53816 - Tópico: Decifrando imagens do passado  (Lida 166467 vezes)

RedVC

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  • 28 de Janeiro de 2016, 21:15
Redvc, obrigado por partilhares essas histórias todas conosco. Grande fonte de informacao e um belo trabalho.
Excelente!

Obrigado alfredo! O0

RedVC

  • Eusébio
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  • 30 de Janeiro de 2016, 15:49
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Um inesperado Glorioso.

Na edição de 25 de Setembro de 1917 o prestigiado periódico madrileno “El Heraldo Deportivo” numa das suas secções regulares “Cronicas Portuguesas”, assinado por Manuel Nogareda, fazia a evocação de Arthur dos Santos, um prestigiado professor e promotor do desporto em Portugal.


Fonte: El Heraldo Deportivo (Madrid). 25 Setembro 1917.


E nessa muito justa evocação, veio um detalhe que desconhecia: Arthur dos Santos foi um formador também no Sport Lisboa e Benfica!


Fonte: El Heraldo Deportivo (Madrid). 25 Setembro 1917.


A propósito desta colaboração com o Glorioso, porque o desporto em Portugal não é só o Benfica e porque o Benfica não é só desporto mas também Cultura, vamos aproveitar para falar de Arthur dos Santos. Falaremos da sua acção, principalmente no Ginásio Clube Português.



Arthur dos Santos (1874-1959)

Da sua tentativa para cultivar o gosto pelo jogo do pau, de que foi iniciador o saudoso Pedro Augusto, um excêntrico do seu tempo, alguma coisa fructificou também e a Escola Académica conta hoje no número dos seus professores Arthur dos Santos, discípulo directo de Pedro Augusto e seu sucessor no Real Gymnasio.” “Ilustração Portugueza” Nº98 p727 – 18 de Setembro de 1905. Fonte: https://onjogodopau.wordpress.com/tag/artur-dos-santos/


Arthur dos Santos é hoje um nome hoje quase esquecido mas na sua época foi um homem prestigiado e um verdadeiro pioneiro do desporto em Portugal. A sua acção de pedagogo do desporto decorreu como não poderia deixar de ter acontecido nessa Instituição de enorme importância que é o Ginásio Clube Português.

Nascido um ano antes da fundação do Ginásio Clube Português, Arthur dos Santos foi uma das maiores figuras daquela prestigiada instituição. Não tendo eu conhecimentos suficientes nem sendo o local para fazer uma pequena história dessa magnífica Instituição, ainda assim ficam alguns elementos.


Ginásio Clube Português (GCP)

O Ginásio Clube Português (GCP) é uma Instituição de grande mérito para a implementação de hábitos de prática de desporto.

Como consta do Artigo 1º do Capítulo I: O GINÁSIO CLUBE PORTUGUÊS (G.C.P.) é um Clube com grandes tradições no campo da ginástica portuguesa, pioneiro de diversas modalidades desportivas, distingu-se no campo do pleno amadorismo, rege-se pelos mais altos valores éticos do desporto, contribui para uma correcta formação da juventude e desempenha um papel notável no desenvolvimento desportivos do País.

Como se percebe, ao longo dos 140 anos da sua existência, o GCP promoveu e continua a promover os mais altos valores do desporto e da sã convivência entre os desportistas. O registo histórico de vários episódios da sua enorme contribuição pode ser visto aqui: http://www.gcp.pt/gcp/historia-e-patrimonio/momentos-historicos/1870-1879



Ginásio Clube Português, passado. Fonte: digitarq


Ginásio Clube Português, presente. Fonte: http://www.gcp.pt/media/galeria-de-fotos-e-videos


O Ginásio Clube Português (http://www.gcp.pt/) foi fundado em 18 de Março de 1875. Como aliás é detalhado no site oficial: “1875 - Fundação por Luiz Maria Monteiro da Costa, do Ginásio Clube Português, num pequeno palacete na Carreirinha do Socorro em Lisboa.


Luiz Maria Monteiro da Costa. O grande mentor da fundação do Ginásio Clube Portuguez. Fonte: Tiro Civil.

O grupo inicial era composto por 24 amigos de Luís Monteiro, todos amadores, rapazes amantes dos exercícios de força e dos perigos da ginástica acrobática.”


A instituição é detentora dos seguintes troféus e condecorações (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gin%C3%A1sio_Clube_Portugu%C3%AAs):

- Taça Fearnley
- Taça Olímpica
- Colar de Honra ao Mérito Desportivo
- Colar de Valor, Mérito e Bons Serviços da Federação de Ginástica de Portugal
- Comendador da Ordem Militar de Cristo (27 de Outubro de 1934)
- Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública (20 de Maio de 1935)
- Comendador da Ordem de Benemerência (27 de Março de 1945)
- Medalha de Honra de Mérito Desportivo
- Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa
- Medalha de Ouro da Federação Portuguesa Col. Cultura e Recreio
- Membro-Honorário da Ordem do Infante D. Henrique (3 de Julho de 1975)
- Sócio de Mérito da Federação de Ginástica de Portugal


Os Homens

Vem de longe a tradição do GCP ter homens prestigiados e comprometidos com a prática do desporto, bem formada, bem dirigida, dinâmica e saudável. Já se falou do fundador, mas muitos outros homens em gerações sucessivas, deram contribuição decisiva e renovaram a instituição mantendo as bases e valores.



Real Gimnásio Clube Portuguez. “Direcção e sócios que tomaram parte no último sarau”. Arthur dos Santos é o primeiro da esquerda em pé. Fonte: Tiro e Sport, nº 329, 30 Abril 1906.


Arthur dos Santos fez parte de uma terceira ou quarta geração do GCP. Uma geração de grande qualidade onde se incluíram outros professores prestigiados como Walter Awata (natação e ginástica), César de Mello (luta greco-romana, futebol e esgrima), Pedro Del Negro (esgrima e futebol), Manuel da Silveira (halterofilismo), António Martins (esgrima) e muitos, muitos outros.

Muitos foram ainda pupilos de Luís Maria de Lima da Costa Monteiro o dinâmico e notável fundador do Ginásio Clube Português. Como disse Homero Serpa esses homens ajudaram o GCP a compor um sólido e competente corpo docente. Com essa base o GCP assumiu a vocação de um sólido e prestigiado instituto de educação física.

O Ginásio clube Português foi juntamente com o Clube Lisbonense um dos pioneiros da prática do futebol organizado em Portugal. A primeira apresentação formal de um jogo de futebol terá acontecido em 1891. Nessa última décade do Século  XIX de entre os diversos grupos que praticavam o football destacavam-se três, o Carcavellos, o Lisbonense e o GCP. ficaram célebres os jogos disputados na Quinta Nova em Carcavellos e nos terrenos do Campo Pequeno. O GCP foi portanto um dos introdutores do futebol em Portugal, interessando pouco a discussão de quem foi efectivamente o primeiro.


No entanto e mesmo havendo predisposição para a prática do futebol, a modalidade acabou por não vingar no GCP por falta de um campo adequado. E assim tão naturalmente como começou o futebol extinguiu-se no GCP. Fiel aos princípios de desporto amador e formativo, o GCP floresceu na sua nobre, dedicada e persistente acção da promoção do desporto em Portugal, dedicando-se a muitas outras modalidades.

Arthur dos Santos foi essencialmente um desportista e um pedagogo. Foi uma dessas "formiguinhas" competentes e dedicadas que formou e motivou gerações de jovens e adultos para passo a passo ajudar a implementar no nosso país hábitos de actividade física e desportiva. Um país que estava indolente, amorfo e atrasado em dezenas de anos relativamente aos países Europeus mais avançados. Com excepção de pequenos núcleos como a Casa Pia, era de todo desconhecido benefício da prática da actividade física.

Apenas as classes mais altas compreendiam e praticavam algumas modalidades.
Também eram aquelas que tinham mais tempo disponível e dinheiro para os equipamentos necessários para essa prática. Ainda assim a Lisboa conservadora e puritana olhava com desconfiança para essas modernices e estrangeirices.

Havia que fazer uma revolução de mentalidades e sensibilizar a juventude para um outro modo de vida. E o Ginásio Clube Português trouxe essa revolução. Lentamente nas escolas, liceus e Clubes, pela sua acção ajudou a mudar esse quadro.

Aqui vemos Arthur dos Santos com uma classe de estudantes do Liceu Passos Manuel



Equipa do liceu Passos Manuel durante um campeonato escolar disputado no velódromo de Palhavã em 15 de Julho de 1909. A equipa vencedora com o professor Arthur dos Santos, treinador na luta de tração. Fotografia Joshua Benoliel. Fonte: AML.


