na vida, muito; no futebol, sempre. Recompensado foi, passando aos anais como o único futebolista nacional com o titulo de campeão nos três grandes clubes de Portugal.

Chegou a Lisboa com 13 anos mais a obsessão de ser jogador do Benfica. Logo levou a primeira chibatada emocional, quando a oferta de quinhentos escudos/mês, vinda da Luz, esbarrou nos dois mil e quinhentos que auferia como aprendiz numa oficina de automóveis na Póvoa de Santo Adrião. Não se acomodou. Já em representação do Odivelas, um ano depois, a nova investida benfiquista registava significativo aumento da parada. Por quatro notas de mil agarrou a proposta e de vermelho deu cor ao sonho.

Em pleno PREC, no verão de 75, ascendeu à categoria sénior, com a incumbência de substituir Humberto Coelho, acabado de ingressar no futebol gaulês. Fervor revolucionário é que lhe não faltou e impôs a sua irreverente presença juvenil no centro da defesa encarnada. Ao longo de quatro temporadas, disputou 119 jogos, vencendo dois Campeonatos e tornando-se num dos mais jovens e promissores recém-internacionais. Fez dupla com Messias, Bastos Lopes, Barros, Alhinho e o regressado Humberto Coelho.

Ainda que não tivesse uma argumentação artística semelhante à de companheiros ou adversários mais criativos, Eurico personificava o defesa sólido, hercúleo até, sempre disponível, coadjutor, permanentemente solidário. Fez um ano com Mário Wilson, que o projectou em Guimarães, numa vitória (2-0) do Benfica, e os outros três sob o comando do britânico John Mortimore. Foi então que passou da eficiência (ao lado de Carlos Alhinho) à consagração (com Humberto Coelho), passando pela dificuldade para se impor em compita interna com a dupla (Humberto/Alhinho) de 78/79. Por uma diferença quase irrisória, entre o que pedia e o que o Benfica ofertou, decidiu não renovar o contrato e mudou-se para Alvalade. Seguiu-se o FC Porto, com sucesso comparável ao que atingiu na Selecção, até ao derradeiro suspiro competitivo no histórico Vitória de Setúbal.

Pela Luz, Eurico deixou a marca de grande defesa na marcação homem-a-homem. Era a sua especialidade. E sabendo-se da permanente vontade do Benfica em reunir os mais habilitados para cada tarefa, só poderá mesmo dizer-se que, na sua trajectória garrida, Eurico não apenas cumpriu distintamente como soube conferir classe aos quadros do clube.
« Última modificação: 08 de Março de 2008, 22:33 por ednilson »

Mestre

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  • 12 de Fevereiro de 2008, 10:57
Grande Diamantino. Quer na ala direita quer solto no meio campo, enchia o campo e maravilhou muitos com o seu futebol. Na célebre Taça dos 2-0 estava lá, um golo de livre que Damas nem teve hipótese  e um de bola corrida numa bela jogada. Saudades...

Elvis the Pelvis

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  • 12 de Fevereiro de 2008, 17:58
Grande tópico! :bow2:
Saudades do Gigante Benfica, o Verdadeiro Benfica! :slb2:

ednilson

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  • 12 de Fevereiro de 2008, 22:16
Joaquim Fernandes da Silva. Lisboa. 1 de Junho de 1926. Defesa.
Épocas no Benfica: 9 (45/54). Jogos: 231. Golos: 1. Títulos: 1 (Campeonato Nacional), 4 (Taça de Portugal) e 1 (Taça Latina).
Outros clubes: Torreense e Negage (Angola).


O chefe de Estado, Craveiro Lopes, felicita o
capitão do Benfica, Joaquim Fernandes, pela
conquista da Taça em 1953



Equipa 1948/1949

Quatro dias apenas depois da bem sucedida intentona de 28 de Maio de 1926, em Lisboa nascia Joaquim Fernandes, futuro jogador do Benfica, defesa-esquerdo, durante nove temporadas, figurante na história da Taça Latina, mas também na de outros acometimentos. Transição fez dos anos 40 e 50, com mais de duas centenas de participações em despiques de carácter oficial, circunstância que o coloca no primeiro pelotão (39º lugar) dos atletas mais utilizados em cem anos de vida do clube.

Chegou na temporada de 45/46, ano da morte do mítico Cosme Damião, timoneiro da nau benfiquista no começo da viagem, que também havia sido “médio-centro da equipa de honra, treinador, conselheiro e caixa de todos os jogadores que não tinham vintém”, segundo Cândido de Oliveira. Fernandes acabaria por fazer uma época sabática. O que lhe sobrava em vontade, faltava-lhe em experiência. Só realizou um jogo oficial, a contar para a Taça de Portugal, prova também do seu fetichismo, apesar da derrota (2-3) com o Atlético, na Tapadinha. No ano imediato, após começo letárgico do conjunto, garantiu a titularidade, esteve na série ininterrupta de 11 vitórias, mesmo assim insuficiente para chegar ao título, no início da era dos Violinos do Sporting. Participou também na inaudita marca de 13-1, com que o Benfica, por essa altura, assolou a Sanjoanense.

Até ao final da década, Fernandes transformou-se num dos irremovíveis, a mesma chancela de Félix, Jacinto, Francisco Ferreira, Moreira, Arsénio, Julinho e Rogério. Era essa a base do colectivo na pomposa empreitada que propiciou a conquista da Taça Latina. Mais Bastos, José da Costa, Corona, Rosário e Pascoal. Em ano formidável, com o Campeonato também na colecção dos despojos.

De resto, foi a única vez, ao longo do seu predomínio, que a orquestra rubra ousou, melodiosa e vibrantemente, silenciar a enleante homónima leonina. Se o Sporting arquitectou um inédito tetra no Campeonato, o tetra fez também o Benfica, mas na Taça, batendo em sucessivas finais o Atlético (2-1), a Académica (5-1), o Sporting (5-4) e o FC Porto (5-0). De permeio, em 49/50, anulada seria a edição da segunda prova mais importante do calendário da bola. Esfumou-se um possível penta, tanto mais que o cancelamento, ordenado pela FPF, ocorreu na bela temporada de 49/50. É que Portugal esteve a um passo de participar no Mundial do Brasil, face à desistência de alguma nações. O convite, esse, haveria, mais tarde, de ser declinado.

Joaquim Fernandes pendurou as botas em 53/54. De Moçambique, chegavam Costa Pereira, Mário Coluna e Naldo, este o seu presumível substituto. Por pouco tempo, já que Ângelo logo haveria de reclamar a posição, com os ditames que se conhecem. De Fernandes, no Benfica, vingou o preceito da regularidade.
« Última modificação: 12 de Fevereiro de 2008, 22:19 por ednilson »

ednilson

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  • 13 de Fevereiro de 2008, 19:49
Félix Assunção Antunes. Barreiro. 14 de Dezembro de 1922. 2 de Agosto de 1998. Defesa.
Épocas no Benfica: 10 (44/54). Jogos: 188. Golos: 2. Títulos: 1 (Campeonato Nacional), 4 (Taça de Portugal) e 1 (Taça Latina).
Outros clubes: CUF, Torreense e Luso do Barreiro. Internacionalizações: 15.




Equipa 1950/1951

Ainda hoje, alguns especialista e praticantes mais antigos do culto da águia convergem no julgamento, segundo o qual Félix terá sido o melhor defesa-central de sempre do Benfica. Mesmo que à colação venham os nomes de Germano ou Humberto Coelho, de Mozer ou Ricardo Gomes. Chegou ao clube, em 1945, já a sangrenta Guerra Civil de Espanha e a sórdida II Guerra Mundial haviam terminado. De resto, é por essa altura, na avalizada opinião do historiador e também benfiquista Veríssimo Serrão, que a censura, um dos braços do hermético regime, obrigou a imprensa da época a escrever “os encarnados” em substituição de “os vermelhos”. Afinal, qualquer que fosse a versão, a cor predilecta de Félix Antunes, natural do Barreiro, operário na CUF, futuro ídolo do futebol.

Com o emblema da empresa ao peito, embora na sucursal dos Unidos Futebol Clube, despontou nos escalão júnior, nos Campeonatos Regionais de Lisboa. Aos 18 anos, já era titular da equipa principal, actuando no posto de médio-esquerdo. Revelava habilidade, intuição. Talvez por esse motivo, muitas vezes jogou também como médio-centro ou interior-esquerdo, isto é, mais próximo da zona privilegiada do golo.

No Benfica, apesar de alguma indefinição na fase madrugadora do seu percurso, o húngaro e não poucas vezes vidente, Janos Biri, estabilizá-lo-ia no eixo da retaguarda. Assim se notabilizou. Operava de forma imperial, preciso na colocação e (ab)usando de dois pés que maravilhas faziam. Cognominado de Pantufas seria. E se no jogo aéreo era insuperável, encontrada está a radiografia do defesa ideal. Actuou no Benfica, ao longo de dez temporadas. Era o tempo da hegemonia do Sporting, com os Cinco Violinos a marcarem pontos na agenda competitiva. Mesmo assim, ainda venceu um Campeonato Nacional e quatro Taças de Portugal.

Na época de 49/50, Félix deu inestimável contributo para a conquista da Taça Latina, primeiro grande feito internacional do palmarés benfiquista. A mestria que revelava propiciou mesmo que se chegasse a falar do Sport Lisboa e Félix. O seu nome começou a circular pela Europa, numa altura em que o futebol não tinha, nem pouco mais ou menos, a projecção mediática dos nossos tempos, com a televisão em fase embrionária e em Portugal nem vê-la ainda.