O Jogo do Pau


Caricatura de Arthur dos Santos.
Fonte: Tiro Civil nº 251 de 15 de Janeiro de 1903

O Jogo do Pau foi uma das maiores contribuições de Arthur dos Santos, tendo sido sucessor da Pedro Augusto na instrução dessa modalidade no Ginásio Clube Português. Como se diz no site da Federação Nacional do Jogo do Pau Português / Esgrima Lusitana : A “Esgrima Lusitana” ou “O Jogo do Pau” é uma esgrima portuguesa que se desenvolveu devido a necessidades reais de combate e auto-defesa”.



Os alunos do professor Arthur dos Santos no Ginásio Clube (circa 1910). Fonte: http://jogodopau.tumblr.com/post/32190526919/os-alunos-do-professor-artur-dos-santos-no-gin%C3%A1sio

Nessa época o Jogo do Pau praticado nas cidades tinha um sistema de graduações:
Iniciado: laço;
Grau médio: lenço;
Avançado: gravata;
Mestre: casaco e direito a se sentar ao centro.

Desde cedo que a prática do Jogo do Pau ganhou adeptos e praticantes tendo aliás sido dados saraus para o público. E não apenas em Lisboa.


1- Anúncio de Sarau do Real Ginásio Clube Português no Coliseu de Lisboa. 2- O Jogo do Pau numa exibição feita por discípulos de Arthur dos Santos em Abril de 1906 em Vila Franca de Xira. Fonte: http://jogodopau.tumblr.com/post/39785939365/in%C3%ADcio-do-jogo-do-pau-no-gin%C3%A1sio-clube-portugu%C3%AAs

Sempre com a preocupação da formação e de sessões de divulgação


Grupo de esgrima de pau da Escola Académica, orientado pelo mestre Arthur dos Santos. “Tiro e Sport”: 1- “Sports Atléticos no Velodromo de Lisboa” -15 de Julho de 1909; 2- “A festa da Escola Académica em favor das victimas do terramoto do Ribatejo” -20 de Junho de 1909; 3- “Festa escolar académica” -15 de Junho de 1907. Fonte: https://onjogodopau.wordpress.com/tag/artur-dos-santos/


O jogo do pau ou esgrima Portuguesa nos dias de hoje. Fonte: onjogodopau.wordpress.com

A contribuição do Professor Arthur dos Santos demonstra como o nosso Clube desde muito cedo se preocupou em promover a prática do desporto, o eclectismo e a formação de atletas e homens. Os nossos dirigentes cedo viram no Clube a necessidade e vontade de ter um papel social, formativo e pedagógico.

E assente nessa prática e na sua Portugalidade, o Benfica tornou-se cada vez mais popular, mais socialmente comprometido, mais associado ao desenvolvimento harmonioso da nossa sociedade e aos valores da sã convivência entre os homens. E em meu entender, é isso devidamente mesclado com a ambição, com os valores estabelecidos pelos fundadores e pelos pioneiros dos primeiros anos que torna o nosso Clube tão especial e tão querido de milhões de pessoas pelo mundo. Sendo um símbolo da Portugalidade o Benfica é reconhecido e admirado em todo o mundo.

Para os adeptos, ainda e sempre, a possibilidade de ter no Clube do seu coração um local para que os seus filhos possam praticar desporto é um dos pilares do Clube. Porque o Sport Lisboa e Benfica não é só futebol. O nosso Clube é ecletismo, é desporto nas suas vertentes competitivas e formativas. É um Ideal. É um orgulho para todos nós.

Pessoas como Arthur dos Santos trouxeram com o seu saber e dedicação pequenas mas importantes contribuições para o Ideal.


Última fotografia que conheço do Professor Arthur dos Santos (segundo a contar da esquerda) visitando uma exposição em meados da década de 30. Ali na frente com um papel na mão está Vasco Rosa Ribeiro que foi Presidente do Sport Lisboa e Benfica em três mandatos, de 1933 a 1935 (http://serbenfiquista.com/forum/index.php?topic=44552.0). Vasco Rosa Ribeiro foi também presidente do Ateneu Comercial de Lisboa,Fonte: Digitarq.



« Última modificação: 05 de Maio de 2016, 11:36 por RedVC »

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  • 03 de Fevereiro de 2016, 00:11
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As Terras das Salésias.

A ideia de falar nas Salésias surgiu depois de ver esta fotografia:


Campo das Salésias, Janeiro 2016. Fonte: jornal "A Bola".


Já por aqui falamos muitas vezes desse lugar mítico: as Salésias. Berço do Sport Lisboa, berço do Futebol Português.

As Salésias do Sport Lisboa:
Terras do Desembargador (1903-1908)

No final do Século XIX, numerosos jovens das famílias mais endinheiradas de Lisboa deixaram de ter um local de eleição para a prática do futebol. Com a construção da Praça de Touros do Campo Pequeno perdiam-se dois (precários) campos de futebol. Esses terrenos tinham sido intensamente usados durante alguns anos depois da introdução do futebol em Portugal (dito de forma simplista...) por Guilherme Pinto Basto, por volta de 1888. Algures por 1892 a situação mudava e havia que encontrar alternativas.


Campo Pequeno, 1892. Os últimos dos pioneiros do futebol nas cercanias do Campo Pequeno. Já depois da construção da Praça de touros. Fonte: Em Defesa do Benfica.


Nessa época o jogo era ainda essencialmente praticado por miúdos das classes mais altas da sociedade Lisboeta. Mas isso iria mudar justamente com a mudança progressiva do vórtice do incipiente futebol Português para a zona de Belém.

Ora, para lá dos vastos areais de Belém, nas cercanias de onde hoje é o Centro Cultural de Belém, as Salésias tinham vantagens para a prática do futebol. Era um terrenos vasto e relativamente plano mas que tinha o grande problema de ser um local público frequentemente utilizado pelos militares para treinos de cavalaria e exercícios militares.


Belém por volta dos anos 20. Esquerda: vista aérea mostrando os vastos descampados e areais de Belém. Direita: treinos de cavalaria nas Terras do Desembargador às Salésias. Fonte: AML.

Mas, enquanto foi possível, por ali começaram a acontecer intensas e competitivas futeboladas, que foram evoluíndo para treinos mais ou menos organizados. As Terras do Desembargador às Salésias foi o local em que o nosso clube elegeu para os seus treinos - mais de 20 - durante o anos de 1904.


Treino (?) entre jogadores do Sport Lisboa e Casa Pia (?). Futeboladas nas Salésias ou melhor as Terras do Desembargador às Salésias! Fonte: Em Defesa do Benfica.

E por ali se jogaram os primeiros jogos de futebol à séria!


Fase de jogo entre o Sport Lisboa e o Clube Internacional de Futebol disputado nos terrenos das Terras do Desembargador às Salésias. Provavelmente datada de 1907. Vê-se José da Cruz Viegas e lá ao fundo Emílio de Carvalho. Lá ao fundo a Igreja da Memória na Ajuda. Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


A única fotografia conhecida de uma equipa do Sport Lisboa alinhada nos terrenos das Terras do Desembargador às Salésias. Entre outros, vestido de branco estava o Glorioso Manuel Gourlade. Lá ao fundo o Palácio Nacional da Ajuda. Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


Na verdade o campo das Salésias usado pelo Sport Lisboa não era situado no mesmo local em que depois o CFB construiu o seu campo, que mais tarde passou a chamar Estádio José Manuel Soares Soares em homenagem ao malogrado Pepe.

As nossa Salésias situam-se num local próximo mas distinto.

As Salésias do Clube de Futebol "os Belenenses":
Estádio das Salésias, depois Estádio José Manuel Soares (1928-1955)

Quando foi fundado em 1919, o CFB teve um campo de recurso, o Campo do Pau do Fio. Assim se chamava porque junto à linha divisória do terreno de jogo estava colocado... um poste telegráfico. Uma situação ridícula só possível de acontecer nessa época. Era o que havia...




Campo do Pau do Fio, situado na Rua Vieira Portuense. Foi o 1º campo do CFB.

Depois, o CFB que nasceu modestamente acabou por beneficiar de ter filhos de Belém que eram seus sócios e eram influentes quer nas esferas políticas quer nas militares. Homens como Francisco Reis Gonçalves, Virgílio Paula e João Luís de Moura (figura importante do início do antigo regime que chegou a ser governador civil de Lisboa). O CFB conseguia assim algo que o Sport Lisboa tinha tão duramente tentado fazer duas décadas antes. Algo que, porque fracassado, acabou por levar o Clube a sair da zona de Belém e ir procurar soluções para... Benfica.