As quatro finais consecutivas da Taça de Portugal (48/49, 50/51, 51/52 e 52/53, já que em 49/50 não se disputou) constituíram um marco até hoje inigualável no reportório vermelho, até porque se saldaram em outras tantas vitórias. Apenas Bastos, Joaquim Fernandes, Moreira, Arsénio, Rogério e Félix fizeram o pleno.



Chegou à Selecção Nacional em Março de 1949, recebendo o testemunho do belenense Feliciano. Com as quinas, haveria de disputar um total de 15 jogos, numa altura em que o futebol português tardava a sua afirmação, sobretudo perante as congéneres que já haviam adoptado o mais completo profissionalismo. Despediu-se em Viena, frente ao combinado nacional austríaco, numa trágica derrota (9-1). Foi acusado de mau comportamento no estágio de preparação para o despique. A Federação multou-o e o Benfica também, multiplicando a parada, que num conto de réis se fixou.

Com o alicerce emocional fragilizado, pela derrotas, pelas incidências, pelas multas e pelas criticas, Félix não reagiu bem às punições, sobretudo indignado ficou com a repreensão monetária do Benfica, da responsabilidade do presidente Joaquim Bogalho. Três semanas volvidas, foi jogar a Setúbal, a 18 de Outubro de 1953. No Campo dos Arcos, o Benfica baqueou, num contundente 5-3. Ainda hoje se diz que os golos sadinos resultaram de erros inusitados do defesa-central. Embora até se perceba o exagero, incontestável é que na cabina, terminado o encontro, Félix despiu a camisola, atirou-a de forma ostensiva para o chão e pisou-a num acesso de mau génio. O presidente do clube, estupefacto, presenciou a cena. A decisão, essa, não tardou. Para Félix era a inapelável despedida do Benfica.

Foi assim que um grande jogador, com apenas 30 anos, serviu de exemplo aos vindouros. Era assim a disciplina no Benfica. A transigência estava interdita a quem desrespeitasse o símbolo e a divisa do clube. Mesmo que fosse um gesto intempestivo. Mesmo que interpretado por um atleta insubstituível. Um atleta sagrado que não respeitou valores mais sagrados ainda. Um atleta da singular craveira de Félix.

Strata

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  • 14 de Fevereiro de 2008, 14:49
Assim está bem! :bow2: :winner: :bow2:

Andas a copiar os textos todos à mão?

VitorPaneira7

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  • 15 de Fevereiro de 2008, 19:43
Eurico gomes campeão pelos 3 grandes  ^-^  :o

ednilson

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  • 15 de Fevereiro de 2008, 20:02
Zoran Filipovic. Titograd. Jugoslávia. 6 de Fevereiro de 1953. Avançado.
Épocas no Benfica: 3 (81/84). Jogos: 84. Golos: 41. Títulos: 2 (Campeonato Nacional) e 1 (Taça Portugal).
Outros clubes: Estrela Vermelha de Belgrado, Club Brugge e Boavista. Internacionalizações: Jugoslávia.




Equipa 1983/1984

Havia quase 20 anos que José Águas tinha envergado pela última vez o mais carismático equipamento desportivo o do país. José Torres, esse, era também passado. Antes mesmo do filho Rui e até talvez melhor, ninguém como o jugoslavo Zoran Filipovic remeteu os benfiquistas para uma das mais apetecidas memórias. Ele que tinha a elegância de Águas, o gesto técnico, a impulsão, o apego ao golo, até traços fisionómicos que não destoavam.

A estreia revelou-se aprobatória, em embargo da derrota, na Antas, por 2-1, mas com um golo da sua criação. Arrancava a temporada de 81/82, Baroti mantinha a liderança técnica. Depois de Jorge Gomes e César, Filipovic, natural da província de Montenegro da velha Jugoslávia, era o terceiro estrangeiro a ingressar no clube. O Benfica não revalidou o título, é certo, mas o antigo jogador do Estrela Vermelha de Belgrado, já quase trintão, venceu a fase de reconhecimento, enterrou dúvidas, afirmou-se como pedra de toque na ofensiva, acompanhado pelo inevitável Nené.

No ano seguinte, Filipovic não abjurou as credenciais, tendo assinado mesmo uma temporada fantástica. Com Eriksson, o Benfica reconquistou o título nacional, venceu a Taça de Portugal e chegou à final da Taça UEFA. Nesta prova, em 12 jogos, apontou oito golos, cotando-se como o mais precioso jogador da equipa. Três golos à Roma e um à Universidade de Craiova, respectivamente nos quartos e nas meias-finais, catapultaram o conjunto para nova final europeia, ao cabo de 15 anos de jejum.



Na terceira e última época, Filipovic voltou a sagrar-se campeão nacional, mas o registo de oito participações apenas, ainda que com sete golos averbados, é reveladora das dificuldades para se impor no colectivo, já na ternura da veterania. De resto, foi também um ano dourado da dupla Nené (21 golos) e Diamantino (19 golos), mais do emergente dinamarquês Manniche (11 golos).