Movidas influências o novo clube conseguiu autorização para concretizar uma velha aspiração dos filhos de Belém, ou seja que lhe fosse permitido instalar-se num terreno descampado perto do mítico lugar das Terras do Desembargador.

Nascia assim o Estádio das Salésias




O Estádio das Salésias foi inaugurado no dia 29 de Janeiro de 1928, num encontro com o Carcavelinhos para o campeonato de Lisboa.

Mais tarde, em 21 de Junho de 1931, foram inauguradas bancadas em cimento armado.

As Salésias eram o Estádio Nacional daquele tempo, pois o Estádio era dotado de um ervado que os outros clubes não tinham. Ali jogava a Selecção Nacional e ali se jogavam os jogos mais importantes. Ali se jogou a 25 de Junho de 1939 primeira final da Taça de Portugal (vencida pela Académica de Coimbra sobre o Sport Lisboa e Benfica). Ali decorriam todas as provas oficiais da Associação de Atletismo de Lisboa. Nesse tempo apenas o Estádio do Lima (Porto) tinha também um ervado).


Enchente no Estádio das Salésias. Belenenses x Benfica. Reconhecem-se Rogério "Pipi", Feliciano, Miguel Di Pace, Rosário e lá ao fundo Matateu.

Mas em Maio de 1946, depois de se sagrar campeão de Portugal (único título de campeão dos azuis do Restelo) e depois de um pedido do CFB para fazer obras de beneficiação os azuis foram surpreendidos. A Câmara Municipal de Lisboa notificou o Belenenses de que só poderia dispor das instalações desportivas das Salésias por mais seis anos, findos os quais teria de abandoná-las! Uma bomba nas Salésias.

A construção do novo Estádio do CFB tornou-se pois uma imposição. Mas uma vez mais a vitalidade e as influências do Restelo responderam para erigir um novo e muito belo projecto, a construção do Estádio do Restelo.


O Almirante Américo Tomaz e Francisco Reis Gonçalves. dois eméritos sócios do Clube de Futebol "os Belenenses. O primeiro foi Presidente da República e o segundo foi décadas antes fundador do... Sport Lisboa.

Mas mesmo antes da mudança para o novo estádio, as Salésias testemunhariam ainda um dos episódios mais dramáticos da vida do CFB.


Fonte: ultrasfuriaazul1984.blogspot.com


Finalmente no ano seguinte, o bonito Estádio do Restelo seria inaugurado com pompa e circunstância a 23 de Setembro de 1956.


Inauguração do Estádio do Restelo em 23 de setembro de 1956. Fonte: Belenenses ilustrado.

Ironicamente, o Estádio do Restelo apesar da sua beleza e grandiosidade acabou por coincidir com o início do declínio Belenense. Talvez porque o projecto foi megalómano e as dívidas foram danosas para o futuro do clube; talvez porque se perdeu a ligação à parte mais popular de Belém; talvez porque em termos sociais a zona de Belém estagnou; talvez porque o SCP e o SLB iam crescendo cada vez mais em sócios e pujança financeira; talvez até... por questões místicas. Talvez por tudo isso. Com alguns lampejos de grandeza o CFB nunca mais teve o carisma e grandeza dos anos 30 e 40.

A hipótese mais mística é aliás muito curiosa. Acaba por se harmonizar bem com a tradição e lenda das Salésias. As Salésias eram de facto um lugar místico e talvez o abandono significasse a perda do grande Belenenses. Para os mais sensíveis a essas questões talvez tenha sido isso mesmo que aconteceu. Talvez o actual regresso às Salésias seja uma espécie de regresso às origens. Talvez seja apenas nostalgia da grandeza perdida. Talvez seja algo mais.

Por tudo isso as Salésias representam um lugar de enorme carga para os azuis e para o futebol Português. ali ao lado foi o berço do Sport Lisboa, depois Sport Lisboa e Benfica. Ali ao lado foi o berço do Clube de Futebol "os Belenenses". Ali ao lado foi o berço do Casa Pia Atlético Clube. Tantos e tão importantes foram os factos históricos relevantes para o futebol e para o desporto Português.

Agora temos esta boa notícia:


Fonte: Clube de Futebol "os Belenenses"

Obras nas Salésias decorrem a bom ritmo.

O projeto de requalificação do Campo das Salésias, o primeiro campo de futebol em Portugal, que tinha sido expropriado ao Belenenses em 1956, é uma das bandeiras do mandato do presidente do clube Patrick Morais de Carvalho. Um mês depois de afirmar ao nosso jornal que as obras estariam concluídas no primeiro trimestre de 2016, o Belenenses publicou imagens nas redes sociais onde é possível ver que a requalificação decorre a bom ritmo.

«A requalificação das Salésias era uma velha aspiração de todos os belenenses, por todo o peso histórico deste campo. Parecia uma missão impossível, mas, contra tudo e todos, é agora uma realidade», dissera Patrick a A BOLA, a 22 de Dezembro de 2015, apontando o primeiro trimestre de 2016 como data para a conclusão das obras, cenário que é cada vez mais uma certeza.

Na fotografia publicada no facebook do clube da Cruz de Cristo, é possível ver que o recinto que irá servir para jogos/treinos das camadas jovens dos azuis do Restelo já tem um tapete de relva.
[/color]

Fonte: http://www.abola.pt/nnh/ver.aspx?id=595783

Depois de anos nisto:





São boas notícias. As Salésias vão deixar de ser um baldio, um desmazelo ultrajante às grandes memórias que lhe estão associadas, uma vergonha a céu aberto. Poderiam ter sido tornadas numa zona de evocação mas não. Talvez esta tenha sido a melhor solução. Em honra ao Glorioso passado as Salésias voltarão a ser um local de futebol, um lugar vivo com jovens a correr e a aprender a jogar futebol, a aprender a ser melhores pessoas. 

Parabéns ao CFB e à Camara de Lisboa (se estiver certo em pensar que a edilidade permitiu que o processo do CFB pudesse avançar)
« Última modificação: 04 de Fevereiro de 2016, 13:02 por RedVC »

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  • 06 de Fevereiro de 2016, 14:52
Bem, mais uma para o pequeno mas ilustre clube de leitores dos textos deste tópico.



-88-
“O Benfica saúda o Porto”

Dia 28 de Maio de 1952. Cidade do Porto.
Um avião cruza os céus da cidade invicta. Em terra, milhares de pessoas poder ler:

“O BENFICA SAUDA O PORTO”.


Uma imagem inesquecível. O avião cruza os ares do Porto. “O Benfica saúda o Porto”. Quem iria aos comandos. Talvez o nosso José Bentes Pimenta? Fonte: Centro Português de Fotografia.


Outros tempos.
Nesse dia, o Futebol Clube do Porto inaugurava o seu "Estádio do Futebol Clube do Porto" que popularmente ficou para sempre conhecido por Estádio das Antas.
     


Dois cartazes alusivo à Inauguração do Estádio do Futebol Clube do Porto em 28 de Maio de 1952.


 

Bilhete da inauguração do Estádio das Antas. 80 escudos!

 


Estádio das Antas, inaugurado em 28 de Maio de 1952. Ainda se decorriam as obras nos acessos ao Estádio. Fonte: tribunaldasantas.com

Futebol Clube do Porto, clube fundado em 2 de Agosto de 1906 por José Monteiro da Costa (12 de Outubro de 1881 / 30 de Janeiro de 1911):


Fonte: Papoila Satitante
 
 
O FCP inaugurava o seu novo Estádio dando assim por finda uma odisseia que tinha passado por dois campos próprios (Campo da Rainha e Campo da Constituição) e a utilização de dois campos de outros clubes (Campo do Ameal, propriedade do Club Sport Progresso e o Estádio do Lima, propriedade do Académico FC) quando para jogos mais importantes necessitava de um campo melhor e com mais capacidade.


Os campos utilizados pelo FCP antes da inauguração do Estádio das Antas. Campo da Rainha (1913-1917); Campo da Constituição (1913-1917); Campo do Ameal (propriedade do Club Sport Progresso); Estádio do Lima (propriedade do Académico FC).

O Estádio foi inaugurado no mesmo dia em que a Ditadura Portuguesa, implantada em 28 de Maio de 1926, fazia 26 anos. Uma escolha de data certamente do agrado dos líderes políticos da época.



Dia de inauguração do Estádio das Antas, aspecto do exterior e interior do Estádio do lado da bancada coberta. Fonte: reflexaoportista.pt

No final da cerimónia de abertura e antes do grande jogo, o General Craveiro Lopes, Presidente da República de Portugal, desceu da tribuna VIP à pista para apor no estandarte, a Medalha de Mérito Desportivo. Depois passou a revista à guarda de honra formada por um batalhão de milícias da Mocidade Portuguesa.
 