Zoran Filipovic regressou ao Benfica, em 94/95, como membro da equipa técnica chefiada por Artur Jorge. Não foi feliz, ainda que em Maio de 96, já com Mário Wilson treinador principal, tenha contribuído para o triunfo na final do Jamor. A sua competência, a sua dedicação, mais ainda os seus golos, colocam-no na estante dos notáveis que a águia ao peito trouxeram.
« Última modificação: 16 de Fevereiro de 2008, 08:50 por ednilson »

Rendufas

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  • Com o mestre da tactica como treinador, e com o craque do rendimento aimar, o Benfica só pode ser campeão!
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  • 15 de Fevereiro de 2008, 20:42
Ler este tópico é como lavar a alma.   :bow2:

Obrigado, Ednilson.  :drunk:

VitorPaneira7

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  • 15 de Fevereiro de 2008, 21:15
Do filipovic falam me muito da sua mobilidade. até os meus tios sportinguistas destacam que  muitas vezes não era a bola que voava para ele mas era o Filipovic voava para a bola.

VanBasten

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  • Godinho Lopes... vai para o apre gaitinha!
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  • 15 de Fevereiro de 2008, 23:39
Só uma correcção...o Fili não era antigo jogador do Partizan, mas sim do Estrela Vermelha de Belgrado, onde é considerado um dos melhores jogadores de sempre e, salvo erro, foi durante muitos anos o melhor marcador de sempre em competições europeias (desconheço se tal record se mantem)...

Mestre

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  • 16 de Fevereiro de 2008, 11:58
A célebre campanha da Uefa de 83 traz-me as primeiras memórias de alguns jogos, em que ia com um senhor vizinho ao futebol quando o meu pai estava a trabalhar. Tinha na altura 11 anos e assisti ao Benfica-U. Craiova e à final com o Anderlecht.

Do Filipovic lembro-me que tinha um sentido de oportunidade fantástico, as coisas com ele pareciam fáceis. Jogador que não ia muito ao choque, era perfeito a adivinhar o caminho da bola, num estilo que o próprio Néné acabou por ter também.

Parabens Ednilson, estou viciado neste tópico.

ednilson

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  • 16 de Fevereiro de 2008, 20:32
Eusébio da Silva Ferreira. Lourenço Marques. Moçambique. 25 de Janeiro de 1942. Avançado.
Épocas no Benfica: 15 (60/75). Jogos: 443. Golos: 476. Títulos: 11 (Campeonato Nacional), 5 (Taça de Portugal) e 1 (Taça dos Campeões).
Outros clubes: Sporting de Lourenço Marques, Rhode Islands Oceaners e Boston Minutemen, Monterrey, Toronto Metros, Beira-Mar, Las Vegas Quicksilver, New Jersey Americans e União de Tomar. Internacionalizações: 64.




Equipa 1963/1964

Dezassete de Dezembro, Sexta-feira, de 1960. A bordo do avião, com odor colonial, Eusébio, ele também, anoiteceu. Com a cabeça a fervilhar de ambição. Próximo, muito próximo, estava o sonho que tantas vezes lhe tinha dado fogo às ilusões. A Lisboa, então capital do império, chegava o rapaz de 18 anos. Esperavam-no Júlio Teixeira, Albino Rato e Domingos Claudino, em representação do clube da águia. O jornalista Cruz dos Santos, de “A Bola”, recolheu-lhe uma declaração quiçá imprevista, proferida em voz trémula: “Não gosto de jogar a avançado centro”. E para tranquilidade situacionista, o então trissemanário desportivo avançou que o recém-chegado viera “de Portugal para Portugal”. Mal dando conta que a noite tomara o lugar do dia, ai estava Eusébio, no Lar do Jogador, à Calçada do Tojal, com Torres, Germano, Santana e Mário João.

Para trás ficava a fragrância da quente terra africana. Ficava o bairro da Mafalda, em Lourenço Marques. As fugas à escola, as sovas da D. Elisa, os intermináveis jogos com a bola de trapos. Mais aquela história do major Rodrigues de Carvalho e de Mário Tavares de Melo, enviados benfiquistas, terem colocado 110 contos de reis em cima da mesa da família Ferreira, quantia destinada a transferir Eusébio do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica. A mãe, nessa altura, puxou os galões e exigiu 250, com lágrimas a borbulhar-lhe as faces. Negócio fechado, “dinheiro grande”, como D. Elisa, anos mais tarde, recordaria o episódio.

Os primeiros tempos de Eusébio, em Lisboa, foram tumultuosos. Até pensou desistir e retornar a Moçambique. Viveu-se o mais prolongado Benfica-Sporting do século. Meses durou. Uma guerra burocrática, não raras vezes a tanger o insulto. Argumento vem, argumento vai, uns dias mais vermelho, outros mais verde, Eusébio desesperava. Impotente. Queria jogar. Afinal, se o destino até não o havia deixado ser menino, porque subtrair-lhe ainda o maior dos prazeres? A 13 de Maio de 1961, finalmente, a trama burocrática findou. Eusébio era jogador do Benfica. No dia da Senhora de Fátima. Algo que jamais esqueceu.



E dez dias volvidos, no relvado da Luz, procedia-se à despedida da equipa que, horas depois, partiria para Berna, a fim de esgrimir argumentos com o Barcelona, na final dos Campeões. “Subi os degraus, velozmente. Quando entrei e ouvi a multidão gritar o meu nome, fiquei tonto”. A peleja teve o Atlético por opositor. Barrosa defendeu as redes, Mário João e Ângelo eram os laterais, Neto, Artur e Saraiva compunham a intermediária, Nartanga, Jorge, Mendes, Eusébio e Peres faziam as despesas ofensivas, na melhor expressão do dispositivo táctico conhecido por WM.

Cedo Eusébio comunicou no seu idioma predilecto. Um golo madrugador fez. Seguiram-se outros dois, os primeiros de camisola rubra, nesse jogo particular, que terminou 4-2 a favor do Benfica. Poucos dias mais tarde, frente ao Olivais e Moscavide, na primeira partida de carácter oficial, bisou. Seguiu-se o Vitória de Setúbal, em jogo da Taça, depois o Belenenses, a contar para o Campeonato. E golos, mais golos. Numa relação irremitente.

“Fez bonitos golos; os jogadores do Santos, todos eles, eu próprio, dizíamos que aquele rapaz era um grande jogador, até porque ninguém sabia quem ele era”. A declaração é assinada na primeira pessoa do singular. Por Pele, “o génio da redonda”, segundo Jorge Amado. Foi proferida no final do encontro Benfica-Santos, em Paris, a 15 de Junho de 1960. Três gentilezas Eusébio à bancada fez. Perderam os já campeões da Europa, depois de terem encaixado quatro golos sem resposta. Foi quando o ainda desconhecido Eusébio se levantou do banco de suplentes. Para um hat-trick. E só não igualou, porque Béla Guttmann, feiticeiro-que-não-foi, o impediu de marcar uma grande penalidade, por falta sobre ele próprio cometida. Haveria de falhar José Augusto. O Santos venceu 5-3, mas Eusébio revelou-se nesse dia ao mundo da bola. Lancinantemente competitivo.

Pantera Negra ficou. Epíteto feliz ou a exaltação de predicados como a velocidade, a destreza, a elegância. “Inicialmente não gostei, porque em Los Angeles havia um grupo chamado Black Panter, que matava pessoas e assaltava bancos”. Começou a gostar e hoje orgulha-se até, recordando aquele jornalista inglês, responsável pela alcunha, que ficou atónito com o seu desempenho num Inglaterra-Portugal, em Outubro de 1961, cumpria Eusébio a segunda internacionalização, depois da estreia, ante o Luxemburgo, alguns dias antes, sempre é claro com o golo da praxe.

Naquela temporada de 61/62, confirmava-se um nova profecia de Guttmann, segundo o qual “não há cu para duas cadeira”. Em tradução futebolística, o mago predizia ou Campeonato ou título europeu. Assim foi, ainda que a conquista da Taça, perante o Vitória de Setúbal (3-0), com dois golos de Eusébio, ajuda-se a mitigar o insucesso.

O Benfica caminhou magnânimo até à final de Amsterdão. Quem não recorda, após a eliminação do FK Áustria, o concerto da orquestra vermelha na Luz? Na primeira mão, o triunfo coube aos alemães, em dia de neve maldita…e sem Eusébio, lesionado. A desforra, essa, dias depois, roçou a perfeição. Seis golos, com dois de Eusébio, ao Nuremberga. “A dada altura, dei por falta de uma medalha com a santa da minha devoção, que a minha mãe me oferecera três meses antes de vir para Lisboa”, explicou, sugerindo que mais golos poderia ter apontado com a Santa das Boas Graças. O amuleto jamais apareceu, a fé como que recrudesceu.



Eliminados os britânicos do Tottenham, numa meia-final de grande dramaticidade, eis que, a 2 de Maio de 1962, o Benfica sobe ao palco da glória, em Amsterdão, já com o estatuto de campeão da Europa para defrontar o Real Madrid, de Di Stéfano, Puskas, Gento, Del Sol e Santamaria, “o primeiro grande clube moderno”, na observação sapiente de François de Montvion, director do “France Football”. Exauriu-se Eusébio. Ele e os companheiros Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavem, Germano, Cruz, José Augusto, José Águas, Coluna e Simões. O despique foi grandiloquente. Até começou equilibrado, mas Puskas abriu o activo e, seis minutos depois, marcaria o 2-0. A final parecia sentenciada e nas bancadas só os espanhóis vibravam. Era imperativo que soasse o alarme vermelho e nada melhor do que um livre à entrada da área. À base do poste rematou Eusébio, mas José Águas, no sitio certo, fez a recarga vitoriosa e também melhorou a expressão do moral benfiquista. Como corolário, num lance em que Eusébio lutou nas alturas com o guarda-redes merengue, aproveitou Cavem para restabelecer a igualdade. Mas a desdita não se fez esperar e, de novo Puskas, antes do intervalo, batia Costa Pereira.