Da tribuna VIP ao relvado, o General Craveiro Lopes condecorou o Futebol Clube do Porto com a Medalha de Mérito Desportivo.

Como era norma desses tempos, nas inaugurações de Estádios e nos aniversários dos clubes, as colectividades convidadas faziam-se representar com comitivas de atletas e dirigentes vestidas a rigor. Assim, em ambiente festivo, as comitivas desfilaram exibindo as suas cores e emblemas em sinal de cortesia ao clube anfitrião.

 

Alinhamento das comitivas após o desfile.


O Sport Lisboa e Benfica fez-se representar com uma numerosa comitiva com atletas muitas modalidades.
 


Aspecto do alinhamento das comitivas. A nossa, bem numerosa, aparece em primeiro plano. Fonte: Centro Português de Fotografia.

Mas o convite do FCP ao Benfica pretendia que o nosso Clube não apenas se fizesse representar mas que levasse a sua equipa de honra para o primeiro jogo do novo Estádio.

A retribuição do nosso Clube fez-se com a cortesia e elegância que as boas relações existentes na altura entre os dois assim exigiam.

Depois do desfile da nossa comitiva e da amistosa saudação aérea, a nossa equipa de honra do futebol entrou no terreno de jogo à maneira Brasileira, com os jogadores a transportar uma bandeira do Futebol Clube do Porto.
 


Aspecto da entrada da nossa equipa em campo para o grande jogo FCP 2 x SL Benfica 8. À frente o Capitão Francisco Ferreira. Atrás 6 jogadores do Benfica transportam a bandeira do FCP. Fonte: Centro Português de Fotografia.

 

Diversos aspectos da inauguração do Estádio das Antas em 28 de Maio de 1952. O Avião com a saudação do SLB ao anfitrião; o alinhamento das comitivas; a entrada do FCP no terreno de jogo; um aspecto durante o FCP 2 x SLB 8. Fonte: Centro Português de Fotografia.

E depois viria o grande jogo.

 

O Glorioso plantel que obteve uma inesquecível vitória por 8-2 sobre o FCP, na inauguração do Estádio das Antas.
De pé, esquerda para a direita: Bastos, Félix, Moreira, Artur Santos, Julinho, Francisco Ferreira, Cândido Tavares (tr.), Jacinto e Braúlio. Agachados: Fernandes, Corona, Rogério, a Taça!, José Águas, Arsénio, Rosário e Manero.

A nossa equipa alinhou com :
 

A Gloriosa equipa que obteve uma inesquecível vitória por 8-2 sobre o FCP, na inauguração do Estádio das Antas.

Apesar de termos levado mais quatro jogadores (Braúlio, Jacinto, Manero e Julinho) não houve substituições. Marcaram pelo Sport Lisboa e Benfica: Arsénio (4 golos), José Águas (3 golos) e Rogério. Pelo FCP marcou Vital por 2 vezes. Para a história ficou Arsénio, marcador do primeiro golo de sempre no Estádio das Antas.


O mesmo onze aquando da conquista da Taça de portugal no ano anterior



A crónica do DL é clara em elogiar o bom jogo da equipa do Benfica e a falta de capacidade física e a balburdia organizativa revelada pela equipa do FCP. Nesses dias de inauguração a festa é frequentemente incompatível com a concentração e a boa capacidade competitiva de quem recebe. Foi assim dois anos depois no nosso próprio Estádio com o mesmo FCP. Mas na sua festa o FCP caprichou pela negativa.



Três momentos inesquecíveis da entrega da Taça aos Benfiquistas. O General Craveiro Lopes alinhado abraça depois o grande capitão Benfiquista Francisco Ferreira. Depois os inesquecíveis Moreira e Arsénio levantam com dificuldade a enorme Taça sobre o olhar de Fernandes. Fonte: revista Plateia e Jornal “O Benfica”.

A nossa equipa contava com grande nomes mas que já estavam em fim de carreira. Em 2-3 anos deixariam de jogar para se tornarem para sempre Saudades do nosso Clube: Francisco Ferreira, Julinho e Moreira, retiraram-se do futebol; Félix seria afastado da equipa e Rogério abandonaria por não querer abraçar o profissionalismo imposto após a chegada de Otto Glória.

De entre todos, estou certo que os mais emocionados terão sido Francisco Ferreira e Julinho. Tinham ambos contas passadas com o FCP. Francisco Ferreira, o popular Chico, capitão de equipa, homem de rija têmpera e grande Glória do SLB. De 1935 até 1938 usou as cores do FCP. Depois por falta de critério e estupidez dos dirigentes portistas, Francisco Ferreira discriminado no clube azul decidiu sair para o Benfica. E de águia ao peito, de 1938 a 1952 cobriu-se de glória. Nas Amoreiras primeiro e no Campo Grande, Chico fez-se Benfiquista. Pertenceu de forma notável a uma linhagem distinta de grandes capitães do Benfica. Uma carreira cheia de dias de glória e com o trágico incidente do Torino quase no seu final. Naquele dia 29 de Maio de 1952, no final do jogo, na cabina, diz-se que Francisco Ferreira anunciou que esse tinha sido o seu último jogo de águia ao peito. Os companheiros e dirigentes, inconformados conseguiram demove-lo. Mas fatalmente a Biologia acaba por se impor e assim Chico já não chegaria a jogar no novo Estádio da Luz, inaugurado no dia 1 de Dezembro de 1954. Ficou para sempre a Saudade de um capitão de fibra e talento que em boa hora se vestiu com a mais nobre de todas as camisolas.

Tal como ele, Julinho, o grande avançado centro veio da cidade do Porto, mas neste caso do Académico FC ou Académico do Porto, se quiserem. Antes de se tornar Benfiquista, os portistas bem tentaram a sua contratação. Julinho foi fiel à palavra dada e preferiu o grande Clube de Lisboa. Até o seu patrão portista lhe fez a vida negra. Mas Julinho era mesmo homem de palavra. E no Campo Grande deu alegrias múltiplas ao Benfiquistas. Foi um digno sucessor de Guilherme Espírito Santo. Goleador prodigioso, homem de enorme fibra, pertenceu a uma notável genealogia de goleadores. Nesse dia de 28 de Maio de 1952 Julinho, já veterano não chegou a jogar. Mas esteve presente e viveu essa enorme jornada no seio da equipa. Merecida recompensa para tão distinto jogador. Lá dentro já estava o seu sucessor, José Águas, o mais fino, elegante e letal dos avançados Benfiquistas. Alinhados depois da conquista da Taça, Águas posou bem à frente de Julinho.

O grande Águas tinha no seu lado esquerdo a enorme Taça entre ele e o grande Pipi. No seu lado direito estava o assombroso Arsénio, primeiro marcador de um golo nas Antas. Tanta Glória, tanta Saudade!


A enorme Taça conquistada naquele dia 28 de Maio de 1952, agora exposta no Museu Cosme Damião.


A edição do Jornal “O Benfica” do dia 31 de Maio de 1952. Uma capa à altura da vitória alcançada. Repare-se no cartaz no nariz do comboio "O Benfica saúda a laboriosa cidade Invicta".

Não há muito material disponível mas ainda assim um pequenos filme está disponível para visualização no youtube. Por azar o filme não tem imagens do jogo. Problemas com as câmaras certamente.


Quem sabe se um dia deste não aparecerá um filme e fotografias de melhor qualidade daquele dia. Um dia de festa azul em que as Águias voaram alto.

Alto nos céus da cidade do Porto.





« Última modificação: 07 de Fevereiro de 2016, 16:57 por RedVC »

Lorne Malvo

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  • 07 de Fevereiro de 2016, 01:34
Bom timing para o texto, a preparar já a recepção ao FCP. Era agradável espetar-lhes 8 novamente, mas já fico contente com 2 ou 3.  :)

RedVC

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  • 07 de Fevereiro de 2016, 10:43
Obrigado Lorne  O0

Esta vitória de 1952 vale por ela só. Bem gostava de ter belas imagens a cores para podermos evocar este grande dia como ele merecia.

Mas sim esperemos que seja venhamos a ter uma grande vitória na próxima 6ª feira. Estamos francamente melhor mas isso em 90 minutos pode não valer de nada. Este campeonato está a ser uma boa disputa. Boa para que daqui a muitos anos alguém ande por aí a decifrar imagens a propósito de Jonas, Gaitán e Co.