No descanso, rezam coincidentes testemunhos, Bela Guttmann só pronunciou uma frase. Ei-la: “O jogo está ganho, não se preocupem”, num registo profético. Mário Coluna cedo empatou de novo a contenda. Até que emerge Eusébio, provocando uma hemorragia colectiva de prazer nas bancadas lusas. Dois golos marcou. Após um delicioso apontamento, o miúdo da Mafalda caiu na área. O golpe foi sucio e a grande penalidade apontada. Com o requinte dos apaixonados, Eusébio colocou a bola na marca, maricón lhe chamou Santamaria, com o fito de o desconcentrar. Não entendeu o insulto e, em surdina, inquiriu Coluna. “Marca o golo e chama-lhe cabron”. As duas coisas fez. Gloriosamente.

Tempo houve ainda para novo tento apontar. Foi o da consagração. Por isso, “Eusébio es una bestia”, escreveu o jornalista espanhol Ramón Melcon, um elogio com laivo de revolta. “Eusébio, a Pantera Negra, estraçalhou o Real Madrid”, na opinião do repórter britânico Desmond Hackett, para quem “foi uma noite de futebol majestático; esta nobre equipa do Benfica exibiu um futebol perfeitamente ao nível das realezas que estavam na cidade, devido ao aniversário da rainha Juliana”.

Da beleza do futebol virginal, aristocrata da bola virava Eusébio. Por isso, como escreveu epicamente o nosso Carlos Pinhão, “na era de Eusébio, Eusébio é que era”.

Alfredo Di Stéfano havia sido apeado do cume da pirâmide europeia da coisa redonda. No Velho Continente proclamava-se um novo rei. Humilde, sempre humilde, como também só sempre são os homens bons, Eusébio guarda com uma devoção quase evangélica a camisola do astro argentino, naturalizado espanhol. “Para mim, tem tanto significado como a da Taça dos Campeões”, precisa Eusébio. “Não era Di Stéfano o meu ídolo e o jogador mais completo que vi actual em toda a minha vida?”. Era mesmo.



Como foram também mais três as hipóteses de se voltar a sagrar campeão da Europa. Logo no ano subsequente à final de Berna, com o AC Milan (1-2); em 64/65, frente ao Inter (0-1); em 67/68, ante o Manchester United (1-4, após prolongamento). Os colectivos benfiquistas falharam, ainda que sempre soçobrassem com dignidade. A dignidade à Benfica, misto de amor e de luta, de entrega e de esforço, de prazer e de classe. Assim foi também nas duas finais perdidas da Taça Intercontinental, com o Peñarol e o Santos. Só que o Benfica esteve sempre lá. No areópagos da fama. Clube mítico se fez.

Quando, na primavera de 63, Portugal venceu o campeão do Mundo, a selecção do Brasil, no Estádio Nacional, com um golo solitário de José Augusto, Eusébio cumpria ainda a sua oitava internacionalização. “Agora, é só continuar até ao Mundial de 66”, atirou premonitoriamente, na sua expressão serena de felicidade.

Estávamos na antecâmara da jornada épica em terras inglesas. À equipa das quinas cedeu, nessa altura, largo contingente o Benfica. Em representação do clube da Luz, Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, respectivamente seleccionador e técnico, chamaram à campanha Eusébio, Germano, Coluna, Simões, José Augusto, Cruz e Torres. Com inspiração nos “Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, nasceram os Magriços. Esfomeados de sucesso, protagonizaram imaculadamente a fase de preparação, perante a Noruega, Escócia, Dinamarca, Uruguai e Roménia, sem erro de anacronismo. Eusébio até só marcou três golos, mais parecendo adiar a exortação dos requintes de goleador para as melhores e autênticas núpcias. Foi a Hungria a preambular a maior odisseia de toda a história do futebol indígena. Vitória por 3-1, com golos vermelhos de José Augusto (2) e José Torres, “que 32 anos de espera para chegar a uma fase final até justificavam uma aragem de sorte”, comentou Vítor Santos. E o mestre descobriu “uma Académica de gala… encarnada e verde”, no segundo embate, frente à Bulgária, para um triunfo luso, por incontestáveis 3-0, já com um tento assinado por Eusébio.