RedVC

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  • 09 de Fevereiro de 2016, 09:30
-89-
Outros Carnavais

1934, Avenida da Liberdade, Lisboa

Em dia de Carnaval desfilam os corsos carnavalescos pela Avenida. Desfilam diversas colectividades e agremiações: Casa Pia Atlético Clube, Futebol Clube Barreirense, Clube Atlético Campo de Ourique e Sport Lisboa e Benfica!

O cineasta Manuel Luíz Vieira (1885-1952) capta em filme esses momentos de folia. No nosso corso, entre os Gloriosos foliões aparece-nos na vanguarda um grupo de ciclistas com as bicicletas engalanadas. É pena não termos a cor para ver a exuberância do desfile. O filme é a preto e branco mas não esconde que o corso Benfiquista levou às ruas de Lisboa um enorme contingente de sócios e atletas cheio de vitalidade, alegria, festividade, enfim resumindo tudo, de Benfiquismo. Alguns desses ciclistas têm uma Águia ao peito. Orgulhosamente ao peito como era usual no equipamento dos nossos ciclistas daquele tempo. Aqui, de todas as idades, os nossos foliões ciclistas desfilavam com as suas bicicletas engalanadas. Em todos um sorriso de folia e a satisfação de fazer parte do corso do nosso Clube. Festa popular! Carnaval à Benfica!

Mais atrás um carro alegórico trazia mais alguns Gloriosos foliões. O carro estava decorado com Águias em sucessão que dão a ideia de um movimento ascensional. A Águia que voa!

Com a Águia no topo. Nos céus de Lisboa. De Lisboa para o Mundo.




Viva o Sport Lisboa e Benfica!


Foi assim o Carnaval de 1934. Aqui, em 2016, passados 82 Carnavais saúdam-se todos os Benfiquistas desse e de outros Carnavais.

Para quem quiser ver o filme todo:

http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=4931&type=Video

Realizado por Manuel Luiz Vieira (1885-1952)





« Última modificação: 09 de Fevereiro de 2016, 17:17 por RedVC »

Trezeguet

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  • 10 de Fevereiro de 2016, 09:55


TDP de 81, 3 golos do Nené e 3 assistências de Shéu Han

Ned Kelly

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  • 10 de Fevereiro de 2016, 11:39
Que glorioso trabalho que vai para aqui. É delicioso ler estas "estórias" da nossa história e como bons benfiquistas, cruzam-se sem qualquer incómodo episódios de outros clubes.

Gosto muito de passar por aqui. Respira-se o Benfica no que mais puro há do benfiquismo.

RedVC

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  • 10 de Fevereiro de 2016, 19:52


TDP de 81, 3 golos do Nené e 3 assistências de Shéu Han

Aaaah! Eu estive lá! Era criança. O meu Pai comprou-me uma pequena bandeira vermelha com o símbolo do Benfica bem no centro. Era de um tecido acetinado e tinha um pau de uma madeira leve, de forma quadrangular. Mesmo para criança. Como eu lamento não ter guardado essa bandeira até hoje. Aquando de um dos golos alguém ao meu lado tirou-me a bandeira tal era a alegria. Lembro-me de ter ficado com medo de não me devolverem. Mas não. Lá voltei eu para casa cheio de orgulho com a minha bandeira!

Desses tempos (talvez um pouco antes) lembro-me de ainda de um outro jogo no Estádio Nacional em que Portugal jogou contra a Noruega. Eu estava no peão por trás da baliza de Bento (acho que era o guarda-redes da selecção nesses dia). O golo foi marcado pelo Russo. Lembro-me de quando cheguei a casa e vi na televisão fiquei admirado pois foi um golo marcado muito mais longe do que me pareceu no campo. Outra coisa que me espantava era a mata onde se fazia os piqueniques e quando íamos para o Estádio subitamente passava-se da mata para as bancadas brancas. Num desses jogos também da polícia a cavalo.

Vou ver se há alguma coisa no youtube.

Doces, doces, doces memórias.
« Última modificação: 10 de Fevereiro de 2016, 19:56 por RedVC »

RedVC

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  • 10 de Fevereiro de 2016, 19:59
SL Benfica 3 FC Porto 1:




Portugal 3 Noruega 1



http://www.transfermarkt.pt/portugal_noruega/index/spielbericht/2258562

Só fixei o golo do Russo! Mas Néné esteve lá. Letal nos golos bem ao seu estilo. E com os calções branquinhos!



Guarda-redes:   Manuel Bento

Defesa:   Artur Correia, Carlos Simőes, Humberto Coelho, Alfredo Murça

Médio:   António Frasco, Rudolfo Reis

Avançados:   José Alberto Costa, Fernando Gomes, Reinaldo, Tamagnini Nené

Treinador:    Mário Wilson


0:1, Georg Hammer, Noruega (10')
1:1, Artur Correia, Portugal (37')
2:1, Tamagnini Nené, Portugal (59')
3:1, Tamagnini Nené, Portugal (71')



Não fazia ideia que tinha visto o Reinaldo a jogar ao vivo!  :cool2:
« Última modificação: 10 de Fevereiro de 2016, 22:59 por RedVC »

fudim flan

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  • 10 de Fevereiro de 2016, 21:05


TDP de 81, 3 golos do Nené e 3 assistências de Shéu Han

Aaaah! Eu estive lá! Era criança. O meu Pai comprou-me uma pequena bandeira vermelha com o símbolo do Benfica bem no centro. Era de um tecido acetinado e tinha um pau de uma madeira leve, de forma quadrangular. Mesmo para criança. Como eu lamento não ter guardado essa bandeira até hoje. Aquando de um dos golos alguém ao meu lado tirou-me a bandeira tal era a alegria. Lembro-me de ter ficado com medo de não me devolverem. Mas não. Lá voltei eu para casa cheio de orgulho com a minha bandeira!

Desses tempos (talvez um pouco antes) lembro-me de ainda de um outro jogo no Estádio Nacional em que Portugal jogou contra a Noruega. Eu estava no peão por trás da baliza de Bento (acho que era o guarda-redes da selecção nesses dia). O golo foi marcado pelo Russo. Lembro-me de quando cheguei a casa e vi na televisão fiquei admirado pois foi um golo marcado muito mais longe do que me pareceu no campo. Outra coisa que me espantava era a mata onde se fazia os piqueniques e quando íamos para o Estádio subitamente passava-se da mata para as bancadas brancas. Num desses jogos também da polícia a cavalo.

Vou ver se há alguma coisa no youtube.

Doces, doces, doces memórias.
tambem vi esse jogo no estádio,o sheu deu um autentico festival,anulou o frasco e parecia um polvo.
tres quartos do estadio eram de adeptos do benfica.

zappendrix

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  • 11 de Fevereiro de 2016, 10:11
SL Benfica 3 FC Porto 1:




Portugal 3 Noruega 1



http://www.transfermarkt.pt/portugal_noruega/index/spielbericht/2258562

Só fixei o golo do Russo! Mas Néné esteve lá. Letal nos golos bem ao seu estilo. E com os calções branquinhos!



Guarda-redes:   Manuel Bento

Defesa:   Artur Correia, Carlos Simőes, Humberto Coelho, Alfredo Murça

Médio:   António Frasco, Rudolfo Reis

Avançados:   José Alberto Costa, Fernando Gomes, Reinaldo, Tamagnini Nené

Treinador:    Mário Wilson

Suplentes:
Fidalgo, Alberto, Laranjeira, Pietra e Jordão.


0:1, Georg Hammer, Noruega (10')
1:1, Artur Correia, Portugal (37')
2:1, Tamagnini Nené, Portugal (59')
3:1, Tamagnini Nené, Portugal (71')



Não fazia ideia que tinha visto o Reinaldo a jogar ao vivo!  :cool2:


RedVC

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  • 13 de Fevereiro de 2016, 15:17
-90-
Construtor de Catedrais

Hoje vamos fazer uma viagem longa. Vamos começar com uma Catedral. Literalmente.
A Catedral de Maputo, Sé da Arquidiocese de Maputo.

 

A Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição em Lourenço Marques no seu aspecto actual e nos anos 50, poucos anos depois da sua inauguração.

É oficialmente designada como Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição. A sua primeira pedra foi colocada em 29 de Agosto de 1936 e a sua conclusão e consagração ocorreu em 14 de Agosto de 1944, numa cerimónia celebrada pelo Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa.


Notícia e imagens da cerimónia religiosa de consagração da Catedral de Lourenço Marques em 14 de Agosto de 1944. Em 4 de Julho durante as cerimónias de inauguração Marcial ainda esteve presente. Desconheço se Marcial nessa data ainda estava vivo e se esteve presente nessa cerimónia. Fonte: Artigo do Diário de Lisboa, 15 Agosto 1944, página 5 e fotografias de Madalena Barros (cortesia de José Manuel Dias).


Bela, airosa, a catedral é um edifício emblemático da cidade antiga capital Moçambicana de Lourenço Marques, actual Maputo. Está localizada na antiga Praça dos Paços do Concelho de Lourenço Marques, actual Praça da Independência. O edifício é um belo exemplo de Art Deco tendo uma altura interior de 16 m, e uma torre com 61 m de altura. A sua nave tem um comprimento de 66 metros e uma largura de 16 metros. Das suas notáveis características diz-se no sítio do Património de Influência Portuguesa (HPIP) da Fundação Calouste Gulbenkian:

O desenho desta igreja de planta basilical foi regido pela vontade de expressão formal dos seus elementos construtivos em betão armado: pilares e vigas salientes, lajes de cobertura em betão, cortiça e argamassa de cimento, paredes exteriores em blocos de betão com juntas aparentes. A expressividade estrutural, assim como o desenho e colocação axial do seu campanário, inspiram-se na Igreja de Notre Dame du Raincy, em Paris (1921-1923), de Auguste Perret, enquanto a cobertura abobadada remete para o anteprojeto da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (1934-1938), de Pardal Monteiro. É um edifício marcante, de desenho entre o estilo art déco e um certo gosto monumentalizante, e contém obras dos artistas plásticos Francisco Franco, António Lino, Simões de Almeida, Leopoldo de Almeida e António Maia Ribeiro. (fonte: http://www.hpip.org/def/pt/AcercaDoHPIP/ApresentacaodoPortal)
 


Uma bela obra que foi construída segundo o projecto e a liderança do engenheiro Marcial Simões de Freitas e Costa.
(Lisboa 29/07/1891 - ? ?/?/1944)



E é isso que nos interessa. Este é o “nosso” Marcial Freitas e Costa, extremo direito de uma das primeiras e das mais notáveis equipas da nossa história.
 

Pequeno trecho de um livro que alude ao processo de construção da Catedral de Lourenço Marques a partir de uma memória descritiva deixada pelo próprio Marcial Freitas e Costa. Fonte: Google livros.


Marcial Freitas e Costa foi jogador de futebol, militar, e como se verá engenheiro ligado aos caminhos-de-ferro e a projectos diversos na cidade de Lourenço Marques. Era um homem culto, pragmático mas acima de tudo para o universo Benfiquista é de salientar que se tratou de um valoroso pioneiro da nossa Gloriosa história.


Nascimento e juventude

Marcial nasceu em Lisboa em 29 de Julho de 1891. Era filho de Luís Teodoro de Freitas e Costa e de Maria da Glória Simões de Freitas e Costa. O seu pai era médico, natural da cidade da Praia, Cabo Verde e filho de um farmacêutico daquela bonita cidade cabo-verdina. A sua mãe era natural do lugar do Carvalho no concelho de Penacova. Marcial, o irmão e os Pais moravam em Lisboa, na Calçada de São Francisco. Mais tarde a família mudou-se para a zona de Belém, possivelmente para uma casa na Rua da Junqueira.
 

Calçada de São Francisco, Lisboa. Fonte: AML

O jovem Marcial estudou no antigo Liceu Passos Manuel também designado por Liceu do Carmo pois na altura estava provisoriamente localizado no Largo do Carmo no antigo Palácio de Valadares. Apenas em 1911 se instalaria no actual edifício. Talvez por isso Marcial tenha tido Arthur dos Santos (de quem já aqui falámos) entre os seus professores. Sabemos também que cedo revelou apetência pelo futebol, dividindo-se entre a sua actividade futebolística no Sport Lisboa e no Liceu. Sabemos que participou no Campeonato Escolar de 1908/1909 como defesa à direita (ver foto em baixo).
 

Antigo Liceu Passos Manuel quando ainda no Carmo. Foi este o Liceu frequentado por Marcial. Criado em 1836 por decreto do Ministro do Reino, Passos Manuel, o então Liceu Nacional de Lisboa passou por sete locais da cidade. Apenas em 1911 passaria para o actual local. Fonte: AML.


Jogador do Glorioso

Marcial fez parte da Gloriosa equipa do Sport Lisboa em 1906/07. Terá sido dos pioneiros nos treinos das Salésias mas não esteve entre os alinhados para o primeiro jogo em Janeiro de 1905. Seria ainda demasiado jovem. Aliás quando integrou a 1ª categoria do futebol do nosso Clube teria cerca de 16 anos. Tanto quanto se sabe jogou a extremo direito à frente do médio direito Fortunato Levy. Tal como este e como os irmãos Catataus, Marcial era um dos jovens, mesclando com a sua juventude a veterania dos Casapianos Couto, Carvalho, entre outros. Essa precocidade assentava certamente em que Marcial era bem constituído fisicamente e obviamente tinha de ter talento futebolístico para chegar à 1ª categoria. Nesse tempo as exigências a satisfazer por um jovem jogador eram muitas para ocupar um lugar na primeira categoria em vez de um veterano.

No tempo em que Marcial envergou o manto sagrado o número de jogos por época era pequeno. Para além disso os registos sobre os jogos de futebol eram escassos e por vezes não incluíam sequer uma ficha de jogo. Aconteciam vários jogos amigáveis que nem sequer eram registados. Sabe-se que Marcial foi titular da primeira categoria em 8 jogos de 1906/07. Não se pense que é pouco. Ser titular da 1ª categoria ao lado de nomes gigantes do meio futebolístico da época, veteranos de outros tempos indica bem qual era a sua valia futebolística. Por exemplo homens como Leopoldo Mocho, Félix Bermudes e Luís Vieira apenas jogavam na 2ª categoria. Cosme Damião e Marcolino Bragança apenas muito esporadicamente eram chamados por Manuel Gourlade à primeira categoria.

Pelo que nos diz Alberto Miguéns, Manuel Gourlade era metódico e organizado quando dirigia as equipas do nosso Clube. Chamava os melhores e para posições bem definidas. O Sport Lisboa tinha um óptimo conjunto de futebolistas Portugueses e por isso tinha capacidade para seleccionar os melhores. Marcial era um dos melhores.

A partir de 1907 verifica-se no entanto uma abrupta ausência de Marcial das nossas equipas. Apesar dessa ausência coincidir com a deserção de oito jogadores da nossa primeira categoria para o SCP, Marcial não foi um deles. Terá com certeza optado pela sua vida académica e profissional. Mas o interesse pelo futebol continuou presente e a sua ligação ao nosso Clube também, como a fotografia em baixo atesta. Voltaria a usar o manto sagrado alguns anos mais tarde mas já em categorias inferiores.


Equipa do Sport Lisboa em 1906/07; Equipa Liceu Passos Manuel de 1908/1909 e 2ª categoria do Sport Lisboa e Benfica em 1910/11. Marcial está assinalado.
Fonte: AML, Tiro e Sport e Em Defesa do Benfica, respectivamente.

Para além disso sabe-se que Marcial fazia parte da lista de 54 sócios indicados pelo Sport Lisboa aquando da fusão com o Grupo Sport Benfica. Continuou assim comprometido com o Clube nessa sua nova etapa quando passou a chamar-se Sport Lisboa e Benfica.
 

Lista dos 54 sócios do Sport Lisboa e Benfica que tinham transitado do Sport Lisboa em 1908. Marcial está indicado com o nº 255 e (presumo) seu irmão Joel (que presumo ser um erro devendo referir-se a Armel Freitas e Costa) tinha o nº 259. Fonte: CDI


Militar no Corpo Expedicionário Português

Em 1917, Marcial viria a integrar o Corpo Expedicionário Português à I Guerra Mundial. Como Alferes Engenheiro, embarcou no cais de Santa Apolónia para França em 26 de Maio de 1917. Regressou a Lisboa 4 de Agosto de 1919 por via terrestre. A data do regresso sugere a possibilidade de ter sido feito prisioneiro ou então de ter trabalhado na logística de apoio à guerra. Sabemos ainda que em Março de 1918 atingiu a patente de Tenente e que recebeu um Louvor pela sua competência e dedicação na sua missão junto da secção motorizada (automóvel) que esteve destacada junto do Corpo Britânico.

Talvez por isso ou também por isso, recebeu a condecoração do Grau de Oficial da Ordem de Avis em 30 de julho de 1928 sendo o Decreto de Concessão publicado no DG n.º 241, de 18 de outubro de 1928 (fonte: http://arquivo.presidencia.pt/details?id=133309&ht=marcial%20freitas%20costa).