Até que chegou o Brasil, quatro anos antes vencedor de igual certame no Chile. Poderia Portugal ter algum complexo de pequenez? Não eram o Benfica e o Sporting habituais clientes das melhores ementas do futebol europeu? E não havia Eusébio? Um imprevisto golo do mais baixinho em campo, Simões de seu nome, com garbosa cabeçada, abriu as hostilidades. Para não ficar atrás, logo de seguida, também Eusébio, todo ele violando as leis da física, num soberbo momento antigravidade, apontou o segundo golo, nem mais nem menos que o primeiro de cabeça ao serviço da equipa de todos nós. Rildo, o brasileiro, ainda reduziu, mas guardado estava o melhor pedaço. E que pedaço! Pedaço de talento singular, aquele remate de Eusébio, quase à velocidade da Luz. Era o 3-1 final, que Pele decerto não viu, ele que do campo saíra de forma precoce, após ter disputado rijo lance com o lateral do Sporting, o do “cantinho de Morais”, da final verde de Antuérpia.

Por limite apenas o céu ou nada a declarar com excepção do génio, alternativamente, bem poderiam traduzir a mágica exibição de Eusébio naquela Portugal-Coreia do Norte. Aí estava o artista da bola, o poeta do jogo, o mítico herói do povo.



A perder por 0-3, Eusébio por porventura o primeiro dos imperturbáveis. Revoltou-se na sua melhor expressão. Produziu lances ornados de fantasia, contagiou os companheiros, marcou golos como se de regresso estivéssemos ao milagres das rosas. Quatro foram, com José Augusto a fechar a contagem (5-3). Nesse jogo como em mais nenhum outro, Eusébio submeteu a bola ao império da sua vontade. No Mundial, seguiu-se a impiedosa derrota ante a Inglaterra, país organizador (2-1, com um golo de Eusébio), após trapaça sórdida. É que o palco do jogo foi Londres, no belo Wembley, à revelia dos regulamentos. Por isso, Manuel da Luz Afonso disse que “se o jogo tiver de ser resolvido por moeda ao ar, a dita moeda terá duas caras ou duas coroas”. Necessário não foi. O Portugal de Eusébio viu-se compelido a jogar com a União Soviética, na discussão de um lugar no pódio. E venceu. Eusébio fez o nono golo na prova, sagrando-se o melhor marcador. Melhor jogador, também.

A eusebiomania que, muito justamente, no rescaldo do Mundial de 66, atingiu Portugal e o Mundo reverteu a favor do Benfica. Ao jogador e ao clube chegaram muitos cantos da sereia ao longo dos anos. “´É património do Estado”, judiciou mesmo Salazar, confrontado com a hipótese de Eusébio representar a Juventus. “Então eu mal conheço a pessoa, não é da minha família, como é que podia impedir-me de ir ganhar aquela pipa de massa?”. Era a generosidade postiça do velho regime. Para trás ficaram também o Inter de Milão, o Real Madrid, o Vasco da Gama e tantos, tantos outros clubes que disputaram os seus préstimos.

Nos 15 anos que jogou no Benfica, escreveu Baptista Bastos, “Eusébio representou-nos, àqueles que pediam passagem, aos anónimos, aos arranhados, aos sovados por todas as injustiças (…), Eusébio foi todos nós sendo apenas ele (…), Eusébio realizou todos os nossos sonhos, sonhando-os por todos nós”. Eusébio e o Benfica tornaram-se indissociáveis. Ainda hoje, o nosso futebolista do século mantém-se recordista de títulos nacionais. Onze vezes ganhou a prova máxima e em cinco ocasiões venceu a Taça de Portugal. Arrebatou sete vezes a Bola de Prata, duas vezes a Bota de Ouro e uma vez a Bola de Ouro. Vestiu as camisolas da UEFA e da FIFA. Fez o Benfica peregrinar em glória pelas mais diversas paragens.



De águia ao peito, Eusébio disputou 715 jogos, tendo apontado 727 golos. No decurso da mais rica era vermelha, fez por ano 48,5 golos em média. Também por essa razão, com o moçambicano nos seus quadros, na velha Luz, essa fantástica praça desportiva, o Benfica, para consumo doméstico, esteve nove (!) anos consecutivos sem perder, desde 17/10/65 (2-4, com o Sporting) até 30/12/74 (2-3, com o Vitória de Setúbal, partida em que não alinhou por se encontrar lesionado).

Na contabilidade pessoal de Eusébio, estão anotados 1137 golos, tendo o milésimo sido marcado, já no ocaso da carreira, pelo Toronto Metros, frente ao Minnesota. Com dificuldade, ele que tem uma memória quase fetal, consegue elencar cinco das suas melhores obras, desde “o terceiro golo contra os suíços do Chaux-de-Fonds, o também terceiro golo apontado no Mundial ao Brasil, um golo à selecção do Japão, um livre directo à baliza do sportinguista Vítor Damas, até ao pontapé de quarenta metros que fulminou as redes da Juventus”.

Ao lado de Pele (Brasil), Alfredo Di Stéfano (Argentina/Espanha), Franz Beckenbauer (Alemanha), Bobby Charlton (Inglaterra), Johan Cruijff (Holanda), Michel Platini (França), Ferenc Puskas (Hungria/Espanha), Stanley Mattews (Inglaterra) e Lev Yashin (Rússia), o nosso Eusébio foi eleito pela FIFA, organismo que superintende o futebol mundial, um dos dez melhores futebolistas de todos os tempos. “A maior distinção da sua carreira”, garantiu o jornalista Vítor Serpa, director de “A Bola”. De facto, apetece perguntar que cidadão português, qualquer que seja o ramo de actividade, terá sido escolhido entre a melhor dezena mundial de sempre no seu mester? Eusébio, claro.

Eusébio cedo da bola se enamorou. Possui o mais invejável relicário futebolístico nacional. Coloriu o país de vermelho. Ensinou ao mundo onde fica Portugal.

Eusébio ganhou e merece esse raro direito à imortalidade.

ednilson

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  • 17 de Fevereiro de 2008, 18:57
Álvaro Gaspar Pinto. Oeiras. 27 de Fevereiro de 1912-1969. Defesa.
Épocas no Benfica: 12 (34/46). Jogos: 305. Golos: 6. Títulos: 3 (Iª Liga), 3 (Campeonato Nacional), 3 (Campeonato de Lisboa) e 3 (Taça de Portugal).
Outros clubes: Carcavelinhos. Internacionalizações: 7.




Equipa 1937/1938

Poucos se poderão gabar de um papel tão propulsor quanto o de Gaspar Pinto no Benfica. Jogando na retaguarda, emocionalmente sugeria ser o primeiro da linha da frente. Um futebolista intratável. Duro, arrojado, pungente. No colectivo, combatia qualquer vestígio de laxismo. Por amor à chama sagrada. Ao Benfica.

Expressão da sua longevidade, entregou-se à causa garrida de 1934 a 1946, na caderneta de títulos, no numero de três sempre presente – três Campeonatos Nacionais, também três I Ligas, mais três Campeonatos de Lisboa, ainda três Taças de Portugal. Conterrâneo foi de Gustavo Teixeira, Albino, Vítor Silva, Valadas, Espírito Santo. Ao debute assistiu de Francisco Ferreira, Teixeira, Rogério, Julinho, Arsénio, Moreira, Jacinto. Era referência obrigatória de um Benfica ainda nos tempos do mais terno amadorismo. Mas já à procura da estrada do sucesso, na rudimentar semiótica do profissionalismo. E em plena sala de espera da Taça Latina, o troféu que haveria de arrebatar, quatro anos depois do abandono de Gaspar Pinto. A sua influência era tão acentuada que Rogério de Carvalho, o célebre Pipi, confessava ter “sentido receio, no primeiro ano, por estar rodeado de craques como ele, Albino ou Francisco Ferreira, ídolos da juventude, cujo os cromos com as caras deles saíam nos rebuçados da altura”.

Para os anais ficaram duelos que protagonizou com Fernando Peyroteo, genial avançado do Sporting. A palavra de ordem era desestabilizar. Física ou verbalmente. Não poucas vezes, Gaspar Pinto foi acusado de falta de lealdade. O ferrete provocava-lhe irritação e era “nos campos a vibrar”, do poema imortal de Paulino Gomes Júnior, que sempre o demonstrava.



Nasceu em 1912, ano da morte do maratonista do Benfica, Francisco Lázaro, nos Jogos Olímpicos da Suécia. Pelo Carcavelinhos chegou à Selecção Nacional. Só depois vestiu a camisola da águia, aumentado para sete o número de internacionalizações. Vítor Gonçalves, uma das mais notáveis personalidades do universo benfiquista, foi o seu primeiro treinador. Com o húngaro Janos Biri terminou a carreira, num encontro disputado na Tapadinha (2-3), frente ao Atlético. Para trás ficavam mais de três centenas de jogos na equipa de honra, marca apenas conseguida por outros 25 jogadores ao longo da centenária viagem.

Gaspar Pinto era um dos mais populares atletas do clube. Os adeptos reviam-se nele, na sua abnegação, na sua vontade indómita de vencer. Durante anos, foi lembrado com saudade. E porque a “memória… é onde tudo acontece para nos pertencer”, como escreveu Virgílio Ferreira, Gaspar Pinto pertence-nos, pertence à antologia benfiquista.
« Última modificação: 17 de Fevereiro de 2008, 19:01 por ednilson »

VitorPaneira7

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  • 17 de Fevereiro de 2008, 23:49
Quem dera ter visto Eusébio jogar. Já agora um dos favoritos do meu pai o Vitor Martins também está na lista?Muitos dos  mais velhos falam bem dele.