Ficha de Marcial Freitas e Costa no Corpo Expedicionário Português. Pela sua ficha no CEP confirma-se que Marcial teve um irmão chamado Armel que nesse tempo morava na Rua dos Navegantes em Lisboa.  Fonte: Arquivo Histórico do Exército.

 

Aspecto do embarque de tropas Portuguesas em Santa Apolónia com destino a França. Fonte: AML.


Engenheiro em África

Não encontrei para já temos muita informação sobre a sua actividade como Engenheiro-chefe nos Serviços dos caminhos-de-ferro de Moçambique. Mas percebe-se que terá essa companhia tinha uma grande relevância no fluxo de pessoas, matérias primas e mercadorias na nossa ex-colónia de Moçambique.
 

Indicação de que Marcial Freitas e Costa foi Engenheiro-chefe da Empresa dos Portos, Caminhos-de-ferro e Transportes da Colónia de Moçambique.
Fonte: Gazeta dos Caminhos de Ferro nº 1348, de 16 de Fevereiro de 1943.


Estação terminal dos caminhos-de-ferro de Lourenço Marques na década de 40. fonte: revista Life.



Diversas imagens dos serviços de caminhos-de-ferro de Moçambique. Fonte: Restos de Colecção.


Desportivo Ferroviário de Lourenço Marques

Há claros sinais que Marcial Freitas e Costa manteve ao longo da sua vida o interesse no desporto. Clara demonstração disso é que foi responsável pelo projecto do primeiro campo de jogos do Desportivo Ferroviário de Lourenço Marques. Esse foi talvez o primeiro campo de futebol digno desse nome em Moçambique.

O clube foi fundado em 1924 com o nome de Clube Desportivo Ferroviário. Foi fundado por trabalhadores dos caminhos-de-ferro a partir da sua base ou seja não por vontade ou intervenção do topo da companhia. Apenas em 1931 a Administração Ferroviária reconheceu o mérito da colectividade e delegou no clube a tarefa de contribuir para a educação física e a promoção do desporto entre os seus funcionários.

(Fonte: http://bigslam.pt/destaques/clube-ferroviario-de-mocambique-sede-o-maior-clube-de-mocambique-comemora-hoje-o-seu-91o-aniversario/ a partir de um artigo escrito por Marcelo Mosse)

Mais tarde o clube alterou o nome para Clube Ferroviário de Lourenço Marques para finalmente em 1976, após a independência, passar a designar-se Clube Ferroviário de Maputo, nome que ainda conserva.

O clube tem um bom palmarés contando com 5 títulos nacionais (1982, 1989, 1996, 1997 e 1998) e 2 vitórias da Taça de Moçambique (1998 e 1992). Nas competições africanas o Ferroviário se distinguiu pois em 1993, comandado por Mário Coluna, fez uma óptima carreira na Taça das Taças Africanas.

Não admira pois esta homenagem dos "Ferroviários" aquando da morte do nosso "monstro sagrado"


Fonte: jornal "A Bola"


Actualmente, o clube tem dois campos de jogos, sendo o maior é o Estádio da Machava com capacidade para 45.000 espectadores. Esse estádio originalmente chamado estádio Salazar, foi inaugurado em 1968 num jogo Brasil 2 Portugal 0, mas nem Pelé nem Eusébio alinharam nessa partida.
 


Inauguração do Estádio Salazar em 30 Junho de 1968.

Mas o clube dispõe ainda, em partilha com o Ferroviário das Mahotas, de um campo mais modesto na baixa da cidade de Maputo, com capacidade para 5.000 pessoas. É esse o campo de que falávamos. Foi inaugurado em 1933 e recebeu o nome do seu principal Engenheiro: Campo Engenheiro Marcial de Freitas e Costa.

Mais um sinal do significativo legado deixado por este Glorioso. E que legado? Sabemos que para além do projecto para desse campo, Marcial foi também dirigente do clube. Deixou marca!
 

O emblema do Desportivo Ferroviário de Lourenço Marques. A - A sede construída em 1944, ano em que Marcial morreu. B – Campo Engenheiro Freitas e Costa. Não sabemos se Marcial esteve envolvido no projecto da sede mas sabemos que o projecto do Campo é seu. Fonte: http://housesofmaputo.blogspot.pt/


É curioso notar alguma semelhança entre a bancada desse campo e… a bancada do nosso Campo das Amoreiras, construído em 1926. Estilo da época ou mais do que coincidência?
 

Estádio das Amoreiras e Campo Engenheiro Freitas e Costa.


Epílogo

Como vimos no início, Marcial foi o autor da Catedral de Lourenço Marques. E colaborou nesse projecto de forma pro-bono ou seja trabalhou como um profissional qualificado e competente, de forma voluntária mas sem ser pago pelo serviço prestado. Uma actividade exercida em acréscimo à sua actividade profissional normal. Com a elevação e generosidade própria dos grandes homens e dos nossos Gloriosos pioneiros.

Marcial morreu em 1944 com apenas 53 anos de idade. Uma morte precoce e que ocorreu justamente no ano em que a Catedral de Lourenço Marques foi finalizada e consagrada a Nossa Senhora da Conceição.

Apesar de doente Marcial ainda assistiu á inauguração da Catedral em 4 de Julho de 1944.


Referência bibliográfica que confirma a presença de Marcial durante a cerimónia de inauguração da Catedral de Lourenço Marques em 4 de Julho de 1944.

Não se sabe se Marcial regressou algumas vezes à Metrópole ou se continuou a manter contactos com o seu Sport Lisboa e Benfica. Mas é possível que sim. Muito do sentimento forte que ainda hoje se guarda nas nossas ex-colónias para com o Glorioso deve-se à acção pioneira de homens como Marcial. Se as circunstâncias de vida o levaram para longe ainda assim como se viu Marcial mostrou sempre o valor e a fibra que definem os pioneiros do nosso Clube. Marcial é pois um nome grande do nosso Clube e do nosso futebol.

Também vimos que Marcial jogou lado a lado com grandes nomes das primeiras equipas do nosso futebol. Nomes como Gourlade, os manos Rosa Rodrigues, António do Couto, Mora, David da Fonseca e o Álvaro Gaspar, o imortal Chacha. Esteve ao lado dos grandes porque foi grande. Foi um pioneiro fiel e que nunca desertou do nosso Clube. Jogou humildemente nas nossas segundas categorias quando as pernas ou as tarefas profissionais assim o obrigaram. Isso certamente porque o seu amor ao clube era maior do que a importância que dava à sua individualidade. Apenas a partida para longe da metrópole o terá afastado do nosso Clube. Do Clube dele.


Marcial teve uma vida curta mas rica e frutuosa. Deixou-nos um legado importante e em espaços geográficos distintos.

Merece a memória e o reconhecimento dos Benfiquistas.
« Última modificação: 21 de Maio de 2016, 14:44 por RedVC »

alfredo

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  • 14 de Fevereiro de 2016, 10:41
Bem, mais uma para o pequeno mas ilustre clube de leitores dos textos deste tópico.



-88-
“O Benfica saúda o Porto”

Dia 28 de Maio de 1952. Cidade do Porto.
Um avião cruza os céus da cidade invicta. Em terra, milhares de pessoas poder ler:

“O BENFICA SAUDA O PORTO”.


Uma imagem inesquecível. O avião cruza os ares do Porto. “O Benfica saúda o Porto”. Quem iria aos comandos. Talvez o nosso José Bentes Pimenta? Fonte: Centro Português de Fotografia.


Outros tempos.
Nesse dia, o Futebol Clube do Porto inaugurava o seu "Estádio do Futebol Clube do Porto" que popularmente ficou para sempre conhecido por Estádio das Antas.
     


Dois cartazes alusivo à Inauguração do Estádio do Futebol Clube do Porto em 28 de Maio de 1952.


 

Bilhete da inauguração do Estádio das Antas. 80 escudos!

 


Estádio das Antas, inaugurado em 28 de Maio de 1952. Ainda se decorriam as obras nos acessos ao Estádio. Fonte: tribunaldasantas.com

Futebol Clube do Porto, clube fundado em 2 de Agosto de 1906 por José Monteiro da Costa (12 de Outubro de 1881 / 30 de Janeiro de 1911):


Fonte: Papoila Satitante
 
 
O FCP inaugurava o seu novo Estádio dando assim por finda uma odisseia que tinha passado por dois campos próprios (Campo da Rainha e Campo da Constituição) e a utilização de dois campos de outros clubes (Campo do Ameal, propriedade do Club Sport Progresso e o Estádio do Lima, propriedade do Académico FC) quando para jogos mais importantes necessitava de um campo melhor e com mais capacidade.


Os campos utilizados pelo FCP antes da inauguração do Estádio das Antas. Campo da Rainha (1913-1917); Campo da Constituição (1913-1917); Campo do Ameal (propriedade do Club Sport Progresso); Estádio do Lima (propriedade do Académico FC).

O Estádio foi inaugurado no mesmo dia em que a Ditadura Portuguesa, implantada em 28 de Maio de 1926, fazia 26 anos. Uma escolha de data certamente do agrado dos líderes políticos da época.



Dia de inauguração do Estádio das Antas, aspecto do exterior e interior do Estádio do lado da bancada coberta. Fonte: reflexaoportista.pt

No final da cerimónia de abertura e antes do grande jogo, o General Craveiro Lopes, Presidente da República de Portugal, desceu da tribuna VIP à pista para apor no estandarte, a Medalha de Mérito Desportivo. Depois passou a revista à guarda de honra formada por um batalhão de milícias da Mocidade Portuguesa.
 


Da tribuna VIP ao relvado, o General Craveiro Lopes condecorou o Futebol Clube do Porto com a Medalha de Mérito Desportivo.

Como era norma desses tempos, nas inaugurações de Estádios e nos aniversários dos clubes, as colectividades convidadas faziam-se representar com comitivas de atletas e dirigentes vestidas a rigor. Assim, em ambiente festivo, as comitivas desfilaram exibindo as suas cores e emblemas em sinal de cortesia ao clube anfitrião.

 

Alinhamento das comitivas após o desfile.


O Sport Lisboa e Benfica fez-se representar com uma numerosa comitiva com atletas muitas modalidades.
 


Aspecto do alinhamento das comitivas. A nossa, bem numerosa, aparece em primeiro plano. Fonte: Centro Português de Fotografia.

Mas o convite do FCP ao Benfica pretendia que o nosso Clube não apenas se fizesse representar mas que levasse a sua equipa de honra para o primeiro jogo do novo Estádio.

A retribuição do nosso Clube fez-se com a cortesia e elegância que as boas relações existentes na altura entre os dois assim exigiam.

Depois do desfile da nossa comitiva e da amistosa saudação aérea, a nossa equipa de honra do futebol entrou no terreno de jogo à maneira Brasileira, com os jogadores a transportar uma bandeira do Futebol Clube do Porto.
 


Aspecto da entrada da nossa equipa em campo para o grande jogo FCP 2 x SL Benfica 8. À frente o Capitão Francisco Ferreira. Atrás 6 jogadores do Benfica transportam a bandeira do FCP. Fonte: Centro Português de Fotografia.

 

Diversos aspectos da inauguração do Estádio das Antas em 28 de Maio de 1952. O Avião com a saudação do SLB ao anfitrião; o alinhamento das comitivas; a entrada do FCP no terreno de jogo; um aspecto durante o FCP 2 x SLB 8. Fonte: Centro Português de Fotografia.

E depois viria o grande jogo.

 

O Glorioso plantel que obteve uma inesquecível vitória por 8-2 sobre o FCP, na inauguração do Estádio das Antas.
De pé, esquerda para a direita: Bastos, Félix, Moreira, Artur Santos, Julinho, Francisco Ferreira, Cândido Tavares (tr.), Jacinto e Braúlio. Agachados: Fernandes, Corona, Rogério, a Taça!, José Águas, Arsénio, Rosário e Manero.

A nossa equipa alinhou com :
 

A Gloriosa equipa que obteve uma inesquecível vitória por 8-2 sobre o FCP, na inauguração do Estádio das Antas.

Apesar de termos levado mais quatro jogadores (Braúlio, Jacinto, Manero e Julinho) não houve substituições. Marcaram pelo Sport Lisboa e Benfica: Arsénio (4 golos), José Águas (3 golos) e Rogério. Pelo FCP marcou Vital por 2 vezes. Para a história ficou Arsénio, marcador do primeiro golo de sempre no Estádio das Antas.


O mesmo onze aquando da conquista da Taça de portugal no ano anterior



A crónica do DL é clara em elogiar o bom jogo da equipa do Benfica e a falta de capacidade física e a balburdia organizativa revelada pela equipa do FCP. Nesses dias de inauguração a festa é frequentemente incompatível com a concentração e a boa capacidade competitiva de quem recebe. Foi assim dois anos depois no nosso próprio Estádio com o mesmo FCP. Mas na sua festa o FCP caprichou pela negativa.



Três momentos inesquecíveis da entrega da Taça aos Benfiquistas. O General Craveiro Lopes alinhado abraça depois o grande capitão Benfiquista Francisco Ferreira. Depois os inesquecíveis Moreira e Arsénio levantam com dificuldade a enorme Taça sobre o olhar de Fernandes. Fonte: revista Plateia e Jornal “O Benfica”.

A nossa equipa contava com grande nomes mas que já estavam em fim de carreira. Em 2-3 anos deixariam de jogar para se tornarem para sempre Saudades do nosso Clube: Francisco Ferreira, Julinho e Moreira, retiraram-se do futebol; Félix seria afastado da equipa e Rogério abandonaria por não querer abraçar o profissionalismo imposto após a chegada de Otto Glória.

De entre todos, estou certo que os mais emocionados terão sido Francisco Ferreira e Julinho. Tinham ambos contas passadas com o FCP. Francisco Ferreira, o popular Chico, capitão de equipa, homem de rija têmpera e grande Glória do SLB. De 1935 até 1938 usou as cores do FCP. Depois por falta de critério e estupidez dos dirigentes portistas, Francisco Ferreira discriminado no clube azul decidiu sair para o Benfica. E de águia ao peito, de 1938 a 1952 cobriu-se de glória. Nas Amoreiras primeiro e no Campo Grande, Chico fez-se Benfiquista. Pertenceu de forma notável a uma linhagem distinta de grandes capitães do Benfica. Uma carreira cheia de dias de glória e com o trágico incidente do Torino quase no seu final. Naquele dia 29 de Maio de 1952, no final do jogo, na cabina, diz-se que Francisco Ferreira anunciou que esse tinha sido o seu último jogo de águia ao peito. Os companheiros e dirigentes, inconformados conseguiram demove-lo. Mas fatalmente a Biologia acaba por se impor e assim Chico já não chegaria a jogar no novo Estádio da Luz, inaugurado no dia 1 de Dezembro de 1954. Ficou para sempre a Saudade de um capitão de fibra e talento que em boa hora se vestiu com a mais nobre de todas as camisolas.

Tal como ele, Julinho, o grande avançado centro veio da cidade do Porto, mas neste caso do Académico FC ou Académico do Porto, se quiserem. Antes de se tornar Benfiquista, os portistas bem tentaram a sua contratação. Julinho foi fiel à palavra dada e preferiu o grande Clube de Lisboa. Até o seu patrão portista lhe fez a vida negra. Mas Julinho era mesmo homem de palavra. E no Campo Grande deu alegrias múltiplas ao Benfiquistas. Foi um digno sucessor de Guilherme Espírito Santo. Goleador prodigioso, homem de enorme fibra, pertenceu a uma notável genealogia de goleadores. Nesse dia de 28 de Maio de 1952 Julinho, já veterano não chegou a jogar. Mas esteve presente e viveu essa enorme jornada no seio da equipa. Merecida recompensa para tão distinto jogador. Lá dentro já estava o seu sucessor, José Águas, o mais fino, elegante e letal dos avançados Benfiquistas. Alinhados depois da conquista da Taça, Águas posou bem à frente de Julinho.

O grande Águas tinha no seu lado esquerdo a enorme Taça entre ele e o grande Pipi. No seu lado direito estava o assombroso Arsénio, primeiro marcador de um golo nas Antas. Tanta Glória, tanta Saudade!


A enorme Taça conquistada naquele dia 28 de Maio de 1952, agora exposta no Museu Cosme Damião.


A edição do Jornal “O Benfica” do dia 31 de Maio de 1952. Uma capa à altura da vitória alcançada. Repare-se no cartaz no nariz do comboio "O Benfica saúda a laboriosa cidade Invicta".

Não há muito material disponível mas ainda assim um pequenos filme está disponível para visualização no youtube. Por azar o filme não tem imagens do jogo. Problemas com as câmaras certamente.


Quem sabe se um dia deste não aparecerá um filme e fotografias de melhor qualidade daquele dia. Um dia de festa azul em que as Águias voaram alto.

Alto nos céus da cidade do Porto.







Grande história...
Também um jogo com um sabor especial.
1. Ter ganho ao fcp nesse dia (só existe uma única possibilidade de ganhar o jogo de inauguracao)
2. Salvo erro essa taca so existe uma vez e sempre faz lembrar ponto 1.
3. De facto uma taca impressionante.